09/08/2019

Evangelho e comentário


TEMPO COMUM

Santa Teresa Benedita da Cruz – Padroeira da Europa

Evangelho: Mt 25, 1-13

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos a seguinte parábola: «O reino dos Céus pode comparar-se a dez virgens, que, tomando as suas lâmpadas, foram ao encontro do esposo. Cinco eram insensatas e cinco eram prudentes. As insensatas, ao tomarem as suas lâmpadas, não levaram azeite consigo, enquanto as prudentes, com as lâmpadas, levaram azeite nas almotolias. Como o esposo se demorava, começaram todas a dormitar e adormeceram. No meio da noite ouviu-se um brado: ‘Aí vem o esposo; ide ao seu encontro’. Então, as virgens levantaram-se todas e começaram a preparar as lâmpadas. As insensatas disseram às prudentes: ‘Dai-nos do vosso azeite, que as nossas lâmpadas estão a apagar-se’. Mas as prudentes responderam: ‘Talvez não chegue para nós e para vós. Ide antes comprá-lo aos vendedores’. Mas, enquanto foram comprá-lo, chegou o esposo: as que estavam preparadas entraram com ele para o banquete nupcial; e a porta fechou-se. Mais tarde, chegaram também as outras virgens e disseram: ‘Senhor, senhor, abre-nos a porta’. Mas ele respondeu: ‘Em verdade vos digo: Não vos conheço’. Portanto, vigiai, porque não sabeis o dia nem a hora».

Comentário:

Parece – ao ler este trecho de São Mateus – que só podemos contar connosco próprios na hora da dificuldade.

Talvez seja um pouco controverso, mas, a verdade é que temos o dever de nos preparamos para o que se espera de nós e, sabemos, não podemos faltar.

Penso – por exemplo – os que deixam para a última hora uma conversão de vida, arrependimento e reconciliação contando, talvez, que alguém se encarregará de prover essa necessidade.

E… se não houver ninguém? Se a morte me colher de improviso, sem possibilidade de preparação – por exemplo num acidente de viação mortal -?

Mais vale estar pronto, preparado e munido de todo o “azeite” da nossa fé, do nosso amor a Deus para que não suceda que, como na parábola, não mereçamos encontrar-nos com Ele.

(AMA, comentário sobre Mt 25, 1-13, 24.07.2017)



Temas para reflectir e meditar


Perseverança



Importa muito – mais ainda, tudo – uma grande e muito determinada determinação de não parar até chegar à (meta), venha o que vier, aconteça o que acontecer, trabalhe-se o que se trabalhar, murmure quem murmurar, ainda que se morra no caminho, ainda que se afunde o mundo.


(Stª teresa de jesusCamino de perfección, 21, 3; trad ama)




Leitura espiritual


São Josemaria Escrivá

Amigos de Deus

51
          
Jesus tinha trabalhado muito na véspera e, ao percorrer o caminho, sentiu fome.
Movido por esta necessidade, dirige-se àquela figueira que, lá adiante, apresenta uma esplêndida folhagem.
Relata-nos S. Marcos que não era tempo de figos; mas Nosso Senhor aproxima-se para os colher, sabendo muito bem que nessa estação não os encontraria.
Todavia, ao comprovar a esterilidade da árvore com aquela aparência de fecundidade, com aquela abundância de folhas, ordena: Nunca jamais coma alguém fruto de ti.

São palavras duras!
Nunca jamais haja fruto em ti!

Como ficariam os discípulos, sobretudo ao considerarem que era a sabedoria de Deus que falava!?

Jesus amaldiçoou esta árvore, porque só encontrou aparência de fecundidade, folhagem.
Assim aprendemos que não há desculpas para a ineficácia.
Talvez digam: não tenho conhecimentos suficientes... não há desculpa! Ou afirmem: é que a doença...; é que o meu talento não é grande; é que não são favoráveis as condições; é que o ambiente... também não valem essas desculpas!
Ai de quem se enfeita com a folhagem de um falso apostolado, ai de quem ostenta a frondosidade de uma aparente vida fecunda, sem intenções sinceras de conseguir fruto! Parece que aproveita o tempo, que se mexe, que organiza, que inventa um novo modo de resolver tudo... mas é improdutivo.
Ninguém se alimentará com as suas obras sem seiva sobrenatural.

