05/11/2014

Um tempo de meditação diária

Se és tenaz para assistires diariamente a umas aulas, só porque nelas adquires certos conhecimentos... muito limitados, como é que não tens constância para frequentares o Mestre, sempre desejoso de te ensinar a ciência da vida interior, de sabor e conteúdo eternos? (Sulco, 663)

Que vale o homem, ou o maior galardão do mundo, comparados com Jesus Cristo, que está sempre à tua espera? (Sulco, 664)

Um tempo de meditação diária (união de amizade com Deus) é próprio de pessoas que sabem aproveitar rectamente a sua vida; de cristãos conscientes, coerentes. (Sulco, 665)

Os namorados não sabem dizer adeus; acompanham-se sempre.

Tu e eu amamos assim o Senhor? (Sulco, 666)

Não vês como muitos dos teus colegas sabem demonstrar grande delicadeza e sensibilidade no trato com as pessoas que amam: a namorada, a mulher, os filhos, a família?...


Diz-lhes (e exige-o a ti mesmo!) que o Senhor não merece menos. Que O tratem assim! E recomenda-lhes, além disso, que continuem com essa delicadeza e sensibilidade, mas vividas com Ele e por Ele; e alcançarão uma felicidade nunca sonhada, mesmo já aqui na Terra. (Sulco, 676)

História da Medalha Milagrosa




Temas para meditar - 262



Tolerância – Intolerância 


A Igreja é intolerante nos princípios porque crê; mas é tolerante na prática porque ama.
Os inimigos da Igreja são tolerantes nos princípios porque não crêem  mas são intolerantes na prática porque não amam.




(r. garrigou-lagrange, trad ama) 

Tratado do verbo encarnado 20

Questão 3: Da união relativamente à pessoa que assumiu

Art. 3 — Se, abstraída a personalidade pelo intelecto, a natureza pode assumir.

O terceiro discute-se assim. — Parece que, abstraída a personalidade pelo intelecto, a natureza não pode assumir.

1. — Pois, como se disse, à natureza convém assumir em razão da pessoa. Ora, o que convém a um ser em razão de outro, separado deste último já não lhe pode convir. Assim, o corpo, visível em razão da cor, não pode ser visto sem esta. Logo, abstraída a personalidade pelo intelecto, a natureza não pode assumir.

2. Demais. — A assunção importa o termo da união, como se disse. Ora, não pode a união fazer-se na natureza, mas só na pessoa. Logo, abstraída da personalidade, a natureza divina não pode assumir.

3. Demais. — Na primeira parte disse-se que, abstraída a personalidade, nada resta. Ora, o que assume é uma realidade. Logo, abstraída a personalidade, a natureza divina não pode assumir.

Mas, em contrário, em Deus, a personalidade é considerada uma propriedade natural, e é tríplice, a saber: a paternidade, a filiação e a processão, como se disse na Primeira Parte. Ora, afastadas essas propriedades naturais pelo intelecto, ainda resta a onipotência de Deus, pela qual se fez a Encarnação, como o disse o Anjo: Porque a Deus nada é impossível. Logo, parece que, mesmo removida a personalidade, a natureza divina pode assumir.

O intelecto mantém com Deus uma dupla relação. — Primeiro, conhecendo a Deus como ele é. E assim, é impossível circunscrever algo em Deus, de modo que reste além disso outra coisa, pois, tudo o que há em Deus é uma unidade, salva a distinção das Pessoas. Das quais, uma desapareceria com a eliminação de outra, pois, elas distinguem-se só pelas relações, que são necessariamente simultâneas. — De outro modo o intelecto relaciona-se com Deus, não pelo conhecer como ele é, mas conhecendo-o a seu modo, isto é, multiplicada e divididamente o que em Deus é uno. E deste modo, o nosso intelecto pode inteligir a bondade e a sabedoria divina e outros atributos semelhantes, chamados atributos essenciais, sem aí se compreender a paternidade ou a filiação, que se chamam personalidades. E sendo assim, abstraída a personalidade pelo intelecto, podemos ainda inteligir a natureza que assume.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJECÇÃO. — Como o ser de Deus se identifica com o princípio mesmo dele, todo o atribuído a Deus, considerado abstractamente e em si mesmo e separado do mais, será algo de subsistente, e por consequência o será a pessoa, que existe em a natureza intelectual. Assim como, pois, postas as propriedades pessoais em Deus, dissemos serem três as Pessoas, assim, excluídas pelo intelecto as propriedades pessoais, restará na nossa consideração a natureza divina como subsistente e como pessoa. E deste modo, podemos inteligir que assuma a natureza humana, em razão da sua subsistência ou personalidade.

RESPOSTA À SEGUNDA. — Mesmo circunscritas pelo intelecto as personalidades das três Pessoas, restará no intelecto a personalidade una de Deus, como o entendem os Judeus, e essa pode ser o termo da assunção, assim como dizemos ter ela o seu termo na Pessoa do Verbo.

RESPOSTA À TERCEIRA. — Abstraída a personalidade pelo intelecto, diz-se que nada resta a modo de resolução. Quase sendo uma coisa o que está sujeito à relação e outra, a própria relação, pois, tudo o considerado em Deus o é como suposto subsistente. Contudo, pode uma predicação feita, de Deus, ser entendida sem outra, não a modo de resolução, mas do modo já dito.

Nota: Revisão da versão portuguesa por ama.


Evangelho diário, coment. Leit esp. (História de uma alma)

Tempo comum XXXI Semana

Evangelho: Lc 14 25-33

25 Ia com Ele grande multidão de povo. Jesus, voltando-Se, disse-lhes: 26 «Se alguém vem a Mim e não odeia seu pai, sua mãe, sua mulher, seus filhos, seus irmãos, suas irmãs, e até a sua vida, não pode ser Meu discípulo. 27 Quem não leva a sua cruz e não Me segue não pode ser Meu discípulo. 28 Porque qual de vós, querendo edificar uma torre, não se assenta primeiro para calcular a despesa e ver se tem com que a acabar? 29 Para que, se depois de ter feito as fundações não a puder terminar, não comecem todos os que a virem a troçar dele, dizendo: 30 Este homem começou a edificar e não pôde terminar. 31 Ou qual é o rei que, estando para entrar em guerra contra outro rei, não se assenta primeiro a considerar se com dez mil homens pode ir enfrentar-se com aquele que traz contra ele vinte mil? 32 Doutra maneira, quando o outro ainda está longe, enviando embaixadores, pede-lhe paz. 33 «Assim pois, qualquer de vós que não renuncia a tudo o que possui não pode ser Meu discípulo.

Comentário: 

Há uma condição essencial para seguir Jesus Cristo: segui-lo com entrega total!
Ou seja, não há meio-termo nem tergiversações: ou se O segue ou não!
Daqui que, para o fazer é necessário um desprendimento absoluto de quanto pode ser um entrave a esse ‘seguimento’.
É preciso ser pragmático e coerente avaliar bem como proceder. No fim e ao cabo, o exame de consciência diário, que levará às necessárias correcções de rumo.

