02/11/2014

Queres deveras ser santo?

Queres deveras ser santo? – Cumpre o pequeno dever de cada momento faz o que deves e está no que fazes. (Caminho, 815)

Tens obrigação de te santificar. – Tu, também. – Quem pensa que é tarefa exclusiva de sacerdotes e religiosos? A todos, sem excepção, disse o Senhor: "Sede perfeitos, como meu Pai Celestial é perfeito".. (Caminho, 291)

Rectificar. – Todos os dias um pouco. – Eis o teu trabalho constante, se deveras queres tornar-te santo. (Caminho, 290)

Ser fiel a Deus exige luta. E luta corpo a corpo, homem a homem – homem velho e homem de Deus – palmo a palmo, sem claudicar. (Sulco, 126)

Hoje não bastam mulheres ou homens bons. Além disso, não é suficientemente bom quem se contenta em ser quase... bom; é preciso ser "revolucionário". Ante o hedonismo, ante a carga pagã e materialista que nos oferecem, Cristo quer inconformistas! Rebeldes de Amor! (Sulco, 128)

Se não for para construir uma obra muito grande, muito de Deus – a santidade –, não vale a pena entregar-se.

Por isso, a Igreja, ao canonizar os Santos, proclama a heroicidade da sua vida. (Sulco, 611)


Temas para meditar - 259


Prudência


Prudente não é - como frequentemente se acredita -  o que sabe arranjar a sua vidinha e tirar dela o máximo proveito, mas quem acerta em edificar a vida inteira segundo a voz da consciência recta e segundo as exigências da justa moral.
Deste modo, a prudência vem a ser a chave para que cada um realize a tarefa fundamental que recebeu de Deus. Esta tarefa é a perfeição do próprio homem.

(Btº JOÃO PAULO IIAloc., 1978.10.25)

Tratado do verbo encarnado 17

Questão 2: Do modo da união do Verbo Encarnado

Art. 12 — Se a graça da união era natural ao homem Cristo.

O duodécimo discute-se a graça da união não era natural ao homem Cristo.

1. — Pois, a união da Encarnação não se fez na natureza, mas na pessoa, como se disse. Ora, um movimento designa-se pelo seu termo. Logo, essa graça deve ser considerada, antes, pessoal que natural.

2. Demais. — A graça divide-se da natureza por oposição, assim como o que é gratuito, procedente de Deus, se distingue do natural, procedente de um princípio intrínseco. Ora, de coisas que se dividem por oposição, uma não tira da outra a sua denominação. Logo, a graça de Cristo não lhe é natural.

3. Demais. — Chama-se natural ao que é segundo a natureza. Ora, a graça da união não é natural a Cristo pela sua natureza divina, porque então conviria também às outras pessoas. Nem lhe é natural pela sua natureza humana, porque então conviria a todos os homens, que são da mesma natureza que ele. Logo, parece que de nenhum modo a Graça da união é natural a Cristo.

Mas, em contrário, Agostinho diz: Por ter assumido a natureza humana a graça mesma de algum modo se tornou natural a esse homem, e nenhum pecado o poderia privar dela.

Segundo o Filósofo, num sentido chama-se natureza a própria natividade, noutro, a essência de um ser. Donde, natural pode ter significado duplo. Num, é o resultado dos princípios essenciais de um ser, assim, é natural ao fogo ser levado para o alto. Noutro, dizemos natural ao homem o que ele tem pela sua natividade, segundo aquilo do Apóstolo: Éramos por natureza filhos da ira. E noutro lugar da Escritura: A sua nação é malvada e a malícia é-lhes natural. Logo, a graça de Cristo, quer a de união, quer a habitual, não pode chamar-se natural, quase causada nele pelos princípios da natureza humana, embora possa chamar-se natural, quase proveniente à natureza humana de Cristo, pela causalidade da sua natureza divina. Mas dissemos que ambas essas graças são naturais a Cristo, por as ter desde a sua natividade, pois, desde o início da sua concepção a natureza humana esteve unida à pessoa divina, e a sua alma tinha a plenitude do dom da graça.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJECÇÃO. — Embora a união não se tivesse feito na natureza, foi contudo causada pelo poder da natureza divina, que é verdadeiramente a natureza de Cristo. E também convinha a Cristo desde o princípio da sua natividade.

RESPOSTA À SEGUNDA. — As expressões — graça e natural — não têm sentido idêntico. Mas, chama-se graça ao que não provém do mérito, e natural, ao que provém da virtude da natureza divina, para a humanidade de Cristo, desde o seu nascimento.

RESPOSTA À TERCEIRA. — A graça da união não é natural a Cristo segundo a sua natureza humana, quase causada dos princípios dessa natureza. Donde, não é necessário que convenha a todos os homens. Mas é-lhe natural segundo a natureza humana, por causa da propriedade da sua natividade, isto é, foi concebido do Espírito Santo de modo que fosse naturalmente Filho de Deus e do homem. Mas, segundo a natureza divina é-lhe natural, enquanto a natureza divina é o princípio activo dessa graça. E isto convém à toda a Trindade, isto é, ser o princípio activo dessa graça.

Nota: Revisão da versão portuguesa por ama.


Evangelho diário, coment. Leit espiritual (História de uma alma)

Tempo comum XXXI Semana

Fiéis defuntos

Evangelho: Mt 11 25-30

25 Então Jesus, falando novamente, disse: «Eu Te louvo ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque ocultaste estas coisas aos sábios e aos prudentes, e as revelaste aos pequeninos. 26 Assim é, ó Pai, porque assim foi do Teu agrado. 27 «Todas as coisas Me foram entregues por Meu Pai; e ninguém conhece o Filho senão o Pai; nem ninguém conhece o Pai senão o Filho, e aquele a quem o Filho o quiser revelar. 28 O «Vinde a Mim todos os que estais fatigados e oprimidos, e Eu vos aliviarei. 29 Tomai sobre vós o Meu jugo, e aprendei de Mim, que sou manso e humilde de coração, e achareis descanso para as vossas almas. 30 Porque o Meu jugo é suave, e o Meu fardo leve».

Comentário:

Não temos, não podemos ter, senão uma pálida ideia do bem que Deus derrama sobre nós.
A Sua Graça está sempre actuante nas nossas vidas. De facto, nós somos os “pequeninos” que o Senhor refere como sendo os preferidos do Pai, os que Ele destinou para O conhecer e gozar eternamente na Sua companhia.