Peçamos ao Senhor para sermos almas dispostas a trabalhar com heroísmo fecundo, pois não faltam muitos na terra que, quando as pessoas se aproximam deles, só apresentam folhas: grandes, reluzentes, lustrosas.
Só folhagem, exclusivamente, e nada mais.
E as almas olham para nós com a esperança de saciar a sua fome, que é fome de Deus! Não é possível esquecer que contamos com todos os meios para isso, ou seja, com a doutrina suficiente e com a graça do Senhor, apesar das nossas misérias.

52
         
Recordo-vos de novo que nos resta pouco tempo: tempus breve est, porque é breve a vida sobre a terra.
Além disso, recordo-vos também que, tendo aqueles meios, não necessitamos senão de boa vontade para aproveitar as ocasiões que Deus nos concedeu.
Desde que Nosso Senhor veio a este mundo, iniciou-se a era favorável, o dia da salvação, para nós e para todos.
Que o Nosso Pai, Deus, não tenha de dirigir-nos a censura que já manifestou pela boca de Jeremias: a cegonha conhece no céu a sua estação; a rola, a andorinha, o grou conhecem o tempo da sua arribação; mas o meu povo não conhece o juízo do Senhor.

Não existem datas más ou inoportunas.
Todos os dias são bons para servir a Deus.
Só surgem os maus dias quando o homem os desaproveita com a sua falta de fé, com a sua preguiça, com a sua inércia que o inclina a não trabalhar com Deus e por Deus.
Bendirei o Senhor em todo o tempo!
O tempo é um tesouro que passa, que se escapa, que corre pelas nossas mãos como a água pelas penhas altas.
Ontem já passou e o dia de hoje está a passar. Amanhã será bem depressa outro ontem.
A duração de uma vida é muito curta.
Mas, quantas coisas se podem realizar neste pequeno espaço, por amor de Deus!

Nenhuma desculpa nos aproveitará.
O Senhor foi pródigo connosco.
Instruiu-nos pacientemente; explicou-nos os seus preceitos com parábolas e insistiu connosco sem descanso.
Como a Filipe, pode perguntar-nos: há tanto tempo que estou convosco e ainda não me conhecestes?
Chegou o momento de trabalhar deveras, de ocupar todos os momentos da jornada, de suportar - gostosamente, com alegria - o peso do dia e do calor.

53
         
Nas coisas do Pai

Penso que nos ajudará a terminar melhor estas reflexões uma passagem do Evangelho de S. Lucas, no capítulo segundo.
Cristo é uma criança.
Que dor a de sua Mãe e a de S. José, porque - no regresso de Jerusalém - não vinha entre os parentes e amigos!
E que alegria a sua, quando o vêem, já de longe, doutrinando os mestres de Israel!
Mas reparai nas palavras, aparentemente duras, que saem da boca do Filho, ao responder a sua Mãe: por que me buscáveis?

Não era razoável que o procurassem?
As almas que sabem o que é perder Cristo e encontrá-lo podem compreender isto... porque me buscáveis?
Não sabíeis que devo ocupar-me nas coisas de meu Pai?
Não sabíeis, porventura, que eu devo dedicar totalmente o meu tempo ao meu Pai celestial?

54
         
Este é o fruto da oração de hoje: que nos persuadamos de que o nosso caminhar na terra - em todas as circunstâncias e em todos os momentos - é para Deus; que é um tesouro de glória, uma imagem do Céu; que é, nas nossas mãos, uma maravilha que temos de administrar, com sentido de responsabilidade perante os homens e perante Deus, sem necessidade de mudar de estado, no meio da rua, santificando a nossa profissão ou o nosso ofício, a vida de família, as relações sociais e todas as actividades que parecem à primeira vista só terrenas.