(ama, comentário sobre Lc 14, 25-33, 2013.09.08)

Leitura espiritual



HISTÓRIA DE UMA ALMA

Santa Teresinha do Menino Jesus

Manuscrito "A" - Parte IV

…/2

Pensando agradar a papai, Sua Excelência tentou fazer-me ficar ainda alguns anos junto dele. Ficou um pouco surpreso e edificado vendo-o tomar meu partido, intercedendo para eu obter a permissão de levantar voo aos 15 anos. Porém, tudo foi inútil. Disse que antes de decidir era indispensável uma conversa com o Superior do Carmelo. Nada podia ouvir que me causasse maior aflição, pois conhecia a oposição formal do nosso padre. Sem levar em conta a recomendação do padre Révérony, fiz mais do que mostrar diamantes a Sua Excelência, dei alguns a ele!... Vi que ficou emocionado; pegando-me pelo pescoço, apoiava minha cabeça no ombro dele e fazia-me carícias como nunca, ao que parece, alguém recebera dele. Disse-me que nem tudo estava perdido, que ficava muito contente em eu fazer a viagem a Roma para firmar minha vocação e que em vez de chorar devia alegrar-me. Acrescentou que, na semana seguinte, devendo ir a Lisieux, falaria de mim com o pároco de São Tiago e que, certamente, eu receberia resposta dele na Itália. Compreendi ser inútil insistir mais, aliás nada mais tinha a dizer, tinha esgotado todos os recursos da minha eloquência.
Sua Excelência acompanhou-nos até o jardim. Papai divertiu-o muito quando lhe disse que, para parecer mais velha, eu tinha levantado o meu cabelo. Isso não foi esquecido, pois Sua Excelência não fala da sua "filhinha" sem contar a história dos cabelos... O padre Révérony quis acompanhar-nos até a extremidade do jardim do bispado; disse a papai que nunca vira coisa igual: "Um pai tão disposto a dar sua filha a Deus quanto esta em se oferecer!"
Papai fez-lhe diversas perguntas a respeito da peregrinação, inclusive sobre a maneira de se vestir para o encontro com o Santo Padre. Vejo-o ainda virando-se diante do padre Révérony, perguntando-lhe: "Estou bem assim?..." Dissera também a Sua Excelência que se não me permitisse ingressar no Carmelo eu pediria essa graça ao Soberano Pontífice. Meu Rei querido era muito simples nas suas palavras e nas suas maneiras, mas era tão bonito... tinha uma distinção natural que deve ter agradado muito a Sua Excelência, acostumado a ver-se cercado de pessoas que conhecem todas as regras da etiqueta dos salões, mas não o Rei da França e de Navarra com sua rainhazinha...
Uma vez na rua, as minhas lágrimas brotaram de novo, não tanto por causa da minha dor, mas por ver meu paizinho querido que acabava de fazer uma viagem inútil... Planejara enviar uma resposta festiva ao Carmelo para anunciar a resposta de Sua Excelência, via-se de volta sem resposta... Ah! quanto sofri!... parecia-me que o meu futuro estava abalado para sempre. Mais o tempo passava, mais as coisas ficavam confusas. A minha alma estava mergulhada na amargura, mas na paz, também, pois só procurava a vontade de Deus.
Logo de volta a Lisieux, fui buscar consolo no Carmelo e o encontrei em vós, querida Madre. Oh, não! Nunca esquecerei tudo o que sofrestes por minha causa. Se não receasse profaná-las, servindo-me delas, repetiria as palavras que Jesus dirigia a seus apóstolos, na tarde da sua Paixão: "Vós sois aqueles que permanecestes ao meu lado nas minhas provações"... Minhas bem-amadas irmãs ofereceram-me também doces consolos...
Três dias após a viagem a Bayeux, fazia outra muito maior, à cidade eterna... Ah! que viagem aquela!... Ela sozinha fez-me conhecer mais coisas que longos anos de estudo, mostrou-me a vaidade de tudo o que passa e que tudo é aflição de espírito sob o sol... Mas vi muitas coisas bonitas, contemplei todas as maravilhas da arte e da religião, sobretudo pisei a mesma terra que os santos apóstolos, a terra regada com o sangue dos mártires, e minha alma cresceu em contacto com coisas santas...
Estou muito feliz por ter ido a Roma, mas compreendo as pessoas de fora que pensaram que papai me levara a fazer essa grande viagem a fim de mudar minhas ideias sobre a vida religiosa; de facto, havia com que abalar uma vocação pouco firme.

