03/03/2015

Tratado do verbo encarnado 135

Questão 22: Do sacerdócio de Cristo

Art. 3 — Se o efeito do sacerdócio de Cristo é a expiação dos pecados.

O terceiro discute-se assim. — Parece que o efeito do sacerdócio de Cristo não é a expiação dos pecados.

1. — Pois, só Cristo pode apagar os pecados, conforme a Escritura: Eu sou o que apaga as tuas iniquidades. Ora, Cristo não é sacerdote enquanto Deus, mas enquanto homem. Logo, o sacerdócio de Cristo não é expiador dos pecados.

2. Demais. — O Apóstolo diz que as vítimas do Antigo Testamento não se podiam fazer perfeitos; doutra sorte teriam cessado de se oferecer, pelo motivo de que não teriam de ali em diante consciência de pecado algum os ministros que uma vez fossem purificados; mas nos mesmos sacrifícios todos os anos se faz memória dos pecados. Ora, semelhantemente, no sacrifício de Cristo há uma comemoração de pecados, quando se diz — Perdoai-nos as nossas dívidas. E também é oferecido continuamente o sacrifício na Igreja, donde o dizer-se ainda — o Pão nosso de cada da nos dai hoje. Logo, pelo sacerdócio de Cristo não se expiam os pecados.

3. Demais sobretudo na lei antiga era imolado um bode pelo pecado do príncipe; ou uma cabra pelo pecado de alguém do povo; ou um vitelo, pelo pecado do sacerdote, como se lê na Escritura. Ora, Cristo não é comparado a nenhum desses animais, mas ao cordeiro, como se lê na Escritura: Eu era como um manso cordeiro, que é levado a ser vítima. Logo, parece que o seu sacerdócio não é expiador dos pecados.

Mas, em contrário, o Apóstolo: O sangue de Cristo, que pelo Espírito Santo se ofereceu a si mesmo sem mácula a Deus, alimpará a nossa consciência das obras da morte, para servir ao Deus vivo. Ora, os pecados chamam-se obras da morte. Logo, o sacerdócio de Cristo tem a virtude de purificar os pecados.

São necessárias duas condições para a perfeita purificação dos pecados, pois que há no pecado duas coisas, o saber, a mácula da culpa e o reato da pena. Quanto à mácula da culpa, ela apaga-se pela graça, que converte para Deus o coração do pecador; e quanto ao reato da pena, fica totalmente eliminado pelo satisfazer do homem a Deus Ora, ambos esses efeitos realizou-os o sacerdócio de Cristo. Assim, pela sua virtude, foi-nos dada a graça, pela qual os nossos corações se convertem a Deus, segundo o Apóstolo: Tendo sido justificados gratuitamente por sua graça, pela redenção que tem em Jesus Cristo, ao qual propôs Deus para ser vítima de propiciação pela fé no seu sangue. E também ele plenariamente satisfez por nós, enquanto tornou sobre si as nossas fraquezas e ele mesmo carregou com as nossas dores. Donde é claro que o sacerdócio de Cristo tem plena virtude de expiar os pecados.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJECÇÃO. — Embora Cristo não fosse sacerdote, enquanto Deus, mas enquanto homem, contudo ele próprio foi sacerdote e simultaneamente Deus. E por isso se lê no Sínodo Efesino: Quem disser, que aquele que se fez nosso Pontífice e Apóstolo não foi o Verbo de Deus, mas um como homem especialmente nascido da mulher e diferente dele, seja anátema. Donde, na medida em que a sua humanidade obrava em virtude da divindade, o seu sacrifício foi eficacíssimo para apagar os pecados. Donde o dizer Agostinho: Em todo o sacrifício consideram-se quatro causas - a quem é oferecido, por quem é oferecido, o que é oferecido, por quem é oferecido. Donde, Cristo, sendo o único e verdadeiro mediador, que nos reconciliou com Deus pelo sacrifício da paz, permanecia um com aquele a quem oferecia, reduziu em si à unidade todos aqueles por quem oferecia, e era uma mesma unidade, ele que oferecia, com o que oferecia.

