25/04/2023

Publicações em Abril 26

  


Dentro do Evangelho

 

(Re Lc X, 25 – 37)

 

O bom samaritano

25 Levantou-se, então, um doutor da Lei e perguntou-lhe, para o experimentar: «Mestre, que hei-de fazer para possuir a vida eterna?» 26 Disse-lhe Jesus: «Que está escrito na Lei? Como lês?» 27 O outro respondeu: «Amarás ao Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma, com todas as tuas forças e com todo o teu entendimento, e ao teu próximo como a ti mesmo.» 28 Disse-lhe Jesus: «Respondeste bem; faz isso e viverás.» 29 Mas ele, querendo justificar a pergunta feita, disse a Jesus: «E quem é o meu próximo?» 30 Tomando a palavra, Jesus respondeu: «Certo homem descia de Jerusalém para Jericó e caiu nas mãos dos salteadores que, depois de o despojarem e encherem de pancadas, o abandonaram, deixando-o meio morto. 31 Por coincidência, descia por aquele caminho um sacerdote que, ao vê-lo, passou ao largo. 32 Do mesmo modo, também um levita passou por aquele lugar e, ao vê-lo, passou adiante. 33 Mas um samaritano, que ia de viagem, chegou ao pé dele e, vendo-o, encheu-se de compaixão. 34 Aproximou-se, ligou-lhe as feridas, deitando nelas azeite e vinho, colocou-o sobre a sua própria montada, levou-o para uma estalagem e cuidou dele. 35 No dia seguinte, tirando dois denários, deu-os ao estalajadeiro, dizendo: ‘Trata bem dele e, o que gastares a mais, pagar-to-ei quando voltar.’ 36 Qual destes três te parece ter sido o próximo daquele homem que caiu nas mãos dos salteadores?» 37 Respondeu: «O que usou de misericórdia para com ele.» Jesus retorquiu: «Vai e faz tu também o mesmo.»

 

Personagem 1.1

O Estalajadeiro.

Talvez possa parecer estranho ter escolhido este “papel” que, obviamente, parece não ser “central” na parábola. Mas, eu, que nada sei nem de parábolas nem de personagens, muito menos me sinto capaz de lhes atribuir mérito ou demérito, ou grau de importância que possam ter, apaixono-me por este.

Imagino-me à porta do meu estabelecimento onde recebo hóspedes, normalmente viajantes que percorrem os caminhos poeirentos e agrestes da Palestina e que procuram um lugar onde tomar uma refeição, descansar um pouco ou passar a noite com um mínimo de conforto. Estando ali, no meu posto de trabalho, deparo-me com uma cena estranha: Um homem que se aproxima a pé, conduzindo a sua cavalgadura pela arreata e mal se mantendo direito em cima desta, um outro homem com os vestidos em farrapos, cheio de feridas vendadas com panos embebidos em azeite e vinho num estado lastimoso. Apresso-me a ir ao seu encontro e tenho logo uma primeira reacção de enorme dúvida: quem conduz o ferido é um Samaritano!

O que faz um Samaritano dirigir-se ao meu estabelecimento? Sim, eu, que sou judeu, não “morro de amores” pelos samaritanos que, aliás, me pagam na mesma moeda. Um antagonismo ancestral – que ninguém sabe exactamente quando começou e porquê – divide os filhos de Israel: Samaritanos e Judeus. Mas, surpreendentemente, o Samaritano aproxima-se de mim e diz-me: ‘Encontrei este teu irmão estendido na vera do caminho porque «caiu nas mãos dos ladrões, que o despojaram, o espancaram e retiraram-se, deixando-o meio morto» (Cfr. Lc 10, 30). Tentei prestar-lhe o auxílio possível ligando-lhe «as feridas, deitando nelas azeite e vinho», mas não podia deixá-lo ali naquele estado por isso pu-lo sobre o meu jumento e trouxe-o até esta estalagem para melhor cuidar dele. (Cfr. Lc 10, 34) Ajuda-me a levá-lo para dentro e encontra uma acomodação confortável onde o possamos fazer’. Fiquei atónito, sem palavras e levei algum tempo a reagir. Como que por encanto desvaneceram-se as minhas dúvidas e pruridos e ajudei a transportar o ferido para a melhor habitação de que dispunha. Deitámos o homem numa cama, despimos-lhe os farrapos, arranjei uma túnica lavada que lhe vestimos e, enquanto o Samaritano observava de novo as feridas renovando as ligaduras e unguentos fui à cozinha buscar um caldo de sopa que a custo conseguiu engolir. Tendo caído num sono profundo, deixámo-lo a descansar e retiramo-nos; o samaritano para uma acomodação na parte superior da casa, eu para o meu posto à entrada da estalagem. A noite ia adiantada e como não era de prever aparecessem novos hóspedes, também fui deitar-me. Mas não conseguia conciliar o sono pensando em tudo quanto acontecera e algo apreensivo quanto ao dia seguinte.

Logo pela manhã o samaritano preparou-se para seguir viagem mas, antes que eu pudesse perguntar o que fosse, abriu a sua bolsa, «tirou dois denários, e deu-mos dizendo: Cuida dele; quanto gastares a mais, eu to pagarei quando voltar(Lc X, 35) Ainda hoje, passado tanto tempo, me admiro com a minha atitude! Nem por um momento me ocorreu que o Samaritano não faria exactamente como me disse e que não ficaria por receber o que viesse a gastar com o pobre coitado agora a meu cargo. Sim, eu que sou judeu e tenho um negócio, não posso dar-me ao luxo de receber hóspedes sem ter a certeza que serei ressarcido das despesas de estadia tanto mais que estas seriam bastante fora do “normal”: os tratamentos, ligaduras, unguentos e outros cuidados que seriam necessários. Volto a repetir: Ainda hoje, passado tanto tempo, me admiro com a minha atitude!

Pela noitinha o doente estava visivelmente melhor e começou por perguntar-me como tinha ido ali parar, o que acontecera… Contei-lhe tudo, claro, e o seu espanto foi tão grande como tinha sido o meu no dia anterior quando o estranho “cortejo” aparecera à minha porta. Não se lembrava de nada, tão súbita e violenta tinha sido a acção dos salteadores, nem sequer quanto tempo estivera prostrado por terra. Mas achava estranho que ninguém o tivesse visto naquela situação, já que o caminho onde tudo acontecera era muito concorrido.

Eu também – pensando melhor – achei estranho, mas como estou habituado à indiferença das pessoas perante as necessidades dos outros não me custava acreditar que alguns o terão visto e ao dar-se conta da situação tivessem optado por seguir adiante livrando-se de “trabalhos” e incómodos. De facto há tanta gente que vai pelos caminhos da vida tão cheios de si próprios, absorvidos com os seus assuntos que olhando não vêm e, se acaso vêm, ficam indiferentes ao que, pensam, não lhes diz respeito.

Tomei uma decisão: A partir de agora a porta da minha estalagem estará sempre aberta a quem tiver necessidade de entrar, não a fecharei a ninguém por motivos de raça, cor da pele ou religião e independentemente de possuírem meios ou recursos para cobrir as despesas que porventura façam.  Esta decisão consola-me muito porque penso que, um dia, pode acontecer-me o mesmo que ao pobre homem assaltado e espancado pelos salteadores e, então precisarei de alguém – um Samaritano… talvez… – que se condoa de mim e me preste assistência.

Publicações em Abril 25

  


Dentro do Evangelho

 

(Re Mc XV, 20)

 

15 E disse-lhes: «Ide por todo o mundo, e pregai o Evangelho a toda a criatura. 16 Quem crer e for baptizado, será salvo; mas quem não crer, será condenado. 17 Eis os milagres que acompanharão os que crerem: Expulsarão os demónios em Meu nome, falarão novas línguas, 18 pegarão em serpentes e, se beberem alguma coisa mortífera, não lhes fará mal; imporão as mãos sobre os doentes, e serão curados». 19 O Senhor, depois de assim lhes ter falado, elevou-Se ao céu e foi sentar-Se à direita do Pai. 20 Eles, tendo partido, pregaram por toda a parte, cooperando com eles o Senhor e confirmando a palavra com os milagres que a acompanhavam.