Não tendo vivido na alta sociedade, Celina e eu encontramo-nos no meio da nobreza que compunha quase exclusivamente a romaria. Ah! longe de nos deslumbrar, todos esses títulos e esses "de" pareceram-nos mera fumaça... De longe, algumas vezes, aquilo impressionara-me, mas de perto vi que "nem tudo que reluz é ouro" e compreendi essa palavra da Imitação: "Não ides atrás dessa sombra que chamam de grande nome, não desejai numerosas relações, nem a amizade particular de homem algum".
Compreendi que a verdadeira grandeza se encontra na alma e não no nome pois, como o disse Isaías: "O Senhor dará outro nome a seus eleitos", e são João diz também: "Ao vencedor darei maná escondido, e dar-lhe-ei uma pedra branca, sobre a qual estará escrito um nome novo, que ninguém conhece, excepto aquele que o recebe". Portanto, é no Céu que conheceremos os nossos títulos de nobreza. Então, cada um receberá de Deus o louvor que merece e quem na terra desejou ser o mais pobre, o mais esquecido por amor a Jesus, será o primeiro, o mais nobre e o mais rico!...
A segunda experiência que fiz diz respeito aos sacerdotes. Não tendo vivido nunca na intimidade deles, não podia compreender a principal finalidade da reforma do Carmelo. Rezar pelos pecadores empolgava-me, mas rezar pelas almas dos padres, que eu acreditava mais puras que o cristal, parecia-me estranho!...
Ah! compreendi a minha vocação na Itália, não era ir buscar longe demais um conhecimento tão útil...
Durante um mês, vivi com muitos padres santos e vi que, se a sua sublime dignidade os eleva acima dos anjos, nem por isso deixam de ser homens frágeis e fracos... Se padres santos, que Jesus denomina no seu Evangelho "sal da terra", mostram em sua conduta que precisam extremamente de orações, o que dizer daqueles que são tíbios? Jesus não disse também: "Se o sal se tornar insípido, com que há de se lhe restituir o sabor"?
Oh Madre! como é bonita a vocação que tem por finalidade conservar o sal destinado às almas! Essa vocação é a do Carmelo, pois a única finalidade das nossas orações e dos nossos sacrifícios é ser apóstolo dos apóstolos, rezando para eles enquanto evangelizam as almas pelas suas palavras e, sobretudo, pelos seus exemplos... Preciso parar, se continuasse a falar sobre este assunto, não acabaria nunca!...
Vou, querida Madre, relatar a minha viagem com alguns pormenores. Perdoai-me se me excedo em minúcias. Não penso antes de escrever e, por causa do pouco tempo que tenho livre, recomeço tantas vezes que meu relato poderá parecer-lhe um pouco enfadonho... O que me consola é pensar que, no Céu, vos falarei das graças que recebi e poderei fazê-lo em termos agradáveis e encantadores... Nada mais haverá para interromper as nossas efusões íntimas e, num único olhar, tereis entendido tudo... Sendo que ainda preciso usar a linguagem da triste terra, vou tentar fazê-lo com a simplicidade de uma criança que conhece o amor da sua mãe!...
A romaria saiu de Paris em 7 de Novembro, mas papai levou-nos a essa cidade alguns dias antes para que pudéssemos visitá-la.
Às três horas de certa manhã, atravessei a cidade de Lisieux ainda adormecida; muitas impressões atravessaram a minha alma naquele momento. Sentia estar dirigindo-me para o desconhecido e que grandes coisas me esperavam lá... Papai estava alegre; quando o trem se pôs a andar, cantou este velho refrão: "Corre, corre, diligência minha; eis-nos na estrada real". Chegamos a Paris antes do meio-dia e começamos a visitar logo. Nosso pobre paizinho cansou-se muito a fim de nos agradar; mas logo tínhamos visto todas as maravilhas da capital. A mim, só uma encantou, foi "Nossa Senhora das Vitórias". Ah! o que senti a seus pés é indescritível... As graças que me concedeu emocionaram-me tão profundamente que as minhas lágrimas expressaram sozinhas a minha felicidade, como no dia da minha primeira comunhão... Fez-me sentir que foi verdadeiramente ela quem me sorrira e curara. Compreendi que velava por mim, que eu era sua filha, portanto só podia atribuir-lhe o nome de "Mamãe", pois parecia-me ainda mais terno que o de mãe... Com que fervor lhe pedi para me proteger sempre e realizar em breve o sonho de esconder-me à sombra do seu manto virginal!... Ah! era um dos meus primeiros desejos de criança... Ao crescer, compreendi que era no Carmelo que me seria possível encontrar, de verdade, o manto de Nossa Senhora, e era para essa montanha fértil que meus desejos todos tendiam...
Invoquei Nossa Senhora das Vitórias para que afastasse de mim tudo o que poderia ter embaçado a minha pureza. Não ignorava que, numa viagem como essa à Itália, se encontrariam muitas coisas capazes de me perturbar, sobretudo porque, desconhecendo o mal, temia descobri-lo; não tendo experimentado que tudo é puro para os puros e que a alma simples e recta não enxerga o mal em lugar nenhum, pois, de facto, o mal só existe nos corações impuros e não nos objectos sensíveis... Pedi também a são José para velar por mim; desde a minha infância, tinha por ele uma devoção que se confundia com meu amor pela Santíssima Virgem. Todo dia rezava a oração: "Ó são José, pai e protector das virgens"; por isso, empreendi sem receio a minha longa viagem, estava tão bem protegida que me parecia impossível ter medo.
Depois de nos consagrarmos ao Sagrado Coração, na basílica de Montmartre saímos de Paris na segunda-feira, dia 7, pela manhã; logo travamos conhecimento com as pessoas da romaria. Eu, costumeiramente tão tímida que nem ousava falar, vi-me completamente livre desse defeito incómodo; surpreendi-me a conversar livremente com todas as grandes damas, os padres e até o bispo de Coutances. Parecia-me ter sempre vivido no meio dessa gente. Creio que éramos queridos de todos, e papai parecia orgulhoso das suas duas filhas. Mas, se ele estava satisfeito connosco, também estávamos com ele, pois no grupo todo não havia senhor mais bonito e mais distinto que meu Rei querido; gostava de ficar cercado por Celina e por mim. Muitas vezes, quando não estávamos num carro e eu me afastava dele, chamava-me para lhe dar o braço como em Lisieux... O padre de Révérony prestava atenção a todas as nossas ações e, muitas vezes, via-o observando-nos de longe. Na mesa, quando eu não estava na frente dele, ele encontrava um meio de se inclinar para me ver e ouvir o que eu dizia. Sem dúvida queria conhecer-me a fim de saber se, de facto, eu era capaz de ser carmelita. Creio que ficou satisfeito com o exame pois, no final da viagem, pareceu bem-disposto a meu favor. Em Roma, porém, estava longe de me ser favorável, segundo vos contarei adiante. Antes de chegar a essa cidade eterna, meta da nossa viagem, foi-nos dado contemplar muitas maravilhas. Primeiro, foi a Suíça, com montanhas cujos cumes se perdem nas nuvens, as cascatas caindo de mil diferentes e graciosas maneiras, os vales profundos cheios de samambaias gigantes e de urzes cor-de-rosa. Ah! Madre querida, como as belezas da natureza distribuídas em profusão fizeram bem à minha alma, como a elevaram para Aquele que se agradou em lançar tamanhas obras-primas numa terra de exílio que deve durar apenas um dia... Não tinha olhos suficientes para contemplar. Em pé na portinhola, quase não respirava. Queria estar, ao mesmo tempo, dos dois lados do vagão, pois ao virar-me via paisagens encantadoras e diferentes das que estavam na minha frente.
Às vezes, estávamos no cume de uma montanha, a nossos pés, precipícios de profundidade inalcançável pelo olhar pareciam querer nos engolir... ou ainda um charmoso e pequeno lugarejo com seus graciosos chalés e seu campanário, por cima do qual balançavam indolentes algumas nuvens resplandecentes de brancura... mais longe, um vasto lago, dourado pelos últimos raios do sol, com ondas calmas e puras a mesclar o tom azulado do Céu aos fogos do crepúsculo, apresentava a nossos olhares maravilhados o mais poético espectáculo que se pode ver... Ao fundo do vasto horizonte, montanhas de formas indecisas, que teriam escapado ao nosso olhar não fossem seus cumes nevados que o sol tornava ofuscantes, acrescentavam um encanto suplementar ao belo lago que nos encantava...
Vendo todas essas belezas, surgiam pensamentos muito profundos em minha alma. Tinha a impressão de já estar compreendendo a grandeza de Deus e as maravilhas do Céu... A vida religiosa apresentava-se a mim tal como é, com as suas submissões, os seus pequenos sacrifícios feitos às ocultas. Compreendia como é fácil ensimesmar-se, esquecer a sublime finalidade da vocação e dizia-me: mais tarde, no momento da provação, quando, prisioneira no Carmelo, só puder contemplar um pequeno canto do Céu estrelado, recordarei o que vejo hoje, esse pensamento me dará coragem, esquecerei facilmente meus pobres e pequenos interesses ao ver a grandeza e o poder de Deus a quem quero amar unicamente. Não terei a infelicidade de apegar-me a palhas, agora que "meu coração pressentiu o que Jesus reserva a quem o ama!..."
Após ter admirado o poder de Deus, pude ainda admirar o poder que deu às suas criaturas. A primeira cidade da Itália que visitamos foi Milão. A sua catedral, inteiramente de mármore branco, com estátuas numerosas para formar um povo incontável, foi examinada por nós em seus mínimos detalhes. Celina e eu éramos intrépidas, sempre as primeiras e seguindo imediatamente Sua Excelência, a fim de ver tudo o que se referia às relíquias dos santos e ouvir as explicações. Assim é que, enquanto celebrava o santo sacrifício sobre o túmulo de são Carlos, estávamos com papai atrás do altar, com a cabeça encostada na urna que contém o corpo do santo revestido dos seus trajes pontificais. Era assim em todo lugar... Excepto quando se tratava de subir onde a dignidade de um bispo não permitia, pois naquelas ocasiões sabíamos afastar-nos de Sua Grandeza... Deixando as senhoras tímidas esconder o rosto nas mãos logo após ter alcançado as primeiras campainhas que coroam a catedral, seguíamos os mais destemidos romeiros e chegávamos até o alto da última campainha de mármore, e tínhamos o prazer de ver a nossos pés a cidade de Milão, cujos numerosos habitantes pareciam formar um pequeno formigueiro... Uma vez tendo descido do nosso pedestal, começamos nossos passeios de carro, que deviam durar um mês e saciar-me para sempre do meu desejo de rodar sem cansaço! O campo santo encantou-nos ainda mais que a catedral. Todas essas estátuas de mármore branco, que um cinzel genial parece ter animado, estão colocadas sobre o vasto campo dos mortos numa espécie de displicência que, para mim, aumenta o encanto... Dá vontade, quase, de consolar os personagens ideais que nos cercam. A sua expressão é tão realista, a sua dor, tão calma e resignada que não há como deixar de reconhecer os pensamentos de imortalidade que devem encher o coração dos artistas quando executam essas obras-primas. Aqui, uma criança joga flores sobre o túmulo de seus pais, parece que o mármore perdeu o seu peso, que as pétalas delicadas deslizam entre os dedos da criança, que o vento já começa a dispersá-las, a fazer flutuar o véu leve das viúvas e as fitas que adornam os cabelos das moças. Papai estava tão encantado quanto nós; na Suíça, sentiu cansaço, mas agora sua alegria havia voltado, gozava do belo espectáculo que contemplávamos, a sua alma de artista manifestava-se nas expressões de fé e admiração que se estampavam no seu belo rosto. Um velho senhor (francês), que, sem dúvida, não tinha alma tão poética, olhava-nos de soslaio e dizia mal-humorado, embora parecendo lastimar não ser capaz de partilhar da nossa admiração: "Ah! como os franceses são entusiastas!" Creio que esse pobre senhor teria feito melhor ficando em casa, pois não pareceu gostar da viagem. Encontrava-se frequentemente perto de nós e sempre ficava resmungando. Reclamava dos carros, dos hotéis, das pessoas, das cidades, enfim, de tudo... Com sua habitual grandeza de alma, papai procurava animá-lo, oferecia o seu lugar etc... enfim, achava-se bem em qualquer lugar, sendo de um carácter totalmente oposto ao do seu desagradável vizinho... Ah! quantas pessoas diferentes vimos, como o estudo do mundo se faz interessante quando estamos prestes a deixá-lo!...