(ama, comentário sobre Mt 11, 25-27, 2014.06.27)

Leitura espiritual




HISTÓRIA DE UMA ALMA

Santa Teresinha do Menino Jesus

Manuscrito "A" - Parte III

…/3

Antes de ver a família congregada no pátrio lar dos Céus, devia atravessar ainda muitas separações. No ano de minha admissão como filha da Santíssima Virgem, ela tirou-me a minha querida Maria, único sustento de minha alma... Era Maria quem me guiava, consolava, ajudava a praticar a virtude. Era o meu único oráculo. Sem dúvida, Paulina tinha ficado bem firme no meu coração, mas estava longe, muito longe de mim!... Sofri o martírio para me habituar a viver sem ela, por ver entre nós muros intransponíveis. Mas enfim acabei aceitando a triste realidade. Paulina estava perdida para mim, quase como se estivesse morta. Continuava a amar-me, rezava por mim, mas aos meus olhos minha querida Paulina tornara-se uma santa, que já não poderia compreender as coisas da terra; e as misérias da sua pobre Teresa, se as conhecesse, tê-la-iam espantado e impedido de amá-la tanto... Por outro lado, ainda se quisera confidenciar-lhe os meus pensamentos, como o fazia nos Buissonnets, não teria possibilidade, porque os atendimentos no locutório eram somente para Maria. Celina e eu tínhamos permissão de chegar lá só no final, justamente o tempo necessário para nos deixar com o coração apertado... Assim não tinha na realidade senão Maria, que me era, por assim dizer, indispensável. Só a ela contava meus escrúpulos e era tão obediente que meu confessor nunca chegou a saber da minha desagradável doença. A ele dizia exactamente o número de pecados que Maria me autorizava confessar, nem um a mais. Por isso poderia ser tida como a alma menos escrupulosa da terra, embora o fosse até ao último grau... Maria sabia, por conseguinte, tudo o que se passava em minha alma. Sabia também dos meus desejos a respeito do Carmelo, e eu lhe queria tanto, que não podia viver sem ela. Titia convidava-nos todos os anos a irmos, uma por vez, à sua casa em Trouville. Gostava muito de lá ir, mas em companhia de Maria! Não a tendo comigo, ficava muito entediada. Uma vez, entretanto, senti-me satisfeita em Trouville. Foi no ano da viagem de Papai a Constantinopla. Para nos distrair um pouco, (pois estávamos desgostosas por saber Papai a tão grande distância), Maria mandou-nos, à Celina e a mim, passar quinze dias à beira-mar. Tive ali muita distração, porque a minha Celina estava comigo. Titia arranjava-nos todos os passatempos possíveis: montaria em jumentinho, pesca de lingueirões etc... Era ainda muito criança, apesar dos meus doze anos e meio. Lembro-me da minha satisfação, quando punha as lindas fitas azuis de anil, que Titia me dera para os cabelos. Lembra-me, também, de ter confessado em Trouville até essa alegria infantil, que pareceu-me pecado... Uma tarde, fiz uma experiência que me surpreendeu bastante. - Maria (Guérin), que vivia quase sempre adoentada, choramingava de vez em quando. Titia então fazia-lhe carícias, dizia-lhe os nomes mais afectuosos, e a minha querida priminha nem por isso parava de dizer, toda lacrimosa, que estava com dor de cabeça. Ora, eu que, quase todos os dias, também tinha dor de cabeça e nunca me queixava, quis uma tarde imitar Maria. Senti, pois, a obrigação de choramingar numa poltrona ao canto da sala. Joana e Titia logo aproximaram-se de mim, perguntando-me o que tinha. Respondi, igual à Maria: "Estou com dor de cabeça". Parece que não me saí bem no modo de queixar-me, pois nunca pude convencê-las de ter sido dor de cabeça o que me fizera chorar. Em vez de me afagarem, falaram comigo como se fala com gente grande. De sua parte, Joana censurou-me por não confiar bastante na Titia, por julgar que eu estava às voltas com algum escrúpulo de consciência... Afinal, aprendi à própria custa, tomando a firme resolução de não imitar mais os outros, e entendi a fábula de "O asno e o cachorrinho". Eu representava o asno que, vendo as carícias que se faziam ao cachorrinho, ergueu a pesada pata sobre a mesa, para receber o seu quinhão de beijos. Mas, ai! se não levei pancadas, como o pobre animal, recebi realmente a moeda de minha paga, moeda que me curou, por toda a vida, do prurido de atrair a atenção. Só o esforço que nisso apliquei, custou-me caro demais!...

No ano seguinte, que era o da partida de minha querida Madrinha, Titia ainda me convidou, mas desta vez a mim sozinha, mas tão desambientada fiquei que, ao cabo de dois ou três dias adoeci, e foi preciso que me fizessem voltar para Lisieux. A minha doença, que temiam como grave, não passava de uma nostalgia dos Buissonnets. Mal ali pus os pés, voltou a saúde... E a essa criança, ia o Bom Deus arrebatar-lhe o único apoio que a prendia à vida!...

Logo que soube da resolução de Maria, resolvi não procurar mais nenhum prazer na terra... Depois que saí do pensionato, alojei-me no antigo gabinete de pintura de Paulina, e arrumei-o a meu gosto. Era um verdadeiro bazar, um aglomerado de coisas piedosas e curiosidades, uma jardineira e um viveiro de passarinhos... Assim, também, na parede do fundo, sobressaíam uma grande cruz de madeira preta, sem o corpo de Cristo, e alguns desenhos que me agradavam. Na outra parede, uma cesta guarnecida de musselina e fitas cor-de-rosa, cheia de folhinhas picadas e de flores. Afinal, na última parede, salientava-se, como peça única, o retrato de Paulina aos 1O anos de idade. Debaixo do retrato, conservava eu uma mesa, onde se achava uma grande gaiola, que comportava grande número de passarinhos, cujos melodiosos trinados atordoava a cabeça dos visitantes, mas não a da sua jovem proprietária, que lhes tinha grande afeição... Ali havia ainda o "pequeno traste branco", cheio dos meus livros de estudo, de cadernos etc. Em cima do traste estava colocada uma estátua da Santíssima Virgem, com vasos sempre providos de flores naturais, com castiçais. Em redor, havia uma multidão de estatuetas de Santos e Santas, cestinhos feitos de conchas, caixas de cartolina, etc! Afinal, a minha jardineira ficava suspensa diante da janela, onde eu cultivava vasos de flores (os mais raros que podia encontrar). No interior do "meu museu" havia ainda uma jardineira, sobre a qual punha a minha planta predilecta... Diante da janela, a minha mesa coberta com um tapete verde, e sobre esse tapete coloquei, no meio, uma ampulheta, uma estatueta de São José, um porta-relógio, corbelhas para flores, um tinteiro etc... Algumas cadeiras mancas e a fascinante caminha de boneca de Paulina completavam todo o meu mobiliário. Realmente, esse pobre quarto de sótão era um mundo para mim, e como o Sr. De Maistre poderia eu escrever um livro com o título: "Passeio em torno do meu quarto". Gostava de permanecer horas inteiras nesse quarto, a estudar e a meditar diante do panorama que se descortinava aos meus olhos... Quando eu soube da partida de Maria, o meu quarto perdeu para mim todo o encanto. Não queria abandonar um só instante a querida irmã que dentro em breve se subtrairia à nossa convivência... Quantos actos de paciência não a obriguei a praticar! Todas as vezes que passava diante da porta do seu quarto, batia até que ela abrisse, e abraçava-a de todo o coração. Queria fazer provisão de beijos por todo o tempo que ficaria sem eles.