RESPOSTA À SEGUNDA. — Os pecados não lembram, na lei nova, por causa da ineficácia do sacerdócio de Cristo, como se por ele os pecados não estivessem suficientemente expiados. Mas, são lembrados, relativamente àqueles que ou não lhe querem participar do sacrifício, como os infiéis, por cujos pecados oramos, para que se convertam; ou também relativamente àqueles, que depois de terem participado, desse sacrifício, de qualquer modo, pelo pecado, desviam-se dele. Quanto ao sacrifício que se oferece quotidianamente na Igreja, não é diverso do sacrifício que o próprio Cristo ofereceu mas, comemoração dele. E por isso diz Agostinho: O próprio Cristo, que ofereceu o sacrifício, foi a oblacção dele; cujo sinal sagrado e quotidiano, quer que fosse o sacrifício da Igreja.

RESPOSTA À TERCEIRA. — Como diz Orígenes, embora na lei antiga se oferecessem diversos animais, contudo o sacrifício quotidiano, que era oferecido de manhã e de tarde, era o cordeiro, como se lê na Escritura. E por isso significava, que a oblacção do verdadeiro cordeiro, isto é, de Cristo, seria o sacrifício consumptivo de todos os outros. Donde o dizer a Escritura: Eis aqui o cordeiro de Deus, eis aqui o que tira o pecado do mundo.

Nota: Revisão da versão portuguesa por ama.


Pequena agenda do cristão

TeRÇa-Feira



(Coisas muito simples, curtas, objectivas)


Propósito:
Aplicação no trabalho.

Senhor, ajuda-me a fazer o que devo, quando devo, empenhando-me em fazê-lo bem feito para to poder oferecer.

Lembrar-me:
Os que estão sem trabalho.

Senhor, lembra-te de tantos e tantas que procuram trabalho e não o encontram, provê às suas necessidades, dá-lhes esperança e confiança.

Pequeno exame:

Cumpri o propósito que me propus ontem?



Bento VXI – Pensamentos espirituais 40

Buscar e encontrar



A fé não é simplesmente a adesão a um conjunto de dogmas, já de si completo, destinado a matar a sede de Deus que existe no espírito do homem. Pelo contrário, ela projecta o homem que caminha no tempo na direcção de um Deus que Se renova constantemente na sua infinitude. Por isso, o cristão é simultaneamente alguém que busca e alguém que encontra.


Angelus (28.Ago.05)

 (in “Bento XVI, Pensamentos Espirituais”, Lucerna 2006)


02/03/2015

2015.03.02

O que pode ver hoje em NUNC COEPI


Dispostos a uma nova rectificação - São Josemaria – Textos

Evangelho, com. L esp. (Exort. Evangelii Gaudium) - AMA - Comentários ao Evangelho Lc 6 36-38, Leit. Espiritual - Exort. Apost. Evangelii gaudium (Papa Francisco)

Temas para meditar - 381 - Rafael Llano Cifuentes. Fortaleza (Rafael Llano Cifuentes),Sacrifício,


Dispostos a uma nova rectificação

Os teus parentes, os teus colegas, os teus amigos, vão notando a diferença, e reparam que a tua mudança não é uma mudança passageira; que já não és o mesmo. Não te preocupes. Para a frente! Cumpre o "vivit vero in me Christus" – agora é Cristo quem vive em ti! (Sulco, 424)

Qui habitat in adiutorio Altissimi in protectione Dei coeli commorabitur – Habitar sob a protecção de Deus, viver com Deus: eis a arriscada segurança do cristão. É necessário convencermo-nos de que Deus nos ouve, de que está sempre solícito por nós, e assim se encherá de paz o nosso coração. Mas viver com Deus é indubitavelmente correr um risco, porque o Senhor não Se contenta compartilhando; quer tudo. E aproximar-se d'Ele um pouco mais significa estar disposto a uma nova rectificação, a escutar mais atentamente as suas inspirações, os santos desejos que faz brotar na nossa alma, e a pô-los em prática.

Desde a nossa primeira decisão consciente de viver integralmente a doutrina de Cristo, é certo que avançámos muito pelo caminho da fidelidade à sua Palavra. Mas não é verdade que restam ainda tantas coisas por fazer? Não é verdade que resta, sobretudo, tanta soberba? É precisa, sem dúvida, uma outra mudança, uma lealdade maior, uma humildade mais profunda, de modo, que, diminuindo o nosso egoísmo, cresça em nós Cristo, pois illum oportet crescere, me autem minui, é preciso que Ele cresça e que eu diminua.