Comentários:

O evangelista é parco nas palavras. Realmente, São Marcos - que escreve o que ouviu da boca de Pedro -  não foi testemunha directa dos acontecimentos após a Ressurreição do Senhor e, portanto, toda a emoção e choque de sentimentos que outros deixam entrever não está presente no que escreve. Mas, o deveras importante é reter as instruções e mandatos do Mestre, o que deseja que façam e como. É isso que deve interessar aos Seus seguidores que somos todos nós os baptizados.

Acreditar em Jesus Cristo tem sempre um prémio e quem for baptizado terá um prémio ainda maior. Ao contrário de nós, humanos, que tentamos muitas vezes Deus com as chamadas “promessas” - se me fizeres isto eu faço aquilo – Jesus é muito claro e objectivo: Os simples factos de acreditar e ser baptizado trazem consigo benefícios incalculáveis e para sempre. Sobretudo, naqueles primeiros tempos, os privilégios prometidos seriam de extraordinário valor para a missão que esperava os convertidos ao Reino de Deus.

Não é possível acreditar na Ressurreição de Cristo sem a luz da Fé. Quanto mais intensa for essa luz melhor interiorizarmos esse aconte­cimento que constitui a base o fundamento da nossa santa religião. Peçamos ao Espírito Santo, Senhor que dá a Luz, que a derrame sobre nós.



São Marcos

São Marcos foste discípulo de .Jesus. Eras muito jovem por isso ficou bem gravada em ti a figura inconfundível do Mestre. Nunca terás esquecido a cena de Getzemani onde deixaste nas mãos dos captores o lençol que te cobria e fugiste nu. Que eu retenha esta lição que para fugir do inimigo, da tentação, não convém muita roupagem mas, sim, o desprendimento total dos bens, das coisas, tudo por onde possa ser "agarrado". 

«Ide e ensinai o Evangelho a todas as gentes». Senhor, que eu tenha presente este mandato que estabeleces-Te como "obrigação" e dever de todos os baptizados no Teu Nome. Que eu saiba sempre, com ânimo, dedicação e entrega, fazer o que me compete, obedecendo às instruções que me são dadas, sempre consciente que é em Teu Nome e não por mim, que o devo fazer. 

De facto o Evangelho que São Marcos escreveu poderia chamar-se o Evangelho de São Pedro.

Sim... foi ele quem ditou ao Evangelista o que deveria escrever porque é absolutamente claro que há detalhes, descrições, actos e palavras de Jesus que só ele poderia conhecer. Tem um especia empenho em que o escritor mencione sem disfarces as suas misérias pessoais, as suas negações de Cristo, como ficou aquém do que Ele tinha todo o direito de esperar que fizesse.

Sim... o Evangelho de São Pedro porque nele se revela a verdadeira grandeza do PRÍNCIPE dos Apóstolos, a sua profunda humildade levou-o a guiar a Santa Igreja com mão segura e fé inabalável em que Jesus Cristo, seu Mestre e Senhor, se o queria como instrumento lhe daria o que pudesse faltar-lhe para levar a cabo a Missão que lhe dera; «Apascenta o meu rebanho».


 

 

 

 

 

24/04/2023

Publicações em Abril 24

 


 

Dentro do Evangelho

 

(Re Jo VI, 22-29)

 

22 No dia seguinte, a multidão que ficara do outro lado do lago reparou que ali não estivera mais do que um barco, e que Jesus não tinha entrado no barco com os seus discípulos, mas que estes tinham partido sozinhos. 23 Entretanto, chegaram outros barcos de Tiberíades até ao lugar onde tinham comido o pão, depois de o Senhor ter dado graças. 24 Quando viu que nem Jesus nem os seus discípulos estavam ali, a multidão subiu para os barcos e foi para Cafarnaúm à procura de Jesus. 25 Ao encontrá-lo no outro lado do lago, perguntaram-lhe: «Rabi, quando chegaste cá?» 26 Jesus respondeu-lhes: «Em verdade, em verdade vos digo: vós procurais-me, não por terdes visto sinais miraculosos, mas porque comestes dos pães e vos saciastes. 27 Trabalhai, não pelo alimento que desaparece, mas pelo alimento que perdura e dá a vida eterna, e que o Filho do Homem vos dará; pois a este é que Deus, o Pai, confirma com o seu selo.» 28 Disseram-lhe, então: «Que havemos nós de fazer para realizar as obras de Deus?» 29 Jesus respondeu-lhes: «A obra de Deus é esta: crer naquele que Ele enviou.»

 

Comentários:

 

Jesus Cristo define claramente o que é fundamental para agradar a Deus: «crer naqueLe que Ele enviou».

O Dom da Fé só estará ao nosso alcance se o Criador no lo conceder, em qualquer momento da nossa vida o Divino Espírito Santonão deixará de nos insinuar esse desejo e, cabe-nos a nós, segui-lo em quanto nos sugere. Mas, dada as nossas fraquezas pessoais por vrzes é difícil resistir ás investidas do demónio que se encarniça para nos afastar do cainho que nos convém e, por isso mesmo Jesus Cristo nos deixou essa excelente oração – o PAI NOSSO – que devemos rezar amiúde pedindo a Deus que nos proteja das tentações e nos ajude não só a conservar a Fé mas a fortalecê-la contínuamente.

 

23/04/2023

Publicações em Abril 23

 



 

Dentro do Evangelho

 

(Re Lc XXIV, 13-35)

 

 

13 Nesse mesmo dia, dois dos discípulos iam a caminho de uma aldeia chamada Emaús, que ficava a cerca de duas léguas de Jerusalém; 14 e conversavam entre si sobre tudo o que acontecera. 15 Enquanto conversavam e discutiam, aproximou-se deles o próprio Jesus e pôs-se com eles a caminho; 16 os seus olhos, porém, estavam impedidos de o reconhecer. 17 Disse-lhes Ele: «Que palavras são essas que trocais entre vós, enquanto caminhais?» Pararam entristecidos. 18 E um deles, chamado Cléofas, respondeu: «Tu és o único forasteiro em Jerusalém a ignorar o que lá se passou nestes dias!» 19 Perguntou-lhes Ele: «Que foi?» Responderam-lhe: «O que se refere a Jesus de Nazaré, profeta poderoso em obras e palavras diante de Deus e de todo o povo; 20 como os sumos sacerdotes e os nossos chefes o entregaram, para ser condenado à morte e crucificado. 21 Nós esperávamos que fosse Ele o que viria redimir Israel, mas, com tudo isto, já lá vai o terceiro dia desde que se deram estas coisas. 22 É verdade que algumas mulheres do nosso grupo nos deixaram perturbados, porque foram ao sepulcro de madrugada 23 e, não achando o seu corpo, vieram dizer que lhes apareceram uns anjos, que afirmavam que Ele vivia. 24 Então, alguns dos nossos foram ao sepulcro e encontraram tudo como as mulheres tinham dito. Mas, a Ele, não o viram.» 25 Jesus disse-lhes, então: «Ó homens sem inteligência e lentos de espírito para crer em tudo quanto os profetas anunciaram! 26 Não tinha o Messias de sofrer essas coisas para entrar na sua glória?» 27 E, começando por Moisés e seguindo por todos os Profetas, explicou-lhes, em todas as Escrituras, tudo o que lhe dizia respeito. 28 Ao chegarem perto da aldeia para onde iam, fez menção de seguir para diante. 29 Os outros, porém, insistiam com Ele, dizendo: «Fica connosco, pois a noite vai caindo e o dia já está no ocaso.» Entrou para ficar com eles. 30 E, quando se pôs à mesa, tomou o pão, pronunciou a bênção e, depois de o partir, entregou-lho. 31 Então, os seus olhos abriram-se e reconheceram-no; mas Ele desapareceu da sua presença. 32 Disseram, então, um ao outro: «Não nos ardia o coração, quando Ele nos falava pelo caminho e nos explicava as Escrituras?» 33 Levantando-se, voltaram imediatamente para Jerusalém e encontraram reunidos os Onze e os seus companheiros, 34 que lhes disseram: «Realmente o Senhor ressuscitou e apareceu a Simão!» 35 E eles contaram o que lhes tinha acontecido pelo caminho e como Jesus se lhes dera a conhecer, ao partir o pão.

