26/10/2014

Quem ama a Deus dá-se a si mesmo

O tempo é o nosso tesouro, o "dinheiro" para comprarmos a eternidade. (Sulco 882)

Que pena viver tendo como ocupação matar o tempo, que é um tesouro de Deus! Não há desculpas para justificar essa actuação. Que ninguém diga: só tenho um talento, não posso ganhar nada. Também com um só talento podes agir de modo meritório. Que tristeza não tirar partido, autêntico rendimento de todas as faculdades, poucas ou muitas, que Deus concede ao homem para que se dedique a servir as almas e a sociedade!


Quando o cristão mata o seu tempo na Terra, coloca-se em perigo de matar o seu Céu, se, pelo seu egoísmo, se retrai, se esconde, se despreocupa. Quem ama a Deus, não entrega só o que tem, o que é, ao serviço de Deus: dá-se a si mesmo. Não vê – em perspectiva rasteira – o seu eu na saúde, no nome, na carreira. (Amigos de Deus, 46)

Salvador



A chamada à salvação traz-no-la Cristo. Ele tem para o homem palavras de vida eterna (Jo 6,68); e dirige-se ao homem concreto que vive na terra. Dirige-se particularmente ao homem que sofre, no corpo ou na alma.


(São joão paulo ii, Homília em Lisboa 1982.05.14)

Tratado do verbo encarnado 11

Questão 2: Do modo da união do Verbo Encarnado

Art. 5 — Se em Cristo houve união de alma e de corpo.

O quinto discute-se assim — Parece que em Cristo não houve união de alma e de corpo.

1. — Pois, a união da nossa alma como o nosso corpo causa a pessoa ou a hipóstase do homem. Se pois, em Cristo, a alma estava unida ao corpo, resulta que constitui-se alguma hipóstase, da união de ambos. Ora, não a hipóstase do Verbo de Deus, que é eterna. Logo, haverá em Cristo alguma pessoa ou hipóstase, além da hipóstase do Verbo. O que vai contra o dito antes.

2. Demais. — Da união da alma e do corpo constitui-se a natureza da espécie humana. Ora, Damasceno diz, que em Nosso Senhor Jesus Cristo não podemos admitir unia espécie comum, Logo, nele não houve composição de alma e de corpo.

3. Demais. — A alma não se une ao corpo senão para vivificá-lo. Ora, o corpo de Cristo por dia ser vivificado pelo Verbo mesmo de Deus fonte e princípio da vida. Logo, em Cristo não houve união da alma e do corpo.

Mas, em contrário, o corpo não se chama animado senão pela sua união com a alma. Ora, dizemos que o corpo de Cristo é animado, segundo o canta a Igreja: Assumindo um corpo animado, dignou-se nascer de uma Virgem. Logo, em Cristo houve união da alma e do corpo.

Cristo é chamado homem univocamente com os outros homens, como sendo da mesma espécie que eles, segundo aquilo do Apóstolo: Fazendo-se semelhante aos homens. Ora, é da essência da espécie humana que a alma seja unida ao corpo, pois a forma não especifica senão por ser o acto da matéria, sendo este o termo da geração, pelo qual a natureza tende a realizar a espécie. Donde, é necessário admitir-se que em Cristo a alma estava unida ao corpo, sendo o contrário herético porque contraria a verdade da humanidade de Cristo.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJECÇÃO. — Foram levados por essa razão os que negaram a união da alma como o corpo, em Cristo, para não serem, assim, obrigados a admitir uma nova pessoa ou hipóstase em Cristo, pois, viam que no homem puro e simples a união da alma e do corpo constitui a pessoa. Mas isto dá-se no homem, que pura e simplesmente o é, porque nele a alma e o corpo estão unidos de modo a existirem por si. Mas em Cristo está um unido à outra corno adjuntos a um mais principal subsistente na natureza deles composta. E por isso, a união da alma e do corpo, em Cristo não constitui nova hipóstase ou pessoa, mas, esse conjunto advém à pessoa ou hipóstase preexistente. - Mas nem por isso daí se segue seja de menor eficácia a união da alma e do corpo em Cristo, do que em nós. Pois, em si mesma a união com o que é mais nobre não destrói a virtude ou a dignidade, mas as aumenta. Assim, a alma sensitiva, nos animais, constitui uma espécie, porque é considerada como forma última, não porém nos homens, embora em nós ela seja de maior poder e mais nobre, por causa da adjunção da ulterior e mais nobre perfeição da alma racional, como dissemos acima.

RESPOSTA À SEGUNDA. — As palavras de Damasceno podem entender-se em sentido duplo. — Num, como referentes à natureza humana. A qual não tem a essência de espécie comum, segundo existe num só indivíduo, mas enquanto abstracta de todos os indivíduos, quando objecto de uma pura contemplação do espírito, ou enquanto existente em todos os indivíduos. Ora, o Filho de Deus não assumiu a natureza humana, enquanto objecto da pura contemplação do intelecto, porque, assim, não teria assumido a natureza humana em a sua realidade. A menos que se não dissesse que a natureza humana é uma das ideias separadas, como os Platónicos concebiam o homem sem a matéria. Mas então o Filho de Deus não teria assumido a carne, contra as palavras do Evangelho, um espírito não tem carne nem ossos, como vós vedes que eu tenho. Semelhantemente, também não se pode dizer que o Filho de Deus assumiu a natureza humana como ela existe em todos os indivíduos de uma mesma espécie, porque então teria assumido todos os homens. Resta, pois, como Damasceno diz em seguida, no mesmo livro, que assumiu a natureza humana em a sua indivisibilidade (in átomo), isto é, na sua individualidade, mas não em outro indivíduo — que seja o suposto ou a hipóstase da referida natureza — diferente da pessoa do Filho de Deus. — Noutro sentido pode entender-se o dito de Damasceno, não como referente à natureza humana, de modo que da união da alma e do corpo não resulte uma natureza comum, que é a humana, mas deve referir-se à união das duas naturezas — a divina e a humana — das quais não resulta nenhuma terceira composição, que seria uma determinada natureza comum, porque então esse terceiro composto seria naturalmente predicado de muitos indivíduos. E tal é o que Damasceno pretende dizer, sendo por isso que acrescenta, Pois, nunca foi gerado, nem nunca o será, outro Cristo, ao mesmo tempo sujeito da divindade e da humanidade, na divindade e na humanidade, Deus perfeito e simultaneamente homem perfeito.

RESPOSTA À TERCEIRA. — O princípio da vida corporal é duplo. — Um, efectivo e, deste modo, o Verbo de Deus é o princípio de toda vida. De outro modo, um princípio de vida o é normalmente. Pois, sendo a vida a essência dos viventes, como diz o Filósofo, assim como cada ser é formalmente o que é pela sua forma, assim o corpo vive pela alma. E, deste modo, não é possível o corpo viver pelo Verbo, que não pode ser forma do corpo.