Não é possível deixar-se ficar imóvel. É necessário avançar para a meta que S. Paulo apontava: não sou eu quem vive; é Cristo que vive em mim. A ambição é alta e nobilíssima: a identificação com Cristo, a santidade. Mas não há outro caminho, se se deseja ser coerente com a vida divina que, pelo Baptismo, Deus fez nascer nas nossas almas. O avanço é o progresso na santidade; o retrocesso é negar-se ao desenvolvimento normal da vida cristã. Porque o fogo do amor de Deus precisa de ser alimentado, de aumentar todos os dias arreigando-se na alma; e o fogo mantém-se vivo queimando novas coisas. Por isso, se não aumenta, está a caminho de se extinguir. (Cristo que passa, 58)

Evangelho, com. L esp. (Exort. Evangelii Gaudium)

Tempo de Quaresma II Semana

Evangelho: Lc 6 36-38

36 Sede misericordiosos, como também vosso Pai é misericordioso. 37 Não julgueis e não sereis julgados; não condeneis e não sereis condenados; perdoai e sereis perdoados; 38 dai e dar-se-vos-á. Uma medida boa, cheia, recalcada e a transbordar vos será lançada nas dobras do vosso vestido. Porque, com a mesma medida com que medirdes para os outros, será medido para vós».

Comentário:

A medida que o Senhor usa para connosco é infinitamente desproporcional à que usamos para com os outros e, até, para com Ele.
Não admira que seja assim; a nossa é uma medida humana, a de Deus é divina; a nossa é limitada pelas nossas fraquezas, calculismo e pouca generosidade; a de Deus não tem limites; a que temos usamo-la na terra, a de Deus é "fabricada" no Céu.

A medida de Deus e a medida dos homens!

Ainda bem que o Senhor é generoso porque se, de facto e - como diz - usasse para connosco a medida que usamos não nos chegariam senão uma ínfima parte das graças que tem para nos dar.

(ama, comentário sobre Lc 6, 36-38, 2011.03.21)

Leitura espiritual

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EXORTAÇÃO APOSTÓLICA EVANGELII GAUDIUM
DO SANTO PADRE FRANCISCO
AO EPISCOPADO, AO CLERO ÀS PESSOAS CONSAGRADAS E AOS FIÉIS LEIGOS SOBRE O ANÚNCIO DO EVANGELHO NO MUNDO ACTUAL

1. A Alegria do Evangelho enche o coração e a vida inteira daqueles que se encontram com Jesus. Quantos se deixam salvar por Ele são libertados do pecado, da tristeza, do vazio interior, do isolamento. Com Jesus Cristo, renasce sem cessar a alegria. Quero, com esta Exortação, dirigir-me aos fiéis cristãos a fim de os convidar para uma nova etapa evangelizadora marcada por esta alegria e indicar caminhos para o percurso da Igreja nos próximos anos.

I. alegria que se renova e comunica

2. O grande risco do mundo actual, com sua múltipla e avassaladora oferta de consumo, é uma tristeza individualista que brota do coração comodista e mesquinho, da busca desordenada de prazeres superficiais, da consciência isolada.
Quando a vida interior se fecha nos próprios interesses, deixa de haver espaço para os outros, já não entram os pobres, já não se ouve a voz de Deus, já não se goza da doce alegria do seu amor, nem fervilha o entusiasmo de fazer o bem. Este é um risco, certo e permanente, que correm também os crentes. Muitos caem nele, transformando-se em pessoas ressentidas, queixosas, sem vida.
Esta não é a escolha duma vida digna e plena, este não é o desígnio que Deus tem para nós, esta não é a vida no Espírito que jorra do coração de Cristo ressuscitado.