(cont.)


04/11/2014

Conversei com Ele?

É possível que te assuste esta palavra: meditação. Faz-te lembrar livros de capas negras e velhas, ruído de suspiros ou rezas como cantilenas rotineiras... Mas isso não é meditação. Meditar é contemplar, considerar que Deus é teu Pai, e tu seu filho, necessitado de ajuda; e depois dar-lhe graças pelo que já te concedeu e por tudo o que te há-de dar. (Sulco, 661)

Para o teu exame diário: – Deixei passar alguma hora sem falar com o meu Pai, Deus? – Conversei com Ele com amor de filho? Acredita que és capaz! (Sulco, 657)

O único meio de conhecer Jesus: privar com Ele! N'Ele encontrarás sempre um Pai, um Amigo, um Conselheiro e um Colaborador para todas as actividades honestas da tua vida quotidiana...

E, com esse convívio, gerar-se-á o Amor. (Sulco, 662)

"Fica connosco, porque anoitece!...". Foi eficaz a oração de Cléofas e do companheiro.

Que pena, se tu e eu não soubéssemos "deter" Jesus que passa! Que dor, se não Lhe pedirmos que fique connosco! (Sulco, 671)


Temas para meditar - 261


Luta


O grave não é que quem luta caia, mas sim que permaneça na queda; o grave não é que alguém seja ferido na guerra, mas sim desesperar depois de recebido o golpe e não curar a ferida. O grave não é que quem luta caia, mas sim que permaneça na queda; o grave não é que alguém seja ferido na guerra, mas sim desesperar depois de recebido o golpe e não curar a ferida.


(s. joão crisóstomo, Exort. II a Teodoro caído, 1)

Tratado do verbo encarnado 19

Questão 3: Da união relativamente à pessoa que assumiu

Art. 2 — Se à natureza divina convém assumir.

O segundo discute-se assim. — Parece que à natureza divina não convém o assumir.

1 — Pois, como se disse, assumir é como tomar para si (ad se sumere). Ora, a natureza divina não tomou para si a natureza humana, pois, não se fez a união na natureza, mas na pessoa, como se disse. Logo, à natureza divina não cabe assumir a natureza humana.

2. Demais. — A natureza divina é comum às três Pessoas. Se, pois, à natureza convém o assumir, segue-se que convém às três Pessoas. E assim, o Pai assumiu a natureza humana, como o Filho - O que é erróneo.

3. Demais. — Assumir é agir. Ora, agir convém à pessoa, não à natureza, que antes exprime o princípio pelo qual o agente age. Logo, assumir não convém à natureza.

Mas, em contrário, Agostinho diz: Aquela natureza que é sempre. gerada do Pai, isto é, que foi pela geração eterna recebida do Pai, recebeu a nossa natureza, sem pecado.