 

Comentário:

 

Este acontecimento deve ter sido de tal forma marcante que os de Emaús não puderam fazer outra coisa que voltar sobre o andado ao encontro dos companheiros.

 

É o que sempre acontece quando uma grande alegria nos inunda o coração, temos de a partilhar com os mais próximos, os que de alguma forma se sintonizam connosco.

 

Assim a alegria dos filhos de Deus temos de comunicá-la todos com quem nos encontramos para que também eles tenham e pos­sam gozá-la.

 

22/04/2023

Publicações em Abril 22

 


 

Dentro do Evangelho

 

(Re Jo VI, 16-21)

 

16 Ao cair da tarde, os seus discípulos desceram até ao lago 17 e, subindo para um barco, foram atravessando o lago em direcção a Cafarnaúm. 18 Já tinha escurecido e Jesus ainda não fora ter com eles. Soprando uma forte ventania, o lago começou a agitar-se. 19 Depois de terem remado mais ou menos uma légua, avistaram Jesus que se aproximava do barco, caminhando sobre o lago, e tiveram medo. 20 Mas Ele disse-lhes: «Sou Eu, não tenhais medo!» 21 Quiseram recebê-lo logo no barco, e o barco chegou imediatamente à terra para onde iam.

 

Comentários:

 

«não tenhais medo» repete- nos Jesus sempre que os acontecimentos da vida corrente nos esmagam e apavoram.

Ele está sempre connosco, disposto a socorrer-nos, amparar-nos, trazer-nos a paz e tranquilidade. Quando a nossa confiança é posta à prova – e por vezes de forma bem dura – façamos como os discípulos convidemo-lo a entrar no barco onde navegamos na nossa vida. Estando connosco, nada nos acontecerá porque, Ele, é a Salvação e a Vida!

São João não escreve muitos pormenores – como outros Evangelistas fazem – e podemos perguntar-nos qual a razão. Quando São João publica o “seu” Evangelho já depois de publicados os de São Mateus, São Marcos e São Lucas e talvez tenha achado desnecessário omitir alguns detalhes que os outros já tinham feito constar.

A sua principal preocupação e insistência é a afirmação conclusiva da divindade de Jesus Cristo. Assim a referência: «Sou Eu, não tenhais medo!» é o mais importante a sublinhar. Com Cristo no barco, depois de ter caminhado sobre as águas revoltas, o mar amainou e «o barco chegou imediatamente à terra para onde iam.»

Quase todos nós já alguma vez experimentamos essa surpresa e esse poder de Cristo Nosso Senhor. Concluímos que não há motivo para termos medo, bem ao contrário sobram razões para confiar e ter absoluta Fé n’Ele.

 

21/04/2023

Publicações em Abril 21

 


 

Dentro do Evangelho

 

Jo VI, 1-15

 

1 Depois disto, Jesus foi para a outra margem do lago da Galileia, ou de Tiberíades. 2 Seguia-o uma grande multidão, porque presenciavam os sinais miraculosos que realizava em favor dos doentes. 3 Jesus subiu ao monte e sentou-se ali com os seus discípulos. 4 Estava a aproximar-se a Páscoa, a festa dos judeus. 5 Erguendo o olhar e reparando que uma grande multidão viera ter com Ele, Jesus disse então a Filipe: «Onde havemos de comprar pão para esta gente comer?» 6 Dizia isto para o pôr à prova, pois Ele bem sabia o que ia fazer. Filipe respondeu-lhe: 7 «Duzentos denários de pão não chegam para cada um comer um bocadinho.» 8 Disse-lhe um dos seus discípulos, André, irmão de Simão Pedro: 9 «Há aqui um rapazito que tem cinco pães de cevada e dois peixes. Mas que é isso para tanta gente?» 10 Jesus disse: «Fazei sentar as pessoas.» Ora, havia muita erva no local. Os homens sentaram-se, pois, em número de uns cinco mil. 11 Então, Jesus tomou os pães e, tendo dado graças, distribuiu-os pelos que estavam sentados, tal como os peixes, e eles comeram quanto quiseram. 12 Quando se saciaram, disse aos seus discípulos: «Recolhei os pedaços que sobraram, para que nada se perca». 13 Recolheram-nos, então, e encheram doze cestos de pedaços dos cinco pães de cevada que sobejaram aos que tinham estado a comer. 14 Aquela gente, ao ver o sinal milagroso que Jesus tinha feito, dizia: «Este é realmente o Profeta que devia vir ao mundo!» 15 Por isso, Jesus, sabendo que viriam arrebatá-lo para o fazerem rei, retirou-se de novo, sozinho, para o monte.

 

Comentários:

 

Este portentoso milagre ficou de tal forma gravado na memória do Apóstolo que refere detalhes como: «Ora, havia muita erva no local». De resto, o milagre não podia passar despercebido nem a sua magnitude como o demonstra a reacção dos circunstantes como se lê no versículo 14.

Cristo continua a alimentar multidões e, por muitos que sejam os que recebem a Sagrada Eucaristia, esta nunca se esgota renovada constantemente no Sacrifício da Santa Missa.

 

Os Evangelhos relatam duas situações como a de hoje. Em ambas depois de saciada a multidão se recolhem sobras, uma vez seis e outra, doze cestos cheios.

O Senhor dá com largueza, liberalidade sem cálculos nem parcimónia para que se veja e constate a grandeza do Seu Coração mas, não consente em desperdícios ou desprezo pelo que sobra. Há sempre quem precise de alimento, quem procure ser saciado.

O desperdício de alimentos é um insulto a todos estes talvez próximos de nós.

Não podemos nem devemos criticar os judeus pela sua admiração e incredulidade.

Muito provavelmente, se estivéssemos presentes, teríamos reacção semelhante.

As declarações de Jesus Cristo são algo inteiramente novo e, talvez, “estranho” de difícil compreensão.

Todos queremos as coisas muito claras e compreensíveis e, algumas vezes quando isso não acontece, não fazemos o mais elementar: obter esclarecimentos.

Como se vê no trecho de São João, não há uma pergunta sequer, ninguém pede uma explicação.

Mais tarde, o Espírito Santo fará luz sobre esta como outras questões da pregação de Jesus Cristo, e tudo se tornará claro e substantivo.

Ninguém daquela «grande multidão» jamais esquecerá este milagre operado por Jesus. Os discípulos de certa forma “habituados” às maravilhas que o Senhor faz constantemente não deveriam ter palavras para descrever um acto tão extraordinário. Querem fazê-Lo Rei!

Nós, cristãos de todos os tempos, temos sido saciados por esse alimento que o Senhor multiplica constantemente na Sagrada Eucaristia. E, de facto, Ele, é o Rei do nosso coração em festa sempre que O recebemos na Comunhão Eucarística.

«não tenhais medo» repete- nos Jesus sempre que os acontecimentos da vida corrente nos esmagam e apavoram. Ele está sempre connosco, disposto a socorrer-nos, amparar-nos, trazer-nos a paz e tranquilidade.

