14/08/2021

NUNC COEPI: Publicações em Agosto 14

  


Sábado 


Pequena agenda do cristão

(Coisas muito simples, curtas, objectivas)

 

Propósito: Honrar a Santíssima Virgem.

 

A minha alma glorifica o Senhor e o meu espírito se alegra em Deus meu Salvador, porque pôs os olhos na humildade da Sua serva, de hoje em diante me chamarão bem-aventurada todas as gerações. O Todo-Poderoso fez em mim maravilhas, santo é o Seu nome. O Seu Amor se estende de geração em geração sobre os que O temem. Manifestou o poder do Seu braço, derrubou os poderosos do seu trono e exaltou os humildes, aos famintos encheu de bens e aos ricos despediu de mãos vazias. Acolheu a Israel Seu servo, lembrado da Sua misericórdia, como tinha prometido a Abraão e à sua descendência para sempre.

 

Lembrar-me: Santíssima Virgem Mãe de Deus e minha Mãe.

 

Minha querida Mãe: Hoje queria oferecer-te um presente que te fosse agradável e que, de algum modo, significasse o amor e o carinho que sinto pela tua excelsa pessoa.

Não encontro, pobre de mim, nada mais que isto: O desejo profundo e sincero de me entregar nas tuas mãos de Mãe para que me leves a Teu Divino Filho Jesus. Sim, protegido pelo teu manto protector, guiado pela tua mão providencial, não me desviarei no caminho da salvação.

 

Pequeno exame: Cumpri o propósito que me propus ontem?

 

 

 


LEITURA ESPIRITUAL

 

Evangelho

 

 

Lc XV, 1-32

 

A ovelha perdida

1 Aproximavam-se dele todos os cobradores de impostos e pecadores para o ouvirem. 2 Mas os fariseus e os doutores da Lei murmuravam entre si, dizendo: «Este acolhe os pecadores e come com eles.» 3 Jesus propôs-lhes, então, esta parábola: 4 «Qual é o homem dentre vós que, possuindo cem ovelhas e tendo perdido uma delas, não deixa as noventa e nove no deserto e vai à procura da que se tinha perdido, até a encontrar? 5 Ao encontrá-la, põe-na alegremente aos ombros 6 e, ao chegar a casa, convoca os amigos e vizinhos e diz-lhes: ‘Alegrai-vos comigo, porque encontrei a minha ovelha perdida.’ 7 Digo-vos Eu: Haverá mais alegria no Céu por um só pecador que se converte, do que por noventa e nove justos que não necessitam de conversão.»

 

A drácma perdida

8 «Ou qual é a mulher que, tendo dez dracmas, se perde uma, não acende a candeia, não varre a casa e não procura cuidadosamente até a encontrar? 9 E, ao encontrá-la, convoca as amigas e vizinhas e diz: ‘Alegrai-vos comigo, porque encontrei a dracma perdida.’ 10 Digo-vos: Assim há alegria entre os anjos de Deus por um só pecador que se converte.»

 

O filho pródigo

11 Disse ainda: «Um homem tinha dois filhos. 12 O mais novo disse ao pai: ‘Pai, dá-me a parte dos bens que me corresponde.’ E o pai repartiu os bens entre os dois. 13 Poucos dias depois, o filho mais novo, juntando tudo, partiu para uma terra longínqua e por lá esbanjou tudo quanto possuía, numa vida desregrada. 14 Depois de gastar tudo, houve grande fome nesse país e ele começou a passar privações. 15 Então, foi colocar-se ao serviço de um dos habitantes daquela terra, o qual o mandou para os seus campos guardar porcos. 16 Bem desejava ele encher o estômago com as alfarrobas que os porcos comiam, mas ninguém lhas dava. 17 E, caindo em si, disse: ‘Quantos jornaleiros de meu pai têm pão em abundância, e eu aqui a morrer de fome! 18 Levantar-me-ei, irei ter com meu pai e vou dizer-lhe: Pai, pequei contra o Céu e contra ti; 19 já não sou digno de ser chamado teu filho; trata-me como um dos teus jornaleiros.’ 20 E, levantando-se, foi ter com o pai. Quando ainda estava longe, o pai viu-o e, enchendo-se de compaixão, correu a lançar-se-lhe ao pescoço e cobriu-o de beijos. 21 O filho disse-lhe: ‘Pai, pequei contra o Céu e contra ti; já não mereço ser chamado teu filho.’ 22 Mas o pai disse aos seus servos: ‘Trazei depressa a melhor túnica e vesti-lha; dai-lhe um anel para o dedo e sandálias para os pés. 23 Trazei o vitelo gordo e matai-o; vamos fazer um banquete e alegrar-nos, 24 porque este meu filho estava morto e reviveu, estava perdido e foi encontrado.’ E a festa principiou. 25 Ora, o filho mais velho estava no campo. Quando regressou, ao aproximar-se de casa ouviu a música e as danças. 26 Chamou um dos servos e perguntou-lhe o que era aquilo. 27 Disse-lhe ele: ‘O teu irmão voltou e o teu pai matou o vitelo gordo, porque chegou são e salvo.’ 28 Encolerizado, não queria entrar; mas o seu pai, saindo, suplicava-lhe que entrasse. 29 Respondendo ao pai, disse-lhe: ‘Há já tantos anos que te sirvo sem nunca transgredir uma ordem tua, e nunca me deste um cabrito para fazer uma festa com os meus amigos; 30 e agora, ao chegar esse teu filho, que gastou os teus bens com meretrizes, mataste-lhe o vitelo gordo.’ 31 O pai respondeu-lhe: ‘Filho, tu estás sempre comigo, e tudo o que é meu é teu. 32 Mas tínhamos de fazer uma festa e alegrar-nos, porque este teu irmão estava morto e reviveu; estava perdido e foi encontrado.’»

 

Comentário

 

O génio literário de São Lucas manifesta-se magistralmente nesta parábola de Jesus. A parábola é belíssima e, realmente, aplica-se profundamente aos temas da Misericórdia, do Amor do Pai, da Alegria do regresso do filho perdido. Este Pai que está sempre à nossa espera perscrutando na lonjura do caminho onde tantas vezes nos perdemos na esperança amorosa de nos estender os braços e nos devolver a dignidade perdida por causa das nossas faltas e, mais, festejar com largueza a volta à casa paterna. Uma vez mais me ocorre exclamar: Ó félix culpa! Vale a pena o arrependimento, o bem que se alcança tem uma "medida" divina e, por isso mesmo, impossível de "contabilizar". Um anel no dedo, sapatos nos pés, o vestido mais precioso! Fica-se sem palavras perante tal magnificência! Não nos interroga por onde andámos, o que fizemos, só Lhe interessa que estejamos de novo ali, de onde nunca deveríamos ter-nos afastado: A alegria, a tranquilidade, a paz, a saciedade da casa paterna onde nada nos falta!