Nota: Revisão da versão portuguesa por ama.


Evangelho diário, coment., leit. espiritual (História de uma alma)

Tempo comum XXX Semana

Evangelho: Mt 22 34-40

34 Os fariseus, tendo sabido que Jesus reduzira ao silêncio os saduceus, reuniram-se. 35 E um deles, doutor da Lei, querendo pô-l'O à prova, perguntou-Lhe: 36 «Mestre, qual é o maior mandamento da Lei?». 37 Jesus disse-lhe: «”Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma, com todo o teu entendimento”. 38 Este é o maior e o primeiro mandamento. 39 O segundo é semelhante a este: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo”. 40 Destes dois mandamentos depende toda a Lei e os Profetas».
Comentário

O amor a Deus tem a ver com o Dom da Piedade.
O Espírito Santo inspira na nossa alma, no nosso coração essa necessidade, esse desejo de retribuir ao Senhor um pouco do amor que nos tem.

Que é imenso!
Pois é, deu a própria vida por nós!

Que não conseguiremos retribuir totalmente!
Pois não, mas, se nos empenharmos a sério Ele, na Sua Bondade Infinita, ficará tão agradecido que nos pagará com juros altíssimos e desproporcionados.

(ama, comentário sobre Mt 22, 34-40, 2013.08.23)


Leitura espiritual


 HISTÓRIA DE UMA ALMA


Santa Teresinha do Menino Jesus


Manuscrito "A" - Parte I

…/3

Eis aí mais uma passagem que deparo nas cartas de mamãe. Minha pobre Mãezinha já pressentia o fim do seu desterro: "As duas meninas não me preocupam, estão tão bem todas as duas, são temperamentos primorosos, serão por certo boas criaturas. Maria e tu estareis em perfeitas condições de educá-las. Celina não comete jamais a mínima falta voluntária. A pequerrucha será boa também. Por todo o ouro do mundo não diria uma mentira; é de uma finura de espírito como jamais a observei em nenhuma de vós".

"Estava ela outro dia na mercearia com Celina e Luísa. Falava de suas práticas e discutia fortemente com Celina. A senhora disse à Luísa: "Mas então o que quer ela dizer? Quando brinca no jardim não se ouve falar senão de práticas. A Sra. Gaucherin mete a cabeça para fora da janela num esforço de entender o que significa essa altercação sobre práticas..." A coitada da pequena faz a nossa felicidade, vai ser boa, já se vê pelo indício. Só fala do Bom Deus, por nada no mundo deixaria de fazer suas orações. Gostaria que a visses recitar pequenas fábulas, nunca presenciei algo de tão gentil. Encontra por si mesma a interpretação e a tonalidade que é preciso dar, mas isto é sobretudo quando diz: - "Criancinha de cabeça loura, onde imaginas que está o Bom Deus?" Quando ela chega às palavras: - "Ele está lá no alto do Céu azul", volve o olhar para 'cima com uma expressão angélica. Tão belo é que a gente não se cansa de fazê-la recitar. Há em seu olhar algo de tão celestial que nos deixa encantados!..."

Ó minha Mãe! Quão feliz era eu nessa idade! Já começava a desfrutar a vida. A virtude tinha encantos para mim, e eu estava, parece-me, nas mesmas disposições em que me acho agora, já dispondo de grande domínio sobre meus atos. - Ah! como se foram rapidamente os ensolarados dias de minha meninice, mas que doce impressão me deixaram na alma! Com prazer recordo os dias em que Papai nos levava consigo ao Pavilhão. As mínimas particularidades gravaram-se em meu coração... Lembra-me, antes de tudo, os passeios de Domingo, nos quais Mamãe sempre nos acompanhava. Sinto ainda as profundas e poéticas impressões 'que me nasciam na alma à vista dos trigais esmaltados de centáureas e flores campestres. Já era aficionada pelos longes. O espaço e os agigantados abetos, cuja ramagem chegava até ao chão, deixavam-me na alma impressão semelhante à que ainda hoje sinto quando contemplo a natureza... Muitas vezes nestes longos passeios encontrávamos com pobres e era sempre a Teresinha incumbida de dar-lhes a esmola, o que a deixava toda venturosa. Mas, também outras vezes, achando Papai que a caminhada ficava longa demais para sua rainhazinha, levava-a mais cedo de volta para casa (com grande desgosto dela). Para a consolar Celma enchia então de margaridas seu lindo cestinho e dava-lho, quando chegava em casa. A boa da vovó-", ainda mal, achava que a netinha tinha flores demais, tomava-lhe grande parte para sua imagem da Santa Virgem... Isso não agradava à Teresinha, mas ela muito se precavia para que nada dissesse. Tinha adquirido o bom hábito de nunca se queixar, mesmo quando lhe tiravam o que era seu, ou então quando era acusada injustamente. Preferia calar e não escusar-se. Não era mérito seu, mas virtude natural... Que pena que esta boa disposição se tenha desvanecido!

Oh! realmente, tudo me sorria na terra. Deparava com flores a cada passo que desse, e minha boa índole contribuía também para me tornar a vida agradável. Ia, porém, começar um novo período para minha alma. Devia passar pelo cadinho da provação e sofrer desde a minha infância, a fim de que pudesse ser oferecida mais cedo a Jesus. Assim como as flores da primavera começam a germinar debaixo da neve e desabrocham nos primeiros raios do Sol, assim também a florzinha, cujas reminiscências estou a escrever, teve que passar pelo inverno da provação...

Todos os pormenores da doença de nossa querida Mãe estão ainda vivos em meu coração. Lembro-me, principalmente, das últimas semanas que passou na terra. Celina e eu vivíamos como pequeninas exiladas. Todas as manhãs, a Sra. Leriche vinha buscar-nos, e passávamos o dia em casa dela. Um dia não tivemos tempo de fazer nossa oração antes de sair, e no caminho disse-me Celina bem baixinho: "Convém dizer-lhe que não fizemos nossa oração?..." - "Oh! sim", respondi-lhe. Então, com bastante timidez, disse-o à Sra. Leriche. Respondeu-nos ela: - "Está certo, minhas filhinhas, ireis fazê-la". E depois, largando-nos ambas num quarto grande, foi-se embora... Então Celina olhou para mim, e dissemos: "Ah! não é como a Mamãe... Sempre nos fazia recitar nossa oração!" ... Quando brincávamos com as crianças, o pensamento de nossa querida Mãe sempre nos acompanhava. Certa vez, tendo ganhado um lindo damasco, Celina abaixou-se e cochichou-me: "Não vamos comê-lo, dá-lo-ei à Mamãe". Que lástima! a coitada de nossa Mãezinha já estava doente demais para comer as frutas da terra. Já não se saciaria senão no Céu com a glória de Deus e não beberia senão com Jesus o misterioso vinho, do qual Ele falara em sua última Ceia, quando disse que o tomaria connosco no reino de seu Pai'.

