19/08/2021

NUNC COEPI: Publicações em Agosto 19

  


Quinta-Feira 

 

(Coisas muito simples, curtas, objectivas)

 

Propósito: Participar na Santa Missa.

Senhor, vendo-me tal como sou, nada, absolutamente, tenho esta percepção da grandeza que me está reservada dentro de momentos: Receber o Corpo, o Sangue, a Alma e a Divindade do Rei e Senhor do Universo.

O meu coração palpita de alegria, confiança e amor. Alegria por ser convidado, confiança em que saberei esforçar-me por merecer o convite e amor sem limites pela caridade que me fazes. Aqui me tens, tal como sou e não como gostaria e deveria ser.

Não sou digno, não sou digno, não sou digno! Sei porém, que a uma palavra Tua a minha dignidade de filho e irmão me dará o direito a receber-te tal como Tu mesmo quiseste que fosse. Aqui me tens, Senhor. Convidaste-me e eu vim.

Lembrar-me: Comunhões espirituais.

Senhor, eu quisera receber-vos com aquela pureza, humildade e devoção com que Vos recebeu Vossa Santíssima Mãe, com o espírito e fervor dos Santos.

Pequeno exame: Cumpri o propósito que me propus ontem?

 


LEITURA ESPIRITUAL

 

XX, 1-44

A autoridade de Jesus

1 Num daqueles dias, estando Ele no templo a ensinar o povo e a anunciar a Boa-Nova, apresentaram-se os sumos-sacerdotes, os doutores da Lei e os anciãos 2 e dirigiram-lhe a palavra, dizendo: «Diz-nos com que autoridade fazes estas coisas, ou quem te deu tal autoridade.» 3 Respondeu-lhes: «Também Eu vou fazer-vos uma pergunta. Dizei-me: 4 o baptismo de João era do Céu, ou dos homens?» 5 Eles começaram a discorrer entre si, dizendo: «Se respondermos que era do Céu, Ele dirá: ‘Porque não acreditastes nele?’ 6 Se respondermos que era dos homens, todo o povo nos apedrejará, porque consideram João como profeta.» 7 Responderam, então, que não sabiam de onde era. 8 Jesus disse-lhes: «Também Eu não vos digo com que autoridade faço isto.»

 

O vinhateiros homicidas

9 Começou, depois, a expor ao povo a seguinte parábola: «Um homem plantou uma vinha, arrendou-a a uns vinhateiros e ausentou-se por muito tempo. 10 No devido tempo, mandou um servo aos vinhateiros, para estes lhe entregarem parte dos frutos da vinha. Mas os vinhateiros despediram-no de mãos vazias, depois de o terem açoitado. 11 Enviou outro servo, mas também o açoitaram, ultrajaram e despediram-no sem nada. 12 Enviou ainda um terceiro; e eles, depois de o ferirem, lançaram-no fora. 13 O dono da vinha disse, então: ‘Que hei-de fazer? Vou mandar-lhes o meu filho bem amado; talvez o respeitem.’ 14 Mas, quando o viram, os vinhateiros disseram uns aos outros: ‘Este é que é o herdeiro; matemo-lo, para que a herança seja nossa.’ 15 E, lançando-o fora da vinha, mataram-no. A esses, que lhes fará o dono da vinha? 16 Virá, exterminará os vinhateiros e entregará a vinha a outros.» Ouvindo isto, eles disseram: «Que Deus não o permita!»

 

A pedra angular

17 Fitando-os, Jesus disse-lhes: «Que significa, então, o que está escrito: A pedra que os construtores rejeitaram veio a tornar-se pedra angular? 18 Todo aquele que cair sobre esta pedra ficará despedaçado, e aquele sobre quem ela cair ficará esmagado.» 19 Naquela altura, os doutores da Lei e os sumos sacerdotes procuravam deitar-lhe a mão, pois tinham compreendido que esta parábola lhes era dirigida; mas tiveram receio do povo.

 

O tributo a César

20 Então, puseram-se à espreita e mandaram-lhe espiões, que se fingiam justos com o fim de o surpreender em alguma palavra, para o entregarem ao poder e à jurisdição do governador. 21 Fizeram-lhe a seguinte pergunta: «Mestre, sabemos que falas e ensinas com rectidão e não fazes acepção de pessoas, mas ensinas o caminho de Deus segundo a verdade. 22 Devemos pagar tributo a César, ou não?» 23 Conhecendo a sua astúcia, Ele respondeu-lhes: 24 «Mostrai-me um denário. De quem é a efígie e a inscrição?» Eles disseram: «De César.» 25 Disse-lhes, então: «Dai, pois, a César o que é de César e a Deus o que é de Deus.» 26 Não conseguiram apanhar-lhe uma palavra em falso diante do povo; ao contrário, admirados com a sua resposta, ficaram calados.

 

A ressurreição

27 Aproximaram-se alguns saduceus, que negam a ressurreição, e interrogaram-no: 28 «Mestre, Moisés prescreveu-nos que, se morrer um homem deixando a mulher, mas não tendo filhos, seu irmão casará com a viúva, para dar descendência ao irmão. 29 Ora, havia sete irmãos: o primeiro casou-se e morreu sem filhos; 30 o segundo, 31 depois o terceiro, casaram com a viúva; e o mesmo sucedeu aos sete, que morreram sem deixar filhos. 32 Finalmente, morreu também a mulher. 33 Ora bem, na ressurreição, a qual deles pertencerá a mulher, uma vez que os sete a tiveram por esposa?» 34 Jesus respondeu-lhes: «Nesta vida, os homens e as mulheres casam-se; 35 mas aqueles que forem julgados dignos da vida futura e da ressurreição dos mortos não se casam, sejam homens ou mulheres, 36 porque já não podem morrer: são semelhantes aos anjos e, sendo filhos da ressurreição, são filhos de Deus. 37 E que os mortos ressuscitam, até Moisés o deu a entender no episódio da sarça, quando chama ao Senhor o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacob. 38 Ora, Deus não é Deus de mortos, mas de vivos; pois, para Ele, todos estão vivos.» 39 Tomando, então, a palavra, alguns doutores da Lei disseram: «Mestre, falaste bem.» 40 E já não se atreviam a interrogá-lo sobre mais nada.