Esta alegria do pai que vê regressar o filho à casa paterna donde se afastou por vontade própria, está bem espelhada nos exemplos da drácma perdido e da ovelha tresmalhada e, magistralmente, na parábola do filho pródigo. Há, contudo, uma diferença entre as duas primeiras e esta última. Naquelas é o pastor e a dona de casa que deixam tudo para recuperar o que estava perdido, nesta última é o próprio extraviado que regressa por decisão própria. O que está presente nos três exemplos que dou é a alegria do reencontro, da recuperação do perdido, alegria tão grande que não pode reservar-se e tem de se comunicar aos outros. É esta mesma alegria que cada um de nós sente quando pela oração e a acção, alguém arrepia caminho e volta ao convívio da Igreja. Valem, pois, a pena todos os nossos esforços nesse trabalho de apostolado.

A necessidade de um pastor para nos guiar pelos caminhos da vida está bem evidenciada nesta passagem do Evangelho. Um pastor que guie, com sabedoria e segurança, sem dúvida mas, também, um pastor que nos ensine a proteger-nos, a resguardarmo-nos dos perigos e “barrancos” que a cada passo se nos deparam e onde, por imprudência, ignorância ou ousadia podemos perder-nos do rebanho.

Deste muito pequeno guardei a imagem dos emigrantes que regressavam a casa para passar o Natal com as famílias. Os tempos eram agrestes, as comunicações difíceis e algo perigosas pelo que, as viagens para os que esperavam os entes queridos criavam uma expectativa mista de apreensão e alegria. Com o que Jesus narra no Evangelho de hoje podemos ver esse emigrante - familiar ou amigo - perdido num caminho de regresso, talvez num atalho que o desviou da rota correcta ou, pior, precipitado num barranco para onde o atirou a imprudência, o cansaço, o excesso de confiança nas próprias capacidades. A verdade é que, quando finalmente chega a casa, é recebido com esfusiante alegria e atenções de todo género parecendo que passou a ser a pessoa mais importante da família. De facto, todos nós somos como emigrantes neste mundo em busca da casa do Pai comum que estará à nossa espera, expectante, de braços abertos. Para nos guiar pelos caminhos mais convenientes enviou-nos pastores dispostos a ajudar-nos. Não desprezemos, nunca, essa ajuda. Ela é preciosa e indispensável para não nos perdermos ou, caso tal tenha acontecido, a voltar sobre o andado e retomar o rumo certo.

O filho mais velho da parábola revela-se, talvez, como a personagem “chave” da mesma. Parece evidente que Jesus contasse esta parábola para ilustrar aos Seus ouvintes, a grandeza da misericórdia do pai, da bondade divina. Um pai que, não só perdoa como se alegra profundamente com o arrependimento do filho. Mas… onde estamos nós, de facto retratados? No Filho que se afasta e depois de se perder reencontra o caminho de casa? Ter prescindido do convívio com o pai regressa humilhado e contrito? Mas… realmente, o Pai nunca cessou de o amar e, o reencontro, é a prova disso mesmo. Mas o filho mais velho deseja ser o mais importante no amor do Pai e, mais, não quer que esse amor seja repartido com o irmão mais novo. Não percebe que o Pai ama os dois igualmente, não por aquilo que fazem mas pelo que são: Seus filhos!

A parábola tem um detalhe que ilustra bem duas coisas: a justiça da actuação do Pai e a falta de razão do irmão mais velho, ou seja: não favoreceu nem um nem outro filho, tratou ambos de igual modo porque “repartir” significa exactamente dar por igual.

De facto o pai não respondeu: quando me pediste alguma coisa, um cabrito, e eu to neguei? Mas sim: “estás sempre comigo, tudo o que é meu é teu”. Aqui esta a 'chave' da parábola, a grande maravilha da misericórdia divina: Não isto, este bem, esta fortuna, mas “tudo o que é meu”. Que pai terreno poderia alguma vez dizer tal coisa a um filho, sobretudo a um filho ingrato e invejoso? Só este Pai Divino, tem para com os Seus filhos tal magnanimidade e, felicidade a minha, este é o meu Pai! Que mais posso querer? Tranquilamente vou pensando na minha herança, mas, também na imensa fortuna do meu Pai que, é, já e agora, também minha desde que eu esteja com Ele. Senhor, que nunca me afaste de Ti.

 

  


 

REFLEXÃO

Se queremos guardar a mais bela de todas as virtudes, que é a castidade, temos de saber que ela é uma rosa que somente floresce entre espinhos; e, por conseguinte, só a encontraremos, como todas as outras virtudes, numa pessoa mortificada.

 

(São João Maria Vianey, Sermão sobre a penitência)

 

SÃO MAXIMILIANO MARIA KOLBE, presbítero e mártir

 


 

SÃO JOSEMARIA – textos

 

 

Hás-de ir procurar as almas

Cristo espera muito da tua actividade. Mas hás-de ir procurar as almas, como o Bom Pastor saiu à procura da centésima ovelha: sem esperar que te chamem. Depois, serve-te dos teus amigos para fazer bem aos outros. Ninguém pode sentir-se tranquilo (di-lo a cada um) com uma vida espiritual que, depois de o encher, não transborde para os outros com zelo apostólico. (Sulco, 223)

Convence-te: precisas de te formares bem, em vista dessa avalanche de gente que nos cairá em cima, com a pergunta precisa e exigente: – "Ora bem, que é preciso fazer?". (Sulco, 221)

Jesus está junto do lago de Genesaré e as pessoas comprimem-se à sua volta, ansiosas por ouvirem a palavra de Deus. Tal como hoje! Não estais a ver? Estão desejando ouvir a mensagem de Deus, embora o dissimulem exteriormente. Talvez alguns se tenham esquecido da doutrina de Cristo; talvez outros, sem culpa sua, nunca a tenham aprendido e olhem para a religião como coisa estranha... Mas convencei-vos de uma realidade sempre actual: chega sempre um momento em que a alma não pode mais; em que não lhe bastam as explicações vulgares; em que não a satisfazem as mentiras dos falsos profetas. E, mesmo que nem então o admitam, essas pessoas sentem fome, desejam saciar a sua inquietação com os ensinamentos do Senhor. (Amigos de Deus, 260)

13/08/2021

NUNC COEPI: Publicações em Agosto 13

 


Sexta-Feira 

PEQUENA AGENDA DO CRISTÃO

 

PLANO DE VIDA:  (Coisas muito simples, curtas, objectivas)

Propósito: Pequena mortificação

Pequeno exame: Cumpri o propósito que me propus ontem?