Um mês antes de sua entrada no Carmelo, Papai levou-nos a Alençon, mas a viagem ficou longe de assemelhar-se à primeira, porque tudo se me converteu em tristeza e amargura. Não poderia descrever as lágrimas que derramei junto ao túmulo de Mamãe, por ter esquecido de levar um ramalhete de centáureas, colhidas para ela. Na verdade, acabrunhava-me com qualquer coisa! Era ao contrário de agora, pois o Bom Deus concedeu-me a graça de me não abater com nenhuma coisa passageira. Quando recordo os tempos idos, minha alma transborda de gratidão vendo os favores que recebi do Céu. Operou-se tal mudança em mim que não sou reconhecível... Verdade é que eu desejava ter "sobre minhas acções um domínio absoluto, ser a dona, não a escrava"'. Essas palavras da Imitação comoviam-me profundamente, mas devia, por assim dizer, comprar essa graça inestimável pelos meus desejos; ainda parecia uma criança que só quer o que os outros querem. O que fazia as pessoas de Alençon dizerem que eu era fraca de carácter... Foi durante essa viagem que Leónia fez experiência nas Clarissas". Fiquei triste com sua entrada extraordinária, pois amava-a muito e não pude beijá-la antes da partida.
Nunca me esquecerei da bondade e do embaraço desse pobre paizinho quando veio anunciar-nos que Leónia já vestia o hábito das Clarissas... Como nós, achava isso muito engraçado, mas não queria dizer nada, vendo quanto Maria estava descontente. Levou-nos ao convento, e lá senti um aperto no coração como nunca tinha sentido ao ver um mosteiro. Isso produziu em mim o efeito contrário do Carmelo, em que tudo dilatava minha alma... A vista das religiosas tampouco me encantou, e não fiquei tentada a permanecer no meio delas. A pobre Leónia parecia muito gentil no novo traje; disse-nos para olhar bem os olhos dela, porque não devíamos vê-los mais (as Clarissas só se mostram de olhos baixos). Mas Deus contentou-se com dois meses de sacrifício, e Leónia voltou a mostrar-nos os seus olhos azuis, frequentemente molhados de lágrimas... Ao deixar Alençon, pensava que ela ia ficar com as Clarissas, por isso foi com muita tristeza que me afastei da triste rua da meia-lua. Ficávamos apenas três e, logo, nossa querida Maria ia nos deixar... 15 de outubro foi o dia da separação! Só restavam as duas últimas da numerosa e alegre família dos Buissonnets... As pombas haviam fugido do ninho paterno e as que ficavam queriam também segui-las, mas as suas asas eram ainda fracas demais para poder alçar voo... Deus, que queria chamar para si a menor e a mais fraca de todas elas, apressou-se em desenvolver as suas asas. Ele, que se compraz em mostrar a sua bondade e o seu poder servindo-se dos instrumentos menos dignos, quis chamar-me antes de Celina, que, sem dúvida, merecia antes esse favor. Mas Jesus sabia como eu era fraca e foi por isso que me escondeu antes no recôncavo do rochedo.

Quando Maria entrou para o Carmelo, era eu ainda muito escrupulosa. Já não podendo confiar-me a ela, volvi-me para o lado dos Céus. Foi aos quatro anjinhos, meus predecessores lá no alto, que me dirigi com a ideia de que as suas almas inocentes, por não terem jamais conhecido inquietações nem temores, deviam compadecer-se da sua pobre maninha que sofria aqui na terra. Falava-lhes com ingenuidade de criança, e fazia-lhes ver que, sendo a mais nova da família, tinha sido sempre a mais amada, a mais contemplada com carinhos por parte de minhas irmãs, e que eles, por certo também me teriam dado provas de afeição, se tivessem continuado aqui na terra... A sua partida para o Céu não me parecia motivo para me esquecerem. Pelo contrário, estando em condições de haurir nos tesouros divinos, neles poderiam buscar a paz para mim, e mostrar-me assim que no Céu a gente ainda sabe amar!... A resposta não se fez esperar. A paz logo me inundou a alma com sua deliciosa exuberância, e compreendi que, se era amada aqui na terra, também o era lá no Céu... Desde aquele momento, cresceu a minha devoção para com os meus irmãozinhos. Gosto de entreter-me muitas vezes com eles, de falar-lhes das tristezas do exílio... do meu desejo de logo juntar-me a eles brevemente na Pátria!...

Se o Céu me cobria de graças, não era porque as merecesse, era ainda muito imperfeita; de facto, tinha um grande desejo de praticar a virtude, mas agia de maneira estranha. Eis um exemplo: por ser a mais nova, não estava acostumada a servir-me. Celina arrumava o quarto em que dormíamos e eu não fazia nenhum trabalho caseiro; depois da entrada de Maria no Carmelo, acontecia-me, às vezes, para agradar a Deus, de tentar arrumar a cama ou de, na ausência de Celina, guardar os vasos de flores à noite. Como disse, era só por Deus que eu fazia essas coisas, portanto não devia esperar o agradecimento das criaturas. Ai! Era todo o contrário. Se Celina não demonstrasse contentamento pelos meus servicinhos, eu ficava contrariada e provava-o com minhas lágrimas...

Era verdadeiramente insuportável pela minha sensibilidade excessiva. Se me acontecesse causar involuntariamente aflição a alguém a quem amava, em vez de me controlar e não chorar, o que aumentava meu erro em vez de diminuí-lo, chorava como uma Madalena, e quando começava a consolar-me pela coisa que me levara a chorar chorava por ter chorado... Todos os raciocínios eram inúteis e não conseguia corrigir-me desse desagradável defeito. Não sei como acalentava a doce ideia de ingressar no Carmelo, estando ainda nos cueiros!..." Foi preciso Deus fazer um pequeno milagre para eu crescer de repente, e esse milagre deu-se num dia inesquecível de Natal, nessa noite luminosa que ilumina as delícias da Santíssima Trindade. Jesus, a doce criancinha recém-nascida, transformou a noite da minha alma em torrentes de luz... nessa noite em que se fez fraco e sofrido pelo meu amor, fez-me forte e corajosa, equipou-me com as suas armas e, desde essa noite abençoada, não saí vencida em nenhum combate. Pelo contrário, andei de vitória em vitória e iniciei, por assim dizer, "uma corrida de gigante!..." A fonte das minhas lágrimas secou e só voltou a jorrar pouquíssimas vezes e com dificuldade, o que justificou essa palavra que me fora dita: "Choras tanto na infância que, mais tarde, não terás mais lágrimas para derramar!..."

