Padroeiros do blog: SÃO PAULO; SÃO TOMÁS DE AQUINO; SÃO FILIPE DE NÉRI; SÃO JOSEMARIA ESCRIVÁ
14/10/2020
Reflexão
Leitura espiritual Outubro 14
Cartas de São Paulo
2.ª
Tessalonicenses 2
Vinda do Senhor e seus sinais –
1
Acerca da vinda de Nosso Senhor Jesus Cristo e da nossa reunião junto dele,
pedimo-vos, irmãos, 2 que não percais tão depressa a presença de espírito, nem
vos aterrorizeis com uma revelação profética, uma palavra ou uma carta
atribuída a nós, como se o Dia do Senhor estivesse iminente. 3 Ninguém, de modo
algum, vos engane. Com efeito, antes deve vir a apostasia e manifestar-se o
homem da iniquidade, o filho da perdição, 4 o adversário, aquele que se ergue
contra tudo o que se chama Deus ou é objecto de culto, até a ponto de ele
próprio se sentar no templo de Deus e de se ostentar a si mesmo como Deus. 5 Não
vos lembrais de que, quando ainda estava convosco, vos dizia estas coisas? 6 E
agora sabeis o que o detém para que se manifeste no momento que lhe toca. 7 Com
efeito, o mistério da iniquidade já está em acção; basta que seja afastado
aquele que agora o detém. 8 Então é que se manifestará o iníquo que o Senhor
destruirá com o sopro da sua boca e aniquilará com o fulgor da sua vinda. 9 A
vinda do iníquo dá-se por obra de Satanás, com toda a espécie de milagres,
sinais e prodígios enganadores, 10 com todo o tipo de seduções de injustiça
para os que se perdem, porque não acolheram o amor da verdade para serem
salvos. 11 Por isso, Deus manda-lhes uma força que leva ao erro para que
acreditem na mentira, 12 e sejam condenados todos os que não acreditaram na
verdade mas sentiram prazer na injustiça. 13 Nós, porém, devemos dar
continuamente graças a Deus por vós, irmãos amados do Senhor, pois Deus vos
escolheu desde o princípio para a salvação na santificação do Espírito e na fé
da verdade. 14 A isto Ele vos chamou por meio do nosso Evangelho: à posse da
glória de Nosso Senhor Jesus Cristo.
Encorajamento –
15
Portanto, irmãos, estai firmes e conservai as tradições nas quais fostes
instruídos por nós, por palavra ou por carta. 16 O próprio Senhor Nosso Jesus Cristo
e Deus, nosso Pai, que nos amou e nos deu, pela sua graça, uma consolação
eterna e uma boa esperança, 17 consolem os vossos corações e os confirmem em
toda a obra e palavra boa.
Cristo que passa
37
E, com os Reis Magos,
oferecemos também mirra, isto é, o sacrifício, que não deve faltar na vida
cristã.
A mirra traz à nossa
lembrança a Paixão do Senhor: na cruz, dão-Lhe a beber mirra misturada com
vinho, e com mirra ungiram o seu corpo para a sepultura.
Mas não penseis que meditar
na necessidade de sacrifício e da mortificação significa dar uma nota de
tristeza a esta festa que comemoramos alegremente no dia de hoje.
Mortificação não é
pessimismo nem espírito azedo.
A mortificação nada vale sem
a caridade: por isso, havemos de procurar mortificações que, além de nos
manterem livres em relação às coisas da terra, não mortifiquem os que vivem à
nossa volta.
O cristão não pode ser um
verdugo nem um miserável; há-de ser um homem que sabe ama com obras, que prova
o seu amor na pedra de toque da dor.
Mas - insisto - essa
mortificação não consistirá habitualmente em grandes renúncias, cuja
oportunidade não se nos depara com frequência.
Há-de estar feita de
pequenas vitórias: ter um sorriso para quem nos incomoda, negar ao corpo o
capricho dos bens supérfluos, habituarmo-nos a ouvir os outros, fazer render o
tempo que Deus põe à nossa disposição... e tantos outros pormenores,
aparentemente insignificantes - contrariedades, dificuldades, dissabores - que
surgem ao longo do dia sem os procurarmos.