A comovente cerimónia da Extrema-Unção também me ficou gravada na alma. Vejo ainda o lugar onde me achava ao lado de Celina. Todas as cinco estávamos pela ordem de idade, e nosso pobre Paizinho estava ali também e soluçava...

No próprio dia ou no dia imediato à partida da Mamãe, tomou-me nos braços, dizendo-me: "Vem beijar pela última vez tua pobre Mãezinha". E sem dizer nada cheguei os lábios à fronte de minha Mãe querida... Não me lembra ter chorado muito. Não dizia a ninguém os profundos sentimentos que experimentava... Olhava e escutava em silêncio... Ninguém tinha tempo de ocupar-se comigo. Por causa disso via muitas cousas que teriam a intenção de ocultar-me. Primeiramente, dei comigo diante da tampa do esquife... Fiquei longo tempo parada a contemplá-lo. Nunca tinha visto nenhum, e, no entanto, compreendia... Era tão pequena que, apesar de estar pouco alto o corpo da Mamãe, precisava erguer a cabeça para o avistar de cima, e parecia-me muito grande... muito triste... Quinze anos mais tarde, estive diante de outro esquife, o da Madre Genoveva 4. Tinha a mesma medida que o da Mamãe, e julguei estar ainda nos dias de minha infância!... Todas ás minhas reminiscências retornaram a tropel. Era por certo a mesma Teresinha que estava a olhar, mas havia crescido e o esquife parecia-lhe pequeno. Já não precisava erguer a cabeça para o enxergar. Já não a erguia senão para contemplar o Céu que lhe parecia bem alegre, pois todas as suas provações tinham tomado um fim e o inverno de sua alma passara para sempre...

No dia que a Igreja lançou a bênção sobre os despojos mortais de nossa Mãezinha do Céu, nosso Deus quis dar-me outra na terra, e quis que a escolhesse livremente. Está vamos juntas, todas as cinco, a olhar umas às outras, Luísa também estava ali. Quando viu Celina e a mim disse: "Pobres pequenas, já não tendes Mãe!..." Então Celina lançou-se aos braços de Maria e disse: "Pois bem! Mamãe serás tu". Eu, habituada a fazer igual a ela, voltei-me, no entanto, para vós, minha Mãe, e como se o porvir já tivesse rompido seu véu, atirei-me aos vossos braços, exclamando "Pois, sim, para mim Paulina será Mamãe!"

Como o disse mais acima, foi a partir dessa época de minha vida que tive de iniciar o segundo período de minha existência, o mais doloroso dos três, mormente desde a entrada no Carmelo daquela que tinha escolhido como minha segunda "Mamãe". Este período vai da idade de quatro anos e meio até a data de catorze anos, época em que recuperei minha índole de criança, bem justamente quando entrava no lado sério da vida.

Devo dizer-vos, minha Mãe, que depois da morte da Mamãe minha boa índole mudou por completo. Tão viva; tão expansiva, que era, fiquei tímida e frouxa, sensível a mais não poder. Bastava um olhar para me desfazer em lágrimas. Era preciso que ninguém me desse maior atenção para me sentir contente. Não podia tolerar a companhia de pessoas estranhas, e só recuperava minha alegre disposição na intimidade da família... Continuava, entretanto, a ser cercada do mais sensível carinho. Ao amor que já possuía, o tão meigo coração do Papai teve por acréscimo um amor verdadeiramente maternal! Minha Mãe, vós e Maria não éreis para mim as mais carinhosas e mais abnegadas das mães? Ah! se o Bom Deus não tivesse prodigalizado à sua florzinha seus raios benfazejos, ela nunca teria podido aclimar-se na terra. Era ainda débil demais para suportar chuvas e tempestades. Precisava de calor, de um orvalho suave, de um bafejo primaveril. Nunca careceu de todos estes benefícios. Jesus lhos fez encontrar até debaixo da neve da provação!

Não senti nenhum desgosto por deixar Alençon. Crianças gostam de mudança e com prazer vim para Lisieux. Tenho lembrança da viagem, da chegada pela tarde à casa de minha tia. Vejo ainda Joana e Maria que nos aguardavam à porta... Estava muito satisfeita de ter umas priminhas tão amáveis. Gostava tanto delas como de minha tia, e sobretudo de meu tio; somente que ele me fazia medo e não me sentia tão à vontade em sua casa como nos Buissonnets, onde minha vida era realmente feliz... Logo de manhã vínheis para junto de mim a perguntar-me se já entregara meu coração ao Bom Deus. Em seguida me púnheis a roupa, enquanto me faláveis Dele e depois ao vosso lado fazia minha oração. Depois, vinha a lição de leitura. A primeira palavra que consegui soletrar sozinha foi esta: "Céus". Minha querida madrinha encarregava-se das aulas de caligrafia, e vós, minha Mãe, de todas as outras. Não tinha muita facilidade de aprender, mas dispunha de bastante memória. O catecismo e antes de tudo a história sagrada eram as minhas preferências, estudava-os com alegria. Mas a gramática fazia-me às vezes derramar lágrimas... Estais lembrada do masculino e do feminino?

Logo que terminava a aula, subia ao mirante e levava a papai minha caderneta e minha classificação. Como ficava radiante, quando lhe podia dizer: "Tenho 5 com louvor, foi Paulina a primeira que o declarou!..." Pois, quando vos perguntava se tinha 5 com louvor e vós me dizíeis que sim, aos meus olhos era uma nota a menos. Vós também me dáveis bons pontos, e quando tinha alcançado certo número deles, ganhava um prêmio e uma folga. Lembro-me de 14 que os dias de folga se me afiguravam mais longos do que os demais, o que vos dava prazer, por demonstrar que não apreciava ficar sem nenhuma ocupação.

Todas as tardes ia a pequeno passeio com papai. Fazíamos juntos a nossa visita ao Santíssimo Sacramento, e cada dia visitávamos uma nova igreja. Assim entrei pela primeira vez na capela do Carmelo. Papai mostrou-me as grades do coro, dizendo-me que atrás delas havia religiosas. Muito longe estava de pensar que, nove anos mais adiante, me encontraria entre elas! ...