Foi em 25 de Dezembro de 1886 que recebi a graça de sair da infância, em suma, a graça da minha completa conversão. Estávamos voltando da missa do galo, em que tinha tido a felicidade de receber o Deus forte e poderoso. Ao chegar aos Buissonnets, alegrava-me por pôr os meus sapatos na lareira. Esse costume antigo causara-nos tanta alegria durante a infância que Celina queria continuar a tratar como um bebé, por ser a menor da família... Papai gostava de ver a minha felicidade, ouvir os meus gritos de alegria ao tirar cada surpresa dos sapatos encantados, e a alegria do meu Rei querido aumentava muito a minha. Mas, querendo Jesus mostrar-me que devia desfazer-me dos defeitos da infância, tirou de mim também as inocentes alegrias; permitiu que papai, cansado da missa do galo, sentisse tédio vendo os meus sapatos na lareira e dissesse essas palavras que me magoaram: "Enfim, felizmente, é o último ano!..." Subi a escada para ir tirar o meu chapéu, Celina, conhecendo a minha sensibilidade e vendo já as lágrimas nos meus olhos, ficou também com vontade de chorar, pois amava-me muito e compreendia o meu sofrimento: "Oh, Teresa!", disse-me, "não desce, causar-te-á tristeza demais olhar já os teus sapatos". Mas Teresa não era mais a mesma, Jesus havia mudado o coração dela! Reprimindo as minhas lágrimas, desci rapidamente e, comprimindo as batidas do coração, peguei os meus sapatos... então, colocando-os diante de papai, tirei alegremente todos os objectos, parecendo feliz como uma rainha. Papai ria também, voltara a ficar alegre e Celina pensava sonhar!... Felizmente, era uma doce realidade. Teresinha reencontrar a força de alma que perdera aos 4 anos e meio e ia conservar para sempre!...

(cont.)




01/11/2014

Deus não te arranca do teu ambiente

Deus não te arranca do teu ambiente, não te tira do mundo, nem do teu estado, nem das tuas ambições humanas nobres, nem do teu trabalho profissional... mas, aí, quer-te santo! (Forja, 362)

Convencei-vos de que a vocação profissional é parte essencial e inseparável da nossa condição de cristãos. O Senhor quer que sejais santos no lugar onde estais e no trabalho que haveis escolhido pelas razões que vos aprouveram: pela minha parte, todos me parecem bons e nobres – desde que não se oponham à lei divina – e capazes de ser elevados ao plano sobrenatural, isto é, enxertados nessa corrente de Amor que define a vida de um filho de Deus. (...).


Temos de evitar o erro de considerar que o apostolado se reduz ao testemunho de algumas práticas piedosas. Tu e eu somos cristãos, mas, ao mesmo tempo e sem solução de continuidade, cidadãos e trabalhadores, com obrigações bem nítidas que temos de cumprir exemplarmente, se deveras queremos santificar-nos. É Jesus Cristo que nos estimula: Vós sois a luz do mundo. (Amigos de Deus,  60–61)

Temas para meditar - 258


Novembro


Neste mês de Novembro a Igreja, como boa Mãe, multiplica os sufrágios pelas almas do Purgatório e convida-nos a meditar sobre o sentido da vida à luz do nosso fim último: a vida eterna, para a qual nos encaminhamos rapidamente.
A liturgia recorda-nos que às almas que se Purificam no Purgatório chega o amor dos seus irmãos da terra, que se pode merecer por elas e encurtar essa espera do Céu. A morte não destrói a comunidade fundada pelo Senhor, mas aperfeiçoa-a. A união em Cristo é mais forte que a separação corporal, porque o Espírito Santo é um poderoso vínculo de união entre os cristãos. Até eles flui o amor e a fidelidade dos que peregrinam pela terra levando-lhes alegria e encurtando esse pouco espaço que todavia os separa da bem-aventurança eterna; e isto, ainda que não haja expressa intenção de o fazer. Se se quer conscientemente, essa corrente de amor e alegria para com eles é ainda maior.

(m. schmausTeologia dogmática, Rialp, Madrid, vol II, Los novíssimos, p. 503, trad ama)

Tratado do verbo encarnado 17

Questão 2: Do modo da união do Verbo Encarnado

Art. 11 — Se à união da Encarnação precederam alguns méritos.

O undécimo discute-se assim. — Parece que certos méritos precederam à união da Encarnação.

1. — Pois, segundo a Escritura — Faça-se sobre nós a tua misericórdia da maneira que em ti temos esperado — diz a Glosa: Isto ensina o desejo que o profeta tinha da Encarnação e merecia que ela se realizasse. Logo, a Encarnação pode ser merecida.

2. Demais. — Quem merece alguma coisa merece aquilo sem o que essa coisa não pode ser obtida. Ora, os antigos Padres mereciam a vida eterna à qual não podiam chegar senão pela Encarnação. Assim, diz Gregório: Os que vieram a este mundo antes do advento de Cristo, por maior que tivessem a virtude da justiça, de nenhum modo podiam, separados do corpo, ser logo introduzidos no seio da pátria celeste, porque ainda não tinha vindo aquele que haveria de introduzir na sua perpétua morada as almas dos justos. Logo, parece que mereceram a Encarnação.

3. Demais. — Da B. V. Maria se canta que mereceu trazer o Senhor de todas as causas, o que se deu pela Encarnação. Logo, a Encarnação é susceptível de ser merecida.

Mas, em contrário, diz Agostinho: Aquele que descobrir no nosso chefe os méritos precedentes da sua singular geração, descubra também em nós, seus membros, os méritos precedentes da multiplicada regeneração. Ora, nenhuns méritos precederam a nossa regeneração, como o diz o Apóstolo: Não por obras de justiça que tivéssemos feito nós outros mas segundo a sua misericórdia salvou-nos pelo baptismo de regeneração. Logo, nem a geração de Cristo foi precedida de quaisquer méritos.

Em relação a Cristo mesmo, é manifesto, pelo que já dissemos, que nenhuns méritos seus puderam preceder-lhe à união. Pois, não admitimos que antes tivesse sido um puro homem e depois, pelo mérito de uma boa vida, tivesse obtido ser Filho de Deus, como o ensinou Fotino. Mas, dizemos que desde o princípio da sua concepção esse homem foi verdadeiramente Filho de Deus, como não tendo nenhuma outra hipóstase senão a de Filho de Deus, segundo o Evangelho: O Santo que há-de nascer de ti será chamado Filho de Deus. Donde, todas as obras desse homem se lhe seguiram à união. E portanto, nenhuma obra sua podia ter merecido a união.

Mas nem também as obras de qualquer outro homem podiam ter sido meritórias dessa união, por um mérito de condignidade (ex condigno). Primeiro, porque as obras meritórias do homem ordenam-se propriamente à bem-aventurança, que o é prémio da virtude e consiste no pleno gozo de Deus. Ora, a união da Encarnação, realizada no ser pessoal, transcende a união da alma bem-aventurada, com Deus, que supõe da parte dela um acto de fruição. E por isso não é susceptível de mérito. — Segundo, porque a graça não é susceptível de mérito, pois é o princípio do merecer. Donde, com maior razão, não pode a Encarnação ser merecida, ela que é o princípio da graça, segundo o Evangelho: A graça e a verdade foi trazida por Jesus Cristo. — Terceiro, porque a Encarnação de Cristo é reformadora de toda a natureza humana. E portanto, não pode ser merecida pelo mérito de nenhum homem particular: porque o bem de qualquer puro homem não pode ser a causa do bem de toda a natureza.