LEITURA ESPIRITUAL

 

Evangelho

 

Lc XIV, 1-35

 

Cura de um hidrópico

1 Tendo entrado, a um sábado, em casa de um dos principais fariseus para comer uma refeição, todos o observavam. 2 Achava-se ali, diante dele, um hidrópico. 3 Jesus, dirigindo a palavra aos doutores da Lei e fariseus, disse-lhes: «É permitido ou não curar ao sábado?» 4 Mas eles ficaram calados. Tomando-o, então, pela mão, curou-o e mandou-o embora. 5 Depois, disse-lhes: «Qual de vós, se o seu filho ou o seu boi cair a um poço, 6 não o irá logo retirar em dia de sábado?» E a isto não puderam replicar.

 

O último lugar

7 Observando como os convidados escolhiam os primeiros lugares, disse-lhes esta parábola: 8 «Quando fores convidado para um banquete, não ocupes o primeiro lugar; não suceda que tenha sido convidado alguém mais digno do que tu, 9 venha o que vos convidou, a ti e ao outro, e te diga: ‘Cede o teu lugar a este.’ Ficarias envergonhado e passarias a ocupar o último lugar. 10 Mas, quando fores convidado, senta-te no último lugar; e assim, quando vier o que te convidou, há-de dizer-te: ‘Amigo, vem mais para cima.’ Então, isto será uma honra para ti, aos olhos de todos os que estiverem contigo à mesa. 11 Porque todo aquele que se exalta será humilhado, e o que se humilha será exaltado.»

 

Caridade

12 Disse, depois, a quem o tinha convidado: «Quando deres um almoço ou um jantar, não convides os teus amigos, nem os teus irmãos, nem os teus parentes, nem os teus vizinhos ricos; não vão eles também convidar-te, por sua vez, e assim retribuir-te. 13 Quando deres um banquete, convida os pobres, os aleijados, os coxos e os cegos. 14 E serás feliz por eles não terem com que te retribuir; ser-te-á retribuído na ressurreição dos justos.»

 

Parábola da grande ceia

15 Ouvindo isto, um dos convidados disse-lhe: «Feliz o que comer no banquete do Reino de Deus!» 16 Ele respondeu-lhe: «Certo homem ia dar um grande banquete e fez muitos convites. 17 À hora do banquete, mandou o seu servo dizer aos convidados: ‘Vinde, já está tudo pronto.’ 18 Mas todos, unanimemente, começaram a esquivar-se. O primeiro disse: ‘Comprei um terreno e preciso de ir vê-lo; peço-te que me dispenses.’ 19 Outro disse: ‘Comprei cinco juntas de bois e tenho de ir experimentá-las; peço-te que me dispenses.’ 20 E outro disse: ‘Casei-me e, por isso, não posso ir.’ 21 O servo regressou e comunicou isto ao seu senhor. Então, o dono da casa, irritado, disse ao servo: ‘Sai imediatamente às praças e às ruas da cidade e traz para aqui os pobres, os estropiados, os cegos e os coxos.’ 22 O servo voltou e disse-lhe: ‘Senhor, está feito o que determinaste, e ainda há lugar.’ 23 E o senhor disse ao servo: ‘Sai pelos caminhos e azinhagas e obriga-os a entrar, para que a minha casa fique cheia.’ 24 Pois digo-vos que nenhum daqueles que foram convidados provará do meu banquete.»

 

Necessidade da abnegação

 25 Seguiam com ele grandes multidões; e Jesus, voltando-se para elas, disse-lhes: 26 «Se alguém vem ter comigo e não me tem mais amor que ao seu pai, à sua mãe, à sua esposa, aos seus filhos, aos seus irmãos, às suas irmãs e até à própria vida, não pode ser meu discípulo. 27 Quem não tomar a sua cruz para me seguir não pode ser meu discípulo. 28 Quem dentre vós, querendo construir uma torre, não se senta primeiro para calcular a despesa e ver se tem com que a concluir? 29 Não suceda que, depois de assentar os alicerces, não a podendo acabar, todos os que virem comecem a troçar dele, 30 dizendo: ‘Este homem começou a construir e não pôde acabar.’ 31 Ou qual é o rei que parte para a guerra contra outro rei e não se senta primeiro para examinar se lhe é possível com dez mil homens opor-se àquele que vem contra ele com vinte mil? 32 Se não pode, estando o outro ainda longe, manda-lhe embaixadores a pedir a paz. 33 Assim, qualquer de vós, que não renunciar a tudo o que possui, não pode ser meu discípulo.» 34 «Coisa boa é o sal; mas, se perder o seu sabor, com que há-de ele temperar-se? 35 Não serve nem para a terra, nem para a estrumeira: deita-se fora. Quem tem ouvidos para ouvir, oiça!»

 

Comentário

 

São Lucas começa este capítulo 14 do Evangelho que escreveu descrevendo o local onde Jesus Se encontrava. Como se constata, a controvérsia quase constante levantada por muitos Fariseus, não só não é comum a todos como o Senhor não recusa um convite feito por um deles, um dos principais, como consta. Talvez por isso mesmo, pela posição e categoria do anfitrião os outros se terão abstido de qualquer comentário, mas, Jesus não perde a oportunidade de os esclarecer que não deverá ser essa razão, mas sim, aquela com que os deixou sem resposta credível e lógica.

De facto, parece extraordinário que os Doutores da Lei e os Escribas não encontrem outro motivo para “atacar” Jesus a não ser com a “questão do Sábado”. Quanto Jesus fez e disse em numerosas ocasiões – incluindo os milagres propriamente ditos – não merecem um reparo, uma contestação! O grande, o magno problema que os opõe a Jesus Cristo é o Sábado! Ou seja, das disposições contidas na Lei de Deus parece que só o que se refere o Sábado tem realmente importância. Como argumentar com tais espíritos tacanhos e preconceituosos?