Depois do passeio (durante o qual papai me comprava sempre um presentinho de um ou dois soldos), recolhia-me em casa. Fazia então minhas lições. A seguir, ficava todo o resto do tempo a saltitar no jardim em volta do papai, pois não sabia brincar com boneca. Para mim era grande alegria preparar chás com grãozinhos e com cascas de árvores que encontrava pelo chão. Levava-os depois ao papai numa linda xícara pequena. O coitado do paizinho largava sua ocupação e depois sorridente fazia de conta que tomava. Antes de me devolver a xícara perguntava-me (como que em segredo) se era para jogar fora o conteúdo. As vezes, dizia que sim, mas o mais frequente era levar de volta meu precioso chá, com a intenção de tornar a servi-lo várias vezes... Gostava de cultivar minhas florzinhas no jardim que papai me tinha dado. Entretinha-me em armar altarzinhos no vão que havia ao centro do muro. Quando terminava a obra, corria a papai e, levando-o comigo, dizia-lhe que fechasse bem os olhos e só os abrisse no momento que lho mandasse. Fazia tudo o que eu queria, e deixava-se conduzir até a frente do meu jardinzinho. Então eu gritava: "Papai, abre os olhos!" Ele abria-os e extasiava-se para me dar prazer, admirando o que eu julgava ser uma obra-prima!... Seria um nunca acabar se quisera contar mil pequenos episódios desse género, que me acodem profusamente à memória... Ah! como poderia enumerar todos os carinhos que "Papai" prodigalizava à sua rainhazinha? Há cousas que o coração sente, mas que a palavra e a própria idéia não conseguem formular...

Bonitos para mim eram os dias em que meu "rei querido" me levava à pescaria consigo. Tinha tanto amor ao campo, às flores e às aves! Tentava às vezes pescar com minha varinha, mas de preferência ia sentar sozinha na relva florida. Meus pensamentos aprofundavam-se bastante e, sem saber o que era meditar, minha alma mergulhava em autêntica oração... Ouvia ruídos ao longe... O murmúrio do vento e até a música indecisa de soldados, cuja sonoridade me chegavam aos ouvidos, melancolizavam suavemente meu coração... A terra parecia-me lugar de degredo, e eu sonhava com o Céu... A tarde passava rápida, e dentro em pouco era hora de regressar aos Buissonnets, Antes de partir, porém, tomava o lanche trazido no meu cestinho. Mudara de aspecto, a linda merenda com geleia de fruta que me tínheis preparado. Em lugar da cor ativa, já não via senão uma ligeira mancha cor de rosa, toda ressequida e amarfanhada... Então a terra se me apresentava mais tristonha ainda, e compenetrava-me de que só no Céu haverá alegria sem anuviamento.. .

A propósito de nuvens, lembro-me de que um dia o formoso Céu azul campestre se anuviou e logo começou a zunir a tempestade. Os coriscos sulcavam as nuvens carregadas, e vi cair um raio a pouca distância. Longe de ficar com medo, extasiava-me, tendo a impressão de que o Bom Deus estava tão perto de mim!...

Papai não estava, de modo algum, tão contente como sua rainhazinha. Não que a tempestade lhe incutisse medo, mas porque o capim e os malmequeres (mais altos do que eu) brilhavam como pedrarias preciosas, tendo nós de atravessar vários vergéis antes de chegar a um caminho. E meu querido paizinho, temeroso que os aljôfares molhassem sua filhinha, tomou-a às costas, apesar da carga dos apetrechos de pesca.

Nos passeios que fazia com ele, o papai gostava de me mandar entregar a esmola aos pobres que encontrássemos. Certo dia vimos um que se arrastava com dificuldade em muletas. Acerquei-me para lhe dar um óbolo. Mas, não se julgando bastante pobre a ponto de aceitar esmola, ele olhou-me com triste sorriso e não quis pegar o que lhe oferecia. Não consigo descrever o que se passou em meu coração. Quisera consolá-lo e reconfortá-lo. Em lugar disso, porém, julguei que o tinha magoado. O pobre doente adivinhou por certo meu pensamento, pois que o vi virar-se para trás e envolver-me num sorriso. Papai acabava de comprar um doce para mim. Bem me veio a vontade de lho dar, mas não tive coragem. Ainda assim queria dar-lhe alguma cousa que não me pudesse refugar, pois sentia por ele uma simpatia muito grande. Ocorreu-me então ter ouvido falar que, no dia da primeira comunhão, a gente obteria tudo o que pedisse. Este pensamento foi um consolo para mim, e disse comigo mesma, embora só tivesse seis anos ainda: "Rezarei pelo meu pobre no dia da minha primeira comunhão". Cumpri a promessa cinco anos mais tarde, e espero que o Bom Deus tenha atendido a oração que me inspirara a fazer-lhe por um de seus membros sofredores...

Tinha muito amor ao Bom Deus, e amiúde lhe oferecia meu coração, valendo-me da breve fórmula que mamãe me ensinara. No entanto, certo dia, ou melhor, certa noite do lindo mês de Maio, cometi uma falta que bem merece referência. Deu-me grande motivo de humilhar-me, e a respeito dela creio ter tido contrição perfeita. Sendo muito pequena para frequentar o mês de Maria, ficava com Vitória' e fazia com ela minhas devoções diante do meu altarzinho do mês de Maria, adornado de acordo com minha capacidade. -Tudo era tão miudinho: castiçais e vasos de flores, de sorte que dois fósforos, à guisa de velas, clareavam tudo perfeitamente. As vezes, Vitória fazia-me a surpresa de dar-me uns pedacinhos de torcida, mas era caso raro. Uma noite, estando tudo prestes para nos pormos em oração, digo-lhe: "Vitória, queres começar com o "Lembrai-vos", que vou acender". Ela fez menção de começar, mas não disse palavra, e olhava-me rindo. Eu que via meus preciosos fósforos consumirem-se rapidamente, supliquei-lhe fizesse a oração, e ela continuou calada. Levantei-me então e pus-me a dizer-lhe, com voz gritada, que era maldosa, e, abandonando minha habitual brandura batia o pé com toda a minha força... A pobre da Vitória já não tinha vontade de rir. Olhou para mim com estranheza, e mostrou-me as torcidas que me havia trazido... Depois de verter lágrimas coléricas, derramei lágrimas de sincero arrependimento, com o firme propósito de não tornar a fazê-lo!...

(cont.)





25/10/2014

Não nos deve sobrar o tempo. Nem um segundo.

Consolaste-te com a ideia de que a vida é gastar-se, é queimá-la no serviço de Deus. Assim, gastando-nos integralmente por Ele, virá a libertação da morte, que nos dará a posse da Vida. (Sulco, 883)

Não nos deve sobrar o tempo. Nem um segundo. E não exagero! Trabalho há sempre. O mundo é grande e são milhões as almas que não ouviram ainda falar claramente da doutrina de Cristo. Dirijo-me a cada um de vós. Se te sobra tempo, medita um pouco: é muito possível que vivas no meio da tibieza, ou que, sobrenaturalmente, sejas um paralítico. Não te mexes, estás parado, estéril, sem realizar todo o bem que deverias comunicar aos que se encontram a teu lado, no teu ambiente, no teu trabalho, na tua família.