Quando tinha vinte e seis anos e percebi em toda a sua profundidade o compromisso de servir o Senhor no Opus Dei, pedi-lhe com toda a minha alma oitenta anos de gravidade.
Pedia mais anos ao meu Deus - com ingenuidade infantil de principiante - para saber utilizar o tempo, para aprender a aproveitar cada minuto ao seu serviço.
O Senhor sabe conceder essas riquezas.
Talvez tu e eu cheguemos a poder dizer: sou mais sensato que os anciãos, porque observo os teus preceitos.
A juventude não tem de ser sinónimo de despreocupação, assim como ser velho não significa necessariamente prudência e sabedoria.

Recorre comigo à Mãe de Cristo:

Mãe Nossa, que viste crescer Jesus, que o viste aproveitar a sua passagem entre os homens: ensina-me a utilizar os meus dias em serviço da Igreja e das almas.

Mãe bondosa, ensina-me a ouvir, no mais íntimo do meu coração, como uma censura carinhosa, sempre que for necessário, que o meu tempo não me pertence, porque é do Nosso Pai que está nos Céus.

55
          
Começar é de muitos; acabar, de poucos.
Nós, que procuramos comportar-nos como filhos de Deus, temos de estar entre os segundos.
Não o esqueçais: só as tarefas terminadas com amor, bem acabadas, merecem aquele aplauso do Senhor, que se lê na Sagrada Escritura: é melhor o fim de uma obra do que o seu princípio.

É possível que já me tenhais ouvido contar, noutras conversas, esta história.
Em todo o caso, interessa-me recordar-vo-la de novo, por ser muito gráfica e esclarecedora.
Em certa ocasião, procurava eu no Ritual Romano a fórmula destinada a benzer a última pedra de um edifício, no fundo a mais importante, porque sintetiza, como um símbolo, o trabalho duro, esforçado e perseverante de muitas pessoas, durante longos anos.
Fiquei surpreendido quando reparei que não existia, pelo que era necessário conformar-me com uma benedictio ad omnia, uma bênção genérica.
Confesso-vos que me parecia impossível que houvesse tal lacuna e fui revendo devagar, embora inutilmente, o índice do Ritual.

Muitos cristãos perderam a convicção de que a integridade de Vida, pedida pelo Senhor aos seus filhos, exige um cuidado autêntico ao realizarem as tarefas pessoais, que têm de santificar, sem descurarem inclusivamente os pormenores mais pequenos.

Não podemos oferecer ao Senhor uma coisa que, dentro das pobres limitações humanas, não seja perfeita, sem defeitos e realizada com toda a atenção, mesmo nos aspectos mais insignificantes, porque Deus não aceita o que é mal feito.
Não oferecereis nada que tenha defeito, porque não seria aceite favoravelmente, adverte-nos a Escritura Santa.
Por isso, o trabalho de cada um de nós, esse trabalho que ocupa as nossas jornadas e as nossas energias, há-de ser uma oferenda digna do Criador, operatio Dei, trabalho de Deus e para Deus. Numa palavra, uma tarefa bem cumprida e impecável.

56
          
Se reparardes, entre os muitos elogios que fizeram de Jesus aqueles que puderam contemplar a sua vida, há um que, de certo modo, compreende todos os outros.
Refiro-me àquela exclamação, cheia de sinais de assombro e de entusiasmo, que a multidão repetia espontaneamente ao presenciar, atónita, os seus milagres: bene omnia fecit, tudo tem feito admiravelmente bem: os grandes prodígios e as coisas comezinhas, quotidianas, que não deslumbraram ninguém, mas que Cristo realizou com a plenitude de quem é perfectus Deus, perfectus Homo, perfeito Deus e perfeito homem.