Evidentemente que, o normal, é convidar para um banquete os amigos e parentes. Jesus Cristo não se opõe a tal mas lembra que se Deus Nosso Senhor procedesse de igual forma quantos ficariam excluídos desse banquete. E tal não pode suceder porque todos os homens são filhos de Deus e todos são convidados a participar no ágape divino. Assim connosco o procedimento deverá ter em conta tal máxima: todos somos irmãos em Cristo e, portanto, parte integrante da mesma família. Convidar para o banquete é uma figura, uma imagem de que o Senhor Se serve para que não esqueçamos estas verdades e sem ferir susceptibilidades e alterar as normais relações entre todos não esquecer aqueles que têm pouco ou mesmo muito pouco e, sobretudo, os que vivem como que isolados ou párias da sociedade só porque pertencem a outra “escala” social que não a nossa.

Levanta-se uma questão a respeito deste trecho do Evangelho: “Quem não ama Deus não ama o próximo, ou, se se ama o próximo tem de se amar a Deus?”. Parece óbvio que o amor é um só: o amor de Deus pelos homens! De facto Deus não só criou o homem por amor mas criou-o para amar. Sendo verdade que Deus ama todos os homens e que estes são o reflexo, a própria imagem de Deus, não será possível haver como que uma “divisão” do amor entre o amor a Deus e o amor ao próximo. Assim, aquele que ama o próximo, ama de facto a Deus embora, por qualquer razão, possa não O conhecer. Por isso é tão importante o apostolado, que mais não é que um serviço para que todos conheçam Deus.

O desejo de protagonismo ou evidência é, muitas vezes, causa de vergonha pessoal. Não se trata de apoucamento ou passar despercebido, mas ser-se aquilo que se é independentemente da categoria social ou grau de cultura. Nós, homens, somos todos iguais aos olhos de Deus ou, melhor, o que nos diferencia é o nosso amor e a nossa vontade de Lhe agradar. Porque é que eu – homem de enorme cultura – tenho “mais direito” a um lugar de destaque que outro de escassos conhecimentos? Talvez que, o que falta ao outro e nos sobeja a nós, não deva ser medido nem levado em conta, mas sim o uso que fazemos do que julgamos ter e, nunca, em caso algum estabelecer comparação porque pode muito bem suceder que esse outro tenha virtudes que nós não possuímos e nos fazem muita falta.

Como sempre, Jesus Cristo aproveita os episódios da vida corrente para doutrinar os que O ouvem. Trata-se de uma doutrina que é facilmente compreensível porque, na verdade, ela versa sobre o comportamento correcto e adequado a ter nas diferentes ocasiões e circunstâncias. Pode ver-se que o comportamento humano terá de ser contido e discreto, com uma total ausência desejos de proeminência ou destaque, como que atribuindo-se a si mesmo uma categoria ou um estatuto que ele próprio define. Claro que, no fim e ao cabo, tudo tem a ver com o orgulho pessoal e a falta de modéstia. E, é bem verdade, que estes comportamentos sendo desagradáveis para os outros não podem granjear nem simpatia nem amizades.

 

As palavras lapidares com que termina este trecho do Evangelho, são suficientemente fortes para dispensar qualquer comentário. Muitos glosaram este tema (como Luís de Camões, por exemplo) porque ele está presente nas nossas vidas. O desejo de proeminência e importância pessoal levam, quase sempre, a atitudes senão ridículas, pelo menos reprováveis. Haverá sempre um momento em virão a nu as nossas obras e, essas, sim, serão motivo de admiração ou descrédito.

Este trecho de São Lucas aplica-se como “uma luva” ao insigne Santo português São Nuno de Santa Maria. Um homem que teve, na sua longa vida, cargos importantes, fortuna considerável, honrarias de toda a ordem e que deixa tudo para se entregar ao serviço dos outros, dos mais pobres, marginalizados e ignorados pela sociedade. O Condestável honrado e glorioso afasta-se do mundo e transforma-se num simples monge sem qualquer regalia – diz a tradição que seria o porteiro do Convento do Carmo que ele próprio fundara. Terá, seguramente, recebido o prémio que, neste Evangelho, Jesus promete.

Poderá alguém pensar que é, talvez, um pouco excessivo o que o Senhor nos diz neste trecho. Sentar à nossa mesa os estropiados e coxos, os marginalizados da vida? Se tomarmos as palavras de Jesus à letra é assim mesmo: excessivo! Porém, pode haver uma interpretação diferente e que, seguramente, seria aquela que Jesus queria que ficasse gravada: o que se faz – de bem aos outros – que tem como objectivo obter troca, benefício, mais-valia – não tem valor absolutamente nenhum. O bem deve fazer-se porque é nossa obrigação tratar a todos por igual seja qual for a sua condição. Sentar à nossa mesa significa, pois, ter a preocupação de ter no nosso pensamento, no nosso coração, os outros que encontramos nos caminhos da vida e a quem podemos ajudar, ser úteis ou, de qualquer forma, aliviar dos males que os afligem.

Ser convidado para a mesa do Senhor não é fruto de qualquer merecimento nosso. Deve-se apenas á infinita bondade e misericórdia de Deus que quer reunir todos os seus filhos no grande banquete do Reino. Como deixar de fazer tudo quanto pudermos para participar?

Há um detalhe neste trecho de São Lucas que não pode deixar de chamar a atenção. Refiro que, para o banquete, o Senhor chama primeiro aqueles que considera Seus amigos mais chegados. Tendo estes recusado o convite por razões “sem razão”, foi como se o Senhor tivesse verificado que, afinal, não eram nem Seus amigos e nem dignos do convite. As ordens que, em sequência, dá aos seus servos é que “obriguem” quantos encontrarem pelos caminhos – fossem quem fossem – a comparecer no Seu banquete. As palavras têm uma “força” própria, mas, neste caso, compreendemos que o “obrigar” seria antes o “convencer” aqueles que aleatoriamente fossem encontrados a aceitar um convite inesperado. Não pode haver dúvidas quando – na altura própria - o Sacerdote celebrante diz: “Felizes os convidados para a mesa do Senhor!”