Pensemos na nossa vida com valentia. Por que é que às vezes não conseguimos os minutos de que precisamos para terminar amorosamente o trabalho que nos diz respeito e que é o meio da nossa santificação? Por que descuidamos as obrigações familiares? Por que é que se nos mete a precipitação no momento de rezar ou de assistir ao Santo Sacrifício da Missa? Por que nos faltará a serenidade e a calma para cumprir os deveres do nosso estado e nos entretemos sem qualquer pressa nos caprichos pessoais? Podeis responder-me: são coisas pequenas. Sim, com efeito, mas essas coisas pequenas são o azeite, o nosso azeite, que mantém viva a chama e acesa a luz. (Amigos de Deus, 41–42)

Marca de Deus




As criaturas são como um rasto da passagem de Deus. Por estas marcas se rastreará a Sua grandeza, poder e sabedoria e todos os seus atributos.



(S. joão da cruz Cântico espiritual 5 3)

Tratado do verbo encarnado 10

Questão 2: Do modo da união do Verbo Encarnado

Art. 4 — Se a pessoa de Cristo é composta.

O quarto discute-se assim. — Parece que a pessoa de Cristo não é composta.

1. — Pois a pessoa de Cristo não difere da pessoa ou hipóstase do Verbo, como se demonstrou. Ora, no Verbo não é uma coisa a pessoa e outra, a natureza, como resulta do que foi dito na Primeira Parte. Sendo, pois, a natureza do Verbo simples, segundo se demonstrou na Primeira Parte, é impossível que a pessoa de Cristo seja composta.

2. Demais. — Toda composição se compõe de partes. Ora, a natureza divina não pode incluir a noção de parte, porque toda parte é, por natureza, imperfeita. Logo, é impossível a pessoa de Cristo ser composta de duas naturezas.

3. Demais. — O que é composto de partes há-de ser homogéneo com elas, assim de corpos não há-de compor-se senão o corpo. Se, pois, há em Cristo uma composição de duas naturezas, essa não será, por consequência, pessoa, mas, natureza. E assim, a união em Cristo ter-se-á sido feita em a natureza. O que é contra o dito antes.

Mas, em contrário, diz Damasceno: Em Nosso Senhor Jesus Cristo conhecemos duas naturezas mas, uma só hipóstase, composta de ambas.

A pessoa ou a hipóstase de Cristo pode ser considerada a dupla luz. — Primeiro, quanto ao que essencialmente é. E então, é absolutamente simples, como o é a natureza do Verbo. — De outro modo, segundo a essência da pessoa ou da hipóstase, à qual é próprio subsistir em alguma natureza. E, então, a pessoa de Cristo subsiste em duas naturezas. Por onde embora seja um só ser subsistente tem contudo vários fundamentos o seu subsistir. E assim, a pessoa é chamada composta, enquanto subsiste em duas coisas distintas·

Donde se deduz clara a RESPOSTA À PRIMEIRA OBJECÇÃO.

RESPOSTA À SEGUNDA. — Essa composição da pessoa, de naturezas, não se diz que é em razão de partes, mas antes, em razão de número, como tudo aquilo, em que duas coisas convêm, pode ser considerado composto delas.

RESPOSTA À TERCEIRA. — Nem em toda a composição se verifica que o composto é homogéneo com os componentes, mas só quando se trata de partes do contínuo, pois, o contínuo não se compõe senão de contínuos. Mas, o animal compõe-se de alma e de corpo, não sendo nenhum deles o animal.

Nota: Revisão da versão portuguesa por ama.


Evangelho diário, coment., leit. espiritual (História de uma alma)

Tempo comum XXIX Semana

Evangelho: Lc 13 1-9

1 Neste mesmo tempo chegaram alguns a dar-Lhe a notícia de certos galileus, cujo sangue Pilatos misturara com o dos sacrifícios deles. 2 Jesus respondeu-lhes: «Vós julgais que aqueles galileus eram maiores pecadores que todos os outros galileus, por terem sofrido tal sorte? 3 Não, Eu vo-lo digo; mas, se não fizerdes penitência, todos perecereis do mesmo modo. 4 Assim como também aqueles dezoito homens sobre os quais caiu a torre de Siloé e os matou; julgais que eles também foram mais culpados que todos os outros habitantes de Jerusalém? 5 Não, Eu vo-lo digo; mas, se não fizerdes penitência, todos perecereis do mesmo modo». 6 Dizia também esta parábola: «Um homem tinha uma figueira plantada na sua vinha. Foi buscar fruto e não o encontrou. 7 Então disse ao vinhateiro: Eis que há três anos venho buscar fruto a esta figueira e não o encontro; corta-a; para que está ela inutilmente a ocupar terreno? 8 Ele, porém, respondeu-lhe: Senhor, deixa-a ainda este ano, enquanto eu a cavo em volta e lhe deito estrume; 9 se com isto der fruto, bem está; senão, cortá-la-ás depois».

Comentário:

O Dono da vinha, que é o Senhor de quanto existe, tem todo o direito a colher os frutos do que plantou.
Quando não os encontra chama quem pôs à frente da sua propriedade para que lhe dê contas do que se passa.
A Santa Igreja tem, como missão principal, levar os seus filhos, os homens, a dar frutos e, para tal, serve-se dos meios que o próprio Senhor pôs à sua disposição.
O apostolado que não se detém nunca perante qualquer dificuldade, tenta uma e outra vez cumprir a sua tarefa de levar todos a Cristo. Leve o tempo que levar!
Com a Doutrina, os Sacramentos envida todos os esforços para cumprir o mandato divino.

(ama, comentário sobre Lc 13, 1-9, 2013.10.26)


Leitura espiritual


 HISTÓRIA DE UMA ALMA


Santa Teresinha do Menino Jesus

Manuscrito "A" - Parte I

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Eu gostava muito de minha querida madrinha. Sem deixar perceber, prestava muita atenção em tudo que se fazia e se dizia ao meu redor. Tenho a impressão de que julgava as coisas como agora. Escutava atentamente o que Maria ensinava a Celina, para fazer como ela. Depois de sua saída da Visitação, para receber licença para entrar em seu quarto durante as aulas que Celina lhe dava, comportava-me muito bem e fazia tudo que ela mandava. Por isso, me enchiam de presentes que, apesar do pouco valor, muito me alegravam.

Eu tinha muito orgulho de minhas duas irmãs maiores, mas meu ideal de criança era Paulina... Quando comecei a falar e mamãe me perguntava: "Em quem estás pensando?", a resposta era sempre a mesma: "Em Paulina...!" Outras vezes, passava meu dedinho na vidraça e dizia: "Estou escrevendo: Paulina!..."