Contudo, por congruência (ex congruo) mereceram os Santos Padres a Encarnação, desejando e pedindo. Pois, era congruente que Deus os ouvisse a eles que lhe obedeciam. Donde se deduz clara a resposta à primeira objecção.

RESPOSTA À SEGUNDA. — É falso dizer que o mérito compreende tudo àquilo sem o que o prémio não pode ser conseguido. Pois, certas coisas não somente são necessárias para o prémio, mas o mérito pré exige-as, assim, a bondade divina, e a própria natureza do homem. E semelhantemente, o mistério da Encarnação é o princípio do mérito, pois, todos nós participamos da plenitude de Cristo, como diz o Evangelho.

RESPOSTA À TERCEIRA. — Dizemos que a Bem-aventurada Virgem mereceu trazer o Senhor de todas as coisas não por ter merecido que ele se encarnasse, mas por ter merecido, pela graça que lhe foi dada, um tal grau de pureza e de santidade. que pudesse congruamente ser a mãe de Deus.

Nota: Revisão da versão portuguesa por ama.


Evangelho diário, coment. Leit esp. (História de uma alma)

Tempo comum XXX Semana

Todos os Santos

Evangelho: Mt 5 1-12

1 Vendo Jesus aquelas multidões, subiu a um monte e, tendo-Se sentado, aproximaram-se d'Ele os discípulos. 2 E pôs-Se a falar e ensinava-os, dizendo: 3 «Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o Reino dos Céus. 4 «Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados. 5 «Bem-aventurados os mansos, porque herdarão a terra. 6 «Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados. 7 «Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia. 8 «Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus. 9 «Bem-aventurados os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus. 10 «Bem-aventurados os que sofrem perseguição por amor da justiça, porque deles é o Reino dos Céus. 11 «Bem-aventurados sereis, quando vos insultarem, vos perseguirem, e disserem falsamente toda a espécie de mal contra vós por causa de Mim. 12 Alegrai-vos e exultai, porque será grande a vossa recompensa nos céus, pois também assim perseguiram os profetas que viveram antes de vós.

Comentário

Este discurso de Jesus Cristo deve ter tido tal impacto naqueles que O escutaram que não admira que, terminado este, quisessem fazê-lo rei.
Ainda hoje em dia, com toda a sabedoria e conhecimentos que fomos acumulando, os cristãos encontram nestas palavras inúmeros temas de reflexão e, sobretudo, de esperança.
Sentimos que, de uma forma ou outra, o Senhor se referiu a cada um de nós em particular, às nossa dificuldades e problemas e, também, à forma de encarar as múltiplas circunstâncias que se nos vão deparando ao longo da vida.
Não admira… Ele, é o Senhor da Vida e da Morte, do passado, do presente e do futuro; tudo sabe e tudo conhece e, sobretudo, conhece-nos a nós, a cada um individualmente e sabe muito bem o que necessitamos para ser felizes.

(ama, comentário sobre Mt 5, 1-12, 2013.11.01)

Leitura espiritual



HISTÓRIA DE UMA ALMA

Santa Teresinha do Menino Jesus

Manuscrito "A" - Parte III

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O dia que se seguiu à minha primeira Comunhão foi ainda um dia bonito, mas repassado de melancolia. A roupa linda que Maria comprara para mim, todos os presentes recebidos, não me enchiam o coração. Não havia senão Jesus que pudesse contentar-me. Anelava pelo momento em que me fosse dado recebê-lo pela segunda vez. Cerca de um mês após minha primeira comunhão fui confessar-me para a festa da Ascensão, e animei-me a pedir licença de fazer a Santa Comunhão. Contra toda a expectativa, o senhor sacerdote mo permitiu, e coube-me a felicidade de ajoelhar à Sagrada Mesa entre Papai e a Maria. Que doce recordação guardei da segunda visita de Jesus! Desta vez ainda, corriam minhas lágrimas com inefável doçura. Sem cessar repetia a mim mesma as palavras de São Paulo: "Já não sou eu que vivo, Jesus é quem vive em mim!..." A partir dessa Comunhão, meu desejo de receber o Bom Deus tornou-se cada vez maior; obtive permissão de fazê-lo em todas as festas principais. Na véspera desses ditosos dias, Maria punha-me à noite sobre os joelhos e preparava-me, como o fizera para minha primeira Comunhão. Tenho lembrança de que me falou, certa vez, a respeito do sofrimento, dizendo-me que provavelmente não andaria por tal caminho, mas que o Bom Deus sempre me guiaria, como se faz com uma criança...

No dia seguinte, depois de ter comungado, as palavras de Maria voltaram-me ao pensamento. Senti nascer no coração grande desejo de sofrer e, ao mesmo tempo, a íntima segurança de que Jesus me reservava grande número de cruzes. Senti-me inundada de tão grandes consolações, que as considero como uma das maiores graças de minha vida. O sofrer tornou-se-me um atractivo. Tinha encantos que me arrebatavam, sem os conhecer com clareza. Até então, sofria sem amar o sofrimento; desde aquele dia senti por ele verdadeiro amor. Sentia também o desejo de amar só a Deus, de não encontrar alegria senão Nele. Muitas vezes, repetia em minhas comunhões as palavras da Imitação de Cristo: "Ó Jesus! Doçura inefável, convertei-me em amargura todas as consolações da terra!..." Esta oração saía-me dos lábios sem esforço, sem constrangimento. Vinha-me a impressão de que a repetia, não por minha vontade, mas como criança que repete as palavras que uma pessoa amiga lhe sugere... Mais adiante, a minha querida Mãe, dir-vos-ei como aprouve a Jesus realizar meu desejo, como só Ele foi sempre minha inefável doçura. Se disso vos falasse desde já, seria obrigada a antecipar-me ao tempo de minha adolescência. Ainda me restam muitas particularidades de minha infância que vos devo contar.

Pouco tempo depois da minha primeira Comunhão entrei em novo retiro para a Crisma. Tinha-me preparado, com bastante empenho, para receber a visita do Espírito Santo. Não conseguia compreender que se não dê maior cuidado à recepção deste sacramento de Amor. De ordinário, fazia-se um só dia de retiro para a Crisma. Como, porém, o Senhor Bispo não podia vir no dia marcado, coube-me o consolo de ter dois dias de solidão. Para nos distrair, a nossa mestra levou-nos ao Monte Cassino, onde colhi grandes margaridas para a festa do Corpo de Deus. Oh! Como estava exultante a minha alma! Igual aos apóstolos, eu aguardava, venturosa, a visita do Espírito Santo... Folgava com a ideia de que dentro em breve seria perfeita cristã, sobretudo que eternamente teria na fronte a misteriosa cruz que o bispo traça, quando faz a imposição do Sacramento ... Chegou afinal o ditoso momento. Não senti, quando desceu o Espírito Santo nenhum vento impetuoso, mas antes aquela leve brisa, cujo murmúrio o profeta Elias ouviu no monte Horeb... Nesse dia, recebi a força para sofrer, pois logo em seguida devia começar o martírio de minha alma... Foi minha querida e gentil Leónia que me serviu de madrinha. Estava tão comovida que não pôde conter a efusão de lágrimas todo o tempo da cerimônia. Recebeu, comigo, a Santa Comunhão, pois nesse belo dia tive ainda a felicidade de unir-me a Jesus.