Jesus enumera as condições necessárias aos que O querem seguir. Mas, podem resumir-se numa apenas: Jesus Cristo está em primeiro lugar, em tudo, mas, sobretudo no amor. Todos os outros amores, por honestos, belos, sinceros, naturais que possam ser, têm de subordinar-se ao amor por Cristo. Não há outra opção. Mas, atenção, o Senhor não faz comparações declara incompatibilidade com esses outros amores, bem ao contrário, eles tornam-nos mais dignos e capazes de poder amar mais e melhor, o Nosso Senhor Jesus Cristo. Para seguir Jesus Cristo é fundamental amá-Lo primeiro e, para O amar há que conhecê-Lo intimamente. Não se conhece intimamente ninguém se não houver uma comunicação profunda, honesta, completa. Onde, pois, conhecer Cristo? No Evangelho, evidentemente! E, então, e só então, se deve optar por segui-Lo, isto é, prepararmos tudo para uma entrega sem limites nem condições, para que – como conta no Evangelho que comentamos -  não cheguemos a um ponto em que nos consideremos incapazes de continuar porque não nos preparámos convenientemente.

Está absolutamente definido: para Deus, o mais importante é o AMOR. Foi e é, o Amor, que moveu e continua movendo, Deus, como Criador, como Pai, como Dono e Senhor de quanto existe. Ama o homem por aquilo que ele é: uma criatura fruto do Seu amor. Não se pode amar o que não se conhece e, Deus, conhece-nos intima­mente com todos os nossos defeitos e fraquezas e, também, as nossas virtudes e boas acções. Mesmo quando nos afastamos Dele continua a amar-nos porque o Seu amor por nós não é condicionado pelo nosso amor por Ele. Ser discípulo de Cristo implica, pois, que o nosso amor seja total, absoluto, sem condições. Mas, mais: implica também perseverança e desprendimento. Perseverança no amor aconteça o que acontecer, desprendimento das coisas por boas – até excelentes – que possam parecer porque, na verdade, nada são comparadas com o amor a Deus.

 

(AMA, 1999)

 

 


 

SÃO JOSÉ

 

O amor entre São José e a Virgem

 

Dom Javier Echevarría dá um testemunho muito valioso da forma como São Josemaria contemplou as relações entre Maria e José, ao recolher as suas palavras perante a Virgem de Guadalupe: Uma família composta por um homem jovem, justo, trabalhador e forte; e uma mulher, quase uma menina, que, com o seu noivado cheio de amor puro, encontra nas suas vidas o fruto do amor de Deus pelos homens. Ela passa pela humildade de não dizer nada: que lição para todos nós, que estamos sempre prontos para cantar nossas façanhas! Ele move-se com a delicadeza de um homem justo - seria muito difícil o momento em que descobrisse que a sua esposa, uma santa, tinha boas esperanças! -, e como não quer manchar a fama daquela criatura, ele cala-se, enquanto pensa em como consertar as coisas até que chegue a luz de Deus, que sem dúvida pediria desde o primeiro momento, e acomoda-se sem hesitar aos desígnios do Céu.

(SAN JOSEMARÍA,  Notas sobre sua oração pessoal diante da Virgem de Guadalupe, 21 de maio de 1970, citado em J. ECHEVARRÍA,  Carta, 1 de dezembro de 1996 (AGP, biblioteca, P17, vol. 4, pp. 230-231).

 


     

 REFLEXÃO

 

A morte e ressurreição de Jesus mostram que não existe nada que Deus não possa transformar, não existe túmulo algum de onde não possa surgir vida, nenhuma escuridão que não possa ser iluminada, nenhuma miséria que não possa ser invertida, nenhum desespero que não se possa transformar em esperança. Devemos reconhecer, na morte e ressurreição de Jesus, que não existe nada que nos possa separar «do amor de Deus que está em Cristo Jesus, Senhor nosso» (Rm 8,39). Lucas convida-o, prezado leitor, a reencontrar o seu próprio destino no drama da vida de Jesus. Não lhe fornece qualquer explicação para o seu sofrimento, mas, ao observar a tragédia que o Evangelho lhe apresenta, pretende purificar as suas emoções, transformar a sua tristeza, expulsar o seu desespero e dar-lhe força e coragem para viver uma vida nova.

 

(Anselm Grun, A incompreensível existência de Deus, Paulinas, p. 34).

 



SÃO JOSEMARIA – textos

 

Como queres que te ouçam?

Corres o grande perigo de te conformares com viver (ou pensar que deves viver...) como um "bom rapaz", que se hospeda numa casa arrumada, sem problemas, e que não conhece senão a felicidade. Isso é uma caricatura do lar de Nazaré. Cristo, justamente porque trazia a felicidade e a ordem ao mundo, saiu a propagar esses tesouros entre os homens e mulheres de todos os tempos. (Sulco, 952)

Parecem-me muito lógicas as tuas ânsias de que a humanidade inteira conheça a Cristo. Mas começa pela responsabilidade de salvar as almas dos que convivem contigo, de santificar cada um dos teus companheiros de trabalho ou de estudo... Esta é a principal missão de que o Senhor te encarregou. (Sulco, 953)

Comporta-te como se de ti, exclusivamente de ti, dependesse o ambiente do lugar onde trabalhas: ambiente de laboriosidade, de alegria, de presença de Deus e de visão sobrenatural. Não entendo a tua debilidade. Se tropeças com um grupo de colegas um pouco difícil (que talvez tenha chegado a ser difícil por desleixo teu...), esqueces-te deles, pões-te de parte, e pensas que são um peso morto, um lastro que se opõe aos teus ideais apostólicos; que nunca te entenderão... Como queres que te ouçam, se (dando por descontado que os ames e sirvas com a tua oração e a tua mortificação) não falas com eles?... Quantas surpresas apanharás no dia em que te decidas a criar amizade com um, com outro e com outro! Além disso, se não mudas, poderão exclamar com razão, apontando-te a dedo: «Hominem non habeo!», não tenho quem me ajude! (Sulco, 954)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

12/08/2021

NUNC COEPI: Publicações em Agosto 12

 


Quinta-Feira 

 

(Coisas muito simples, curtas, objectivas)

  

Propósito: Participar na Santa Missa.

Senhor, vendo-me tal como sou, nada, absolutamente, tenho esta percepção da grandeza que me está reservada dentro de momentos: Receber o Corpo, o Sangue, a Alma e a Divindade do Rei e Senhor do Universo.