Frequentemente ouvia dizer que Paulina seria religiosa, e, então, sem saber o que significava isso, pensava: Eu também serei religiosa. Esta é uma de minhas primeiras recordações e, desde então, nunca mudei de intenção... Fostes vós, querida Madre, a pessoa que Jesus escolheu para me fazer noiva dele; não estavas na ocasião perto de mim, mas já se havia formado um laço entre nossas almas... Éreis meu ideal, eu queria parecer-me convosco, e foi o vosso exemplo que me atraiu, desde os dois anos de idade, ao Esposo das virgens. Quantos doces pensamentos quisera confiar-vos! Mas preciso prosseguir a história da florzinha, com sua história completa e geral, pois se eu quisesse falar detalhadamente de suas relações com "Paulina", teria que abandonar todo o restante...!

Minha querida Leoninha também tinha um lugar importante no meu coração. Amava-me muito. Quando toda a família saía para passear, à tarde, ela cuidava de mim... Parece-me ainda ouvir suas agradáveis cantigas para embalar meu sono... Procurava sempre me agradar e eu sofreria muito se lhe desse algum desgosto. Lembro-me muito bem de sua primeira comunhão, especialmente do momento em que me pôs no colo para entrarmos na casa paroquial. Achei tão bonito ser carregada por uma irmã maior, toda vestida de branco como eu...! À noite, colocaram-me para dormir cedo, pois eu era muito pequena para ficar para o jantar festivo; mas ainda vejo papai trazendo, no momento da sobremesa, pedaços do bolo para sua rainhazinha.

No dia seguinte, ou alguns dias depois, fomos com mamãe à casa da coleguinha de Leônia. No dia seguinte, ou poucos dias depois, fomos com mamãe à casa da companheirinha de Leônia. Acredito que foi naquele dia que nossa boa mamãezinha nos levou atrás de uma parede para nos dar vinho depois do jantar (que nos servira a pobre senhora Dagorau), pois não queria desagradar à boa mulher e tampouco queria que nos faltasse algo... Como é delicado o coração de uma mãe! Sabe manifestar sua ternura com mil cuidados antecipados nos quais ninguém pensaria...!

Agora, resta-me falar da minha querida Celina, a companheirinha de minha infância, mas as recordações são tantas, que não sei quais escolherei. Vou extrair algumas passagens das cartas que mamãe vos mandava para a Visitação, mas não copiarei tudo, porque me alongaria demais.

No dia 10 de julho de 1873 (ano de meu nascimento), eis o que vos dizia: «A ama trouxe Teresinha na quinta-feira. Passou rindo o tempo todo. Foi a Celininha de quem mais gostou. Ria às gargalhadas com ela. Parece que já quer brincar e não demorará a fazê-lo. Fica em pé sobre as perninhas duras como estacas. Creio que em breve começará a andar e terá bom carácter. Parece muito inteligente e tem um aspecto de predestinada..."

Mas foi sobretudo depois de desmamada que demonstrei meu afeto por minha querida Celininha. Nós nos compreendíamos muito bem; só que eu era muito mais esperta e menos ingênua que ela. Mesmo sendo três anos e meio mais nova, parecíamos ter a mesma idade. Eis o trecho de uma carta de mamãe, no qual vereis o quanto Celina era boa e eu má:
«Minha Celininha é totalmente inclinada à virtude. É uma inclinação arraigada em seu íntimo. Tem alma pura e repugnância ao pecado. Quanto ao pequeno furão ainda não sabemos como será. É tão pequeno e atrapalhado! Tem inteligência superior à de Celina, mas é menos doce e, sobretudo, de uma teimosia quase indomável. Quando diz "não", nada a faz ceder; ainda que a colocássemos o dia todo no porão, ainda preferiria passar a noite aí a ter que dizer "sim".
"Porém, tem um coração de ouro, é muito carinhosa e muito franca, é estranho vê-la correr atrás de mim para confessar algo - Mamãe, empurrei Celina uma vez, bati nela uma vez, mas não vou fazer mais - (é assim em tudo o que faz). Quinta-feira à noite, fomos dar um passeio nos arredores da estação ferroviária. Quis a todo custo entrar na sala de espera para ir buscar Paulina. Corria à nossa frente com uma alegria contagiante. Porém, quando percebeu que era preciso voltar para casa sem embarcar para ir buscar Paulina, chorou durante todo o percurso".

Esse último trecho da carta me faz lembrar a felicidade que sentia vendo-vos voltar da Visitação, vós, querida Madre, me pegáveis no colo e Maria carregava Celina. Então, fazia -vos mil carícias e inclinava-me para trás, a fim de admirar vossa grande trança... e me dáveis um tablete de chocolate que tínheis guardado durante três meses, imagineis que relíquia era para mim!...

Lembro-me também da viagem que fiz a Le Mans. Era a primeira vez que viajava de trem. Que alegria ver-me viajando sozinha com mamãe!... Porém, não sei mais por quê, pus-me a chorar e essa pobre mamãe só pôde apresentar à minha tia de Le Mans uma feiurinha rubra pelas lágrimas vertidas a caminho... Não conservei lembrança alguma do parlatório, só do momento em que minha tia me entregou um ratinho branco e uma cestinha de papel bristol cheia de bombons sobre os quais havia dois bonitos anéis de açúcar bem do tamanho do meu dedo; logo gritei: "Que bom! tem um anel para Celina". Mas que tristeza! Peguei minha cestinha pela alça, dei a outra mão a mamãe e partimos. Depois de alguns passos, olhei minha cestinha e vi que meus bombons estavam quase todos esparramados pela rua, como as pedras do pequeno polegar... Olhei com mais atenção e constatei que um dos preciosos anéis sofrera a sorte fatal dos bombons... Não tinha mais nada para dar a Celina!... nesse momento, minha dor explode, peço para voltar, mamãe não parece me dar atenção. Era demais. Aos gritos seguiram-se minhas lágrimas... Não conseguia compreender como ela não compartilhava da minha tristeza e isso aumentava muito a minha dor...

Agora volto às cartas nas quais mamãe vos fala de Celina e de mim. É o melhor meio de que disponho para revelar-vos meu carácter. Eis um trecho no qual meus defeitos despontam com intenso brilho.

"Eis que Celina brinca com a pequena de jogar cubos, brigam de vez em quando. Celina cede para ter uma pérola na sua coroa. Vejo-me obrigada a corrigir esse pobre bebé, que fica terrivelmente furioso quando as coisas não andam como ela quer e rola por terra como uma desesperada, acreditando que tudo está perdido. Há momentos em que é mais forte que ela, fica sufocada. É uma criança muito agitada, porém muito mimosa e muito inteligente, lembra-se de tudo".

