29/07/2020

Leitura espiritual

Contribuir para a evangelização no próprio trabalho
Ao longo da sua vida, S. Josemaria pregou incansavelmente que todos os baptizados são chamados à santidade, e que pode atingir-se esta santidade no exercício de qualquer profissão honesta. Foi uma mensagem original, que abria horizontes inesperados na vida quotidiana de muitos católicos.
“O que a ti te maravilha, a mim parece-me razoável. – Por que foi Deus procurar-te no exercício da tua profissão? Assim procurou os primeiros: Pedro, André, João e Tiago, junto às redes; Mateus, sentado à mesa dos impostos... E – admira-te! – Paulo, na sua ânsia de acabar com a semente dos cristãos”[1].
Nos planos de Deus, o trabalho não ocupa um lugar acidental. É muito mais do que uma forma de garantir a própria subsistência. Inclusive do ponto de vista humano, “é testemunho da dignidade do homem, do seu domínio sobre a criação; é meio de desenvolvimento da personalidade; é vínculo de união com os outros seres; fonte de recursos para o sustento da família; meio de contribuir para o progresso da sociedade em que se vive e para o progresso de toda a humanidade”[2]. E o olhar da fé descobre que esta atividade é um modo de participar na tarefa da criação e redenção[3]; o valor do trabalho torna-se maior, porque se vê como “meio e caminho de santidade, realidade santificável e santificadora” [4]. Portanto, é lógico que consideremos a transcendência que esta realidade tem para a missão da Igreja, especialmente na tarefa da nova evangelização.

A dimensão social da profissão
Nosso Senhor Jesus Cristo, o Filho de Deus feito homem, quis partilhar também a condição de trabalhador, e exercer uma profissão concreta. O Evangelho conta que os seus compatriotas o reconheciam como “o filho do artesão”[5], e na sua pregação encontramos vários exemplos retirados dos labores quotidianos dos homens e mulheres do seu tempo: a agricultura[6], o trabalho da casa[7], o comércio[8]. O mundo do trabalho não lhe era alheio, e entendia o que significa desempenhar um ofício que pressupõe conhecimentos e capacidades específicas.
S. Lucas mostra no seu Evangelho que durante a sua infância, «Jesus crescia em estatura, em sabedoria e graça, diante de Deus e dos homens»[9]. Isso realizar-se-ia também através do trabalho diário na oficina de S. José. Porque a profissão é um meio para o desenvolvimento da personalidade. Em boa medida, configura um modo de ser particular: um administrador aprende a ser minucioso nas contas, os jornalistas desenvolvem aptidões comunicativas, etc. Por meio do trabalho executado durante anos, se a pessoa não cai na rotina, consegue crescer e desenvolver diversas aptidões, até chegar ao ponto de estar orgulhosa da sua atividade, cresce um entusiasmo pela profissão.
Mas a profissão não é simplesmente um recurso para cultivar uma atividade para a qual nos sintamos mais ou menos inclinados. Precisamente porque nos situa dentro da comunidade humana, a profissão supera o âmbito privado e chega a ter uma dimensão social evidente. A pessoa apresenta-se perante os outros cidadãos como operário, vendedor, professor, agricultor, etc. E, precisamente nesta posição, a pessoa insere-se numa rede de relações profissionais, onde ocorre um intercâmbio recíproco de bens e serviços. O resultado final é maior daquele que cada pessoa poderia conseguir sozinha, com as suas próprias forças. Por exemplo, para levantar um arranha-céus moderno é necessária a colaboração de milhares de operários, técnicos e engenheiros da empresa construtora, o trabalho também não seria possível sem os serviços realizados por outras empresas, bem como o financiamento externo e outras facilidades que a autoridade pública pode conceder, tendo em consideração a importância social do projecto.
De modo especial hoje em dia, exercer uma profissão implica relacionar-se com muitas pessoas, sem as quais não poderíamos atingir objectivos comuns. Diz-se, com razão, que somos interdependentes, ao constatar, entre outras coisas, que é indispensável o estabelecimento de relações profissionais. Relações que, no entanto, são sempre entre pessoas, e que – neste sentido – devem ser cultivadas de acordo com a dignidade do ser humano. Portanto, nesse intercâmbio de serviços, além das considerações em relação à produtividade e eficiência, que são lógicas, não podemos esquecer a sua dimensão ética. Assim o advertia Bento XVI: “O risco do nosso tempo é que, à real interdependência dos homens e dos povos, não corresponda a interacção ética das consciências e das inteligências, da qual possa resultar um desenvolvimento verdadeiramente humano. Só através da caridade, iluminada pela luz da razão e da fé, é possível alcançar objectivos de desenvolvimento dotados de uma valência mais humana e humanizadora”[10].