O meu coração palpita de alegria, confiança e amor. Alegria por ser convidado, confiança em que saberei esforçar-me por merecer o convite e amor sem limites pela caridade que me fazes. Aqui me tens, tal como sou e não como gostaria e deveria ser.

Não sou digno, não sou digno, não sou digno! Sei porém, que a uma palavra Tua a minha dignidade de filho e irmão me dará o direito a receber-te tal como Tu mesmo quiseste que fosse. Aqui me tens, Senhor. Convidaste-me e eu vim 

Lembrar-me: Comunhões espirituais.

Senhor, eu quisera receber-vos com aquela pureza, humildade e devoção com que Vos recebeu Vossa Santíssima Mãe, com o espírito e fervor dos Santos.

Pequeno exame: Cumpri o propósito que me propus ontem?

 


LEITURA ESPIRITUAL

 

Lc XII, 1-59

 

Advertência aos discípulos

1 Entretanto, a multidão tinha-se reunido; eram milhares, a ponto de se pisarem uns aos outros. Jesus começou a dizer primeiramente aos seus discípulos: «Acautelai-vos do fermento dos fariseus, que é a hipocrisia. 2 Nada há encoberto que não venha a descobrir-se, nem oculto que não venha a conhecer-se. 3 Porque tudo quanto tiverdes dito nas trevas há-de ouvir-se em plena luz, e o que tiverdes dito ao ouvido, em lugares retirados, será proclamado sobre os terraços. 4 Digo-vos a vós, meus amigos: Não temais os que matam o corpo e, depois, nada mais podem fazer. 5 Vou mostrar-vos a quem deveis temer: temei aquele que, depois de matar, tem o poder de lançar na Geena. Sim, Eu vo-lo digo, a esse é que deveis temer. 6 Não se vendem cinco pássaros por duas pequeninas moedas? Contudo, nenhum deles passa despercebido diante de Deus. 7 Mais ainda, até os cabelos da vossa cabeça estão contados. Não temais: valeis mais do que muitos pássaros. 8 Digo-vos ainda: Todo aquele que se declarar por mim diante dos homens, também o Filho do Homem se declarará por ele diante dos anjos de Deus. 9 Aquele, porém, que me tiver negado diante dos homens, será negado diante dos anjos de Deus.

Pecado contra o Espírito Santo

10 E a todo aquele que disser uma palavra contra o Filho do Homem, há-de perdoar-se; mas, a quem tiver blasfemado contra o Espírito Santo, jamais se perdoará. 11 Quando vos levarem às sinagogas, aos magistrados e às autoridades, não vos preocupeis com o que haveis de dizer em vossa defesa, 12 pois o Espírito Santo vos ensinará, no momento próprio, o que deveis dizer.» 

Cuidado com a avareza

13 Dentre a multidão, alguém lhe disse: «Mestre, diz a meu irmão que reparta a herança comigo.» 14 Ele respondeu-lhe: «Homem, quem me nomeou juiz ou encarregado das vossas partilhas?» 15 E prosseguiu: «Olhai, guardai-vos de toda a ganância, porque, mesmo que um homem viva na abundância, a sua vida não depende dos seus bens.» 16 Disse-lhes, então, esta parábola: «Havia um homem rico, a quem as terras deram uma grande colheita. 17 E pôs-se a discorrer, dizendo consigo: ‘Que hei-de fazer, uma vez que não tenho onde guardar a minha colheita?’ 18 Depois continuou: ‘Já sei o que vou fazer: deito abaixo os meus celeiros, construo uns maiores e guardarei lá o meu trigo e todos os meus bens. 19 Depois, direi a mim mesmo: Tens muitos bens em depósito para muitos anos; descansa, come, bebe e regala-te.’ 20 Deus, porém, disse-lhe: ‘Insensato! Nesta mesma noite, vai ser reclamada a tua vida; e o que acumulaste para quem será?’ 21 Assim acontecerá ao que amontoa para si, e não é rico em relação a Deus.»


Confiança em Jesus

22 Em seguida, disse aos discípulos: «É por isso que vos digo: Não vos preocupeis quanto à vossa vida, com o que haveis de comer, nem quanto ao vosso corpo, com o que haveis de vestir; 23 pois a vida é mais que o alimento, e o corpo mais que o vestuário. 24 Reparai nos corvos: não semeiam nem colhem, não têm despensa nem celeiro, e Deus alimenta-os. Quanto mais não valeis vós do que as aves! 25 E quem de vós, pelo facto de se inquietar, pode acrescentar um côvado à extensão da sua vida? 26 Se nem as mínimas coisas podeis fazer, porque vos preocupais com as restantes? 27 Reparai nos lírios, como crescem! Não trabalham nem fiam; pois Eu digo-vos: Nem Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como um deles. 28 Se Deus veste assim a erva, que hoje está no campo e amanhã é lançada no fogo, quanto mais a vós, homens de pouca fé! 29 Não vos inquieteis com o que haveis de comer ou beber, nem andeis ansiosos, 30 pois as pessoas do mundo é que andam à procura de todas estas coisas; mas o vosso Pai sabe que tendes necessidade delas. 31 Procurai, antes, o seu Reino, e o resto vos será dado por acréscimo. 32 Não temais, pequenino rebanho, porque aprouve ao vosso Pai dar-vos o Reino.» 33 «Vendei os vossos bens e dai-os de esmola. Arranjai bolsas que não envelheçam, um tesouro inesgotável no Céu, onde o ladrão não chega e a traça não rói. 34 Porque, onde estiver o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração.»

Vigilância

35 «Estejam apertados os vossos cintos e acesas as vossas lâmpadas. 36 Sede semelhantes aos homens que esperam o seu senhor ao voltar da boda, para lhe abrirem a porta quando ele chegar e bater. 37 Felizes aqueles servos a quem o senhor, quando vier, encontrar vigilantes! Em verdade vos digo: Vai cingir-se, mandará que se ponham à mesa e há-de servi-los. 38 E, se vier pela meia-noite ou de madrugada, e assim os encontrar, felizes serão eles. 39 Ficai a sabê-lo bem: se o dono da casa soubesse a que hora viria o ladrão, não teria deixado arrombar a sua casa. 40 Estai preparados, vós também, porque o Filho do Homem chegará na hora em que menos pensais.» 41 Pedro disse-lhe: «Senhor, é para nós que dizes essa parábola, ou é para todos igualmente?»