Quando a nossa confiança é posta à prova – e por vezes de forma bem dura – façamos como os discípulos convidemo-lo a entrar no barco onde navegamos na nossa vida. Estando connosco, nada nos acontecerá porque, Ele, é a Salvação e a Vida!

São João não escreve muitos pormenores – como outros Evangelistas fazem – e podemos perguntar-nos qual a razão. Quando São João publica o “seu” Evangelho já depois de publicados os de São Mateus, São Marcos e São Lucas e talvez tenha achado desnecessário omitir alguns detalhes que os outros já tinham feito constar. A sua principal preocupação e insistência é a afirmação conclusiva da divindade de Jesus Cristo. Assim a referência: «Sou Eu, não tenhais medo!» é o mais importante a sublinhar.

Com Cristo no barco, depois de ter caminhado sobre as águas revoltas, o mar amainou e «o barco chegou imediatamente à terra para onde iam.»

Quase todos nós já alguma vez experimentamos essa surpresa e esse poder de Cristo Nosso Senhor. Concluímos que, além de não haver motivo para termos medo, bem ao contrário sobram razões para confiar e ter absoluta Fé n’Ele.

A uma pergunta concreta: «Que havemos nós de fazer para realizar as obras de Deus?», o Senhor responde com toda a clareza: «A obra de Deus é esta: crer naquele que Ele enviou.» Não há pois, alternativa: é fundamental acreditar em Cristo para fazer a Vontade de Deus que, como sabemos, é que alcancemos a salvação eterna.

Jesus confirma que o verdadeiro alimento – o que de facto interessa para a nossa salvação – é a Sua palavra, Ele Próprio.

Na Sagrada Comunhão Eucarística temos esse privilégio que no Seu Coração Misericordioso Ele instituiu exactamente para que tenhamos esse mesmo alimento disponível sempre que dele precisarmos.

E… precisamos sempre! Nele encontramos a força, a coragem, a determinação para seguir em frente nos caminhos da vida por agrestes ou difíceis que possam ser.

Nestes versículos São João como que “esconde” um milagre de Jesus: como se deslocou para o outro lado do lago.

Os que O procuram estranham e perguntam mas o Mestre não lhes responde directamente, antes lhes faz ver que terão de compreender que a Ele, Cristo, tudo é possível. Procurar Jesus com verdadeiro desejo de O encontrar e não por curiosidade simples é condição primeira para conseguir o que se pretende, Ele nunca negará a Sua presença aos que, com fome e sede, O procuram para serem saciados.

A Liturgia apresentanos o capítulo VI de São João e, estou convicto, que o faz porque nele se contém como que a “base” da nossa fé. Quem é, de facto, Jesus Cristo, o que veio fazer a este mundo, qual a Sua influência nas nossas vidas. Conhecer Jesus intimamente é uma obrigação não dispensável de qualquer cristão até porque, não se pode seguir e, muito menos amar, quem não se conhece.

A Vontade de Deus!

Fica uma vez mais, bem clara o que é e para que é. Jesus não deixa nem dúvidas nem alternativas. As Suas palavras são sempre concretas, claras, conclusivas. Não vale a pena procurar noutro lado o que está bem expresso pelo próprio Filho de Deus porque – e sabemo-lo muito bem – só Ele é a Verdade e unicamente Ele nos pode garantir a salvação eterna. É nítido que as pessoas que escutam Jesus não estão preparadas para entender o que lhes diz. Alguns, compreenderão e aceitarão a verdade e, serão esses, que ao longo dos tempos irão transmitindo ao mundo essa maravilha do Milagre Eucarístico. Refiro-me, naturalmente, aos Doze que participaram na Última Ceia e que receberam o mandato expresso de repetir os gestos e as palavras do Senhor em Sua memória. A Santa Igreja guarda como tesouro inestimável este mandato renovando milhares de vezes, todos os dias, este extraordinário milagre para distribuir aos seus filhos o verdadeiro Corpo e Sangue do Senhor, como alimento e penhor de vida eterna

Neste trecho do Evangelho é para mim difícil fugir à tentação da ''contabilidade'' dos poucos números referenciados. Será uma tentação boa porque me leva a assombrar-me mais e mais com a magnificência do milagre, mas, depois, penso: o que interessa os cinco mil homens saciados, ou os doze cestos que sobraram? Acaso se o número de pessoas fosse outro - o dobro... o triplo - não teriam, igualmente, ficado saciados? E, na verdade, Jesus não podia ter feito com que sobrassem bocados suficientes para encher cem cestos? Claro que sim e, por se aperceberem do verdadeiro e absoluto poder de Cristo, é que, entusiasmados, o queriam fazer Rei.

Quando vê a multidão que O espera a primeira reacção de Jesus é preocupar-se com o seu alimento. Sabe muito bem que todos esperam pelas Suas palavras, pelo que tem a dizer-lhes, a ensinar-lhes, mas, há necessidades básicas que Ele não pode deixar de considerar porque a Sua preocupação pelos outros abarca o "homem todo", corpo e espírito. Mais tarde, a Sua Igreja, através dos tempos, demonstrará essa mesma preocupação e, pelo mundo inteiro não há maior "movimento" que o promovido pelos cristãos, pela Igreja, quer seja em obras assistenciais, quer no ensino, quer nas necessidades mais básicas de todos os homens a começar pelos mais desfavorecidos ou carenciados. A humanidade "deve" à Igreja Católica este trabalho que, muitas vezes fazendo o que competiria à sociedade civil, vai a toda a parte, a todos os que carecem de auxílio e que dependem quase exclusivamente, desta assistência voluntária, gratuita, generosa.

Como sempre, São João não deixa de frisar bem a divindade de Jesus Cristo. Ele é o Pão da Vida Aquele que veio ao mundo propositadamente para Se transformar em alimento perene e absolutamente gratuito. O homem tem de comer o seu pão diário com o suor do seu rosto, o esforço do seu trabalho, mas, este Pão está disponível – sempre – basta que o homem queira aproveitar tão extraordinária benesse. Nunca conseguiremos atingir plenamente o “alcance da Sagrada Eucaristia e, muito menos, o que seria de nós – o que seria da humanidade - se Jesus Cristo não tivesse tido esse acto de amor que excede quanto o homem pode esperar da Misericórdia Divina.

Quase com as mesmas palavras, pacientemente, o Senhor, desta vez na sinagoga, fala sobre a Sua missão e a forma como se dispõe a tudo fazer para proporcionar ao homem os meios de salvação necessários.

Não se pode estranhar a reacção de alguns pois ouvem, mas não compreendem como poderão “comer a carne do Homem que lhes fala”! Mas, ainda bem que o Evangelista registou estas reacções porque provam que realmente entendem que Jesus não lhes fala em sentido figurado, mas revelando uma verdade absoluta. Daí que, quando na Última Ceia instituiu o Sacramento da Eucaristia, os Apóstolos tivessem não só compreendido como arreigado no mais fundo do seu espírito do que realmente se tratava de tal forma que, pelos séculos fora, hão-de repetir – conforme o Senhor lhes recomendou – os mesmos gestos e palavras na Consagração do Pão e do Vinho.

Jesus Cristo é o nosso Salvador, com a Sua Morte e Ressurreição, resgatou-nos para a Vida Eterna, para a convivência com a Santíssima Trindade. Deu-nos a dignidade de filhos de Deus e, na verdade, o que faz um Pai pelos seus filhos? Faz absolutamente tudo ao seu alcance, mas, sem dúvida, a sua primeira preocupação é garantir a sua subsistência. É o que, realmente, acontece com a Sagrada Eucaristia. Ele, o Jesus que viveu e morreu no meio de nós e por nós, quis ficar, para sempre como alimento concreto e real para nos dar ânimo, força, coragem e perseverança porque sabe muito bem que, sem esse alimento divino, não subsistiríamos nem conservaríamos a nossa Fé. Mistério extraordinário do Amor Divino que só encontra quem O procura com o mesmo Amor, compunção e devoção que Ele nos merece.