Cultivar relações profissionais à medida do homem
A atividade profissional perderia o seu sentido se não contribuísse para a perfeição global da pessoa, em última análise, se não ajudasse os homens e mulheres a responderem ao seu chamamento para a santidade. E, apesar disso, não é raro encontrar perspectivas – teóricas ou práticas – que ferem a dignidade do homem por dar realce excessivo à capacidade produtiva dos indivíduos, e reduzir a finalidade do trabalho ao simples aumento do consumo. Chegam até a pensar que é possível construir uma civilização fundada no egoísmo, e consideram o trabalhador uma mera engrenagem de uma grande máquina de produção.
O Papa Francisco, reflectindo sobre os problemas que muitos países actualmente enfrentam, apontou claramente os limites de tais abordagens redutoras: “A crise mundial, que envolve as finanças e a economia, parece evidenciar as suas deformações e, sobretudo, a sua grave carência de perspectiva antropológica, que reduz o homem a uma única das suas exigências: o consumo. Pior ainda, hoje o próprio ser humano é visto como um bem de consumo, que se pode usar e deitar fora. Começámos esta cultura do descartável. Esta perversão verifica-se tanto a nível individual como social” [11].
Diante deste panorama, os cristãos são chamados a demonstrar, com obras, que é possível desenvolver relações profissionais que ajudem as pessoas do ambiente de trabalho a realizarem-se como pessoas, e ao mesmo tempo serem proveitosas e produtivas. Trata-se da tarefa de ordenar rectamente as actividades temporais[12]. De certo modo, é necessário redescobrir o autêntico sentido do profissionalismo, que é um valor comum a muitas culturas.
Como é o perfil de um bom profissional? Pensamos imediatamente que essa pessoa deve realizar o seu trabalho com competência: apresentar um produto de qualidade, dominar os conhecimentos técnicos específicos da profissão, ter a desenvoltura necessária para usar certas máquinas ou programas informáticos. É preciso acrescentar a isso outras aptidões ou hábitos, que facilitam o trabalho de toda a equipa e dos clientes: pontualidade nas reuniões, tratamento afável no escritório ou na fábrica, a lealdade de quem não gera conflitos com os seus companheiros e dirigentes, etc.
A lista poderia continuar a crescer de modo ilimitado. Em qualquer caso, é claro que as virtudes contribuem para a boa realização da atividade laboral. E, neste ponto, todos os baptizados podem dar um claro testemunho de como a fé contribui para a perfeição da pessoa, incluindo a dimensão profissional. Não porque procurem uma oportunidade de auto.afirmação, mas porque consideram o trabalho como um campo privilegiado para levar, com naturalidade, a mensagem do Evangelho, de servir os homens, em todas as suas dimensões. Assim o dizia São Josemaria: “Não acredito na rectidão de intenção de quem não se esforça por alcançar a competência necessária para cumprir bem as tarefas que lhe são confiadas. Não basta querer fazer o bem; é preciso saber fazê-lo. E, se realmente o queremos, esse desejo traduzir-se-á no empenho por utilizar os meios adequados para deixar as coisas acabadas, com perfeição humana”[13].
Quando um cristão, apesar das suas limitações pessoais, se esforça por ser um bom profissional, adquire uma reputação que facilita o apostolado no seu ambiente de trabalho, e essa atitude torna-se num convite a aproximar-se da fé católica para os outros. É um testemunho de vida cristã ao qual são particularmente sensíveis os homens e mulheres que vivem numa cultura que valoriza o trabalho bem feito. É um campo em que podemos aplicar o seguinte convite de Bento XVI: “A renovação da Igreja realiza-se também através do testemunho prestado pela vida dos crentes: de facto, os cristãos são chamados a fazer brilhar, com a sua própria vida no mundo, a Palavra de verdade que o Senhor Jesus nos deixou.”[14]