Exortação à vigilância

42 O Senhor respondeu: «Quem será, pois, o administrador fiel e prudente a quem o senhor pôs à frente do seu pessoal para lhe dar, a seu tempo, a ração de trigo? 43 Feliz o servo a quem o senhor, quando vier, encontrar procedendo assim. 44 Em verdade vos digo que o porá à frente de todos os seus bens. 45 Mas, se aquele administrador disser consigo mesmo: ‘O meu senhor tarda em vir’ e começar a espancar servos e servas, a comer, a beber e a embriagar-se, 46 o senhor daquele servo chegará no dia em que ele menos espera e a uma hora que ele não sabe; então, pô-lo-á de parte, fazendo-o partilhar da sorte dos infiéis. 47 O servo que, conhecendo a vontade do seu senhor, não se preparou e não agiu conforme os seus desejos, será castigado com muitos açoites. 48 Aquele, porém, que, sem a conhecer, fez coisas dignas de açoites, apenas receberá alguns. A quem muito foi dado, muito será exigido; e a quem muito foi confiado, muito será pedido.»


Por Jesus ou contra Jesus

49 «Eu vim lançar fogo sobre a terra; e como gostaria que ele já se tivesse ateado! 50 Tenho de receber um baptismo, e que angústias as minhas até que ele se realize! 51 Julgais que Eu vim estabelecer a paz na Terra? Não, Eu vo-lo digo, mas antes a divisão. 52 Porque, daqui por diante, estarão cinco divididos numa só casa: três contra dois e dois contra três; 53 vão dividir-se: o pai contra o filho e o filho contra o pai, a mãe contra a filha e a filha contra a mãe, a sogra contra a nora e a nora contra a sogra.» 54 Dizia também às multidões: «Quando vedes uma nuvem levantar-se do poente, dizeis logo: ‘Vem lá a chuva’; e assim sucede. 55 E quando sopra o vento sul, dizeis: ‘Vai haver muito calor’; e assim acontece. 56 Hipócritas, sabeis interpretar o aspecto da terra e do céu; como é que não sabeis reconhecer o tempo presente?» 57 «Porque não julgais por vós mesmos, o que é justo? 58 Por isso, quando fores com o teu adversário ao magistrado, procura resolver o assunto no caminho, não vá ele entregar-te ao juiz, o juiz entregar-te ao oficial de justiça e o oficial de justiça meter-te na prisão. 59 Digo-te que não sairás de lá, antes de pagares até ao último centavo.»

Comentário

 

Jesus Cristo recomenda cautela com os fariseus e a sua hipocrisia que iguala ao fermento. Uma mentira repetidamente exposta poderá acabar por se tornar verdade e, como o fermento, arrastar a todos os que as escutam. Mas, o hipócrita, acaba sempre por ser desmascarado e o que usa o segredo como arma, acabará por o ver revelado quando menos esperar. Portanto: expor a verdade com clareza e actuar em conformidade sem medo das consequências.

Para Deus Nosso Senhor e Criador a vida humana tem um valor absoluto em primeiro lugar porque nos criou à Sua imagem e semelhança – impressa na nossa alma imortal – e, depois porque somos Seus filhos. Daí que Jesus diga aos discípulos que não têm que temer nada a não ser o demónio que procurará sempre a nossa perdição e desviar-nos no nosso caminhar para Deus. Para resistirmos contamos com a assistência do Espírito Santo que nunca permitirá que sejamos tentados além das nossas forças e capacidades. Como pedimos no Pai-Nosso, «livrai-nos da tentação» Ele nunca deixará de nos ouvir.

Blasfemar contra o Espírito Santo é pecado sem perdão! Quem o afirma é o próprio Jesus Cristo. Porquê? Podemos perguntar-nos. Pois porque, logicamente, que o fizer está a negar o próprio Espírito de Deus, ou seja, declara-se impenitente. O Espírito Santo só acode, inspira, insinua a Sua influência aos cristãos verdadeiros, isto é, aos que tentam com perseverança, cumprir a Vontade de Deus, seguir a Sua Doutrina. O Espírito Santo não converte, aperfeiçoa. O Espírito Santo não evangeliza, dá o conhecimento e entendimento do Evangelho. Quem não aceita, está de fora, não pode ser perdoado porque não quer o perdão, porque não deseja converter-se.

Jesus alerta os discípulos para duas verdades importantíssimas: Uma que não devem temer pela sua defesa, porque o Espírito Santo os ensinará o que dizer e fazer; outra que os pecados contra o Espírito Santo não têm perdão e isto porque quem os comete está por vontade própria a excluir-se da salvação e o Senhor respeita a liberdade do homem mesmo quando tal signifique a sua perdição eterna.

A vida não depende dos bens que possam ter-se, é claro e sem discussão. Não há qualquer mal em ter bens, até, muitos bens, o errado está em fazer deles a principal preocupação da nossa vida terrena. Porquê: Porque o que nos interessa, aos cristãos, é a vida eterna e, aí, os bens não contam para nada, mas apenas as obras que se praticaram em vida. Além do mais, a excessiva preocupação com os bens terrenos, pode desviar a atenção do realmente importante, sobretudo, em “acumular” os bens que interessa ser portador na hora derradeira: As boas obras praticadas por amor de Deus e dos homens.

Esta “sentença” de Jesus Cristo: «a vida de uma pessoa não depende da abundância dos seus bens», não quer outra coisa que a necessidade de desprendimento de bens pessoais. O desprendimento não tem que ver com o possuir muito ou pouco mas sim com um critério são e consistente da importância que lhe atribuímos. Não se trata de miserabilismo ou renúncia, mas sim, de ter espírito livre de amarras e sujeições. Há pobres - até muito pobres - que são ricos porque não se “agarram” a um desejo incontido de possuir ou alcançar bens e, ao mesmo tempo, há ricos – até muito ricos – que são pobres porque o que possuem serve para ajudar outros que precisam. O desprendimento dos bens pessoais não se esgota no que se possui mas, também nos desejos de ter. Realmente, a moderação nos desejos é tão importante como a própria posse já que - em síntese - pode considerar-se ambição e esta, quase sempre, é um excessivo desejo que condiciona a vontade.