Terminadas as deliciosas e inolvidáveis festas, a minha vida retornou ao ritmo ordinário, isto é, tive de retomar a vida colegial, que tanto me custava. Quando fiz minha Primeira Comunhão, apreciava a convivência com crianças de minha idade, todas cheias de boa vontade, tendo tomado, como eu, a resolução de praticar seriamente a virtude. Mas, era preciso pôr-me em contato com alunas bem diferentes, dissipadas, não desejosas de cumprir o regulamento, e isto me deixava muito desconsolada. Tinha um génio folgaz, mas não sabia entregar-me aos brinquedos próprios de minha idade. No recreio, apoiava-me muitas vezes contra uma árvore e contemplava o andamento do jogo, enquanto me engolfava em sérias reflexões! Inventara um jogo que me agradava. Era o de enterrar as pobres avezinhas que encontrávamos mortas debaixo das árvores. Muitas alunas tiveram gosto em ajudar-me, de sorte que nosso cemitério se tornou muito bonito, plantado de árvores e flores, proporcionais ao tamanho de nossos pequenos emplumados.
Gostava, outrossim, de contar histórias. Inventava-as na medida que me acudiam à imaginação. As minhas colegas rodeavam-me com entusiasmo, e de vez em quando alunas maiores integravam-se ao grupo de ouvintes. Ia continuando a mesma história por vários dias, pois tinha prazer em torná-la cada vez mais interessante, na proporção que via as impressões despertadas, marcadas na fisionomia de minhas companheiras. Sem embargo, a mestra logo me proibiu continuar a minha actividade oratória, pois queria ver-nos brincar e correr, e não discorrer...

Apanhava com facilidade o sentido das matérias que aprendia, mas tinha dificuldade em decorar os textos. Por isso, quanto ao catecismo, no ano que precedeu minha Primeira Comunhão, pedia quase todos os dias a permissão para decorá-lo no tempo dos recreios. Os meus esforços coroaram-se de bom êxito, e fui sempre a primeira. Perdendo casualmente meu lugar, por causa de uma única palavra esquecida, minha dor manifestava-se por lágrimas amargas, que o Padre Domin não sabia como estancar... Estava muito satisfeito comigo (quando não chorava), e chamava-me sua doutorazinha, por causa de meu nome Teresa. Certa vez, a aluna que vinha depois de mim, não soube formular a arguição de catecismo para sua colega. Depois de passar, em vão, toda a roda das alunas, o Sr. Padre voltou-se novamente para mim, declarando que ia verificar se eu merecia o lugar de primeira da classe. Em minha profunda humildade, era só o que esperava. Levantei-me com segurança, respondi às arguições, sem cometer erro nenhum, com grande surpresa de todo o mundo... Feita a minha Primeira Comunhão, continuei o meu zelo pelo catecismo até a saída do colégio. Dava boa conta dos estudos. Era quase sempre a primeira. Os meus maiores sucessos eram em História e redacção, Todas minhas mestras tinham-me como aluna muito inteligente. Outro tanto não acontecia em casa de Titio, onde passava por ignorantinha, boa e meiga, dotada de juízo recto, mas incapaz e desajeitada... Não me surpreende a opinião que Titio e Titia tinham e certamente ainda terão a meu respeito. Por ser muito tímida, quase não falava. Quando escrevia, meu rabisco e minha ortografia - nada mais natural - não eram de feição que encantassem... Verdade é que, em costurinhas, em bordados e noutras tarefas, me desempenhava bem, a gosto de minhas mestras. Mas, o modo desajeitado com que manejava meu trabalho de agulha justificava a opinião pouco lisonjeira que tinham de mim. Considero tudo isso como uma graça. Uma vez que o Bom Deus queria meu coração só para Si, já atendia a minha oração, quando "trocava em amargura as consolações da terra". Para mim, isso tornava-se tanto mais necessário, quanto mais não me conservaria insensível a louvores. Muitas vezes, gabavam diante de mim a inteligência das outras, e jamais a minha. Daí concluí que a não tinha, e resignei-me a carecer dela...

Meu coração, sensível e amoroso, facilmente ter-se-ia entregue, se tivesse encontrado um coração capaz de compreendê-lo... Tentei ligar-me a meninas de minha idade, principalmente a duas dentre elas. Tinha-lhes amor, e elas por sua vez me amavam tanto, quanto eram capazes de fazê-lo. Mas, que lástima! Como é mesquinho e volúvel o coração das criaturas!... Não demorei em perceber que o meu amor era incompreendido. Uma de minhas amigas precisou procurar a família, e voltou alguns meses depois. Durante a sua ausência, pensava nela e guardava cuidadosamente um anelzinho que me dera. Quando tornei a ver a minha companheira, grande foi minha alegria, mas não obtive, ainda mal, senão um olhar indiferente... Meu amor não fora compreendido. Percebi-o, e não mendiguei uma afeição que me era negada. O Bom Deus, porém, deu-me um coração tão leal que, amando com pureza, ama para sempre. Por isso, continuei a rezar pela minha companheira, e ainda lhe tenho afeição... Ao ver que Celina queria bem a uma de nossas mestras, quis imitá-la, mas não pude consegui-lo, pois não sabia conquistar as boas graças das criaturas. Ó ditosa ignorância! Como me livrou de grandes males!... Quanto não agradeço a Jesus de me fazer encontrar só "amargura nas amizades da terra"! Com um coração como o meu, deixar-me-ia prender e cercear as asas. Como pode ria, então, "voar e repousar?" Como pode unir-se intimamente a Deus, um coração entregue à afeição das criaturas?... Tenho, o sentimento de que não é possível. Sem beber da taça envenenada do amor por demais ardente das criaturas, sinto em mim que me não é possível estar equivocada. Vi tantas almas que, seduzidas por essa luz falsa, esvoaçaram como míseras mariposas e queimaram as asas. Depois, volveram-se à verdadeira e meiga luz do amor. Esta deu-lhes novas asas, mais brilhantes e mais ligeiras, a fim de poderem voar para junto de Jesus, Fogo Divino, "que arde sem se consumir". Oh! Eu o sinto, Jesus conhecia-me como fraca demais para me expor à tentação. Quiçá, deixar-me-ia queimar toda inteira pela enganadora luz, se a visse fulgurar diante dos olhos... Não aconteceu assim. Só encontrei amargura, onde almas mais robustas deparam com alegria, e desta se desfazem por fidelidade. Não tenho, portanto, nenhum mérito em me não ter entregue ao amor das criaturas, uma vez que só fui preservada pela grande misericórdia do Bom Deus!... Reconheço que, sem Ele, poderia cair tão baixo como Santa Madalena. E com grande doçura ecoa em minha alma a profunda palavra de Nosso Senhor a Simão... Eu o sei, "menos ama aquele, a quem menos se perdoa". Mas, não ignoro também que a mim Jesus perdoou mais do que a Santa Madalena, pois me perdoou por antecipação, porquanto me impediu que caísse. Oh! Pudera explicar o que sinto!... Dou aqui um exemplo que traduzirá um pouco meu modo de pensar. - Suponho que o filho de um entendido doutor depare no caminho com uma pedra, que o faz cair e fracturar um membro. De pronto lhe acorre o pai, ergue-o com amor, pensa-lhe as lesões, aplicando todos os recursos de sua arte. E o filho, completamente curado, logo lhe testemunha sua gratidão. Não resta dúvida, o filho tem todo o motivo de querer bem ao Pai! Farei, contudo, outra suposição ainda. Sabendo que, no caminho do filho, se encontra uma pedra, o pai apressa-se em tomar a dianteira, e remove-a, sem que ninguém o veja. O filho, por certo, objecto de seu previdente carinho, não  tendo conhecimento da desgraça, da qual o pai o livrara, não lhe mostrará gratidão, e ter-lhe-á menos amor do que se fora curado por ele... No entanto, se souber o perigo, do qual acaba de escapar, não o amará ainda mais? Ora, tal filha sou eu, objecto do amor previdente de um Pai, que enviou seu Verbo para resgatar não os justos, mas os pecadores ". Quer que eu o ame, porque me perdoou, não digo muito, mas tudo. Não esperava que eu muito o amasse, como Santa Madalena, mas quis que soubesse como me amou com um amor de inefável previdência, a fim de que agora o ame até a loucura!... Ouvi dizer que se não encontra alma pura mais amorosa do que uma alma arrependida. Oh! Quem me dera desmentir a afirmação!...