Como dissemos, a palavra assunção abrange duas coisas - o princípio e o termo da acção. Ora, ser princípio da assunção convém à natureza divina em si mesma, pois, pelo seu poder se lhe realizou a assunção. Mas, ser termo da assunção não convém a essa natureza em si mesma, mas, em razão da Pessoa na qual a consideramos. Donde, primária e apropriadamente, dizemos que a Pessoa assume, mas, secundariamente podemos dizer que também a natureza assumiu a natureza à sua Pessoa. E também deste modo dizemos que a natureza se encarnou, não por se ter convertido em carne, mas por ter assumido a natureza da carne. Donde o dizer Damasceno. Afirmamos que a natureza de Deus se encarnou, segundo os santos Atanásio e. Cirilo.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJECÇÃO. — O pronome se é recíproco e se refere ao mesmo suposto. Ora, a natureza divina não difere, pelo suposto, da Pessoa do Verbo. Donde, por ter a natureza do Verbo assumido a natureza humana à sua Pessoa, dizemos que a assumiu a si. Mas, embora o Pai assuma a natureza humana à Pessoa do Verbo, nem por isso a assume a si, pois, não é o mesmo o suposto do Pai e do Verbo. Donde, não se pode propriamente dizer que o Pai assume a natureza humana.

RESPOSTA À SEGUNDA. — O conveniente à natureza humana em si mesma convém às três Pessoas, assim a bondade, a sabedoria e atributos semelhantes. Mas assumir convém-lhe em razão da Pessoa do Verbo, como se disse. Por isso só a essa Pessoa convém.

RESPOSTA À TERCEIRA. — Assim como em Deus se identificam o seu ser e o princípio deste, assim também, o que faz e o princípio da sua acção, pois, todo ser age enquanto ser. Donde, a natureza divina é o princípio do agir de Deus e é o próprio Deus agente.

Nota: Revisão da versão portuguesa por ama.


Evangelho diário, coment. Leit espiritual (História de uma alma)

Tempo comum XXXI Semana

Evangelho: Lc 14 15-24

15 Tendo ouvido estas coisas um dos convivas disse-Lhe: «Bem-aventurado quem participar do banquete no reino de Deus». 16 Jesus respondeu-lhe: «Um homem fez uma grande ceia para a qual convidou a muitos. 17 À hora da ceia, mandou um servo dizer aos convidados: Vinde, porque tudo está preparado. 18 Mas todos à uma começaram a escusar-se. O primeiro disse-lhe: Comprei um campo, e preciso ir vê-lo; peço que me dês por escusado. 19 Outro disse: Comprei cinco juntas de bois, e vou experimentá-las; peço-te que me dês por escusado. 20 Disse também outro: Casei-me, por isso não posso ir. 21 «Voltando o servo, referiu estas coisas ao seu senhor. Então, irado, o pai de família disse ao seu servo: Vai já pelas praças e pelas ruas da cidade; traz cá os pobres, os aleijados, os cegos e os coxos. 22 Disse o servo: Senhor, está feito como mandaste e ainda há lugar. 23 Disse o senhor ao servo: Vai pelos caminhos e ao longo dos cercados; e força-os a vir, para que se encha a minha casa. 24 Pois eu vos digo que nenhum daqueles que foram convidados provará a minha ceia».

Comentário:

Aparentemente, as desculpas apresentadas pelos convidados que não aceitaram o convite, são compreensíveis, sobretudo aquele que alega ter-se casado.
Mas deve atentar-se que o Anfitrião fez os convites com antecedência, o que permitiria aos convidados ‘programar’ as suas agendas.
Em primeiro lugar atentemos que alguém que dá um ceia desta qualidade e grandeza merece respeito e toda a honra e, depois, aquele que se terá casado nesse mesmo dia, tinha por estrita obrigação de, pelo menos, ter avisado imediatamente o anfitrião das suas circunstância.
O que aqui está patente é um total desprezo pelo convite e por quem convida e um equívoco enorme por parte dos convidados em estabelecer as suas prioridades.

(ama, comentário sobre Lc 14, 15-24, 2013.2.11.05)


Leitura espiritual



HISTÓRIA DE UMA ALMA

Santa Teresinha do Menino Jesus

Manuscrito "A" - Parte IV

…/1

Coloquei minha florzinha branca na minha Imitação, no capítulo intitulado: "De que é preciso amar a Jesus acima de todas as coisas". Ainda está aí, mas o caule quebrou-se junto à raiz e Deus parece demonstrar com isso que quebraria em breve os laços da sua florzinha e não a deixaria murchar na terra!

Após obter o consentimento de papai, pensava poder voar sem temor para o Carmelo, mas numerosos e dolorosos empecilhos iam ainda provar a minha vocação. Tremendo, anunciei a meu tio a resolução tomada. Ele deu-me todas as mostras de ternura possíveis, mas não a permissão de partir. Pelo contrário, proibiu-me de lhe falar da minha vocação antes dos meus 17 anos. Era, dizia ele, contrário à prudência humana deixar uma menina de 15 anos ingressar no Carmelo. Aos olhos do mundo, essa vida de carmelita era vida de filósofo e seria grande prejuízo para a religião deixar uma criança sem experiência abraçá-la... Todos falariam disso etc, etc... Disse-me até que para decidi-lo a me deixar partir seria preciso um milagre. Vi logo que todos os raciocínios eram inúteis e retirei-me com o coração mergulhado na mais profunda amargura. O meu único consolo era a oração. Pedi a Jesus para fazer o milagre exigido, pois só por esse preço poderia responder ao pedido Dele. Passou-se um tempo bastante longo antes que eu ousasse falar novamente com meu tio. Custava-me muito ir a casa dele e ele parecia não mais pensar na minha vocação. Soube, mais tarde, que minha grande tristeza o influenciou muito a meu favor. Antes de fazer brilhar em minha alma um raio de esperança, Deus quis mandar-me um martírio muito doloroso que durou três dias. Oh! Nunca compreendi tão bem como durante essa provação a dor da Santíssima Virgem e de são José procurando o divino Menino Jesus... Estava num triste deserto, ou melhor, minha alma parecia uma frágil embarcação entregue sem piloto à mercê de ondas tempestuosas... Sei, Jesus estava ali, dormindo na minha barquinha, mas a noite estava tão escura que não podia vê-lo, nada para iluminar, nem um relâmpago vinha rasgar as espessas nuvens... Luz bem triste a dos relâmpagos, mas se uma tempestade tivesse ocorrido eu teria conseguido ver Jesus por um instante... mas era noite, noite profunda da alma... como Jesus no Jardim da Agonia, sentia-me só, sem consolo, nem por parte da terra, nem do Céu. Deus parecia ter-me abandonado!!!... A natureza parecia tomar parte na minha amarga tristeza; durante esses três dias, o sol não libertou um único raio e a chuva caiu torrencialmente. Notei que em todas as circunstâncias graves da minha vida a natureza era imagem da minha alma. Nos dias de lágrimas, o Céu chorava comigo; nos dias de alegria, o Sol mandava com fartura seus alegres raios e o azul não comportava nenhuma nuvem...