Estais vendo, Madre, como eu estava longe de ser uma menina sem defeitos! nem se podia dizer de mim "Que era boazinha quando dormia", pois de noite era ainda mais agitada que de dia, mandava para os ares todas as cobertas e (embora dormindo) dava cabeçadas na madeira da minha caminha; a dor me despertava e então dizia: "Mãe, bati-me!..." Essa pobre mãe era obrigada a levantar-se e constatava que, realmente, tinha galos na testa, que eu me batera. Cobria-me e voltava a deitar-se, mas depois de algum tempo eu recomeçava a me bater. Tanto que foram obrigados a me amarrar na minha cama. Todas as noites Celininha vinha amarrar as numerosas cordas destinadas a impedir o duendezinho de se chocar e acordar mamãe. Esta medida deu bom resultado e passei a ficar boazinha enquanto dormia...-
Havia ainda outro defeito que tinha (quando acordada) e do qual mamãe não fala em suas cartas. Era um grande amor-próprio. Disso vos darei apenas dois exemplos a fim de não alongar demais minha narração. – Mamãe disse-me um dia: - "Minha Teresinha, se te prontificares a beijar o chão, dar-te-ei um cinco centavos". Para mim cinco centavos eram uma verdadeira fortuna. Para o ganhar, não me era necessário diminuir minha altura, pois meu pequeno porte não constituía grande distância entre mim e o chão. Minha altivez, no entanto, se revoltou com a ideia de "beijar o chão". Mantendo-me bem empertigada, digo à mamãe: - "Oh! não, minha mãezinha, prefiro ficar sem os cinco centavos..."
De outra feita tínhamos de ir até Grogny à casa da Sra. Monnier. Mamãe falou à Maria me pusesse o lindo vestido tido azul celeste, com guarnição de rendas, mas não me deixasse com os braços nus, para não se queimarem ao sol. Deixei que me vestissem com aquela displicência que deveria ser própria de crianças com a minha idade; mas, interiormente, pensava que teria ficado muito mais graciosa com meus bracinhos nus.

Com uma índole como a minha, se fosse criada por pais carentes de virtude, ou até se fosse como Celina mimada por Luísa, ter-me-ia tornado bem maldosa e talvez me tivesse perdido... Mas Jesus olhava pela sua esposinha. Quis que tudo redundasse para o bem dela. Seus próprios defeitos, refreados a tempo, serviram-lhe para crescer na perfeição... Tendo amor-próprio e também amor do bem, tão logo comecei a pensar com sisudez (o que fiz desde pequenina) bastava dizerem-me que alguma cousa não ficava bem, para que não precisasse ouvi-lo dizer duas vezes... Nas cartas de Mamãe vejo, com satisfação, que na medida que ia ficando maior lhe proporcionava mais consolo. Não tendo em redor de mim senão bons exemplos, era natural que os quisesse seguir. Veja-se o que ela escrevia em 1876: - "A própria Teresa que por vezes quer pôr-se a marcar suas práticas religiosas"... É uma criança encantadora, sutil como a sombra, muito vivaz, mas seu coração é sensível. Celina e ela querem-se muito, bastam as duas para se entreterem. Todos os dias, depois de terem almoçado, Celina vai buscar seu galinho, pega ao mesmo tempo a galinha para Teresa. Por mim não o consigo, mas ela é tão ágil que lhe deita a mão no primeiro bote. Depois cão as duas com as aves sentar-se no canto da lareira e assim se distraem por muito tempo. (Foi Rosinha que me fizera presente da galinha e do galo. Eu tinha dado o galo à Celina). Outro dia Celina deitara comigo. Teresa deitara na cama de Celina no segundo andar. Tinha instado com Luísa. a trouxesse para baixo, a fim de lhe porem o vestido. Luísa sobe para a buscar, encontra a cama vazia. Teresa tinha ouvido Celina e descera com ela. Luísa lhe diz: "- Não queres, pois, descer para te vestires?" - "Oh! não, pobre de minha Luísa, somos como as duas franguinhas, não podemos separar-nos!" Enquanto assim diziam, abraçavam-se e aconchegavam-se uma a outra... Depois, à noite, Luísa, Celina e Leônia foram ao círculo católico e deixaram a pobre Teresa, que bem compreendia ser muito pequena para ir junto. Dizia: - "Se pelo menos quisessem deitar-me na cama de Celina!"... Mas, não, não o quiseram... Nada falou e sozinha ficou com sua lamparina. Um quarto de hora depois dormia a sono solto..."

Outro dia Mamãe ainda escreveu: "Celina e Teresa são inseparáveis. Não é possível pôr os olhos em duas crianças que se queiram tanto uma a outra. Quando Maria vem buscar Celina para a lição, a coitada da Teresa se desfaz em pranto. Ai! que acontecerá com ela, sua amiguinha vai deixá-la... Maria fica com dó, leva-a também e a pobre pequerrucha permanece sentada numa cadeira duas ou três horas. Dão-lhe pérolas para enfiar ou um retalho para coser. Tem receio de mexer-se e, de vez em quando solta fortes suspiros. Quando a agulha se desenfia, tenta enfiá-la de novo. É interessante observá-la como não o pode conseguir e não quer dar trabalho a Maria. Sem demora, a gente vê duas grossas lágrimas correrem-lhe pelas faces... Maria não tarda em consolá-la, torna a enfiar a agulha, e o pobre anjinho sorri através de suas lágrimas..."

Lembra-me, com efeito, que não podia ficar sem Celina. Preferia sair da refeição antes de terminar a sobremesa, do que não lhe ir atrás, tão logo se levantasse. Virava-me em minha cadeira alta, a pedir que me descessem, e depois íamos brincar juntas. Íamos às vezes com a pequena "prefeita", o que muito me agradava por causa do parque e de todos os lindos brinquedos que ela nos mostrava, mas era mais na intenção de contentar Celina que ia para lá, preferindo quedar-me em nosso pequeno jardim a esgaravatar os muros, pois extraíamos todas as faiscantes palhetinhas que ali se achavam e íamos em seguida vendê-las ao Papai que no-las comprava com toda a seriedade.

No domingo, sendo muito pequena para frequentar os ofícios religiosos, Mamãe ficava para tomar conta de mim. Comportava-me bem e só andava na ponta dos pés durante o tempo da missa. Logo, porém, que visse a porta abrir-se, era sem igual a explosão de alegria. Precipitava-me ao encontro de minha linda irmãzinha que estava então "enfeitada como um oratório"... e dizia-lhe: "Oh! minha Celininha, dá-me depressa pão bento!" Algumas vezes não o tinha, porque havia chegado atrasada... Que fazer então? Era-me impossível ficar sem ele. Nisso consistia "a minha missa"... Encontrou-se um meio com muita rapidez. - "Se não tens pão bento, pois então benze-o!" Dito e feito. Celina toma uma cadeira, abre o armário da parede, pega o pão, corta um bocado, sobre o qual, muito compenetrada, recita uma Ave-Maria, e apresenta-mo em seguida. E eu, depois de [ter] feito com ele o sinal da Cruz, como-o com grande devoção, achando-lhe, absolutamente, o gosto de pão bento...