38
Sancta Maria, Stella
Orientis
Termino repetindo umas
palavras do Evangelho de hoje: «Ao entrarem em casa, viram o Menino com
Maria, sua Mãe.» Nossa Senhora não se separa do seu Filho.
Os Reis Magos não são
recebidos por um rei sentado no trono, mas por um Menino nos braços da Mãe.
Peçamos, pois, à Mãe de Deus, que é nossa Mãe, que nos prepare o caminho que
conduz à plenitude do amor: Cor Mariæ dulcissimum, iter para tutum!
O seu suave coração conhece
o caminho mais seguro para encontrarmos Cristo.
Os Reis Magos tiveram uma
estrela; nós temos Maria, Stella Maris, Stella Orientis.
No dia de hoje, dizemos-lhe:
Santa Maria, Estrela do mar, Estrela da manhã, ajuda os teus filhos.
O nosso cuidado pelas almas
não deve conhecer fronteiras, porque ninguém está excluído do amor de Cristo.
Os Reis Magos foram os
primeiros dos gentios; mas, depois de consumada a Redenção, já não há judeu nem
grego, não há servo nem livre, não há homem nem mulher - não existe
descriminação de espécie alguma - porque todos vós sois um só em Jesus Cristo.
Nós cristãos, não podemos
ser exclusivistas, nem separar ou catalogar as almas; virão muitos do Oriente e
do Ocidente; todos cabem no coração de Cristo.
Voltamos a contemplá-lo no
presépio; os seus braços são de menino mas são os mesmos que se abrirão na
Cruz, atraindo todos os homens.
E o nosso pensamento vai
também para esse homem justo, Nosso Pai e Senhor, São José, que, como
habitualmente, passa despercebido na cena da Epifania.
Pressinto-o recolhido em
contemplação, protegendo com amor o Filho de Deus, que, ao fazer-se homem, foi
confiado à sua atenção paternal.
Com a maravilhosa delicadeza
de quem não vive para si, o Santo Patriarca entrega-se com um espírito de
sacrifício tão silencioso como eficaz.
Falámos hoje da vida de
oração e do afã de apostolado.
Queremos porventura melhor
mestre nesta matéria do que São José? Se quereis que vos dê um conselho,
dir-vos-ei - com palavras que venho a repetir incansavelmente desde há muitos
anos: Ite ad Joseph, recorrei a São José; ele vos mostrará caminhos concrectos
e meios humanos e divinos para chegar a Jesus.
E em breve ousareis, tal
como ele, segurar nos braços, beijar, vestir e cuidar deste Menino Deus que
nasceu para nós.
Em sinal de veneração, os
Magos ofereceram a Jesus ouro, incenso e mirra; José deu-lhe plenamente o
coração jovem, cheio de amor.
39
A Igreja inteira reconhece
São José como seu protector e padroeiro.
Ao longo dos séculos tem-se
falado dele, sublinhando diversos aspectos da sua vida, sempre fiel à missão
que Deus lhe confiara.
Por isso, desde há muitos
anos, me agrada invocá-lo com um título carinhoso: Nosso Pai e Senhor.
São José é realmente Pai e
Senhor, protegendo e acompanhando no seu caminho terreno aqueles que o veneram,
como protegeu e acompanhou Jesus enquanto crescia e se fazia homem.
Ganhando intimidade com ele
descobre-se que o Santo Patriarca é, além disso, Mestre da vida interior,
porque nos ensina a conhecer Jesus, a conviver com Ele, a tomar consciência de
que fazemos parte da família de Deus.
E São José dá-nos essas
lições sendo, como foi, um homem corrente, um pai de família, um trabalhador
que ganhava a vida com o esforço das suas mãos.
Este facto possui também, para
nós, um significado que é motivo de reflexão e de alegria.
Ao celebrar a sua festa,
quero evocar a sua figura, recordando o que dele nos diz o Evangelho para
podermos assim descobrir melhor o que, através da vida simples do Esposo de
Santa Maria, nos transmite Deus.
40
A figura de São José no
Evangelho
Tanto São Mateus como São
Lucas falam-nos de São José como varão descendente de uma estirpe ilustre: a de
David e de Salomão, reis de Israel.