Enfim, no quarto dia, um Sábado, dia consagrado à doce Rainha dos Céus, fui visitar meu tio. Que surpresa, vendo-o olhar-me e fazer-me entrar em seu escritório sem que eu lhe tivesse manifestado o desejo!... Começou por me censurar brandamente por parecer ter medo dele e disse-me não ser necessário pedir um milagre, que tinha apenas pedido a Deus que lhe desse "uma simples inclinação de coração" e fora atendido... Ah! não fui tentada a implorar por um milagre, para mim o milagre havia sido concedido. Meu tio havia mudado. Sem fazer alusão nenhuma à "prudência humana", disse-me que eu era uma florzinha que Deus queria colher e que não se oporia mais!...

Essa resposta definitiva era verdadeiramente digna dele. Pela terceira vez, esse cristão de uma outra idade permitia que uma das filhas adoptivas do seu coração fosse sepultar-se longe do mundo. Minha tia também foi admirável em ternura e prudência, não me lembro de, durante minha provação, ela ter dito uma palavra sequer que pudesse ter agravado minha tristeza. Via que tinha pena da sua pobre Teresinha. Por isso, depois que obtive a autorização do meu querido tio, deu-me a dela, mas não sem manifestar de mil maneiras que a minha partida lhe causaria muita aflição... Ai! nossos queridos familiares estavam longe de pensar, então, que iriam renovar duas vezes ainda o mesmo sacrifício... Mas, ao estender a mão para pedir sempre, Deus não a oferecia vazia, os seus mais queridos amigos puderam servir-se com fartura da força e da coragem de que tanto precisaram... Meu coração está levando-me muito longe do meu assunto, volto quase a contragosto: depois da resposta do meu tio, compreendeis, Madre, com que alegria voltei aos Buissonnets debaixo do "belo céu, totalmente livre de nuvens!..." Na minha alma também a noite tinha ido embora, Jesus acordara e devolvia-me a alegria, o ruído das ondas emudecera; no lugar da ventania da provação, uma brisa leve enchia a minha vela e pensei chegar logo à margem abençoada que avistava perto de mim. De facto, parecia muito perto da minha barquinha; porém, mais de uma tempestade se levantaria e esconderia da minha vista o farol luminoso, fazendo minha alma recear o afastamento sem volta da praia tão ardentemente desejada...
Poucos dias após ter obtido o consentimento do meu tio, fui visitar-vos, querida Madre, e falei-vos da minha alegria por terem as provações chegado ao fim. Mas qual não foi minha surpresa e minha aflição ao ouvir de vós que o Superior não permitia meu ingresso antes de eu atingir 21 anos...

Ninguém tinha pensado nessa oposição, a mais invencível de todas; porém, sem perder a coragem, fui com papai e Celina encontrar o nosso padre a fim de tentar demovê-lo, mostrando-lhe que eu tinha vocação para o Carmelo. Ele recebeu-nos muito friamente. Embora o meu incomparável paizinho tivesse juntado os seus argumentos aos meus, nada pôde alterar a sua disposição. Disse que não havia perigo na demora, que podia levar uma vida de carmelita em casa, que embora não tomasse a disciplina nem tudo seria perdido etc... etc... Enfim, acrescentou ser apenas o representante do senhor bispo e, se esse me autorizasse a ingressar, não teria mais nada a dizer... Saí chorando. Felizmente, estava escondida atrás da minha sombrinha, pois chovia muito. Papai não sabia como me consolar... prometeu levar-me a Bayeux logo que eu quisesse, pois estava resolvida a alcançar a minha meta. Disse que iria até ao Santo Padre se o senhor bispo me negasse a entrada no Carmelo aos 15 anos... Muita coisa ocorreu antes da minha ida a Bayeux. Por fora, minha vida parecia a mesma, estudava, tomava lições de desenho com Celina e minha hábil mestra achava em mim muito pendor pela sua arte. Crescia no amor a Deus, sentia em meu coração impulsos desconhecidos até então, tinha, às vezes, verdadeiros êxtases de amor. Uma tarde, não sabendo dizer a Jesus quanto o amava e como desejava que Ele fosse amado e glorificado em todo lugar, pensei com amargura que não poderia nunca receber no inferno um único acto de amor. Então, disse a Deus que para agradar a Ele eu consentiria em ser mergulhada nele a fim de que Ele fosse amado eternamente nesse lugar de blasfémia... Sabia que isso não podia glorificá-lo, sendo que Ele só deseja nossa felicidade, mas quando se ama sente-se necessidade de dizer mil tolices; se eu falava assim, não é porque não desejasse o Céu, mas, então, meu Céu consistia só no Amor e sentia, como são Paulo, que nada poderia separar-me do objecto divino que me seduzira!...

Antes de deixar o mundo, Deus concedeu-me a graça de contemplar de perto almas de crianças; sendo a última da família, nunca tinha tido essa felicidade. Eis as tristes circunstâncias que me levaram a isso: uma pobre mulher, parente da nossa empregada, morreu jovem deixando três criancinhas; durante a sua doença, guardamos em casa as duas meninas, tendo a mais velha apenas 6 anos. Cuidava delas o dia todo e era uma grande satisfação para mim ver com quanta candura acreditavam em tudo o que lhes dizia. É preciso que o santo baptismo deposite nas almas um germe muito profundo das virtudes teologais para que se manifestem desde a infância e que a esperança dos bens futuros baste para fazer aceitar sacrifícios. Quando queria ver as minhas duas meninas bem conciliadas, em vez de prometer brinquedos e bombons àquela que cederia em favor da outra, falava-lhes das recompensas eternas que o Menino Jesus daria no Céu às crianças bem comportadas. A mais velha, cuja razão começava a desenvolver-se, olhava-me com olhos brilhantes de alegria, fazia-me mil perguntas gentis sobre o menino Jesus e seu belo Céu e prometia-me com entusiasmo ceder sempre em favor da irmã, dizendo que nunca na vida esqueceria o que lhe havia dito "a grande senhorita", pois era assim que me chamava... Vendo de perto essas almas inocentes, compreendi ser grande infelicidade não formá-las bem desde o seu despertar, quando são como uma cera mole sobre a qual se pode depositar tanto as impressões das virtudes como do mal... compreendi o que Jesus disse no Evangelho: que seria melhor ser lançado ao mar do que escandalizar uma só dessas crianças. Ah! quantas almas chegariam à santidade se fossem bem dirigidas!...
Sei que Deus não precisa de ninguém para realizar a sua obra, mas assim como permite a um hábil jardineiro cultivar plantas raras e delicadas e lhe dá para isso a ciência necessária, reservando para si a tarefa de fecundar, assim também Jesus quer ser ajudado na sua divina cultura das almas.