«Dá-nos, Senhor, desse Pão…», pediam-lhe as multidões que o escutavam e, nós, repetimos expectantes e felizes as mesmas palavras.

«Dá-nos, Senhor, desse Pão» para que consigamos o que não podemos só com o nosso querer, para que alcancemos o que desejamos só com as nossas forças.

Não podemos deixar de compreender as dúvidas dos que ouviam Jesus. De facto, as Suas palavras, tomadas à letra, seriam não só incompreensíveis como de difícil aceitação.

Mas Cristo fala para todos e desses muitos compreendem e aceitam e, outros mais tarde hão-de compreender e aceitar. Então, concluímos, Jesus Cristo fala com palavras de vida eterna, ou, por outras palavras, para todos os homens de todos os tempos. Jesus Cristo declara que É o «pão da vida», ou seja, o alimento que transmite, conserva e mantém a verdadeira vida do ser humano. E que ”verdadeira vida” é esta? Pois, a vida de união com Cristo, já que a vida sem Deus, não tem qualquer futuro e, o homem, foi criado para a eternidade. Mas, o mais extraordinário, é que este alimento está ao nosso dispor de forma absolutamente gratuita e não precisamos de o procurar – diria trabalhar – como fazemos com o sustento do corpo.

Ao pensar nisto, apetece-nos dizer-Lhe, como os discípulos: «Senhor, dá-nos sempre desse pão!»

Os “argumentos” dos judeus são sempre os mesmos, repetidos uma e outra vez por isso, o Senhor também tem de dar as mesmas respostas. Se nos espanta a renitência daqueles mais nos admira a infinita paciência de Cristo que não Se cansa nem foge às questões que Lhe colocam. Quem não quer ser convencido inventa todo a sorte de subterfúgios, pede sinais e evidências. Mas, repete-se, não querem ser convencidos porque esses sinais e evidências lhes foram dados em profusão que não podem ignorar.

Também nos dias de hoje alguns que se consideram “luminárias” de inteligência preclara se atrevem a considerar milhões de milhões de homens e mulheres de todas as raças e posição social como ignorantes e “joguetes” de manipulações da Santa Igreja. Refiro-me, por exemplo, aos que em meios de comunicação social afirmam que as Aparições de Nossa Senhora aos Pastorinhos em Fátima não passam de um embuste gigantesco, de uma ilusão habilmente aproveitada. A conclusão a que se chega é que, estes – coitados – nem que a Santíssima Virgem lhes aparecesse pessoalmente acreditariam!

São João insiste uma vez mais na divindade de Jesus Cristo. Não se entende bem que sinais Lhe pedem para acreditarem n’Ele, vê-se perfeitamente que nem sabem o que “inventar” para justificar as suas dúvidas e descrença. Mas o Senhor não Se enfada e, uma e outra vez, repete as palavras tantas vezes proferidas e que continuam a provocar controvérsia em alguns. O interessante é que parecem ser os mais cultos (ou evoluídos) que colocam essas questões e assumem essa postura, no fim e ao cabo têm de “defender” a todo o transe o que têm como verdades indiscutíveis e critérios correctos. Mas, na verdade, haverá alguns, talvez muitos, que tendo honestidade intelectual se irão aproximando cada vez mais de Jesus. Assim há-de ser, como Ele próprio disse: «Haverá um só rebanho e um só Pastor»

O Pão traduz a imagem do alimento fundamental para o ser humano. Por isso mesmo as imagens como: ganhar o pão diário, o pão necessário para a vida, o pão que é alimento, vida, sustento têm um significado que, nos Evangelhos, adquire um vulto e importância fundamentais.

Jesus Cristo intitula-Se, a Ele próprio, o “Pão da Vida”, o Pão que sacia verdadeiramente as necessidades do homem. Logo, Cristo é o alimento por excelência, que sacia e sustenta o ser humano. Sem este alimento fundamental, o homem não consegue subsistir ou, sequer, viver uma vida completa, plena e frutífera.

Na Sagrada Eucaristia, Ele oferece-se como esse Pão sempre disponível para todos os que procuram alimento para a verdadeira vida, a vida plena, a vida tanto espiritual como material que todoo ser humano tem necessidade absoluta.

Jesus continua o discurso do «Pão da Vida» e compreende-se porquê: A revelação, ou melhor, as revelações que faz sobre a Sua Pessoa são de tal forma importantes e determinantes que não pode deixar de vincar bem Quem É e porque veio. Ele preenche todo o ser humano com tudo quanto necessita para atingir o seu fim último: a Vida Eterna. Aliás, no último versículo (51), declara com muita exactidão para que não restem dúvidas: «o pão que Eu hei-de dar é a minha carne, pela vida do mundo.» Entregando a Sua Vida na Cruz, devolveu-nos a vida perdida pelo pecado de Adão e Eva.

O Evangelista São João dedica todo o Evangelho que escreveu a frisar que Jesus Cristo é Deus, Filho do Pai, a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade. Não é demais esta insistente catequese e nunca se poderá dizer que a Pessoa de Jesus Cristo não foi claramente definida e a Sua missão completamente esclarecida. E importa muito que os cristãos tenham presente esta verdade de Fé – tal como professam no “CREDO” – e que ao recebê-lo na Sagrada Eucaristia o façam com todo o respeito, compunção e amor que Lhe são devidos.

Filipe é o discípulo que faz as perguntas cruciais quando não entende pergunta.
E os outros?

Entenderiam tudo?

Não teriam dúvidas?


Seguramente que sim só que não mostram a sua necessidade de esclarecimento. Filipe demonstra além disso que de facto ouve quanto o Mestre diz com extrema atenção não perdendo, por assim dizer, nada dos discursos - por vezes longos - de Jesus. Tem a intuição que quanto ouve lhe será necessário sobretudo no futuro quando tiver de transmitir a outros as palavras de Cristo. É no fim e ao cabo, aprender a Doutrina de modo consciente e seguro.

A declaração de São Pedro é a que todos os homens gostaríamos de fazer, deveríamos fazer! Não há outro caminho para a salvação, não existe outro meio para atingir o Reino de Deus. Esta é a verdade mais intrínseca da nossa fé.

São Pedro tem de facto as palavras certas, decisivas. É mais inteligente que os outros? Talvez não mas, seguramente, tem mais fé porque tem mais amor. É um homem maduro, prático, simples. Sabe reconhecer a verdade nas palavras de Cristo porque tem n’Ele toda a confiança. Tem fraquezas? Bem sabemos que sim mas essas fraquezas são como que “apagadas” pela sua extraordinária capacidade de arrependimento sincero e contrito. Por isso, o Senhor conta com ele para chefe e guia da Igreja que irá fundar.

As palavras de Jesus são entendidas “à letra” como se constata pela reacção que provocam. Poderia, Cristo, ter explicado melhor o que dissera? Sem dúvida que sim, mas, de facto, o que Ele quer e deseja é que oiçam o que tem para dizer com os ouvidos e com o coração porque, se os ouvidos ouvem o coração interpreta. Não se ouvem as palavras de Cristo como quem ouve um discurso, mas como algo que deve ir directamente ao mais íntimo da nossa pessoa humana e, sendo assim, pensar no que ouve e, se não entende, perguntar para ficar esclarecido. Pedro ouviu e entendeu as palavras do Mestre por isso deu a resposta que ficará para sempre como um acto de Fé consciente e consistente. Assim, ouviu da boca do Senhor a afirmação que era ‘bem-aventurado’.