 

O Messias, filho e Senhor de David

41 Jesus perguntou-lhes: «Como é que dizem que o Messias é filho de David, 42 se o próprio David diz no Livro dos Salmos: Disse o Senhor ao meu Senhor: Senta-te à minha direita, 43 até que Eu ponha os teus inimigos por escabelo dos teus pés. 44 Se David lhe chama ‘Senhor’, como pode Ele ser seu Filho?»

 

Hipocrisia dos escribas

45 Quando todo o povo o escutava, Jesus disse aos discípulos: 46 «Tomai cuidado com os doutores da Lei, que sentem prazer em passear de túnicas compridas, e gostam de ser cumprimentados nas praças públicas, dos primeiros lugares nas sinagogas e dos primeiros assentos nos banquetes; 47 eles, que devoram as casas das viúvas, simulando longas orações, terão um castigo mais severo.»

 

Comentário

 

Na ânsia de pôr o Senhor a ridículo os saduceus nem se dão conta da falta de seriedade da pergunta que fazem: Se, como se sabe, negam a ressurreição como podem discorrer sobre ela? Aliás, nem sequer é uma pergunta, mas uma mera provocação disparatada e sem qualquer desejo sério de obter uma resposta. Mas, o extraordinário neste trecho de São Lucas, é que, não obstante, o Senhor não lhes volta as costas – o que seguramente muitos de nós faríamos – e dá uma resposta. Porquê? Não pelos saduceus, seguramente, mas para elucidar, doutrinar, esclarecer sobre a ressurreição dos mortos quantos estavam presentes já que, de facto, era um tema algo controverso para o povo que não obtinha uma explicação clara e concludente por parte dos que deviam, por razão de ofício, dar-lha.

As pessoas com espírito retorcido e falta de seriedade no critério não chegam a dar-se conta do ridículo ou inapropriado das questões que colocam, as perguntas que fazem ou as opiniões que emitem. São bem conhecidas – e numerosas infelizmente – essas pessoas que andam pela vida com um olhar crítico e o olhar acerado sempre pronto a avaliar, julgar, emitir opinião, parece – e talvez seja verdade – que nada mais os move na vida que avaliar, julgar, comentar sobre tudo e sobre todos, mesmo sobre matérias que desconhecem ou assuntos que não dominam. O que se deve fazer com esta gente? Ignorá-los! Mostrar-lhes desinteresse ou desprezo? Não foi assim que o Senhor procedeu, bem ao contrário, com infinita paciência pôs a descoberto o erro, o engano a falsa teoria. Para bem dos próprios? Sem dúvida, mas, sobretudo para bem dos outros que os possam escutar.

Lembro, a propósito dessas pessoas que não se coibem de dar opinião seja sobre o que for, a resposta que um conhecido politico português deu a um repórter que o interrogava sobre a eleição do Papa Bento XVI. E a surpreendente resposta foi: “Bem… como se sabe sou agnóstico, mas, acho que…” Como é possível? Fica-se atónito com a falta de decoro, de seriedade, de honestidade intelectual! Sim, na verdade, este é um exemplo que, talvez, fosse bom considerar no nosso íntimo. Será que, examinando-nos honestamente, nunca emitimos parecer, ou opinião, sobre algo que não conhecemos concretamente, que não nos diz respeito? O que custará mais: Dizer: ‘sobre esse assunto não tenho opinião’, ou atrever-se a dar uma resposta sem qualquer sentido? Custará assim tanto admitir a limitação própria, a ignorância ou incapacidade para poder opinar?

A vaidade pessoal leva muitos a emitir parecer sobre assuntos que não dominam. Chegam ao ponto de admitir que, por qualquer motivo, o assunto não lhes interessa, mas, contudo, não resistem à sua pretensa capacidade pessoal de julgar ou opinar. Além do ridiculo de tal postura, que crédito pode merecer tal pessoa? A quem interessará a sua opinião?

 

(AMA, 2099)

 

  


 

REFLEXÃO

 

Para ser prudentes é necessário ter luz no entendimento; assim poderemos julgar com rectidão os factos e as circunstâncias.

 

(R Garrigou-Lagrange, Las três edades de la vida interior, vol. 11, pgs. 625 ss.)

 


FILOSOFIA, TEOLOGIA, CONDIÇÃO HUMANA

 

O demónio e a oração

O demónio não tem maior temor que da oração.

Percebe-se porquê.

A oração põe o homem em contacto estreito com Deus e quanto mais intensa e profunda mais forte é esse contacto.

O diálogo que se estabelece entre o orante e Deus torna-se assim íntimo e o demónio não ousa interferir nem o Senhor lho permite.

O Senhor aconselha a oração persistente e perseverante não para Sua satisfação mas exactamente para que a nossa relação com Ele se fortaleça cada vez mais e a união se torne real, constante, inquebrantável.

«Tudo é possível a quem crê» esta declaração de Jesus é, digamos assim, a “chave” de toda a Fé.