Que aconteceria se um jardineiro desajeitado não enxertasse direito suas plantas? Se não soubesse reconhecer a natureza de cada uma e quisesse fazer brotar rosas num pessegueiro?... Faria morrer a planta que, todavia, era boa e capaz de produzir frutos. Assim é que se deve reconhecer desde a infância o que Deus pede às almas e ajudar a acção da sua graça, sem nunca apressá-la nem retardá-la.

Como os passarinhos aprendem a cantar escutando os seus progenitores, assim as crianças aprendem a ciência das virtudes, o canto sublime do Amor divino, junto às almas encarregadas de formá-las.

Recordo-me de que entre os meus passarinhos eu tinha um canarinho que cantava maravilhosamente; tinha também um pequeno pintassilgo ao qual prodigalizava meus cuidados maternos, tendo-o adoptado antes que pudesse gozar da sua liberdade... Esse pobre prisioneirinho não tinha pais para ensiná-lo a cantar, mas ouvindo o dia todo o seu companheiro canarinho soltar alegres trinados quis imitá-lo... Esse empreendimento era difícil para um pintassilgo, por isso sua voz delicada teve dificuldade de se afinar à voz vibrante do seu mestre de música. Era lindo ver os esforços do pequeno, mas foram coroados de êxito, pois seu canto, embora conservando maior doçura, foi absolutamente o mesmo do canarinho.

Oh! Madre querida, fostes vós quem me ensinastes a cantar... foi a vossa voz que encantou minha infância, e agora tenho o consolo de ouvir dizer que ela se parece com a vossa!!! Bem sei que ainda estou longe disso, mas espero, apesar da minha fraqueza, repetir eternamente o mesmo cântico que vós!...

Antes do meu ingresso no Carmelo, fiz ainda muitas outras experiências acerca da vida e das misérias do mundo, mas esses detalhes levar-me-iam longe demais. Vou retomar o relato da minha vocação. O dia 31 de Outubro foi o dia fixado para a minha viagem a Bayeux. Parti sozinha com papai, o coração transbordando de esperança, mas também muito comovida com a ideia de apresentar-me no bispado. Pela primeira vez na vida ia fazer uma visita sem ser acompanhada das minhas irmãs, e essa visita era a um bispo! Eu, que nunca precisava falar, a não ser para responder às perguntas que me eram feitas, devia explicar pessoalmente a finalidade da minha visita, expor os motivos que me levavam a solicitar a minha entrada no Carmelo, enfim, devia mostrar a solidez da minha vocação. Ah! como me custou essa viagem! Foi preciso Deus conceder-me uma graça toda especial para vencer minha grande timidez... É também verdade que "Nunca o Amor depara com o impossível, pois crê que tudo lhe é possível e permitido". Verdadeiramente, só o amor de Jesus podia fazer-me vencer esta e as outras dificuldades que se seguiram, pois agradou-lhe fazer-me comprar minha vocação por meio de muitas provações...
Agora que gozo da solidão do Carmelo, descansando à sombra da Cruz que tão ardorosamente desejei, considero ter pago pouco pela minha felicidade e estaria disposta a suportar penas muito maiores para adquiri-la se a não tivesse alcançado!

Chovia a cântaros quando chegamos a Bayeux. Papai não queria que a sua rainhazinha entrasse na residência episcopal com sua linda roupa molhada. Subimos num ônibus e dirigimo-nos à catedral. Aí começaram novas dificuldades. Sua Excelência e todo o clero assistiam a um grande funeral. A igreja estava repleta de senhoras de luto e eu, com meu vestido claro e meu chapéu branco, era olhada por todos. Queria sair da igreja, mas não podia pensar nisso por causa da chuva. Para humilhar-me ainda mais, papai, com sua simplicidade patriarcal, fez-me subir na torre da catedral. Não querendo desagradá-lo, subi com boa vontade e propiciei esse divertimento aos bons habitantes de Bayeux, que teria desejado nunca ter conhecido... Enfim, pude respirar sossegada numa capela atrás do altar-mor e fiquei muito tempo lá, rezando com fervor, aguardando que a chuva parasse e nos fosse permitido sair. Ao descer, papai fez-me observar a beleza do edifício, que parecia muito maior agora que estava deserto. Porém, um único pensamento ocupava meu espírito e não podia agradar-me com coisa alguma. Fomos logo procurar pelo padre Révérony, que sabia da nossa chegada por ter sido ele quem marcara o dia da viagem. Mas estava ausente. Fomos obrigados a vaguear pelas ruas, que me pareceram muito tristes. Enfim, voltamos para perto da sede do bispado, e papai fez-me entrar num belo hotel onde não fiz honra ao hábil cozinheiro. O pobre paizinho era para comigo de uma ternura quase inacreditável, dizendo-me para não ficar triste, que logo o senhor bispo iria atender o meu pedido. Após um descanso, voltamos a procurar o padre Révérony; um senhor chegou ao mesmo tempo, mas o vigário-geral pediu-lhe polidamente para esperar e fez-nos entrar primeiro no seu gabinete (o pobre senhor teve tempo de enfastiar-se, pois a visita foi demorada). O padre Révérony mostrou-se muito amável, mas creio que estranhou muito o motivo da nossa viagem. Depois de ter-me olhado sorrindo, dirigiu-me algumas perguntas e disse: "Vou apresentar-vos a Sua Excelência, tenhais a bondade de me acompanhar". Vendo as lágrimas brilharem nos meus olhos, acrescentou: "Ah! vejo diamantes... não deveis mostrá-los a Sua Excelência!"... Fez-nos atravessar muitos cómodos vastíssimos, enfeitados de retratos de bispos. Vendo-me nesses salões enormes, tinha impressão de ser uma formiguinha e me perguntava o que ia ousar dizer a Sua Excelência. Ele anda, entre dois cómodos, num corredor. Vi o padre Révérony dizer-lhe algumas palavras e voltar com ele. Aguardávamos no gabinete dele. Ali, três enormes poltronas estavam dispostas diante da lareira onde crepitava um fogo forte. Ao ver entrar Sua Grandeza, papai pôs-se de joelhos a meu lado para receber a sua bênção. Indicou uma poltrona para papai se sentar, colocou-se na frente dele e o padre Révérony indicou-me a do meio. Recusei polidamente, mas insistiu, dizendo que devia mostrar-me capaz de obedecer. Sentei-me logo sem fazer comentário e senti-me constrangida ao vê-lo pegar uma cadeira enquanto eu estava afundada numa poltrona onde quatro pessoas como eu cabiam folgadamente (mais à vontade do que eu, pois estava longe de me sentir folgada!...) Esperava que papai fosse falar, mas disse-me para explicar pessoalmente a Sua Excelência a finalidade da nossa visita; o que fiz o mais eloquentemente possível. Acostumado com a eloquência, Sua Grandeza não pareceu comovido com meu arrazoado. Uma palavra favorável do padre superior teria servido melhor a minha causa, infelizmente não dispunha dela e sua oposição não intercedia a meu favor.
Sua Excelência perguntou-me se havia muito tempo que eu desejava ingressar no Carmelo: "Oh, sim, Excelência! Muito tempo..." . "Vejamos", interveio, rindo, o padre Révérony, "podeis dizer que faz 15 anos que tendes esse desejo." "É verdade", respondi sorrindo também, "mas não há muito que retirar, pois desejo fazer-me religiosa desde o despertar da minha razão e desejei o Carmelo logo que o conheci bem, pois nessa ordem achava que todas as aspirações da minha alma seriam satisfeitas." Não sei, Madre, se foram exactamente essas as minhas palavras, creio que eram ditas de forma ainda pior, mas, enfim, o sentido era este.