Historicamente, os
pormenores dessa descendência são algo confusos.
Não sabemos qual das duas
genealogias que os evangelistas trazem corresponde a Maria - Mãe de Jesus,
segundo a carne - e qual a São José, que era seu Pai segundo a lei judaica.
Nem sabemos se a cidade
natal de José era Belém, onde se dirigiu para se recensear, ou Nazaré, onde
vivia e trabalhava.
Sabemos, no entanto, que não
era uma pessoa rica; era um trabalhador como milhões de homens no mundo.
Exercia o ofício fatigante e
humilde que Deus escolheu também para Si quando tomou a nossa carne e viveu
trinta anos como uma pessoa mais entre nós.
A Sagrada Escritura diz que
José era artesão.
Vários Padres acrescentam
que foi carpinteiro. São Justino, falando da vida de trabalho de Jesus, afirma
que fazia “arados e jugos”. Baseando-se talvez nestas palavras, Santo
Isidoro de Sevilha concluiu que ”José era ferreiro”.
De qualquer modo era um
operário que trabalhava ao serviço dos seus concidadãos, que tinha uma
habilidade manual, fruto de anos de esforço e de suor.
Das narrações evangélicas
depreende-se a grande personalidade humana de São José: em nenhum momento nos
aparece como um homem diminuído ou assustado perante a vida; pelo contrário,
sabe enfrentar-se com os problemas, superar as situações difíceis, assumir com
responsabilidade e iniciativa os trabalhos que lhe são encomendados.
Não estou de acordo com a
forma clássica de representar São José como um homem velho, apesar da boa
intenção de se destacar a perpétua virgindade de Maria.
Eu imagino-o jovem, forte,
talvez com alguns anos mais do que a Virgem, mas na pujança da vida e das
forças humanas.
Para viver a virtude da
castidade não é preciso ser-se velho ou carecer de vigor.
A castidade nasce do amor; a
força e a alegria da juventude não constituem obstáculo para um amor limpo.
Jovem era o coração e o
corpo de São José quando contraiu matrimónio com Maria, quando conheceu o
mistério da sua Maternidade Divina, quando vivei junto d'Ela respeitando a
integridade que Deus lhe queria oferecer ao mundo como mais um sinal da sua
vinda às criaturas.
Quem não for capaz de
compreender um amor assim conhece muito mal o verdadeiro amor e desconhece por
completo o sentido cristão da castidade.
Como dizíamos, José era
artesão da Galileia, um homem como tantos outros.
E que pode esperar da vida
um habitante de uma aldeia perdida, como era Nazaré?
Apenas trabalho, todos os
dias, sempre com o mesmo esforço.
E, no fim da jornada, uma
casa pobre e pequena, para recuperar as forças e recomeçar o trabalho no dia
seguinte.
Mas o nome de José significa
em hebreu “Deus acrescentará”.
Deus dá à vida santa dos que
cumprem a sua vontade dimensões insuspeitadas, o que a torna importante, o que
dá valor a todas as coisas, o que a torna divina.
Á vida humilde e santa de
São José, Deus acrescentou - se me é permitido falar assim - a vida da Virgem
Maria e a de Jesus Nosso Senhor.
Deus nunca se deixa vencer
em generosidade. José podia fazer suas as palavras que pronunciou Santa Maria,
sua Esposa: «Quia fecit mihi magna qui potens est», fez em mim grandes
coisas Aquele que é todo poderoso «quia respexit humilitatem», porque
pôs o seu olhar na minha pequenez.
José era efectivamente um
homem corrente, em quem Deus confiou para realizar coisas grandes.
Soube viver exactamente como
o Senhor queria todos e cada um dos acontecimentos que compuseram a sua vida.
Por isso, a Sagrada
Escritura louva José, afirmando que era justo.
E, na língua hebreia, justo
quer dizer piedoso, servidor irrepreensível de Deus, cumpridor da vontade
divina; outras vezes significa bom e caritativo para com o próximo.
Numa palavra, o justo é o
que ama a Deus e demonstra esse amor, cumprindo os seus mandamentos e
orientando toda a sua vida para o serviço dos seus irmãos, os homens.