 

(J Duque,Teologia Fundamental)

 

 


SÃO JOSEMARIA – textos

 

Que sejais meninos que desejam a palavra de Deus

A nossa vontade, com a graça, é omnipotente diante de Deus. – Assim, à vista de tantas ofensas ao Senhor, se dissermos a Jesus, com vontade eficaz, indo no "eléctrico" por exemplo: "Meu Deus, quereria fazer tantos actos de amor e desagravo quantas as voltas de cada roda deste carro", naquele mesmo instante, diante de Jesus, tê-Lo-emos realmente amado e desagravado conforme o nosso desejo. Esta "ingenuidade" não esta fora da infância espiritual; é o eterno diálogo entre a criança inocente e o pai..., doido pelo seu filho: – Quanto me queres? Diz lá! – E o miudito diz, marcando as sílabas: muitos milhões! (Caminho, 897)

Na vida interior, a todos nos convém ser quasi modo geniti infantes, como esses miuditos que parecem de borracha, que se divertem até com os seus trambolhões, porque imediatamente se põem de pé e continuam com as suas correrias e também porque não lhes falta, quando é precisa, a consolação dos pais. Se procurarmos portar-nos como eles, os tropeções e os fracassos – aliás inevitáveis – na vida interior, nunca se transformarão em amargura. Reagiremos com dor, mas sem desânimo, e com um sorriso que brota, como a água límpida, da alegria da nossa condição de filhos desse Amor, dessa grandeza, dessa sabedoria infinita, dessa misericórdia, que é o nosso Pai. Aprendi durante os meus anos de serviço ao Senhor a ser filho pequeno de Deus. E isto vos peço: que sejais quasi modo geniti infantes, meninos que desejam a palavra de Deus, o pão de Deus, o alimento de Deus, a fortaleza de Deus para se comportarem de agora em diante, como homens cristãos. (Amigos de Deus, 146)

 

 

 

18/08/2021

NUNC COEPI – Publicações em Agosto 18



PEQUENA AGENDA DO CRISTÃO

Quarta-Feira 

 

(Coisas muito simples, curtas, objectivas)

 

Propósito: Simplicidade e modéstia.

Senhor, ajuda-me a ser simples, a despir-me da minha “importância”, a ser contido no meu comportamento e nos meus desejos, deixando-me de quimeras e sonhos de grandeza e proeminência.

Lembrar-me: Do meu Anjo da Guarda.

Senhor, ajuda-me a lembrar-me do meu Anjo da Guarda, que eu não despreze companhia tão excelente. Ele está sempre a meu lado, vela por mim, alegra-se com as minhas alegrias e entristece-se com as minhas faltas.

Anjo da minha Guarda, perdoa-me a falta de corres-pondência ao teu interesse e protecção, a tua disponibilidade permanente. Perdoa-me ser tão mesquinho na retribuição de tantos favores recebidos. 

Pequeno exame: Cumpri o propósito que me propus ontem?

 


LEITURA ESPIRITUAL

 

Evangelho

Lc XIX, 1-48

 

Zaqueu, o publicano

1 Tendo entrado em Jericó, Jesus atravessava a cidade. 2 Vivia ali um homem rico, chamado Zaqueu, que era chefe de cobradores de impostos. 3 Procurava ver Jesus e não podia, por causa da multidão, pois era de pequena estatura. 4 Correndo à frente, subiu a um sicómoro para o ver, porque Ele devia passar por ali. 5 Quando chegou àquele local, Jesus levantou os olhos e disse-lhe: «Zaqueu, desce depressa, pois hoje tenho de ficar em tua casa.» 6 Ele desceu imediatamente e acolheu Jesus, cheio de alegria. 7 Ao verem aquilo, murmuravam todos entre si, dizendo que tinha ido hospedar-se em casa de um pecador. 8 Zaqueu, de pé, disse ao Senhor: «Senhor, vou dar metade dos meus bens aos pobres e, se defraudei alguém em qualquer coisa, vou restituir-lhe quatro vezes mais.» 9 Jesus disse-lhe: «Hoje veio a salvação a esta casa, por este ser também filho de Abraão; 10 pois, o Filho do Homem veio procurar e salvar o que estava perdido.»

 

Parábola das dez minas

11 Estando eles a ouvir estas coisas, Jesus acrescentou uma parábola, por estar perto de Jerusalém e por eles pensarem que o Reino de Deus ia manifestar-se imediatamente. 12 Disse, pois: «Um homem nobre partiu para uma região longínqua, a fim de tomar posse de um reino e em seguida voltar. 13 Chamando dez dos seus servos, entregou-lhes dez minas e disse-lhes: ‘Fazei render a mina até que eu volte.’ 14 Mas os seus concidadãos odiavam-no e enviaram uma embaixada atrás dele, para dizer: ‘Não queremos que ele seja nosso rei.’ 15 Quando voltou, depois de tomar posse do reino, mandou chamar os servos a quem entregara o dinheiro, para saber o que tinha ganho cada um deles. 16 O primeiro apresentou-se e disse: ‘Senhor, a tua mina rendeu dez minas.’ 17 Respondeu-lhe: ‘Muito bem, bom servo; já que foste fiel no pouco, receberás o governo de dez cidades.’ 18 O segundo veio e disse: ‘Senhor, a tua mina rendeu cinco minas.’ 19 Respondeu igualmente a este: ‘Recebe, também tu, o governo de cinco cidades.’ 20 Veio outro e disse: ‘Senhor, aqui tens a tua mina que eu tinha guardado num lenço, 21 pois tinha medo de ti, que és homem severo, levantas o que não depositaste e colhes o que não semeaste.’ 22 Disse-lhe ele: ‘Pela tua própria boca te condeno, mau servo! Sabias que sou um homem severo, que levanto o que não depositei e colho o que não semeei; 23 então, porque não entregaste o meu dinheiro ao banco? Ao regressar, tê-lo-ia recuperado com juros.’ 24 E disse aos presentes: ‘Tirai-lhe a mina e dai-a ao que tem dez minas.’ 25 Responderam-lhe: ‘Senhor, ele já tem dez minas!’ 26 Digo-vos Eu: A todo aquele que tem, há-de ser dado, mas àquele que não tem, mesmo aquilo que tem lhe será tirado. 27 Quanto a esses meus inimigos, que não quiseram que eu reinasse sobre eles, trazei-os cá e degolai-os na minha presença.»