 

20/04/2023

Publicações em Abril 20

 


 

Dentro do Evangelho

 

Re Jo III, 31-36

 

31 Aquele que vem do Alto está acima de tudo. Quem é da terra à terra pertence e fala da terra. Aquele que vem do Céu está acima de tudo 32 e dá testemunho daquilo que viu e ouviu, mas ninguém aceita o seu testemunho. 33 Quem aceita o seu testemunho reconhece que Deus é verdadeiro; 34 pois aquele que Deus enviou transmite as palavras de Deus, porque dá o Espírito sem medida. 35 O Pai ama o Filho e tudo põe na sua mão. 36 Quem crê no Filho tem a vida eterna; quem se nega a crer no Filho não verá a vida, mas sobre ele pesa a ira de Deus.

 

Comentários:

 

O Evangelista São João ocupa praticamente um capítulo – o XIII - do Evangelho que escreve a discorrer sobre a conversa de Jesus com o fariseu Nicodemos. É muito importante que o faça para que fique bem claro que o Senhor não Se exime a discorrer em termos e com argumentação de cariz mais elevado – por assim dizer – mas que é o mais indicado para a cultura do ouvinte. Também nós, seguidores de Cristo encarregados por Ele de disseminar por todas as partes a Sua Palavra, temos de fazer um verdadeiro esforço para nos adaptarmos quer às circunstâncias quer às audiências e não nos limitarmos a “papaguear” frases feitas e argumentos genéricos. Uma homilia, palestra ou conferência, tem de ser preparada e pensada detidamente sem o que se estará a faltar ao respeito aos ouvintes como, talvez, as nossas palavras não tenham o impacto e acolhimento que deveriam ter. Não temos que ser “doutores” nem ter qualidades oratórias especiais, bastará sermos honestos, sinceros e pedir a assistência do Espírito Santo.

Há um pormenor interessante na declaração inicial de Nicodemos: ‘sabemos que foste enviado por Deus». Este "sabemos" permite-nos pensar que haveria outros Fariseus e outros principais entre os judeus que partilhavam a mesma opinião que Nicodemos a respeito de Jesus Cristo. É uma conclusão que além de lógica nos deve alegrar muito e, sobretudo, a não aceitar a opinião que TODOS estes estavam contra Cristo.

Não sabemos porque prevaleceu a vontade de dar a morte ao Senhor se por maioria, por temor, ou outra razão qualquer, seja como for, pelo menos dois – José de Arimateia e Nicodemos – demonstraram uma coragem e desassombro que de alguma forma “redime” a atitude dos outros. Ao pedirem a Pilatos o corpo do Senhor e dar-lhe sepultura condigna, obtiveram um lugar entre os que o Senhor consideraria Seus amigos.

Renascer! A resposta de Jesus a Nicodemos que não a compreende de imediato. As pessoas estão mais habituadas a falar das coisas temporais que das do espírito e, portanto, vêm com maior facilidade com os olhos do corpo que com os olhos da alma. O que se trata aqui é do chamado "homem novo" que aparece, por assim dizer, com a ressurreição de Cristo, assumindo com pleno direito a filiação divina. Mas, argumenta-se, antes o homem não era filho de Deus? Realmente, antes, o homem era uma criatura pertencente a Deus, depois, com a Ressurreição, assume o estatuto de Filho deixando de ser uma "posse" para passar afazer parte de uma família: a Família Divina.

Nicodemos não entende que Cristo lhe fala de uma vida nova, a vida dos filhos de Deus. E, naturalmente, fala-lhe da fé imprescindível para acreditar e para, acreditando, renascer. Garante-lhe que o Seu sacrifício na Cruz será o sinal e o penhor dessa nova vida.

A conversa de Jesus com Nicodemos não pode ser mais esclarecedora. O fariseu é, sem dúvida, uma pessoa bem-intencionada e com evidente vontade de conhecer em profundidade a doutrina de Jesus e a Sua Pessoa. Por isso mesmo o Senhor o esclarece num tom e com argumentos que deixam antever uma especial relação entre os dois. Nicodemos é um homem sereno e justo e, para Jesus Cristo, estas são qualidades absolutamente necessárias a quem quer intimar com Ele. Podemos legitimamente presumir que as conversas entre os dois foram inúmeras e que Jesus se comprazia em atender e acolher aquele homem bem-intencionado que O procurava com honestidade intelectual e sinceros desejos de compreender para poder acreditar.

A Cruz – a Cruz de Cristo – ficará para todo o sempre como o sinal do Amor Maior, da Doação Suprema. Não se pode separar Cristo da Cruz porque foi nela que deu a Sua Vida para redenção dos homens e salvação da humanidade. No deserto, os que eram mordidos por serpentes olhavam para a serpente de bronze que Moisés colocara no alto de um poste e ficavam curados, nesta nossa vida corrente, olhamos para a Cristo na Cruz e ficamos curados das nossas dúvidas e medos, sentimos a tranquila certeza de que Ele vela por nós. Ninguém, seja quem for, fica imune ou indiferente a Cristo na Cruz, atrai o olhar de todos, todos têm de O ver.

Esta afirmação de Jesus Cristo: «Deus não enviou o seu Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por Ele» contém toda a razão que moveu a Vontade de Deus em enviar o Seu Filho Unigénito ao mundo. O Criador via a que, a criatura humana estava irremediavelmente perdida depois do pecado de Adão e Eva, por si só, fizesse o que fizesse, não poderia salvar-se porque o “fosso” aberto pelo pecado original lhe era impossível de transpor. O Amor de Deus pelas criaturas é de tal ordem que unicamente prevê a sua salvação, ou seja, a sua companhia por toda a eternidade. Mas, esta “decisão” do Senhor tem, talvez, um objectivo principal: teria de ser de tal forma grandiosa, excedendo todo o amor de forma total e definitiva que, a partir desse momento, acontece uma clivagem tão profunda e marcante que a criatura jamais será a mesma. Mantendo a sua liberdade dá-lhe a possibilidade se ser Seu filho verdadeiro e com Ele gozar a bem aventurança eterna.

A Bíblia relata que Deus mandara Moisés colocar no alto de um poste uma serpente de bronze de modo a que quantos fossem mordidos por serpentes a olhassem e ficassem curados. Aqui, Jesus Cristo faz como que uma analogia entre este episódio e a Sua própria crucificação. «Et ego, si exaltatus fuero a terra, omnia traham ad meipsum.» O Crucificado atrai o olhar de toda a humanidade, contemplar a Cruz de Cristo onde nos salvou e redimiu, é um acto de fé e de amor, de gratidão e confiança, é como que o “emblema” que o cristão transporta consigo onde quer que vá, onde quer que esteja. Tal como a tradição refere, “com este sinal… vencerás”, é o estandarte que nos guiará sempre à vitória final que é a conquista do Reino dos Céus.

Já o dissemos, mas, repetimos: Cristo e a Cruz são inseparáveis. Parece que alguns arquitectos ou decoradores de Igrejas, ignoram esta afirmação e, então, vemos imagens de Cristo pendendo de uma parede ou uma Cruz simples, sem o Crucificado. Não pode ser e NUNC COEPI chama a tenção para este assunto. Junto do altar onde se celebra a Santa Missa, - seja de lado, em cima do próprio altar ou atrás deste – tem de existir um Crucifixo bem visível por toda a assembleia.

Também a nós o Senhor nos diz constantemente:
Levanta-te, sai desse torpor, desse comodismo em que estás mergulhado e anda, vem comigo! Muitos estão à tua espera para que os assistas nas suas necessidades, fales de salvação e de esperança, de amor e solidariedade, de fé e confiança. Não fiques deitado quando podes andar, não te detenhas metido em ti mesmo e nos teus problemas. Estão à tua espera para que os ajudes a resolver os deles. Levanta-te! Anda!