(cont.)



03/11/2014

E não dizem sempre a mesma coisa os que se amam?...

O Santo Rosário é arma poderosa. Emprega-a com confiança e maravilhar-te-ás do resultado. (Caminho, 558)

O princípio do caminho, que tem por fim a completa loucura por Jesus, é um confiado amor a Maria Santíssima.

– Queres amar a Virgem? – Pois então conversa com Ela! – Como? – Rezando bem o Rosário de Nossa Senhora.

Mas, no Rosário... dizemos sempre o mesmo! – Sempre o mesmo? E não dizem sempre a mesma coisa os que se amam?... Se há monotonia no teu Rosário, não será porque, em vez de pronunciares palavras, como homem, emites sons, como animal, estando o teu pensamento muito longe de Deus? – Além disso, repara: antes de cada dezena, indica-se o mistério a contemplar – Tu... já alguma vez contemplaste esses mistérios?

Faz-te pequeno. Vem comigo, e viveremos (este é o nervo da minha confidência) a vida de Jesus, de Maria e de José.


Todos os dias Lhes havemos de prestar um novo serviço. Ouviremos as Suas conversas de família. Veremos crescer o Messias. Admiraremos os Seus trinta amos de obscuridade... Assistiremos à Sua Paixão e Morte... Pasmaremos ante a glória da Sua Ressurreição... Numa palavra: contemplaremos, loucos de Amor (não maior amor que o Amor), todos e cada um dos instantes de Cristo Jesus. (Santo Rosário, Introdução)

Temas para meditar - 260


Doença

É necessário sofrer com paciência não só o estar doente, mas o ter a doença que Deus quer, entre as pessoas que quer e com as incomodidades que quer, e o mesmo digo das demais tribulações.



(SÃO Francisco de Sales, Introdução à Vida Devota, III, 3.) 

Tratado do verbo encarnado 18

Questão 3: Da união relativamente à pessoa que assumiu

Em seguida devemos tratar da união relativamente à pessoa que assumiu.

E nesta questão discutem-se oito artigos:

Art. 1 — Se à Pessoa divina convém assumir a natureza criada.
Art. 2 — Se à natureza divina convém assumir.
Art. 3 — Se, abstraída a personalidade pelo intelecto, a natureza pode assumir.
Art. 4 — Se uma Pessoa pode assumir a natureza criada, sem assumir outra.
Art. 5 — Se alguma outra Pessoa divina, que não a Pessoa do Filho, podia ter assumido a natureza humana.
Art. 6 — Se duas Pessoas divinas poderiam assumir uma natureza numericamente a mesma.
Art. 7 — Se uma mesma Pessoa divina pode assumir duas naturezas humanas.
Art. 8 — Se era mais conveniente ter-se encarnado o Filho de Deus, que o Pai ou o Espírito Santo.

Art. 1 — Se à Pessoa divina convém assumir a natureza criada.

O primeiro discute-se assim. — Parece que não convém a Pessoa divina assumir a natureza criada.

1. — Pois, uma Pessoa divina significa um ser perfeito em sumo grau. Ora, perfeito é aquilo a que não se pode fazer nenhum acréscimo. Mas, sendo assumir o tomar para si. (ad se sumerey), de modo a ficar o assumido acrescentado ao que assume, parece que à Pessoa divina não convém assumir a natureza criada.

2. Demais. — O ser para o qual um outro é assumido comunica-se de certo modo ao primeiro, assim, uma dignidade comunica-se a quem foi a ela elevada. Ora, a pessoa é por natureza incomunicável, como se disse na Primeira Parte. Logo, não convém à Pessoa divina assumir, isto é, tomar para si. (ad se sumere).

3. Demais. — A pessoa é constituída pela natureza. Ora, é inconveniente que o constituído assuma o constituinte, porque o efeito não age sobre a sua causa. Logo, não convém à Pessoa assumir a natureza.

Mas, em contrário, Agostinho diz: Esse Deus, isto é, o Unigénito, recebeu a forma, isto é, a natureza do servo, na sua Pessoa. Ora, o Deus Unigénito é uma Pessoa. Logo, à Pessoa convém receber a natureza, o que é assumi-la.

A palavra assunção implica duas coisas, isto é, o princípio e o termo do acto, pois, assumir é como tomar para si (ad se sumeres). Ora, dessa assunção a Pessoa é o princípio e o termo. O princípio, porque à pessoa propriamente cabe o agir, ora, essa assunção da carne foi feita pela pessoa divina. Semelhantemente, também a Pessoa é o termo dessa assunção, pois, como se disse, a união fez-se na Pessoa, não na natureza. Donde é claro que apropriadamente cabe à Pessoa assumir a natureza.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJECÇÃO. — Sendo a Pessoa divina infinita, não se lhe pode fazer nenhuma adição. Por isso Cirilo diz: Nós não entendemos esse modo de união como uma ???, Assim como na união do homem com Deus, pela graça de adopção, nada se acrescenta a Deus, mas, o divino opõe-se ao homem. Donde não é Deus, mas o homem, quem se aperfeiçoa.

RESPOSTA À SEGUNDA. — Dizemos que a pessoa é incomunicável, por não poder ser predicada de muitos supostos. Mas, nada impede que da pessoa se façam muitas predicações. Donde, não é contra a essência da pessoa comunicar-se de modo que subsista em várias naturezas. Pois, também na pessoa criada podem acidentalmente concorrer várias naturezas, assim como a pessoa de um determinado homem tem quantidade e qualidade. Mas, por causa da sua infinidade, é próprio da divina Pessoa, que nela exista o concurso das naturezas, não acidentalmente, mas segundo a subsistência.

RESPOSTA À TERCEIRA. — Como se disse, a natureza humana não constitui a Pessoa divina, absolutamente falando, mas constitui-a enquanto denominada por uma tal natureza. Assim, não é da natureza humana que o Filho de Deus tira a sua existência absoluta, pois já existia abeterno, mas só a sua existência humana. Mas, segundo a natureza divina a Pessoa divina é constituída de modo absoluto. Donde, não dizemos da Pessoa divina que assumiu a natureza divina, mas a humana.

Nota: Revisão da versão portuguesa por ama.