 

Entrada triunfal de Jesus em Jerusalém

28 Dito isto, Jesus seguiu para diante, em direcção a Jerusalém. 29 Ao aproximar-se de Betfagé e de Betânia, junto do chamado Monte das Oliveiras, Jesus enviou dois dos seus discípulos, 30 dizendo: «Ide à aldeia em frente e, ao entrardes nela, encontrareis um jumentinho preso, que ninguém montou ainda; soltai-o e trazei-mo. 31 E se alguém vos perguntar: ‘Porque o soltais?’, respondereis assim: ‘O Senhor precisa dele.’» 32 Os enviados partiram, e tudo se lhes deparou como Ele tinha dito. 33 Quando estavam a soltar o jumentinho, os donos disseram-lhes: «Porque soltais o jumentinho?» 34 Responderam-lhes: «Porque o Senhor precisa dele.» 35 Levaram-no a Jesus e, deitando as capas sobre o jumentinho, ajudaram Jesus a montar. 36 Enquanto caminhava, estendiam as capas no caminho. 37 Estando já próximo da descida do Monte das Oliveiras, o grupo dos discípulos começou a louvar alegremente a Deus, em alta voz, por todos os milagres que tinham visto. 38 E diziam: «Bendito seja o Rei que vem em nome do Senhor! Paz no Céu e glória nas Alturas!» 39 Alguns fariseus disseram-lhe, do meio da multidão: «Mestre, repreende os teus discípulos.» 40 Jesus retorquiu: «Digo-vos que, se eles se calarem, gritarão as pedras.» 41 Quando se aproximou, ao ver a cidade, Jesus chorou sobre ela e disse: 42 «Se neste dia também tu tivesses conhecido o que te pode trazer a paz! Mas agora isto está oculto aos teus olhos. 43 Virão dias para ti, em que os teus inimigos te hão-de cercar de trincheiras, te sitiarão e te apertarão de todos os lados; 44 hão-de esmagar-te contra o solo, assim como aos teus filhos que estiverem dentro de ti, e não deixarão em ti pedra sobre pedra, por não teres reconhecido o tempo em que foste visitada.»

 

Jesus expulsa do templo os vendilhões

45 Depois, entrando no templo, começou a expulsar os vendedores. 46 E dizia-lhes: «Está escrito: A minha casa será casa de oração; mas vós fizestes dela um covil de ladrões.» 47 Ensinava todos os dias no templo, e os sumos sacerdotes e os doutores da Lei, assim como os chefes do povo, procuravam matá-lo. 48 Não sabiam, porém, como proceder, pois todo o povo, ao ouvi-lo, ficava suspenso dos seus lábios.

 

Comentário

 

São Lucas conta-nos esta parábola de Jesus com a riqueza de pormenores habitual.

Estamos na presença de um Evangelista que, inspirado pelo Espírito Santo, revela qualidades de escritor – ou se se quiser: repórter – nos deixa autênticos quadros vivos das várias passagens e acontecimentos na vida pública de Jesus. E é tão bom que assim seja porque com muito mais facilidade nos sentimos como que “dentro” dos acontecimentos que relata e deixamos de ser simples “leitores” para passarmos a “expectadores”.

Assim, e seguindo o conselho de São Josemaria, vivemos por dentro as cenas do Evangelho “como um personagem mais”.([1])

Por várias vezes ao longo do ano a liturgia vai apresentando este tema que versa sobre as contas que teremos de dar sobre o uso que demos aos dons e graças que ao longo da vida fomos recebendo. É a vinha pronta e preparada para produzir, são os talentos, as minas...

O Criador entrega-nos em plena confiança o necessário e, se repararmos bem, muito mais do que precisamos.

Não esqueçamos que, por exemplo, uma Mina corresponderia ao valor de cinquenta kilos de prata. O que recebeu dez Minas ficou, portanto, na posse de meia tonelada de prata, quantia astronómica a que o Senhor chama "coisa pouca". O que se compreende é que o valor intrínseco das coisas pouco conta para Deus, mas, antes, o que é feito com amor e vontade de servir, aplicando todas as nossas capacidades e dotes.

 

 

São Lucas faz constar no Evangelho que escreveu as palavras de Jesus: «Quanto a esses meus inimigos, que não quiseram que eu reinasse sobre eles, trazei-os cá e degolai-os na minha presença.» São palavras duras e, talvez, difíceis de aceitar vindas de Quem vêm. Mas, temos de considerar, pelo menos, duas coisas: A primeira é ter presente que naquele tempo era normal os detentores do poder procederem com violência sem piedade.

A segunda é uma imagem que o Senhor quer dar de que o castigo eterno para os que não aceitam Deus será terrível e sem remissão.

Ficamos sem palavras perante esta cena que São Lucas relata. Um homem que é nosso Deus e Senhor, comovido até às lágrimas perante a realidade que conhece do que irá acontecer à Cidade Santa.

A Santíssima Humanidade de Cristo revela-se em toda a plenitude na preocupação, dor, pena pelas consequências do comportamento dos homens Seus irmãos. E nós? Não nos causa pena e dor quando ofendemos tão excelente Deus e Senhor?