A atracção autêntica, real que a Cruz exerce sobre a humanidade torna-se irresistível quando está presente o Amor. Sim, o amor autêntico tal como o do próprio Deus Criador que quis salvar-nos de nós próprios dando-nos o Seu Próprio Filho como garantia desse mesmo Amor. E o Filho levou ainda mais longe – se assim se pode dizer – esse Amor ao oferecer em holocausto a Sua Vida na Cruz. Por mais que alguns tentem fugir-lhe ou negá-la, a Cruz de Cristo está sempre presente e assim permanecerá até ao final dos tempos.

São João é radical, não deixa nada por dizer e escreve o que ouviu da própria boca de Jesus. Então, podemos dizer, que O Senhor É radical? Se radicalismo significa dizer a absoluta verdade sem qualquer desvio ou "nuance" então, podemos dizer que sim. Mais... penso que não poderia ser de outro modo porque, sendo Ele Próprio a Verdade, como poderia dizer e agir diferentemente? A Verdade não se compadece com "meias palavras", talvez para não "chocar" ou não desagradar a alguns, a Verdade é, por isso mesmo, a expressão completa da justiça e, uma vez mais afirmamos, que Deus é a própria Justiça.

São João enfatiza, mais uma vez, que o Amor de Deus pelos homens não conhece limites.Podemos perguntar que Deus é Este que quer, deseja e “paga um preço” tremendo para salvar as criaturas que Lhe pertencem – porque as criou? A resposta parece clara: É um Deus de Amor! Que o homem se salve ou não, passa a depender exclusivamente da vontade própria, Ele, o Criador, pôs à sua disposição os meios necessários e suficientes para que o consiga. Este Deus de Amor também É um Deus de Liberdade! A salvação do homem não acrescenta em nada a Sua Glória Incomensurável, mas compraz o Seu Amor Infinito.

Este mistério da Santíssima Trindade tem sido, ao longo dos tempos, desde que Jesus Cristo o revelou, estudado e meditado por inúmeras pessoas, algumas de enorme craveira, de escassa cultura, outras. Mas, a verdade, é que a revelação de Jesus se dirigia a quantos O escutavam, o povo simples, anónimo, como a todos os outros, incluindo, por exemplo, os Doutores da Lei. Assim devemos pensar que todos estamos incluídos e, sobretudo, acreditar na revelação divina e que um dia tudo se tornará claro e transparente.

Ao baptizar as gentes tal qual João fazia, Jesus Cristo valida e institui o Baptismo. O Sacramento por excelência – poderíamos dizer – porque é aquele que nos converte de simples criaturas em autênticos Filhos de Deus. Quantas crianças por baptizar, meu Deus? Como é possível negar a um inocente essa grandeza, esse extraordinário dom que Deus põe à sua disposição? E se, por falta de fé, ou outro motivo qualquer, não baptizam o filho ou filha ainda crianças, porque não lhes dão – ao longo da juventude - uma oportunidade de saber o que é o Baptismo e poder decidir por si se o quer receber? Então um pai ou uma mãe não há-de querer o melhor para os seus filhos e, se acaso não sabe, não tem o estrito dever de se informar?

As sucessivas traduções dos Evangelhos para várias línguas, colocaram muitas vezes palavras ou expressões que não devem corresponder, no seu sentido lato, às palavras que Jesus terá usado. Será o caso, por exemplo, da expressão: «a ira de Deus permanece sobre ele». A palavra “ira” era muito usada no AT que considerava Deus como uma espécie de chefe guerreiro sempre disposto a usar as forças celestes contra os inimigos do povo escolhido. Bem ao contrário, Jesus Cristo vem dizer que Deus é misericordioso e compassivo e que tudo fará para que o homem tenha suficientes meios e possibilidades de salvação. Perdão e misericórdia em lugar de imposição ou castigo.

As palavras que o Evangelista usa neste pequeno texto, talvez não correspondam exactamente às que o Senhor terá usado. De facto, custa-nos ouvir o Senhor da Misericórdia e Príncipe da Paz falar da "ira de Deus", mas também temos de convir que, naqueles tempos o vocabulário era escasso para expressar sentimentos e, também, não "chocariam" os ouvintes por isso mesmo. Mas, o que verdadeiramente interessa é reter esta verdade que o Senhor expõe com tanta veemência: «Quem acredita no Filho tem a vida eterna; quem, porém, não acredita no Filho não verá a vida».

 

 

19/04/2023

Publicações em Abril 19



 

Dentro do Evangelho

 

(Re Jo III, 21)

 

6 Aquilo que nasce da carne é carne, e aquilo que nasce do Espírito é espírito. 7 Não te admires por Eu te ter dito: Vós tendes de nascer do Alto. 8 O vento sopra onde quer e tu ouves a sua voz, mas não sabes de onde vem nem para onde vai. Assim acontece com todo aquele que nasceu do Espírito. 9 Nicodemos interveio e disse-lhe: ‘Como pode ser isso?’ 10 Jesus respondeu-lhe: Tu és mestre em Israel e não sabes estas coisas? 11 Em verdade, em verdade te digo: nós falamos do que sabemos e damos testemunho do que vimos, mas vós não aceitais o nosso testemunho. 12 Se vos falei das coisas da terra e não credes, como é que haveis de crer quando vos falar das coisas do Céu? 13 Pois ninguém subiu ao Céu a não ser aquele que desceu do Céu, o Filho do Homem. 14 Assim como Moisés ergueu a serpente no deserto, assim também é necessário que o Filho do Homem seja erguido ao alto, 15 a fim de que todo o que nele crê tenha a vida eterna. 16 Tanto amou Deus o mundo, que lhe entregou o seu Filho Unigénito, a fim de que todo o que nele crê não se perca, mas tenha a vida eterna. 17 De facto, Deus não enviou o seu Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por Ele. 18 Quem nele crê não é condenado, mas quem não crê já está condenado, por não crer no Filho Unigénito de Deus. 19 E a condenação está nisto: a Luz veio ao mundo, e os homens preferiram as trevas à Luz, porque as suas obras eram más. 20 De facto, quem pratica o mal odeia a Luz e não se aproxima da Luz para que as suas acções não sejam desmascaradas. 21 Mas quem pratica a verdade aproxima-se da Luz, de modo a tornar-se claro que os seus actos são feitos segundo Deus.

 

Comentários:

O Evangelista São João ocupa praticamente um capítulo – o XIII - do Evangelho que escreve a discorrer sobre a conversa de Jesus com o fariseu Nicodemos. É muito importante que o faça para que fique bem claro que o Senhor não Se exime a discorrer em termos e com argumentação de cariz mais elevado – por assim dizer – mas que é o mais indicado para a cultura do ouvinte. Também nós, seguidores de Cristo encarregados por Ele de disseminar por todas as partes a Sua Palavra, temos de fazer um verdadeiro esforço para nos adaptarmos quer às circunstâncias quer às audiências e não nos limitarmos a “papaguear” frases feitas e argumentos genéricos. Uma homilia, palestra ou conferência, tem de ser preparada e pensada detidamente sem o que se estará a faltar ao respeito aos ouvintes como, talvez, as nossas palavras não tenham o impacto e acolhimento que deveriam ter. Não temos que ser “doutores” nem ter qualidades oratórias especiais, bastará sermos honestos, sinceros e pedir a assistência do Espírito Santo.

Há um pormenor interessante na declaração inicial de Nicodemos: ‘sabemos que foste enviado por Deus». Este "sabemos" permite-nos pensar que haveria outros Fariseus e outros principais entre os judeus que partilhavam a mesma opinião que Nicodemos a respeito de Jesus Cristo. É uma conclusão que além de lógica nos deve alegrar muito e, sobretudo, a não aceitar a opinião que TODOS estes estavam contra Cristo.