Toda a vida do Senhor me apaixona.
Tenho, porém, uma particular predilecção pelos seus trinta anos de existência oculta em Belém, no Egipto e em Nazaré.
Esse longo tempo, de que mal se fala no Evangelho, surge desprovido de significado próprio aos olhos de quem o considera com superficialidade.
E, no entanto, sempre sustentei que um tal silêncio sobre a biografia do Mestre é bem eloquente e encerra maravilhosas lições para os cristãos.
Foram anos intensos de trabalho e de oração, em que Jesus teve uma vida tão normal como a nossa, simultaneamente divina e humana. Naquela singela e ignorada oficina de artesão e, mais tarde, diante das multidões, cumpriu tudo com perfeição.

57
          
O trabalho, participação do poder divino

Desde o começo da sua criação que o homem teve de trabalhar.
Não sou eu quem o inventa.
Basta abrir as primeiras páginas da Sagrada Bíblia para aí se ler que Deus formou Adão com o barro da terra e criou para ele e para a sua descendência este mundo tão formoso, ut operaretur et custodiret illum, com o fim de o trabalhar e de o conservar, e isto antes mesmo de o pecado entrar na humanidade e, como consequência dessa ofensa, a morte, as penas e as misérias.

Temos, pois, de nos convencer de que o trabalho é uma realidade magnífica, que se nos impõe como lei inexorável a que todos estamos submetidos, de uma ou de outra forma, apesar de alguns pretenderem eximir-se a ela.
Aprendei-o bem: esta obrigação não surgiu como uma sequela do pecado original, nem se reduz a uma descoberta dos tempos modernos.
Trata-se de um meio necessário que Deus nos confia na terra, alongando os nossos dias e tornando-nos partícipes do seu poder criador, para que ganhemos o nosso sustento e, simultaneamente, recolhamos frutos para a vida eterna: o homem nasce para trabalhar, como as aves para voar.

Talvez me digais que já se passaram muitos séculos, que muito pouca gente pensa desta maneira, que a maioria provavelmente se afana por motivos bem diversos: uns, por dinheiro; outros, para manter a família; outros, na mira de conseguir uma certa posição social, para desenvolver as suas capacidades, para satisfazer as suas paixões desordenadas, para contribuir para o progresso social.
E todos, em geral, encaram as suas ocupações como uma necessidade de que não podem evadir-se.

Perante esta visão plana, egoísta, rasteira, tu e eu temos de recordar a nós mesmos e de recordar aos outros que somos filhos de Deus, a quem o nosso Pai dirigiu um convite idêntico ao daqueles personagens da parábola evangélica: filho, vai trabalhar na minha vinha.
Posso assegurar-vos que aprenderemos a terminar as nossas tarefas com a maior perfeição humana e sobrenatural de que somos capazes, se nos empenharmos em considerar assim diariamente as nossas obrigações pessoais como ordem divina.
É possível que nos rebelemos numa ou noutra ocasião como o filho mais velho, que respondeu: não quero!
Saberemos, contudo, reagir e, desde que nos arrependamos, dedicar-nos-emos mais esforçadamente ao cumprimento do dever.

(cont)


Pequena agenda do cristão

Sexta-Feira


(Coisas muito simples, curtas, objectivas)




Propósito:

Contenção; alguma privação; ser humilde.


Senhor: Ajuda-me a ser contido, a privar-me de algo por pouco que seja, a ser humilde. Sou formado por este barro duro e seco que é o meu carácter, mas não Te importes, Senhor, não Te importes com este barro que não vale nada. Parte-o, esfrangalha-o nas Tuas mãos amorosas e, estou certo, daí sairá algo que se possa - que Tu possas - aproveitar. Não dês importância à minha prosápia, à minha vaidade, ao meu desejo incontido de protagonismo e evidência. Não sei nada, não posso nada, não tenho nada, não valho nada, não sou absolutamente nada.

Lembrar-me:
Filiação divina.

Ser Teu filho Senhor! De tal modo desejo que esta realidade tome posse de mim, que me entrego totalmente nas Tuas mãos amorosas de Pai misericordioso, e embora não saiba bem para que me queres, para que queres como filho a alguém como eu, entrego-me confiante que me conheces profundamente, com todos os meus defeitos e pequenas virtudes e é assim, e não de outro modo, que me queres ao pé de Ti. Não me afastes, Senhor. Eu sei que Tu não me afastarás nunca. Peço-Te que não permitas que alguma vez, nem por breves instantes, seja eu a afastar-me de Ti.