A dor que Jesus sente ao ver Jerusalém e quanto se abaterá sobre a Cidade de David é de tal modo concreta e real que não pode conter as lágrimas. Comparamos esta passagem ao transe sofrido no Horto das Oliveiras, aí, tão intenso que o Seu sangue aflui como suor. No mistério das nossas relações com Cristo haverá sempre latente no nosso coração esse desejo de possuirmos esse Dom do Santo Temor de Deus que nos leve sempre a afastar decididamente qualquer ocasião de O ofender.

Quem chora? Jesus Cristo Homem ou, Jesus Cristo Deus?

É Ele mesmo, Perfeito Homem e Deus Perfeito, Quem chora sobre a cidade santa!

Impressiona, comove, quase que sentimos alguma revolta interior por quem faz sofrer assim o nosso Deus e Senhor!

E… nós? Nunca provocámos lágrimas de dor e pena a este mesmo Jesus Cristo, nosso irmão, que deu a vida por nós?

Ah! Cada vez que nos deixamos vencer pela tentação afastamo-nos d’Ele e, seguramente, provocamos na Sua alma uma tristeza e uma dor que só passarão quando, profunda e sinceramente arrependidos, nos ajoelharmos aos pés do Sacerdote e pedimos perdão contrito e completo.

Muitas vezes nos interrogamos sobre a autêntica sanha que movia os chefes do povo, sumos-sacerdotes e doutores da lei contra Jesus Cristo. Talvez que – como pura hipótese – tivessem medo que o povo que cada vez mais numeroso seguia o Senhor, acabasse por se voltar contra eles ou, quando muito, deixasse de prestar-lhes a atenção e observância dos numerosos preceitos que eles impunham com rigor e determinação.

É possível, também, que ao escutarem pessoas da sua categoria e estatuto – como Nicodemos, Galamiel e outros - vissem o erro em que se deixavam envolver e, por respeito humano, vergonha ou orgulho, fossem incapazes de retroceder na sua posição. Nem, de facto, isso nos interessa muito conhecer bastando-nos tirar a lição do que o orgulho desmedido e o auto-convencimento podem fazer de uma pessoa!

De repente, perante os nossos olhos – talvez atónitos – a figura de Jesus como que Se transforma e Aquele Homem afável e comunicativo assume uma postura de intransigente repúdio pelo espectáculo da casa de Deus convertida em zona de comércio de toda a espécie. De facto, Jesus defende a Sua casa, como qualquer um de nós defenderia a sua se a mesma fosse alvo de profanação ou abuso por parte de outros. O Templo – e este é o ensinamento que Jesus quer sublinhar – é casa de oração, de encontro com Deus e só esse é o fim para que existe.

Como sempre são Lucas descreve como só ele sabe este momento entranhável. De facto, Zaqueu procura ver Jesus e vai ao Seu encontro não obstante as dificuldades. Mas, Jesus vai ao encontro de Zaqueu como que por acaso - embora saibamos muito bem que o Senhor não faz nada por acaso - e, assim, o Seu objectivo é premiar a perseverança de Zaqueu e de forma insuspeita: hospeda-Se em sua casa numa demonstração de intimidade que tem como consequência o seguir o Evangelista relata. E, por tudo isto, Zaqueu alcança o que talvez não julgasse possível: a própria salvação.

Este episódio de Zaqueu não pode deixar de comover-nos.

Um homem rico, pecador público – como consideravam os cobradores de impostos – tem ânsias de conhecer Jesus Cristo. A força deste desejo é tal que arrosta com todas as possíveis críticas e incompreensões e, inclusivamente, com o ridículo de, um homem da sua posição, trepar a uma árvore. Comove-nos e deve, também, envergonhar-nos, pelas vezes – talvez muitas – em que nos deixámos levar pelos respeitos humanos, o temor do “que dirão”, a vergonha da exposição pública. Mas… deixemos a comoção e a vergonha e decidamo-nos a actuar – sempre – como Zaqueu.

Haverá quem queira seguir Jesus? Com este `programa', com estas condições! A verdade e que ao longo dos tempos têm sido muitos milhares e, destes, não poucos pagaram com a própria vida a dura escolha. São loucos? Bem ao contrário, o prémio excede e em muito todo o sacrifício.

Jesus faz uma pergunta porquê? Então Ele não sabe tudo!

As perguntas fazem-se, muitas vezes, para que a resposta possa ser motivo de esclarecimento, de correcção. É exactamente este caso. Cristo deseja que os Seus mais próximos tenham bem claras as suas ideias a Seu respeito, e, por isso, esclarece, explica, diz como.

O Seu “papel”, a Sua preocupação, é ensinar de forma segura e cabal para que não hajam nem dúvidas nem falsas interpretações.

 

 

 

 


FAMÍLIA

 

O quarto mandamento do Decálogo: honrar pai e mãe

 

4. Deveres dos pais

 

Os pais hão-de receber com agradecimento, como uma grande bênção e manifestação de confiança, os filhos que Deus lhes enviar. Além de cuidarem das suas necessidades materiais, têm a grave responsabilidade de lhes dar uma recta educação humana e cristã. O papel dos pais na formação dos filhos tem tanto peso que, quando falta, dificilmente se poderá suprir [3]. O direito e o dever da educação são, para os pais, primordiais e inalienáveis [4].

 

Os pais têm a responsabilidade de criar um lar, onde se viva o amor, o perdão, o respeito, a fidelidade e o serviço desinteressado. O lar é o lugar apropriado para a educação nas virtudes. Hão-de ensiná-los – com o exemplo e com a palavra – e viver uma simples, sincera e alegre vida de piedade; transmitir-lhes, inalterada e completa, a doutrina católica; formá-los na luta generosa por acomodar a sua conduta às exigências da Lei de Deus e da vocação pessoal à santidade. «Pais, não exaspereis os vossos filhos, mas criai-os com a educação e correcção que vêm do Senhor» ( Ef 6,4). Desta responsabilidade não se devem desentender, deixando a educação dos seus filhos nas mãos de outras pessoas ou instituições, mesmo que possam – e em certas ocasiões devem – contar coma ajuda de quem lhes mereça confiança (cf. Catecismo, 2222-2226).