3. Convido todo o cristão, em qualquer lugar e situação que se encontre, a renovar hoje mesmo o seu encontro pessoal com Jesus Cristo ou, pelo menos, a tomar a decisão de se deixar encontrar por Ele, de O procurar dia a dia sem cessar. Não há motivo para alguém poder pensar que este convite não lhe diz respeito, já que «da alegria trazida pelo Senhor ninguém é excluído»


[1].
Quem arrisca, o Senhor não o desilude; e, quando alguém dá um pequeno passo em direcção a Jesus, descobre que Ele já aguardava de braços abertos a sua chegada. Este é o momento para dizer a Jesus Cristo: «Senhor deixei-me enganar, de mil maneiras fugi do vosso amor, mas aqui estou novamente para renovar a minha aliança convosco. Preciso de Vós. Resgatai-me de novo, Senhor; aceitai- -me mais uma vez nos vossos braços redentores». Como nos faz bem voltar para Ele, quando nos perdemos! Insisto uma vez mais: Deus nunca Se cansa de perdoar, somos nós que nos cansamos de pedir a sua misericórdia. Aquele que nos convidou a perdoar «setenta vezes sete» [2] dá-nos o exemplo: Ele perdoa setenta vezes sete. Volta uma vez e outra a carregar-nos aos seus ombros.
Ninguém nos pode tirar a dignidade que este amor infinito e inabalável nos confere. Ele permite-nos levantar a cabeça e recomeçar, com uma ternura que nunca nos defrauda e sempre nos pode restituir a alegria. Não fujamos da ressurreição de Jesus; nunca nos demos por mortos, suceda o que suceder. Que nada possa mais do que a sua vida que nos impele para diante!

4. Os livros do Antigo Testamento preanunciaram a alegria da salvação, que havia de tornar-se superabundante nos tempos messiânicos. O profeta Isaías dirige-se ao Messias esperado, saudando-O com regozijo: «Multiplicaste a alegria, aumentaste o júbilo»[3].
E anima os habitantes de Sião a recebê-Lo com cânticos: «Exultai de alegria!»[4].
A quem já O avistara no horizonte, o profeta convida-o a tornar-se mensageiro para os outros: «Sobe a um alto monte, arauto de Sião! Grita com voz forte, arauto de Jerusalém»[5].
A criação inteira participa nesta alegria da salvação: «Cantai, ó céus! Exulta de alegria, ó terra! Rompei em exclamações, ó montes! Na verdade, o Senhor consola o seu povo e se compadece dos desamparados»[6].

Zacarias, vendo o dia do Senhor, convida a vitoriar o Rei que chega «humilde, montado num jumento»: «Exulta de alegria, filha de Sião! Solta gritos de júbilo, filha de Jerusalém! Eis que o teu rei vem a ti. Ele é justo e vitorioso»[7].
Mas o convite mais tocante talvez seja o do profeta Sofonias, que nos mostra o próprio Deus como um centro irradiante de festa e de alegria, que quer comunicar ao seu povo este júbilo salvífico.
Enche-me de vida reler este texto: «O Senhor, teu Deus, está no meio de ti como poderoso salvador! Ele exulta de alegria por tua causa, pelo seu amor te renovará. Ele dança e grita de alegria por tua causa»[8].
É a alegria que se vive no meio das pequenas coisas da vida quotidiana, como resposta ao amoroso convite de Deus nosso Pai: «Meu filho, se tens com quê, trata-te bem (...). Não te prives da felicidade presente»[9].
Quanta ternura paterna se vislumbra por detrás destas palavras!

5. O Evangelho, onde resplandece gloriosa a Cruz de Cristo, convida insistentemente à alegria.
Apenas alguns exemplos: «Alegra-te» é a saudação do anjo a Maria[10].
A visita de Maria a Isabel faz com que João salte de alegria no ventre de sua mãe[11].
No seu cântico, Maria proclama: «O meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador»[12].
E, quando Jesus começa o seu ministério, João exclama: «Esta é a minha alegria! E tornou-se completa!»[13].
O próprio Jesus «estremeceu de alegria sob a acção do Espírito Santo»[14].
A sua mensagem é fonte de alegria: «Manifestei-vos estas coisas, para que esteja em vós a minha alegria, e a vossa alegria seja completa»[15].
A nossa alegria cristã brota da fonte do seu coração transbordante. Ele promete aos seus discípulos: «Vós haveis de estar tristes, mas a vossa tristeza há-de converter-se em alegria»[16].
E insiste: «Eu hei-de ver-vos de novo! Então, o vosso coração há-de alegrar-se e ninguém vos poderá tirar a vossa alegria»[17].
Depois, ao verem-No ressuscitado, «encheram-se de alegria»[18].
O livro dos Actos dos Apóstolos conta que, na primitiva comunidade, «tomavam o alimento com alegria»[19].
Por onde passaram os discípulos, «houve grande alegria»[20]; e eles, no meio da perseguição, «estavam cheios de alegria»[21].
Um eunuco, recém-baptizado, «seguiu o seu caminho cheio de alegria»[22]; e o carcereiro «entregou-se, com a família, à alegria de ter acreditado em Deus»[23].
Porque não havemos de entrar, também nós, nesta torrente de alegria?