Pequeno exame:

Cumpri o propósito que me propus ontem?





Aprendei a fazer o bem


Quando estiveres com uma pessoa, tens de ver nela uma alma: uma alma que é preciso ajudar, que é preciso compreender, com quem é preciso conviver e que é preciso salvar. (Forja, 573)

Agrada-me citar umas palavras que o Espírito Santo nos comunica pela boca do profeta Isaías: discite benefacere, aprendei a fazer o bem. (...)

A caridade para com o próximo é uma manifestação do amor a Deus. Por isso, ao esforçarmo-nos por melhorar nesta virtude, não podemos fixar nenhum limite. Com o Senhor, a única medida é amar sem medida, pois, por um lado jamais chegaremos a agradecer suficientemente o que Ele tem feito por nós e, por outro, assim se revela o mesmo amor de Deus às suas criaturas: com excesso, sem cálculo, sem fronteiras.

A misericórdia não se limita a uma simples atitude de compaixão; a misericórdia identifica-se com a superabundância da caridade que, ao mesmo tempo, traz consigo a superabundância da justiça. Misericórdia significa manter o coração em carne viva, humana e divinamente repassado por um amor rijo, sacrificado e generoso. (Amigos de Deus, 232)

08/08/2019

Evangelho e comentário


TEMPO COMUM


Evangelho: Mt 16, 13-23

Naquele tempo, Jesus foi para os lados de Cesareia de Filipe e perguntou aos seus discípulos: «Quem dizem os homens que é o Filho do homem?». Eles responderam: «Uns dizem que é João Baptista, outros que é Elias, outros que é Jeremias ou algum dos profetas». Jesus perguntou: «E vós, quem dizeis que Eu sou?». Então, Simão Pedro tomou a palavra e disse: «Tu és o Messias, o Filho de Deus vivo». Jesus respondeu-lhe: «Feliz de ti, Simão, filho de Jonas, porque não foram a carne e o sangue que to revelaram, mas sim meu Pai que está nos Céus. Também Eu te digo: Tu és Pedro; sobre esta pedra edificarei a minha Igreja e as portas do inferno não prevalecerão contra ela. Dar-te-ei as chaves do reino dos Céus: tudo o que ligares na terra será ligado nos Céus, e tudo o que desligares na terra será desligado nos Céus». Então, Jesus ordenou aos discípulos que não dissessem a ninguém que Ele era o Messias. E começou a explicar aos seus discípulos que tinha de ir a Jerusalém e sofrer muito da parte dos anciãos, dos príncipes dos sacerdotes e dos escribas; que tinha de ser morto e ressuscitar ao terceiro dia. Pedro, tomando-O à parte, começou a contestá-l’O, dizendo: «Deus Te livre de tal, Senhor! Isso não há-de acontecer!» Jesus voltou-Se para Pedro e disse-lhe: «Vai-te daqui, Satanás. Tu és para mim uma ocasião de escândalo, pois não tens em vista as coisas de Deus, mas dos homens».

Comentário:

De uma forma absolutamente clara que não deixa qualquer margem para dúvidas, o Senhor dá a Pedro e nele aos seus sucessores, os poderes que até então eram exclusivos de Deus:

Perdoar os pecados.

Pedro fica assim, constituído como um representante de Cristo na terra a quem, portanto, é devido respeito e acatamento das instruções que dele vêm.

(ama, comentário sobre Mt 16, 13-23, 05.06.2016)



Temas para reflectir e meditar

Eucaristia


Realizada a transubstanciação, as espécies de pão e vinho (…) contêm uma nova “realidade”, que, com razão, chamamos ontológica, porque sob as ditas espécies já não existe o que havia antes, mas sim uma coisa completamente diferente (…), e isto não unicamente pelo juízo de fé da Igreja, mas pela realidade objectiva.