 

Os pais hão-de saber corrigir, porque «qual é o filho a quem o pai não corrige?» (Heb 12,7), mas tendo presente o conselho do Apóstolo: «Pais, não irriteis os vossos filhos, para que não caiam em desânimo» (Cl 3,21).

 



REFLEXÃO

Primeiro, as crianças na escola, aprendem a forma das letras; logo começam a distinguir as torcidas, e assim, passo a passo, acabam por aprender a ler.

Dividindo a virtude em partes, aprendamos primeiro, por exemplo, a não falar mal; logo, passando a outra letra, a não invejar ninguém, a não ser escravos do corpo em nenhuma situação, a não nos deixarmos levar pela gula... Logo, passando ás letras espirituais, estudemos a continência, a mortificação dos sentidos, a castidade, a justiça, o desprezo da vã glória; procuremos ser modestos, contritos de coração. Enlaçando umas virtudes com outras escrevemo-las na nossa alma. E temos de exercitar isto na nossa própria casa: com os amigos, com a mulher, com os filhos.

 

(São João Crisóstomo, Homílias sobre los Salmos, 11, 8)

 


SÃO JOSEMARIA – textos

 

Estás obrigado a dar exemplo

Tens necessidade de vida interior e de formação doutrinal. Exige-te! – Tu, cavalheiro cristão, mulher cristã, tens de ser sal da terra e luz do mundo, porque estás obrigado a dar exemplo com um santo descaramento. Há-de urgir-te a caridade de Cristo e, ao sentires-te e saberes-te outro Cristo a partir do momento em que lhe disseste que o seguias, não te separarás dos teus semelhantes – os teus parentes, os teus amigos, os teus colegas –, da mesma maneira que o sal não se separa do alimento que condimenta. A tua vida interior e a tua formação abrangem a piedade e o critério que deve ter um filho de Deus, para temperar tudo com a sua presença activa. Pede ao Senhor para seres sempre esse bom condimento na vida dos outros. (Forja, 450)

Olhai que o Senhor anseia por nos conduzir com passos maravilhosos, divinos e humanos, que se traduzem numa abnegação feliz, de alegria com dor, de esquecimento de nós mesmos. Se alguém quiser vir após mim, negue-se a si mesmo. Um conselho que já todos ouvimos. Temos de nos decidir a segui-lo de verdade: que o Senhor se sirva de nós para que, metidos em todas as encruzilhadas do mundo – e estando nós metidos em Deus – sejamos sal, levedura, luz. Tu, em Deus, para iluminar, para dar sabor, para aumentar, para fermentar. Mas não te esqueças de que não somos nós quem cria essa luz; apenas a reflectimos. Não somos nós quem salva as almas, levando-as a praticar o bem. Somos apenas um instrumento, mais ou menos digno, para os desígnios salvíficos de Deus. Se alguma vez pensássemos que o bem que fazemos é obra nossa, voltaria a soberba, ainda mais retorcida; o sal perderia o sabor, a levedura apodreceria, a luz converter-se-ia em trevas. (Amigos de Deus, 250)

 

 



   [1] São Josemaria Escrivá, Amigos de Deus, 251

17/08/2021

NUNC COEPI: Publicações em Agosto 17

 


PEQUENA AGENDA DO CRISTÃO

Terça-Feira 

(Coisas muito simples, curtas, objectivas)

 

Propósito: Aplicação no trabalho.

Senhor, ajuda-me a fazer o que devo, quando devo, empenhando-me em fazê-lo bem feito para to poder oferecer.

Lembrar-me: Os que estão sem trabalho.

Senhor, lembra-te de tantos e tantas que procuram trabalho e não o encontram, provê às suas necessidades, dá-lhes esperança e confiança.

Pequeno exame: Cumpri o propósito que me propus ontem?




LEITURA ESPIRITUAL

 

Evangelho

 

Lc XVIII, 1-43

 

Parábola do juíz e da viúva

1 Depois, disse-lhes uma parábola sobre a obrigação de orar sempre, sem desfalecer: 2 «Em certa cidade, havia um juiz que não temia a Deus nem respeitava os homens. 3 Naquela cidade vivia também uma viúva que ia ter com ele e lhe dizia: ‘Faz-me justiça contra o meu adversário.’ 4 Durante muito tempo, o juiz recusou-se a atendê-la; mas, um dia, disse consigo: ‘Embora eu não tema a Deus nem respeite os homens, 5 contudo, já que esta viúva me incomoda, vou fazer-lhe justiça, para que me deixe de vez e não volte a importunar-me.’» 6 E o Senhor continuou: «Reparai no que diz este juiz iníquo. 7 E Deus não fará justiça aos seus eleitos, que a Ele clamam dia e noite, e há-de fazê-los esperar? 8 Eu vos digo que lhes vai fazer justiça prontamente. Mas, quando o Filho do Homem voltar, encontrará a fé sobre a terra?»