Pequena agenda do cristão
O amor manifesta-se com factos
Vai até Belém, aproxima-te do Menino, baila com Ele, diz-lhe muitas coisas vibrantes, aperta-o contra o coração... Não estou a falar de infantilidades: falo de amor! E o amor manifesta-se com factos: na intimidade da tua alma, bem o podes abraçar! (Forja, 345)
É
preciso ver o Menino, nosso Amor, no seu berço. Olhar para Ele, sabendo que
estamos perante um mistério. Precisamos de aceitar o mistério pela fé,
aprofundar o seu conteúdo. Para isso necessitamos das disposições humildes da alma
cristã: não pretender reduzir a grandeza de Deus aos nossos pobres conceitos,
às nossas explicações humanas, mas compreender que esse mistério, na sua
obscuridade, é uma luz que guia a vida dos homens.
Ao
falar diante do presépio sempre procurei ver Cristo Nosso Senhor desta maneira,
envolto em paninhos sobre a palha da manjedoura, e, enquanto ainda menino e não
diz nada, vê-Lo já como doutor, como mestre. Preciso de considerá-Lo assim,
porque tenho de aprender d'Ele. E para aprender d'Ele é necessário conhecer a
sua vida: ler o Santo Evangelho, meditar no sentido divino do caminho terreno
de Jesus.
Na
verdade, temos de reproduzir na nossa, a vida de Cristo, conhecendo Cristo à
força de ler a Sagrada Escritura e de a meditar, à força de fazer oração, como
agora estamos fazendo diante do presépio.
É
preciso entender as lições que nos dá Jesus já desde menino, desde
recém-nascido, desde que os seus olhos se abriram para esta bendita terra dos
homens. Jesus, crescendo e vivendo como um de nós, revela-nos que a existência
humana, a vida corrente e ordinária, tem um sentido divino. (Cristo que passa, nn. 13–14)
Outubro - Mês do Rosário
13/10/2020
Pequena agenda do cristão
Reflexão
Honestidade Radical
Trata-se
de um programa, um desafio, para deixar de mentir. A "técnica"
envolve os interessados a expor os seus sentimentos directamente e de forma
tipicamente considerada a-política. Esta técnica é por vezes confundida pela
pessoa sofrendo Autismo ou Asperges, devido à "brutal honestidade" do
"mentor". Logo, nestes casos... Cuidado!
Bom...
posto isto, pensar: Que me interessa tal coisa?
Eu...
Não sou mentiroso!
Não?
Nunca?
Bem...
Se,
de facto, estou disposto a seguir em frente com a HONESTIDADE RADICAL, porque
penso que me interessa sobremaneira - ou se é totalmente honesto ou não se é de
todo - parece-me não ter opção.
Mas...
onde "frequentar" o tal programa?
Respondo
com "HONESTIDADE RADICAL": Dentro de mim próprio, "sem pêlo nem
agravo", doa o que doer...
(AMA,
reflexão, 2020)
Leitura espiritual Outubro 13
Cartas de São Paulo
2.ª Tessalonicenses 1
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1 Endereço e saudação –
1
Paulo, Silvano e Timóteo à Igreja de Deus, nosso Pai, e do Senhor Jesus Cristo,
que está em Tessalónica. 2 Graça e paz a vós da parte de Deus Pai e do Senhor
Jesus Cristo.
I.
DEUS, CONFORTO NA TRIBULAÇÃO
O justo juízo de Deus –
3
Devemos dar continuamente graças a Deus por vós, irmãos, como é justo, pois que
a vossa fé cresce extraordinariamente e a caridade recíproca superabunda em
cada um e em todos vós, 4 a ponto de nós próprios nos gloriarmos de vós nas
igrejas de Deus, pela vossa constância e fé em todas as perseguições e
tribulações que suportais. 5 Elas são o indício do justo juízo de Deus, para
que sejais considerados dignos do reino de Deus pelo qual padeceis. 6 Com
efeito, é justo da parte de Deus retribuir com tribulações àqueles que vos
atribulam 7 e a vós, os atribulados, retribuir com o repouso, juntamente
connosco, aquando da manifestação do Senhor Jesus que virá do Céu com os anjos
do seu poder, 8 em fogo ardente, e fará justiça aos que não conhecem a Deus e
não obedecem ao Evangelho de Nosso Senhor Jesus. 9 O seu castigo será a ruína
eterna, longe da face do Senhor e da glória da sua força, 10 quando, naquele
dia, vier para ser glorificado nos seus santos e admirado em todos aqueles que
acreditaram; ora o nosso testemunho foi por vós considerado digno de fé. 11 Eis
por que oramos continuamente por vós: para que o nosso Deus vos torne dignos da
vocação e, com o seu poder, a vossa vontade de bem e a actividade da vossa fé
atinjam a plenitude, 12 de modo que seja glorificado em vós o nome de Nosso
Senhor Jesus e vós nele, segundo a graça do nosso Deus e do Senhor Jesus
Cristo.