Percebo estar muito longe do meu assunto, motivo pelo qual me apresso em retomá-lo. O ano seguinte à minha Primeira Comunhão escoou-se quase todo sem provações interiores para minha alma. No retiro para a segunda Comunhão é que fui assaltada pela terrível doença dos escrúpulos... É preciso passar por tal martírio, para o compreender. Ser-me-ia impossível dizer quanto não sofri em ano e meio... Todos os meus pensamentos e as minhas mais acções mais simples se tornavam para mim motivo de perturbação. Só tinha sossego, quando os contava à Maria, e isto era-me muito penoso, por sentir a obrigação de lhe dizer todas as ideias extravagantes que me vinham à mente a respeito dela própria. Alijado o meu fardo, desfrutava um instante de paz, mas a paz desvanecia-se como um relâmpago, e logo começava novamente meu martírio. De quanta paciência não precisava minha querida Maria, para me ouvir, sem dar mostras de nenhum aborrecimento!... Mal chegava eu da Abadia, punha-se ela a arrumar-me os cabelos para o dia seguinte (pois, querendo agradar ao Papai, a rainhazinha andava todos os dias com os cabelos em cachinhos, para grande admiração das colegas, mormente das professoras que não viam crianças tão mimadas pelos pais). E durante a arrumação não parava de chorar, contando todos os meus escrúpulos. Como tivesse terminado os estudos, Celina voltou para casa no fim do ano, e a pobre Teresa, obrigada a ficar sozinha, não demorou a ficar doente, pois o único interesse que a mantinha interna consistia em estar com sua inseparável Celina, sem a qual "sua filhinha" já não poderia ali continuar... Deixei, pois, a Abadia na idade de 13 anos e continuei meus estudos, tomando várias aulas semanais em casa da Sra. Papinau". Era uma pessoa boníssima, muito culta, com uns ares de solteirona. Vivia com a mãe, e encantava ver-se o pequeno lar, que juntas constituíam a três (pois a gata fazia parte da família e eu tinha de suportar as suas sonecas em cima dos meus cadernos e, inclusive, admirar o seu porte). Tinha a vantagem de viver na intimidade da família. Como os Buissonnets ficavam muito longe para as pernas já um tanto envelhecidas da minha professora, ela pedira que fosse tomar as aulas em sua casa. Ao chegar, encontrava ordinariamente a velha senhora Cochain. Fitava-me "com os seus olhos grandes e límpidos", e depois chamava com voz descansada e sentenciosa: "Senhô rra Papineau... a Se nho rrita Teresa já chegou!". A sua filha respondia-lhe prontamente, com voz acriançada: "Já vou, Mamã". E logo começava a aula. Essas lições tinham a vantagem (além dos conhecimentos que adquiria) de fazer-me conhecer o mundo... Quem o diria?... Na sala, mobiliada à moda antiga, rodeada de livros e cadernos, presenciava muitas vezes visitas de todos os géneros, de sacerdotes, senhoras, moças, etc. Na medida possível, a conversa ficava por conta da Sra. Cochain, a fim de que a filha pudesse dar-me aula, mas, em tais dias, não aprendia grande coisa. Com o nariz metido no livro, ouvia tudo o que se falava, até o que para mim seria melhor não escutar. A vaidade insinua-se tão facilmente no coração!... Dizia uma senhora que eu tinha cabelos bonitos... Na saída, uma outra, julgando não ser ouvida, indagava quem era essa menina tão bonita. E tais palavras, tanto mais lisonjeiras, quanto não eram ditas diante de mim, deixavam-me na alma uma impressão de gozo, que claramente me indicava como eu era cheia de amor-próprio. Oh! Quanta compaixão não sinto das almas que se perdem!... É tão fácil perder-se nas sendas floridas do mundo... Não há dúvida, para uma alma mais formada a doçura que ele oferece, vem mesclada de amargura, e o imenso vácuo dos desejos não poderia preencher-se com louvores momentâneos... No entanto, se o meu coração desde o seu despertar não se erguera até Deus, se o mundo me tivera sorrido desde minha entrada na vida, que teria acontecido comigo?... Ó minha Mãe querida, com que gratidão canto as misericórdias do Senhor!... De acordo com as palavras da Sabedoria, não foi ele que "me retirou do mundo, antes que meu espírito se pervertesse com sua malícia, e que ad suas enganosas aparências me seduzissem a alma?" A Santíssima Virgem também velava a sua florzinha. Não querendo que perdesse o brilho ao contato com as coisas da terra, retirou-a para o alto da sua montanha, antes que desabrochasse... Enquanto aguardava o ditoso momento, Teresinha crescia no amor à sua Mãe do Céu. Para lhe dar prova desse amor, praticou uma acção que muito lhe custou, e que a despeito de sua extensão vou historiar em poucas palavras... Quase logo depois de minha admissão na Abadia, fui recebida na associação dos Santos Anjos. Apreciava muito as práticas de devoção que se me impunham, pois sentia um atractivo todo particular em rezar aos bem-aventurados espíritos celestiais, especialmente àquele que o Bom Deus me dera para ser companheiro do meu exílio. Algum tempo depois da minha Primeira Comunhão, a fita de aspirante a Filha de Maria substituiu a dos Santos Anjos. Antes, porém, de ser admitida na Associação da Santíssima Virgem, deixei a Abadia. Por ter saído antes de concluir os estudos, não tinha o direito de ingressar como antiga aluna. Considerando, contudo, que todas as minhas irmãs tinham sido "Filhas de Maria", tive receio de ser, menos do que elas, filha de minha Mãe do Céu, e fui com toda a humildade (apesar do muito que me custava) pedir a licença de ser recebida na Associação da Santíssima Virgem na Abadia. A mestra directora não quis recusar-me, mas pôs como condição que, duas vezes por semana, me recolhesse uma tarde na Abadia, para mostrar se era digna de ser admitida. Bem ao invés de me causar prazer, a concessão foi-me custosa ao extremo. Não tinha, como outras antigas alunas, uma professora amiga, com a qual pudesse passar algumas horas. Contentava-me, por conseguinte, em cumprimentar a mestra, e depois trabalhava em silêncio até ao final da lição programada. Ninguém me dava atenção, e por isso subia à tribuna do coro da capela, ficando diante do Santíssimo Sacramento até o momento em que Papai ia buscar-me. Esta era minha exclusiva consolação. Não era Jesus meu único amigo? Não conseguia falar senão com Ele. Fatigava-me a alma conversar com as criaturas, ainda que se tratasse de conversas piedosas... Sentia que era maior vantagem falar com Deus do que falar de Deus, pois em conversas espirituais se intromete muito amor próprio!... Oh! bem era, única e exclusivamente, pela Santíssima Virgem que me apresentava na Abadia... Por vezes, sentia-me sozinha. Muito sozinha. Como nos dias de minha vida de semi-interna, quando triste e doente espairecia no grande pátio, repetia as palavras que sempre me fizeram renascer paz e alento no coração: "A vida é o teu navio, não é tua morada!"... Quando ainda pequenina, estas palavras restituíam-me a coragem. Ainda agora, a despeito dos anos que apagam tantas impressões da piedade infantil, a imagem da embarcação enleva a minha alma, ajudando-lhe a suportar o exílio em paciência... Não nos diz também a Sabedoria que "a vida é como uma nau que sulca as ondas agitadas, e de cuja rápida passagem não fica nenhum vestígio?... " Quando penso tais coisas, minha alma submerge no infinito. Afigura-se-me que já abordo a praia da eternidade... Afigura-se-me receber os amplexos de Jesus... Creio avistar minha Mãe do Céu que me vem ao encontro na companhia do Papá... da Mamã... dos quatro anjinhos... Creio, afinal, gozar para sempre da verdadeira vida eterna em família...