 

O fariseu e o publicano

9 Disse também a seguinte parábola, a respeito de alguns que confiavam muito em si mesmos, tendo-se por justos e desprezando os demais: 10 «Dois homens subiram ao templo para orar: um era fariseu e o outro, cobrador de impostos. 11 O fariseu, de pé, fazia interiormente esta oração: ‘Ó Deus, dou-te graças por não ser como o resto dos homens, que são ladrões, injustos, adúlteros; nem como este cobrador de impostos. 12 Jejuo duas vezes por semana e pago o dízimo de tudo quanto possuo.’ 13 O cobrador de impostos, mantendo-se à distância, nem sequer ousava levantar os olhos ao céu; mas batia no peito, dizendo: ‘Ó Deus, tem piedade de mim, que sou pecador.’ 14 Digo-vos: Este voltou justificado para sua casa, e o outro não. Porque todo aquele que se exalta será humilhado, e quem se humilha será exaltado.»

 

Jesus e as crianças

15 Apresentavam-lhe também as criancinhas, para que Ele lhes tocasse. Vendo isso, os discípulos repreenderam-nos. 16 Mas Jesus chamou-os a si, dizendo: «Deixai vir a mim os pequeninos; não os impeçais, pois deles é o Reino de Deus. 17 Em verdade vos digo: quem não receber o Reino de Deus como um pequenino, não entrará nele.»

 

O jovem rico, perigo das riquezas

18 Certo chefe perguntou-lhe, então: «Bom Mestre, que hei-de fazer para alcançar a vida eterna?» 19 Respondeu-lhe Jesus: «Porque me chamas bom? Ninguém é bom senão Deus. 20 Tu sabes os mandamentos: Não cometerás adultério, não matarás, não roubarás, não levantarás falso testemunho; honra teu pai e tua mãe.» 21 Ele retorquiu: «Tudo isso tenho cumprido desde a minha juventude.» 22 Ouvindo isto, Jesus disse-lhe: «Ainda te falta uma coisa: vende tudo o que tens, distribui o dinheiro pelos pobres e terás um tesouro no Céu. Depois, vem e segue-me.» 23 Quando isto ouviu, ele entristeceu-se, pois era muito rico. 24 Vendo-o assim, Jesus exclamou: «Como é difícil para os que têm riquezas entrar no Reino de Deus! 25 Sim, é mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus!» 26 Os que o ouviram disseram: «Então, quem pode salvar-se?» 27 Jesus respondeu: «O que é impossível aos homens é possível a Deus.»

 

Recompensa dos que seguem Jesus

28 Disse-lhe Pedro: «Nós deixámos os próprios bens e seguimos-te.» 29 Ele disse-lhes: «Em verdade vos digo: Não há ninguém que tenha deixado casa, mulher, irmãos, pais ou filhos, por causa do Reino de Deus, 30 que não receba muito mais no tempo presente e, no tempo que há-de vir, a vida eterna.»

 

Nova profecia da Paixão

31 Tomando os Doze consigo, Jesus disse-lhes: «Olhai, subimos agora a Jerusalém e vai cumprir-se tudo o que foi escrito pelos profetas acerca do Filho do Homem: 32 vai ser entregue aos gentios, vai ser escarnecido, maltratado e coberto de escarros; 33 e, depois de o açoitarem, vão dar-lhe a morte. Mas, ao terceiro dia, ressuscitará.» 34 Eles, porém, nada disto entenderam. Aquela linguagem era incompreensível para eles, e não entendiam o que lhes dizia.

 

Cura do cego de Jericó

35 Quando se aproximavam de Jericó, estava um cego sentado a pedir esmola à beira do caminho. 36 Ouvindo a multidão que passava, perguntou o que era aquilo. 37 Disseram-lhe que era Jesus de Nazaré que ia a passar. 38 Então, bradou: «Jesus, Filho de David, tem misericórdia de mim!» 39 Os que iam à frente repreendiam-no, para que se calasse. Mas ele gritava cada vez mais: «Filho de David, tem misericórdia de mim!» 40 Jesus parou e mandou que lho trouxessem. Quando o cego se aproximou, perguntou-lhe: 41 «Que queres que te faça?» Respondeu: «Senhor, que eu veja!» 42 Jesus disse-lhe: «Vê. A tua fé te salvou.» 43 Naquele mesmo instante, recobrou a vista e seguia-o, glorificando a Deus. E todo o povo, ao ver isto, deu louvores a Deus.

 

Comentário

 

Como diz o evangelista, a parábola destina-se a reforçar a obrigação de orar sempre, sem desfalecer. O exemplo que o Senhor dá nesta parábola não precisa de explicação, qualquer um sabe muito bem que a perseverança é a “chave” para se conseguir o que se pretende. O que pretendem, pois, os cristãos? Qual é a sua principal e primeira preocupação, o seu objectivo último? Evidentemente, a Salvação Eterna! Então…

À perseverança podemos, sem medo, chamar teimosia? Penso que nada tem de pejorativo porque, na realidade, tanto se persevera praticando o mal como fazendo o bem. Os fins são, evidentemente diferentes e será sempre necessário teimar, insistir, voltar uma e outra vez até se conseguir o se deseja. O que pedimos ou o desejamos com todo o nosso coração e as nossas forças ou, então, deixará de haver motivo para “incomodar” o Senhor. Falando com palavras humanas, o coração de Deus move-se pelo amor e, este, quando expresso com firme veemência e persistência confiada, não pode senão bater com mais força à porta daquele Coração Amantíssimo.

Ter-se a si mesmo em boa conta ou, até, motivo de admiração dos outros, é uma vaidade pessoal que não tem nem fundamento nem possível aceitação seja por quem for. O vaidoso – auto-convencido – vai pela vida sozinho com a sua empáfia e nem repara nos outros que o rodeiam ou com quem se cruza nos caminhos da vida. Vive de si mesmo, do que julga saber e possuir, e isto é suficiente. É uma figura triste e digna de pena porque, afinal, não se dá conta que todos os homens temos uma mesma dignidade, que não obtemos nem conseguimos, mas que Deus nos deu a todos por igual: Sermos Seus Filhos!