Não sabemos porque prevaleceu a vontade de dar a morte ao Senhor se por maioria, por temor, ou outra razão qualquer, seja como for, pelo menos dois – José de Arimateia e Nicodemos – demonstraram uma coragem e desassombro que de alguma forma “redime” a atitude dos outros. Ao pedirem a Pilatos o corpo do Senhor e dar-lhe sepultura condigna, obtiveram um lugar entre os que o Senhor consideraria Seus amigos.

Renascer! A resposta de Jesus a Nicodemos que não a compreende de imediato. As pessoas estão mais habituadas a falar das coisas temporais que das do espírito e, portanto, vêm com maior facilidade com os olhos do corpo que com os olhos da alma. O que se trata aqui é do chamado "homem novo" que aparece, por assim dizer, com a ressurreição de Cristo, assumindo com pleno direito a filiação divina. Mas, argumenta-se, antes o homem não era filho de Deus? Realmente, antes, o homem era uma criatura pertencente a Deus, depois, com a Ressurreição, assume o estatuto de Filho deixando de ser uma "posse" para passar afazer parte de uma família: a Família Divina.

Nicodemos não entende que Cristo lhe fala de uma vida nova, a vida dos filhos de Deus. E, naturalmente, fala-lhe da fé imprescindível para acreditar e para, acreditando, renascer. Garante-lhe que o Seu sacrifício na Cruz será o sinal e o penhor dessa nova vida.

A conversa de Jesus com Nicodemos não pode ser mais esclarecedora. O fariseu é, sem dúvida, uma pessoa bem-intencionada e com evidente vontade de conhecer em profundidade a doutrina de Jesus e a Sua Pessoa. Por isso mesmo o Senhor o esclarece num tom e com argumentos que deixam antever uma especial relação entre os dois. Nicodemos é um homem sereno e justo e, para Jesus Cristo, estas são qualidades absolutamente necessárias a quem quer intimar com Ele. Podemos legitimamente presumir que as conversas entre os dois foram inúmeras e que Jesus se comprazia em atender e acolher aquele homem bem-intencionado que O procurava com honestidade intelectual e sinceros desejos de compreender para poder acreditar.

A Cruz – a Cruz de Cristo – ficará para todo o sempre como o sinal do Amor Maior, da Doação Suprema. Não se pode separar Cristo da Cruz porque foi nela que deu a Sua Vida para redenção dos homens e salvação da humanidade. No deserto, os que eram mordidos por serpentes olhavam para a serpente de bronze que Moisés colocara no alto de um poste e ficavam curados, nesta nossa vida corrente, olhamos para a Cristo na Cruz e ficamos curados das nossas dúvidas e medos, sentimos a tranquila certeza de que Ele vela por nós. Ninguém, seja quem for, fica imune ou indiferente a Cristo na Cruz, atrai o olhar de todos, todos têm de O ver.

Esta afirmação de Jesus Cristo: «Deus não enviou o seu Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por Ele» contém toda a razão que moveu a Vontade de Deus em enviar o Seu Filho Unigénito ao mundo. O Criador via a que, a criatura humana estava irremediavelmente perdida depois do pecado de Adão e Eva, por si só, fizesse o que fizesse, não poderia salvar-se porque o “fosso” aberto pelo pecado original lhe era impossível de transpor. O Amor de Deus pelas criaturas é de tal ordem que unicamente prevê a sua salvação, ou seja, a sua companhia por toda a eternidade. Mas, esta “decisão” do Senhor tem, talvez, um objectivo principal: teria de ser de tal forma grandiosa, excedendo todo o amor de forma total e definitiva que, a partir desse momento, acontece uma clivagem tão profunda e marcante que a criatura jamais será a mesma. Mantendo a sua liberdade dá-lhe a possibilidade se ser Seu filho verdadeiro e com Ele gozar a bem aventurança eterna.

A Bíblia relata que Deus mandara Moisés colocar no alto de um poste uma serpente de bronze de modo a que quantos fossem mordidos por serpentes a olhassem e ficassem curados. Aqui, Jesus Cristo faz como que uma analogia entre este episódio e a Sua própria crucificação. «Et ego, si exaltatus fuero a terra, omnia traham ad meipsum.» O Crucificado atrai o olhar de toda a humanidade, contemplar a Cruz de Cristo onde nos salvou e redimiu, é um acto de fé e de amor, de gratidão e confiança, é como que o “emblema” que o cristão transporta consigo onde quer que vá, onde quer que esteja. Tal como a tradição refere, “com este sinal… vencerás”, é o estandarte que nos guiará sempre à vitória final que é a conquista do Reino dos Céus.

Já o dissemos, mas, repetimos: Cristo e a Cruz são inseparáveis. Parece que alguns arquitectos ou decoradores de Igrejas, ignoram esta afirmação e, então, vemos imagens de Cristo pendendo de uma parede ou uma Cruz simples, sem o Crucificado. Não pode ser e NUNC COEPI chama a tenção para este assunto. Junto do altar onde se celebra a Santa Missa, - seja de lado, em cima do próprio altar ou atrás deste – tem de existir um Crucifixo bem visível por toda a assembleia.

Também a nós o Senhor nos diz constantemente:
Levanta-te, sai desse torpor, desse comodismo em que estás mergulhado e anda, vem comigo! Muitos estão à tua espera para que os assistas nas suas necessidades, fales de salvação e de esperança, de amor e solidariedade, de fé e confiança. Não fiques deitado quando podes andar, não te detenhas metido em ti mesmo e nos teus problemas. Estão à tua espera para que os ajudes a resolver os deles. Levanta-te! Anda!

A atracção autêntica, real que a Cruz exerce sobre a humanidade torna-se irresistível quando está presente o Amor. Sim, o amor autêntico tal como o do próprio Deus Criador que quis salvar-nos de nós próprios dando-nos o Seu Próprio Filho como garantia desse mesmo Amor. E o Filho levou ainda mais longe – se assim se pode dizer – esse Amor ao oferecer em holocausto a Sua Vida na Cruz. Por mais que alguns tentem fugir-lhe ou negá-la, a Cruz de Cristo está sempre presente e assim permanecerá até ao final dos tempos.

São João é radical, não deixa nada por dizer e escreve o que ouviu da própria boca de Jesus. Então, podemos dizer, que O Senhor É radical? Se radicalismo significa dizer a absoluta verdade sem qualquer desvio ou "nuance" então, podemos dizer que sim. Mais... penso que não poderia ser de outro modo porque, sendo Ele Próprio a Verdade, como poderia dizer e agir diferentemente? A Verdade não se compadece com "meias palavras", talvez para não "chocar" ou não desagradar a alguns, a Verdade é, por isso mesmo, a expressão completa da justiça e, uma vez mais afirmamos, que Deus é a própria Justiça.

São João enfatiza, mais uma vez, que o Amor de Deus pelos homens não conhece limites.Podemos perguntar que Deus é Este que quer, deseja e “paga um preço” tremendo para salvar as criaturas que Lhe pertencem – porque as criou? A resposta parece clara: É um Deus de Amor! Que o homem se salve ou não, passa a depender exclusivamente da vontade própria, Ele, o Criador, pôs à sua disposição os meios necessários e suficientes para que o consiga. Este Deus de Amor também É um Deus de Liberdade! A salvação do homem não acrescenta em nada a Sua Glória Incomensurável, mas compraz o Seu Amor Infinito.

Este mistério da Santíssima Trindade tem sido, ao longo dos tempos, desde que Jesus Cristo o revelou, estudado e meditado por inúmeras pessoas, algumas de enorme craveira, de escassa cultura, outras. Mas, a verdade, é que a revelação de Jesus se dirigia a quantos O escutavam, o povo simples, anónimo, como a todos os outros, incluindo, por exemplo, os Doutores da Lei. Assim devemos pensar que todos estamos incluídos e, sobretudo, acreditar na revelação divina e que um dia tudo se tornará claro e transparente.