A necessidade de estar preparados e vigilantes apoia-se numa lógica indesmentível: «se o dono da casa soubesse a que hora viria o ladrão, não o deixaria arrombar a sua casa». Estar vigilante é estar pronto para comparecer logo que chamado. Não cabem delongas, subterfúgios, desculpas, ou se comparece imediatamente ou seremos como que “riscados” dos que procuram a salvação eterna. O que “está em jogo” é por demais importante para ser ignorado e não há nada – absolutamente – mais importante ou urgente a fazer que ter essa luz acesa para que se perceba que estamos prontos para a viagem logo que chamados e a empreendê-la. O Senhor não Se “cansa” de avisar a importância crucial de estar preparados para, em qualquer momento, comparecer perante Ele. Não sabemos nem como, nem quando e, diria, ainda bem porque, de contrário, poderia, nalgum caso, considerar-se que ainda teríamos bastante tempo para o fazer. A vida, a nossa vida corrente, é cheia de imprevistos e não temos que nos preocupar em demasia com tal coisa desde que, esses imprevistos, não nos “apanhem” numa situação de fragilidade ou fraqueza que condicionem a nossa reacção. Ora, se assim pensamos – e bem – que devemos permanecer fortes e prontos a reagir aos imprevistos da vida, com quanto maior cuidado não devemos encarar o imprevisto da morte!

A Justiça é o paradigma da acção divina. Ele é a Justiça! Quem mais recebe mais tem de retribuir, maior responsabilidade lhe é cometida. As "contas" a prestar serão sempre correctamente interpretadas. A ninguém será pedida responsabilidade pelo que não recebeu.

(AMA, 1999)

 


FILOSOFIA, RELIGIÃO, VIDA HUMANA

 

A maioria das modernas histórias da humanidade começa com a palavra evolução, e com muita exposição bastante prolixa da evolução, em grande parte pelo mesmo motivo operante nesse caso. Há algo lento e reconfortante e gradual envolvendo essa palavra e mesmo essa ideia. Na realidade, não se trata, com respeito a essas coisas primárias, de uma palavra muito prática ou de uma ideia muito proveitosa. Ninguém se aproxima nem sequer um centímetro disso mediante a explicação de como alguma coisa poderia transformar-se em alguma outra coisa. É de facto muito mais lógico começar dizendo “No começo Deus criou o céu e a terra”, mesmo que se só se queira dizer “No começo algum poder inimaginável começou algum processo inimaginável”. Pois Deus é por natureza um nome misterioso, e ninguém jamais supôs que o homem pudesse imaginar como o mundo foi criado e muito menos que ele pudesse criar um mundo. Mas de facto a evolução é erroneamente tomada como uma explicação. Ela tem o condão fatal de deixar em muitas mentes a impressão de que elas a entendem e entendem todo o resto; da mesma forma que muitos alimentam a falsa impressão de que leram A origem das espécies.

Mas essa noção de algo suave e lento, como a subida de uma encosta, constitui grande parte da ilusão. É absurdo assim como ilusório, pois a lentidão nada tem a ver com o caso. Um acontecimento não é nem um pouco intrinsecamente mais inteligível ou ininteligível devido ao ritmo em que se desenrola. Para uma pessoa que não acredita em milagres, um milagre lento seria exactamente tão inacreditável quanto um rápido. É possível que a bruxa grega tenha transformado marinheiros em porcos com um toque de vara de condão. Mas ver um general da marinha de nosso círculo de conhecidos parecendo-se cada dia mais com um suíno, até acabar com quatro pés de porco e um rabinho enrolado, já seria motivo de preocupação. Poderia sim ser uma experiência mais misteriosa capaz de causar arrepios. É possível que o bruxo medieval tenha voado pelos ares saltando de uma torre; mas com certeza um cavalheiro idoso caminhando pelos ares, num passeio tranquilo e despreocupado, aparentemente ainda exigiria alguma explicação. No entanto, perpassa todo o tratamento racionalista da história essa ideia curiosa e confusa de que a dificuldade é evitada, ou até mesmo o mistério é eliminado, pela consideração da simples protelação ou de algo que retarde o processo das coisas. Haverá mais a dizer sobre exemplos particulares em outras partes do livro; a questão aqui é a falsa atmosfera de facilidade e despreocupação conferida pela mera sugestão de ir devagar;  tipo de conforto que se pode dar a uma nervosa senhora de idade viajando de carro pela primeira vez.

 

(G. K.Chesterton, O Homem Eterno)

 



 REFLEXÃO

 

Haverá algo mais triste que um mestre, quando o único modo de salvar os seus discípulos é dizer-lhes que não se fixem na vida daquele que lhes fala?

 

(São João Crisóstomo, Homilias sobre (São Mateus, 72, 1)

 



SÃO JOSEMARIA – textos

 

Quis experimentar a fadiga e o cansaço

Não sabes se será fraqueza física ou uma espécie de cansaço interior que se apoderou de ti, ou as duas coisas ao mesmo tempo... Lutas sem luta, sem o empenho de uma autêntica melhoria positiva, para pegar a alegria e o amor de Cristo às almas. Quero lembrar-te as palavras claras do Espírito Santo: só será coroado quem tiver lutado "legitime" – deveras! –, apesar dos pesares. (Sulco, 163)

A alegria, o optimismo sobrenatural e humano, são compatíveis com o cansaço físico, com a dor, com as lágrimas – porque temos coração –, com as dificuldades na nossa vida interior ou na tarefa apostólica. Ele, "perfectus Deus, perfectus homo", perfeito Deus e perfeito homem, que tinha toda a felicidade do Céu, quis experimentar a fadiga e o cansaço, o pranto e a dor..., para que percebermos que para ser sobrenaturais temos de ser muito humanos. (Forja, 290)

Sempre que nos cansemos – no trabalho, no estudo, na tarefa apostólica – sempre que no horizonte haja trevas, então é preciso olhar Cristo: Jesus bom, Jesus cansado, Jesus faminto e sedento. Como te fazes compreender bem, Senhor! Como te fazes amar! Mostras-te igual a nós em tudo, excepto no pecado, para que sintamos que contigo poderemos vencer as nossas más inclinações e as nossas culpas. Efectivamente, não têm importância o cansaço, a fome, a sede, as lágrimas... Cristo cansou-se, passou fome, teve sede, chorou. O que importa é a luta – uma luta amável, porque o Senhor permanece sempre a nosso lado – para cumprir a vontade do Pai que está nos céus. (Amigos de Deus, 201)