6. Há cristãos que parecem ter escolhido viver uma Quaresma sem Páscoa.
Reconheço, porém, que a alegria não se vive da mesma maneira em todas as etapas e circunstâncias da vida, por vezes muito duras. Adapta-se e transforma-se, mas sempre permanece pelo menos como um feixe de luz que nasce da certeza pessoal de, não obstante o contrário, sermos infinitamente amados.
Compreendo as pessoas que se vergam à tristeza por causa das graves dificuldades que têm de suportar, mas aos poucos é preciso permitir que a alegria da fé comece a despertar, como uma secreta mas firme confiança, mesmo no meio das piores angústias: «A paz foi desterrada da minha alma, já nem sei o que é a felicidade (…).
Isto, porém, guardo no meu coração; por isso, mantenho a esperança.
É que a misericórdia do Senhor não acaba, não se esgota a sua compaixão. Cada manhã ela se renova; é grande a tua fidelidade. (...) Bom é esperar em silêncio a salvação do Senhor» [24]

7. A tentação apresenta-se, frequentemente, sob forma de desculpas e queixas, como se tivesse de haver inúmeras condições para ser possível a alegria. Habitualmente isto acontece, porque «a sociedade técnica teve a possibilidade de multiplicar as ocasiões de prazer; no entanto ela encontra dificuldades grandes no engendrar também a alegria».[25]
Posso dizer que as alegrias mais belas e espontâneas, que vi ao longo da minha vida, são as alegrias de pessoas muito pobres que têm pouco a que se agarrar. Recordo também a alegria genuína daqueles que, mesmo no meio de grandes compromissos profissionais, souberam conservar um coração crente, generoso e simples.
De várias maneiras, estas alegrias bebem na fonte do amor maior, que é o de Deus, a nós manifestado em Jesus Cristo.
Não me cansarei de repetir estas palavras de Bento XVI que nos levam ao centro do Evangelho: «Ao início do ser cristão, não há uma decisão ética ou uma grande ideia, mas o encontro com um acontecimento, com uma Pessoa que dá à vida um novo horizonte e, desta forma, o rumo decisivo».[26]

8. Somente graças a este encontro – ou reencontro – com o amor de Deus, que se converte em amizade feliz, é que somos resgatados da nossa consciência isolada e da auto-referencialidade.
Chegamos a ser plenamente humanos, quando somos mais do que humanos, quando permitimos a Deus que nos conduza para além de nós mesmos a fim de alcançarmos o nosso ser mais verdadeiro.
Aqui está a fonte da acção evangelizadora.
Porque, se alguém acolheu este amor que lhe devolve o sentido da vida, como é que pode conter o desejo de o comunicar aos outros?

II. a doce e reconfortante alegria de evangelizar

9. O bem tende sempre a comunicar-se. Toda a experiência autêntica de verdade e de beleza procura, por si mesma, a sua expansão; e qualquer pessoa que viva uma libertação profunda adquire maior sensibilidade face às necessidades dos outros.
E, uma vez comunicado, o bem radica-se e desenvolve-se.
Por isso, quem deseja viver com dignidade e em plenitude, não tem outro caminho senão reconhecer o outro e buscar o seu bem.
Assim, não nos deveriam surpreender frases de São Paulo como estas: «O amor de Cristo nos absorve completamente»[27]; «ai de mim, se eu não evangelizar!»[28].