A humildade pessoal é das virtudes talvez a mais difícil de alcançar. Parece que a tendência do homem é para se sublimar e julgar-se com benevolência, ou então para se considerar sem qualquer valor ou mérito pessoal, ambos sem grande preocupação por ser correcto e justo. Os dois personagens que, neste trecho São Lucas, Jesus Cristo coloca à nossa consideração parecem estar em posições diametralmente opostas mas, a verdade, é que me parece que têm, pelo menos, um ponto em comum: ambos não têm em conta a Quem se dirigem na sua oração. O Fariseu porque não realiza que Deus Nosso Senhor é Infinitamente Justo e que, portanto, não vale a pena referir as obras que pensa merecerem recompensa. O Publicano porque não percebe que o Senhor quer igualmente a todos os homens porque todos são Seus filhos. Claro que, no fim, as palavras de Jesus são o “corolário” justíssimo: «Todo aquele que se exalta será humilhado, e quem se humilha será exaltado

Termina o capítulo 18 do Evangelho escrito por São Lucas e, pode dizer-se que termina com “chave de ouro”. De facto, a cena relatada, é de excepcional importância para compreendermos bem quanto vale a insistência na oração, removendo obstáculos que possam surgir ou, até, impedimentos levantados por outros que acharão “excessivo” o empenho. O prémio é extraordinário e ultrapassa tudo quanto se pede. Este cego recupera a vista, o que pedia em altos brados, mas, sobretudo, por causa da sua insistência, consegue um bem muito maior: a Salvação!

Quando na verdade desejamos algo que não só nos faz falta mas pode mudar radicalmente a nossa vida, empenhamo-nos a sério, com persistência e sem receio de ser incómodo em conseguir o que aspiramos. É o que faz com este cego que esta cena evangélica nos relata. A sua necessidade é tal que pede aos gritos, numa esperança incontida, que, Jesus que passa no caminho o oiça. O que pede? Misericórdia daquele Jesus que, ele sabe, opera milagres, e demonstra a cada passo uma misericórdia sem limites. E na resposta a Jesus que o interpela, não se perde em divagações ou louvaminhas destinadas a comover o Coração de Cristo. Simplesmente, com a maior franqueza e convicção diz o que quer: «Senhor, que eu veja!». É assim que deve ser a nossa petição: perseverante e simples. Perseverante para “convencer” o Senhor da nossa fé, simples, porque Ele sabe muito bem o que necessitamos.

 

(AMA, 1999)

 



 

SANTÍSSIMA VIRGEM

 

Oração mariana

 

Nos perigos, nas angústias, em todos os momentos de dúvida, pensa em Maria, invoca Maria. Que este nome sagrado não se afaste do teu coração e não falte jamais nos teus lábios. Seguindo esta Estrela, não te desviarás. Se a invocares com humildade, não desesperarás. Se pensares em Maria, não errarás. Se ela estiver contigo, não cairás. Se te proteger, nada temerás. Com ela, como guia, não te fatigarás. Se te for propícia, chegarás à meta, firme e seguro. Quem quer que sejas, sacudido pelo vendaval das tempestades deste mundo, sentindo a terra como um mar devorador, não afastes os olhos do fulgor desta Estrela. Quando soprar o vento tempestuoso e traiçoeiro da tentação, quando te sentires batido contra os escolhos perigosos da tribulação, olha para a Estrela e invoca Maria. Se te açoitarem as ondas da soberba, da inveja, da maledicência, olha para a Estrela, invoca Maria. Quando sentires a ira, a avareza, a carne e a tristeza tentarem fazer soçobrar a barquinha frágil de tua alma, olha para a Estrela, invoca Maria…

 

(São Bernardo de Claraval)

 

 


REFLEXÃO

Procurai viver as virtudes que, segundo julgais, faltam aos vossos irmãos e já não vereis os seus defeitos, porque não os tereis vós.

 

(Santo Agostinho, Enarrationes in Psalmos, 30, 2, 7)

 


 

 

SÃO JOSEMARIA textos

 

A oração deve enraizar-se na alma

A verdadeira oração, a que absorve todo o indivíduo, não a favorece tanto a solidão do deserto como o recolhimento interior. (Sulco, 460)

O caminho que conduz à santidade é o caminho da oração; e a oração deve enraizar-se pouco a pouco na alma, como a pequena semente que se tornará mais tarde árvore frondosa. Começamos com orações vocais, que muitos de nós repetimos desde crianças: são frases ardentes e simples, dirigidas a Deus e à Sua Mãe, que é nossa Mãe. De manhã e à tarde, não um dia, mas habitualmente, ainda renovo aquele oferecimento que os meus pais me ensinaram: Ó Senhora minha, ó minha mãe, eu me ofereço todo a Vós. E, em prova da minha devoção para convosco, Vos consagro neste dia os meus olhos, os meus ouvidos, a minha boca, o meu coração... Não será isto, de algum modo, um princípio de contemplação, uma demonstração evidente de confiante abandono? Que dizem aqueles que se querem, quando se encontram? Como se comportam? Sacrificam tudo o que são e tudo o que possuem pela pessoa que amam. Primeiro uma jaculatória, e depois outra e outra... Até que parece insuficiente esse fervor, porque as palavras se tornam pobres...: e abrem-se as portas à intimidade divina, com os olhos postos em Deus sem descanso e sem cansaço. Vivemos então como cativos, como prisioneiros. Enquanto realizamos com a maior perfeição possível, dentro dos nossos erros e limitações, as tarefas próprias da nossa condição e do nosso ofício, a alma anseia escapar-se. Vai até Deus como o ferro atraído pela força do íman. Começa-se a amar Jesus de forma mais eficaz, com um doce sobressalto. (Amigos de Deus, 295–296)