Cristo que passa
34
Bom pastor, bom guia
Se a vocação é o mais
importante, se a luz da estrela vai à nossa frente, para nos orientar no nosso
caminho de amor de Deus, não é lógico ter dúvidas quando, uma vez ou outra, a
perdemos de vista. Quase sempre por nossa culpa, em certos momentos da nossa
vida interior, acontece-nos o que aconteceu na viagem dos Reis Magos: a estrela
oculta-se.
Já conhecemos o esplendor
divino da nossa vocação, estamos convencidos do seu carácter definitivo, mas
talvez o pó que levantamos ao caminhar - o pó das nossas misérias - forme uma
nuvem densa, que não deixa passar a luz.
Que havemos de fazer então?
Seguir o exemplo daqueles
homens santos: perguntar. Herodes serviu-se da ciência para proceder de modo
injusto; os Reis Magos utilizam-na para fazer o bem.
Mas nós, cristãos, não temos
necessidade de perguntar a Herodes ou aos sábios da Terra.
Cristo deu à sua Igreja a
segurança da doutrina, a corrente da graça dos Sacramentos; e providenciou para
que haja pessoas que nos orientem, que nos conduzam, que nos recordem constantemente
o caminho.
Dispomos de um tesouro
infinito de ciência: a Palavra de Deus, guardada pela Igreja; a graça de Cristo
que se administra nos Sacramentos; o testemunho e o exemplo dos que vivem com
rectidão a nosso lado e sabem fazer das suas vidas um caminho de fidelidade a
Deus.
Permiti que vos dê um
conselho: se alguma vez perderdes a claridade da luz, recorrei sempre ao bom
pastor.
E quem é o bom pastor?
O que entra pela porta da
fidelidade à doutrina da Igreja; o que não se comporta como um mercenário, que,
ao ver vir o lobo, deixa as ovelhas e foge; e o lobo arrebata-as e faz
dispersar o rebanho. Reparai que a palavra divina não é vã: a insistência de
Cristo (vedes como fala, com tanto carinho, de ovelhas e de pastores, de redil
e de rebanhos?) é uma demonstração prática da necessidade de um bom guia para a
nossa alma.
Se não houvesse maus
pastores - escreve S. Agostinho - Ele não teria feito referência especial aos
bons.
Quem é mercenário?
É o que vê o lobo e foge.
O que procura a sua própria
glória, não a glória de Cristo; o que não se atreve a reprovar os pecadores com
liberdade e espírito.
O lobo fila uma ovelha pelo
pescoço; o diabo induz um fiel, por exemplo, a cometer adultério.
Se te calas e não reprovas
esse comportamento, és mercenário: viste o lobo e fugiste.
Talvez me contradigas: não,
estou aqui; não fugi.
E eu respondo-te: fugiste
porque te calaste; e calaste-te porque tiveste medo.
A santidade da esposa de
Cristo sempre se provou - e continua a provar-se actualmente - pela abundância
de bons pastores.
Mas a fé cristã, que nos
ensina a ser simples, não nos leva a ser ingénuos.
Há mercenários que se calam
e há mercenários que pregam uma doutrina que não é de Cristo.
Por isso, se porventura o
Senhor permite que fiquemos às escuras, inclusivamente em coisas de pormenor,
se sentimos falta de firmeza na fé, recorramos ao bom pastor, àquele que -
dando a vida pelos outros - quer ser, na palavra e na conduta, uma alma movida
pelo amor - àquele que talvez seja também um pecador, mas que confia sempre no
perdão e na misericórdia de Cristo.