10. A proposta é viver a um nível superior, mas não com menor intensidade: «Na doação, a vida se fortalece; e se enfraquece no comodismo e no isolamento.
De facto, os que mais desfrutam da vida são os que deixam a segurança da margem e se apaixonam pela missão de comunicar a vida aos demais»[29] .
Quando a Igreja faz apelo ao compromisso evangelizador, não faz mais do que indicar aos cristãos o verdadeiro dinamismo da realização pessoal: «Aqui descobrimos outra profunda lei da realidade: “A vida se alcança e amadurece à medida que é entregue para dar vida aos outros”.
Isto é, definitivamente, a missão»[30].
Consequentemente, um evangelizador não deveria ter constantemente uma cara de funeral.
Recuperemos e aumentemos o fervor de espírito, «a suave e reconfortante alegria de evangelizar, mesmo quando for preciso semear com lágrimas! (...)
E que o mundo do nosso tempo, que procura ora na angústia ora com esperança, possa receber a Boa Nova dos lábios, não de evangelizadores tristes e descoroçoados, impacientes ou ansiosos, mas sim de ministros do Evangelho cuja vida irradie fervor, pois foram quem recebeu primeiro em si a alegria de Cristo»[31].

Uma eterna novidade

11. Um anúncio renovado proporciona aos crentes, mesmo tíbios ou não praticantes, uma nova alegria na fé e uma fecundidade evangelizadora.
Na realidade, o seu centro e a sua essência são sempre o mesmo: o Deus que manifestou o seu amor imenso em Cristo morto e ressuscitado.
Ele torna os seus fiéis sempre novos; ainda que sejam idosos, «renovam as suas forças. Têm asas como a águia, correm sem se cansar, marcham sem desfalecer» [32].
Cristo é a «Boa Nova de valor eterno» [33], sendo «o mesmo ontem, hoje e pelos séculos» [34], mas a sua riqueza e a sua beleza são inesgotáveis.
Ele é sempre jovem, e fonte de constante novidade. A Igreja não cessa de se maravilhar com a «profundidade de riqueza, de sabedoria e de ciência de Deus» [35].
São João da Cruz dizia: «Esta espessura de sabedoria e ciência de Deus é tão profunda e imensa, que, por mais que a alma saiba dela, sempre pode penetrá-la mais profundamente».[36]
Ou ainda, como afirmava Santo Ireneu: «Na sua vinda, [Cristo] trouxe consigo toda a novidade».[37]
Com a sua novidade, Ele pode sempre renovar a nossa vida e a nossa comunidade, e a proposta cristã, ainda que atravesse períodos obscuros e fraquezas eclesiais, nunca envelhece.
Jesus Cristo pode romper também os esquemas enfadonhos em que pretendemos aprisioná-Lo, e surpreende-nos com a sua constante criatividade divina. Sempre que procuramos voltar à fonte e recuperar o frescor original do Evangelho, despontam novas estradas, métodos criativos, outras formas de expressão, sinais mais eloquentes, palavras cheias de renovado significado para o mundo actual.
Na realidade, toda a acção evangelizadora autêntica é sempre «nova».

(cont)

(Revisão da versão portuguesa por ama)





[1] Paulo VI, Exort. ap. Gaudete in Domino (9 de Maio de 1975), 22: AAS 67 (1975), 297.
[2] Mt 18, 22
[3] 9, 2
[4] 12, 6
[5] 40, 9
[6] 49, 13
[7] 9, 9
[8] 3, 17
[9] Sir 14, 11.14
[10] Lc 1, 28)
[11] cf. Lc 1, 41)
[12] Lc 1, 47
[13] Jo 3, 29
[14] Lc 10, 21
[15] Jo 15, 11
[16] Jo 16, 20
[17] Jo 16, 22
[18] Jo 20, 20
[19] 2, 46
[20] 8, 8
[21] 13, 52
[22] 8, 39
[23] 16, 34
[24] Lm 3, 17.21-23.26).
[25] Ibid., 8: o. c., 292.
[26] Carta enc. Deus caritas est (25 de Dezembro de 2005), 1: AAS 98 (2006), 217
[27] 2 Cor 5, 14
[28] 1 Cor 9, 16
[29] V Conferência Geral do Episcopado Latino-americano e do Caribe, Documento de Aparecida (29 de Junho de 2007), 360.
[30] Ibid., 360.
[31] Paulo VI, Exort. ap. Evangelii nuntiandi (8 de Dezembro de 1975), 80: AAS 68 (1976), 75.
[32] Is 40, 31
[33] Ap 14, 6
[34] Heb 13, 8
[35] Rm 11, 33
[36] Cântico espiritual, 36, 10.
[37] Adversus haereses, IV, 34, 1: PG 7, 1083: «Omnem novitatem attulit, semetipsum afferens»