Ser coerentes com o chamamento à santidade na profissão
É possível contribuir para a tarefa da evangelização a partir de todos os campos profissionais, por mais variados que sejam. Isso implica apresentar um estilo de trabalho, de relacionamento com os outros, que provavelmente entrará em contraste com outros modos que não são coerentes com o chamamento à santidade que todo o homem possui. Nestas circunstâncias, a unidade de vida dos fiéis cobra uma maior importância.
Os filhos de Deus não podem contentar-se com ocupar posições de influência no local de trabalho (empresas, associações profissionais, sindicatos), se não colocarem os meios que puderem para mudar práticas contrárias à dignidade da pessoa. Devem aproveitar as oportunidades que têm para que a sua organização ou empresa promova um ambiente que facilite o desenvolvimento humano, e, ao mesmo tempo, seja rentável. E não apenas porque oferece formação profissional, mas também porque as condições de trabalho proporcionam aos funcionários dedicar o tempo necessário para cultivar o relacionamento com Deus, a vida familiar, alguns hobbies.
Por outro lado, é evidente que na profissão há situações em que a coerência cristã é testada: convites dos colegas a um ganho pessoal à custa de prejudicar os recursos da empresa; prestação de serviços que, embora à primeira vista pareçam de acordo com os termos do contrato, a longo prazo causam dano aos clientes; estratégias de concorrência desleal, etc. Às vezes, são colocados como condições que devem ser aceites, porque “as coisas funcionam assim”, ou “temos feito isso há já muito tempo”. Podem até mesmo ser práticas que, por um defeito na legislação, não teriam repercussões legais, mas para o cristão, é evidente que não estão de acordo com a lei de Deus.
É hora de lembrar que o Senhor quer que sejamos, também no nosso ambiente de trabalho, o sal da terra que não pode perder o seu sabor[15]. E para contribuir para a missão da Igreja, temos de vencer os respeitos humanos e o medo de condicionar a carreira. Ultimamente, o Papa Francisco tem insistido em que não podemos ceder ao domínio dos interesses económicos desordenados que prejudicam o bem geral do indivíduo, especialmente dos mais vulneráveis: “O que manda hoje não é o homem, mas o dinheiro, é o dinheiro que manda! E Deus, nosso Pai, confiou a tarefa de conservar a terra, não ao dinheiro, mas a nós: são os homens e mulheres que temos esta tarefa!”[16].
É verdade que em muitos casos pode chegar-se a ganhos e sucesso fácil quando a lei de Deus não é seguida, mas são frágeis: não faltam exemplos nos últimos anos de escândalos no mundo dos negócios e no financeiro que confirmam isso. Os fiéis, porém, sabem que um estilo de trabalho impregnado pela caridade cristã responde à verdade sobre o homem e, consequentemente, não implica de forma alguma exercer uma profissão medíocre. Vivem com essa visão de fé que os leva a medir bem o seu bem-estar material e realizações temporais, com a consciência de que não temos morada permanente na terra[17] e que o maior projecto que podem realizar é o da santidade pessoal: “cem por um e a vida eterna! – Parece-te pequeno o ‘negócio’?”[18]

(R. Valdés)

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