Se a vossa consciência vos
reprova por alguma falta - embora não vos pareça uma falta grave - se tendes
uma dúvida a esse respeito, recorrei ao sacramento da Penitência.
Ide ao sacerdote que vos atende,
ao que sabe exigir de vós firmeza na fé, delicadeza de alma, verdadeira
fortaleza cristã.
Na Igreja existe a mais
completa liberdade para nos confessarmos com qualquer sacerdote que possua as
necessárias licenças eclesiásticas; mas um cristão de vida limpa recorrerá -
com liberdade! - àquele que reconhece como bom pastor, que o pode ajudar a
erguer a vista para voltar a ver no céu a estrela do Senhor.
35
Ouro, incenso e mirra
Videntes autem stellam,
gavisi sunt gaudio magno valde” - diz o texto latino com admirável reiteração:
ao descobrir novamente a estrela, exultaram com grande alegria.
E porquê tanta alegria?
Porque eles, que nunca
duvidaram, recebem do Senhor a prova de que a estrela não tinha desaparecido;
deixaram de a ver sensivelmente mas tinham-na conservado sempre na alma.
Assim é a vocação cristã: se
não se perde a fé, se se mantém a esperança em Jesus Cristo que estará connosco
até à consumação dos séculos, a estrela reaparece.
E, ao verificar uma vez mais
a realidade da vocação, nasce em nós uma alegria maior, que aumenta a nossa fé,
a nossa esperança, o nosso amor.
Ao entrarem na casa, viram o
Menino com Maria, sua Mãe, e, pondo-se de joelhos, adoraram-no.
Ajoelhemo-nos nós também
diante de Jesus, do Deus escondido na humanidade; repitamos-lhe que não
queremos voltar as costas ao seu chamamento divino, que nunca nos afastaremos
dele; que arredaremos do nosso caminho tudo o que for um estorvo para a
fidelidade; que desejamos sinceramente ser dóceis às suas inspirações.
Tu, interiormente, e eu
também - porque estou a fazer uma oração íntima, com um profundo clamor
silencioso - dizemos agora ao Menino que ansiamos por ser tão cumpridores como
os servos da parábola, para que também nos possa responder a nós: alegra-te
servo bom o fiel.
E, abrindo os seus tesouros,
ofereceram-lhe presentes de ouro, incenso e mirra.
Detenhamo-nos um pouco para
entender este passo do Santo Evangelho.
Como é possível que nós, que
nada somos e nada valemos, ofereçamos alguma coisa a Deus?
Diz a Escritura: toda a
dádiva e todo o dom perfeito vem do alto.
O homem não consegue
descobrir plenamente a profundidade e a beleza dos dons do Senhor: se tu
conhecesses o dom de Deus... - responde Jesus à mulher samaritana.
Jesus Cristo ensinou-nos a
esperar tudo do Pai, a procurar antes de mais o Reino de Deus e a sua justiça,
porque tudo o resto se nos dará por acréscimo e Ele conhece bem as nossas
necessidades.
Na economia da salvação, o
nosso Pai cuida de cada alma com amor e delicadeza: cada um recebeu de Deus o
seu próprio dom; uns de um modo, outros de outro.
Portanto, podia parecer
inútil cansarmo-nos, tentando apresentar ao Senhor algo de que Ele precise;
dada a nossa situação de devedores que não têm com que saldar as dívidas, as
nossas ofertas assemelhar-se-iam às da Antiga Lei, que Deus já não aceita: Tu
não quiseste os sacrifícios, as oblações e os holocaustos pelo pecado, nem te
são agradáveis as coisas que se oferecem segundo a Lei.
Mas o Senhor sabe que o dar
é próprio dos apaixonados e Ele próprio nos diz o que deseja de nós.
Não lhe interessam riquezas,
nem frutos, nem animais da terra, do mar ou do ar, porque tudo isso lhe
pertence.
Quer algo de íntimo, que
havemos de lhe entregar com liberdade: dá-me, meu filho, o teu coração.
Vedes?