(cont.)




Morte e Eternidade

Já desde a minha primeira infância, ao chegar Novembro, ouvi repetir a minha volta palavras que não esqueci ao longo da vida: “Bendito mês, que começa com todos os santos e termina com santo André”.

No Ângelus de 1 de Novembro, Bento XVI recordou, doutra forma, a verdade escondida nessas palavras do povo: “A Solenidade de todos os Santos é uma ocasião propícia para elevar o olhar das realidades terrenas, marcadas pelo tempo, à dimensão de Deus, a dimensão de eternidade e de santidade”.
Nenhum momento na vida do homem mais apropriado para ajudar-nos a “elevar o olhar” que o da morte de pessoas queridas, de amigos, de conhecidos que nos deixam depois de uma longa doença, ou que abandonam a terra de improviso e sem o anunciar.
Porque é um momento apropriado? Simplesmente, porque a morte põ à prova a qualidade do “amor” que se esconde no coração de todo o homem. Se não amamos, a morte de um ser querido pode levar-nos a descobrir que já estamos mortos, ainda que nos mantenhamos em pé, porque perdemos todo o sentido da nossa vida.
Muitas pessoas, na sociedade actual, esforçam-se por tirar da perspectiva da sua vida o horizonte da morte. A morte é um tema de conversação quase proibido. Há no ambiente um certo e impreciso medo à morte, talvez pela obstinação de não pensar o que o homem pode encontrar depois da morte.
Esse temor manifesta-se em fazer desaparecer até as cinzas dos defuntos, atirando-as ao mar, a um lago, ao vento. Outras vezes, o medo expressa-se no eliminar da nossa mente todo o juízo do nosso actuar e do nosso viver: nada vale a pena e a morte apagará para sempre a memória das nossas misérias. E quer-se apagar da mente, também, sequer a possibilidade de que haja céu e inferno. Na realidade, alguns querem simplesmente “morrer para sempre”; e temem descobrir na morte, que esse desejo é uma “pretensão inútil”.
A morte situa-nos, talvez sem nos dar muita conta, ante a ineludível pregunta sobre o sentido da nossa vida. E talvez nos faça descobrir a verdade destas palavras de Bento XVI:
 “O homem pode explicar-se, encontra o seu sentido profundo, só se Deus existe”
O cristão não tem medo do juízo – sabe que só Deus nos pode julgar - e Deus é pai que nos acolhe quando arrependidos voltamos para Ele. Sabe que existe céu e inferno. E não faz desaparecer as cinzas dos seus defuntos, simplesmente porque ao enterrá-las, poderá visitá-las, saudá-las, ainda que apenas seja um dia no ano, ajuda-o a não perder de vista a eternidade. A realidade da eternidade dá-lhe ar para respirar na atmosfera viciada que se encontra tão amiúde à sua volta.
 “O homem necessita da eternidade, e qualquer outra esperança é para ele demasiado breve, demasiado limitada”.
O antigo costume de visitar os cemitérios nestes dias é um ar fresco em qualquer momento do viver. E as flores com que se adornam as tumbas, além de um detalhe de carinho para com os nossos defuntos, são também um desejo de lhes expressar um afecto, um carinho que por vezes não lhes manifestamos durante a vida.
 “Também na visita aos cemitérios, ao mesmo tempo que lembramos laços de afecto com quem nos amou durante a nossa vida, recorda-nos que todos vamos para outra vida, mais para além da morte. Que o choro, devido ao distanciamento terreno, não prevaleça sobre a certeza da ressurreição, sobre a esperança de alcançar a bem-aventurança da eternidade”, recorda-nos o Papa.
Essa bem-aventurança eterna, a vida eterna com Deus Pai, Filho e Espírito, que pedimos ao Senhor tenha concedido já aos nossos defuntos.

ernesto juliá díaz

(trad. do castelhano por ama)

Nota do tradutor:
Não estou totalmente de acordo com o autor no que se refere a quanto diz sobre as cinzas dos defuntos já que no ponto de vista cristão – que é o meu – a cremação de um ente querido não tem a ver nem com o temor da morte nem com qualquer “vontade” de apagar a sua memória; esta estará, para sempre, bem viva no coração dos que ficam. Devolver as cinzas à terra é, na minha maneira de ver, dar um destino coerente aos restos corporais. O que sim me interessa sobremaneira é manter viva a sua memória e na oração diária, frequente e profundamente sentida impetrando Deus Pai que os tenha acolhido para todo o sempre nos Seus braços amorosos. 


António Mexia Alves