De vez em quando fazíamos juntas conferências espirituais: Aqui está um exemplo que tiro das cartas de Mamãe: - "Nossas queridas pequenas Celina e Teresa são anjos abençoados, naturezas angélicas em miniatura. Teresa constitui a alegria, a felicidade de Maria e sua glória; é incrível como se orgulha disso. Verdade é que tem saídas bem singulares para sua idade. De longe ultrapassa Celina, que tem o dobro da idade dela. Dizia Celina outro dia: - "Como pode Deus caber em hóstia tão pequena?" Falou a pequena: "Não é tanto de admirar, uma vez que Deus é todo-poderoso". - "Que quer dizer Todo-poderoso?" - "É fazer tudo o que Ele quer!."

Um dia, julgando-se muito crescida para brincar com boneca, Leónia veio procurar-nos a nós duas com uma cesta cheia de vestidos e de lindos retalhos para fazer outros; por cima estava colocada sua boneca. - "Tomai lá, minhas irmãzinhas, diz-nos ela, escolhei, dou-vos tudo isto". Celina estendeu a mão e tomou um pacotinho de alamares que lhe agradava. Após um instante de reflexão, estendi a mão por minha vez e declarei: - "Escolho tudo!" e apoderei-me da cesta sem outra formalidade. As testemunhas da cena acharam o caso muito justo, a própria Celina nem pensou em reclamar. (Aliás; brinquedos não lhe faltavam, seu padrinho cumulava-a de presentes e Luísa descobria meios de arrumar-lhe tudo quanto desejasse).

Este pequeno episódio de minha infância é o apanhado de toda a minha vida. Mais tarde, quando se me tornou evidente o que era perfeição, compreendi que para se tornar santa era preciso sofrer muito, ir sempre atrás do mais perfeito e esquecer-se a si mesmo. Compreendi que na perfeição havia muitos graus e que cada alma era livre no responder às solicitações de Nosso Senhor, no fazer muito ou pouco por Ele, numa palavra, no escolher entre os sacrifícios que exige. Então, como nos dias de minha primeira infância, exclamei: "Meu Deus, escolho tudo". Não quero ser santa pela metade. Não me faz medo sofrer por vós, a única cousa que me dá receio é a de ficar com minha vontade. Tomai-a vós, pois "escolho tudo" o que vós quiserdes!. . . "

É forçoso que pare, pois não devo ainda falar-vos de minha juventude, mas da estouvadinha aos quatro anos de idade. Lembro-me de um sonho que devo ter tido por volta dessa idade e que me calou profundamente na imaginação. Sonhei uma noite que saía a passear sozinha pelo jardim. Chegando ao pé dos degraus que precisava subir para ali chegar, estaquei tomada de pavor. Diante de mim, rente ao caramanchão, havia uma barrica de cal e sobre a barrica dançavam, com espantosa agilidade, dois medonhos diabinhos, não obstante os ferros de engomar que tinham nos pés. De chofre lançaram sobre mim seus olhares chamejantes, mas ao mesmo instante, parecendo muito mais assustados do que eu, precipitaram-se da barrica abaixo e foram esconder-se na rouparia que ficava defronte. Ao vê-los tão pouco valorosos, quis saber o que iriam fazer e acerquei-me da janela. Lá estavam os míseros diabinhos a correr por sobre as mesas, não sabendo o que fazer para se esquivarem do meu olhar. De vez em quando chegavam até a janela, e olhavam com um ar inquieto, se eu ainda estava lá e como sempre me avistassem, começavam a correr de novo como desatinados. - Sem dúvida, este sonho nada tem de extraordinário, acredito, no entanto, que o Bom Deus permitiu que guarde sua lembrança, a fim de me provar que uma alma em estado de graça nada deve temer dos demónios, que são uns poltrões, capazes de fugir diante do olhar de uma criança...

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24/10/2014

Põe tudo nas mãos de Deus

Além da sua graça abundante e eficaz, Nosso Senhor deu-te a cabeça, as mãos, as faculdades intelectuais, para que faças frutificar os teus talentos. Deus quer realizar milagres constantes – ressuscitar mortos, dar ouvido aos surdos, vista aos cegos, possibilidades de andar aos coxos... –, através da tua actuação profissional santificada, convertida em holocausto grato a Deus e útil às almas. (Forja, 984)


A tua barca – os teus talentos, as tuas aspirações, os teus êxitos – não vale para nada, a não ser que a ponhas à disposição de Jesus Cristo, que permitas que Ele possa entrar nela com liberdade, que não a convertas num ídolo. Sozinho, com a tua barca, se prescindires do Mestre, sobrenaturalmente falando, encaminhas-te directamente para o naufrágio. Só se admitires, se procurares a presença e o governo de Nosso Senhor, estarás a salvo das tempestades e dos reveses da vida. Põe tudo nas mãos de Deus: que os teus pensamentos, as aventuras boas da tua imaginação, as tuas ambições humanas nobres, os teus amores limpos, passem pelo coração de Cristo. De outra forma, mais tarde ou mais cedo, irão a pique com o teu egoísmo. (Amigos de Deus, 21)

O Céu e o Inferno

Acerca do Céu e do Inferno, João Paulo I contava a seguinte história: Um homem apresenta-se a S. Pedro para conhecer o seu destino eterno. Consultado o livro da vida S. Pedro diz-Lhe que mereceu o Céu e indica-Lhe o caminho: Segues por esse corredor e, lá ao fundo, a porta da direita dar-te-á acesso ao Céu.
Contentíssimo porque naturalmente seguro de ter conquistado o Céu, o homem atreve-se a pedir a S. Pedro que o deixe satisfazer a sua curiosidade e, ao menos por breves momentos, ver o Inferno.
- Bom, diz-Lhe S. Pedro, no mesmo corredor, lá ao fundo, mas a porta da esquerda.
E o homem assim fez e, pela porta entreaberta, viu uma enorme sala, na qual havia uma mesa onde estavam dispostas iguarias e manjares dos mais suculentos e apetitosos e uma multidão sentada à mesa, mas, tudo isto num enorme caos e indescritível confusão.
Munidos de colheres enormes as pessoas tentavam desesperadamente saciar a sua fome mas, dadas as dimensões das colheres, não conseguiam levar à boca nem o mais pequeno pedaço de comida que se espalhava a toda a volta. Eram visíveis o desespero e a frustração mais completas e as discussões e querelas violentas que estalavam por todo o lado.
Fechada a porta, abriu então a que lhe estava indicada e entrou resolutamente no seu destino eterno. A surpresa foi grande, porque, a enormíssima sala era exactamente igual à outra, tal como a mesa e as iguarias nela dispostas, bem como as enormes colheres. Mas ao invés da outra, aqui havia uma paz e uma tranquilidade absolutas. É que, cada uma das pessoas sentadas à mesa, munida da sua gigantesca colher, alimentava a pessoa em frente de si, do outro lado da mesa.
(P. jorge margarido correia Notas num Retiro Enxomil 2005.04.15)