Se compartilha, não fica
satisfeito: quer tudo para si.
Repito: não pretende o que é
nosso; quer-nos a nós mesmos. Daí - e só daí - advêm todas as outras ofertas
que podemos fazer ao Senhor.
Demos-lhe, portanto, ouro: o
ouro fino do espírito de desprendimento do dinheiro e dos bens materiais.
Não esqueçamos que são
coisas boas, que vêm de Deus. Mas o Senhor dispôs que as utilizemos sem deixar
que o coração fique preso a elas, pelo contrário, tirando delas proveito para
bem da humanidade.
Os bens da terra não são maus;
pervertem-se quando o homem os toma como ídolos e se prostra diante deles; mas
tornam-se nobres quando os tornamos instrumentos para o bem nalguma actividade
cristã de justiça e de caridade.
Não podemos correr atrás dos
bens económicos, como quem procura um tesouro; o nosso tesouro está aqui,
deitado num presépio; é Cristo e nele se há-de concentrar todo o nosso amor,
porque onde está o teu tesouro, aí está também o teu coração.
36
Oferecemos incenso: o desejo
- que elevamos até ao Senhor - de levar uma vida recta, de que se desprenda o
bonus odor Christi, o perfume de Cristo.
Impregnar as nossas palavras
e acções desse bonus odor é semear compreensão e amizade.
Que a nossa vida acompanhe
as vidas dos restantes homens, para que ninguém se encontre ou se sinta só.
A caridade há-de ser também
carinho, calor humano.
Assim no-lo ensina Jesus
Cristo.
A humanidade havia séculos
que esperava a vinda do Salvador; os profetas tinham-no anunciado de mil
maneiras; e - embora, por acção do pecado e da ignorância se tivesse perdido
grande parte da Revelação de Deus aos homens - conservava-se até aos confins da
Terra o desejo de Deus, a ânsia de redenção.
Chega a plenitude dos tempos
e, para cumprir essa missão, não aparece um génio filosófico, como Sócrates ou
Platão; não se instala na terra um conquistador poderoso, como Alexandre Magno.
Nasce um Menino em Belém.
É o Redentor do mundo; mas,
antes de começar a falar, demonstra o seu amor com obras.
Não é portador de nenhuma
fórmula mágica, porque sabe que a salvação que nos traz há-de passar pelo
coração do homem.
As suas primeiras acções são
risos e choros de criança, o sono inerme de um Deus humanado; para que fiquemos
tomados de amor, para que saibamos acolhê-Lo nos nossos braços.
Uma vez mais
consciencializamos que isto é que é o Cristianismo.
Se o cristão não ama com
obras, fracassa como cristão, o que significa fracassar também como pessoa.
Não podes pensar nos outros
homens como se fossem números, ou degraus para tu subires; como se fossem
massa, para ser exaltada ou humilhada, adulada ou desprezada, conforme os
casos.
Tens de pensar nos outros -
antes de mais, nos que estão ao teu lado - vendo neles o que na verdade são:
filhos de Deus, com toda a dignidade que esse título maravilhoso lhes confere.
Com os filhos de Deus, temos
de comportar-nos como filhos de Deus: o nosso amor há-de ser abnegado, diário,
tecido de mil e um pormenores de compreensão, de sacrifício calado, de entrega
silenciosa.
Este é o bonus odor Christi que arrancava uma
exclamação aos que conviviam com os primeiros cristãos: Vede como se amam!.
Não estou a falar de um
ideal distante.
O cristão não é um Tartarin
de Tarascon, empenhado em caçar leões onde não pode encontrá-los: nos
corredores da sua própria casa. Falo, sim, da vida quotidiana e concreta: da
santificação do trabalho, das relações familiares, da amizade.
Se não somos cristãos nestas
coisas, onde podemos sê-lo?
O perfume do incenso deve-se
ao carvão em brasa que queima sem ostentação uma grande quantidade de grãos.
Também o bonus odor
Christi se manifesta entre os homens, não como a chama espectacular de um
incêndio passageiro, mas mediante a eficácia de todo um rescaldo de virtudes:
justiça, lealdade, fidelidade, compreensão, generosidade, alegria.