(Beato Paulo VI, Enc. Mysterium fidei, 1965.09.03)

Leitura espiritual


São Josemaria Escrivá

Amigos de Deus
43
          
Dir-me-ás talvez: e porque havia eu de me esforçar?

Não sou eu quem te responde, mas S. Paulo: o amor de Cristo urge-nos.

Todo o espaço de uma existência é pouco para alargar as fronteiras da tua caridade.
Desde os primeiríssimos começos do Opus Dei, manifestei o meu grande empenho em repetir sem cessar, para as almas generosas que se decidam a traduzi-lo em obras, aquele grito de Cristo: nisto conhecerão todos que sois meus discípulos, se tiverdes amor uns aos outros.
Conhecer-nos-ão precisamente por isso, porque a caridade é o ponto de arranque de qualquer actividade de um cristão.

Jesus, que é a própria pureza, não garante que conhecerão os seus discípulos pela limpeza da sua vida.
Ele, que é a sobriedade, que nem sequer dispõe de uma pedra onde reclinar a cabeça, que passou tantos dias em jejum e em retiro, não diz aos Apóstolos: conhecer-vos-ão como meus escolhidos, porque não sois comilões nem bebedores.

A vida limpa de Cristo era - como foi e será em todas as épocas - uma bofetada na sociedade de então, tão podre como a de agora.
A sua sobriedade, outro látego para aqueles que se banqueteavam continuamente e provocavam o vómito depois de estarem cheios, para poderem continuar a comer, cumprindo à letra as palavras de Saulo: convertem o seu ventre num Deus.

44
         
A humildade do Senhor era outro golpe naquele modo de consumir a vida, cada um ocupado apenas consigo mesmo.

Estando em Roma, comentei repetidas vezes, e talvez até já mo tenhais ouvido dizer, que por baixo desses arcos, hoje em ruínas, desfilavam, triunfantes, vãos, orgulhosos, cheios de soberba, os imperadores e os seus generais vitoriosos.
Ao atravessarem esses monumentos, é provável que baixassem a cabeça com receio de baterem no arco grandioso com a majestade das suas frontes. Todavia, Cristo, tão humilde, também não declara: conhecerão que sois meus discípulos, se fordes humildes e modestos.

Queria fazer-vos notar que, após vinte séculos, ainda aparece com toda a pujança de novidade o Mandato do Mestre, que é uma espécie de carta de apresentação do verdadeiro filho de Deus.

Ao longo da minha vida sacerdotal, tenho pregado com muitíssima frequência que, desgraçadamente para muitos, continua a ser novo, porque nunca ou quase nunca se esforçaram por praticá-lo.
É triste, mas é assim.
E não há dúvida nenhuma de que a afirmação do Messias ressalta de modo terminante: nisto vos conhecerão, que vos amais uns aos outros!
Por isso, sinto a necessidade de recordar constantemente essas palavras do Senhor. S. Paulo acrescenta: levai os fardos uns dos outros e, desta maneira, cumprireis a lei de Cristo.
Momentos perdidos, talvez com a falsa desculpa de que te sobra tempo... se há tantos irmãos, amigos teus, sobrecarregados de trabalho!
Com delicadeza, com cortesia, com um sorriso nos lábios, ajuda-os, de tal maneira que se torne quase impossível que o notem; e que nem se possam mostrar agradecidos, porque a discreta finura da tua caridade fez com que ela passasse inadvertida.

Não tinham tido um instante livre, argumentariam aquelas infelizes que vão com as lâmpadas vazias.
Aos operários da praça sobra-lhes a maior parte do dia, porque não se sentem obrigados a prestar serviço, embora o convite do Senhor seja contínuo e urgente desde a primeira hora.
Aceitemo-lo nós, respondendo que sim, e suportemos por amor - que já não é suportar - o peso do dia e do calor.

45
          
Render para Deus

Consideremos agora a parábola daquele homem que, estando para empreender uma viagem, chamou os seus servos e lhes entregou os seus bens.
Confia a cada um deles uma quantia diferente, para ser administrada na sua ausência.
Parece-me muito oportuno repararmos bem na conduta daquele que aceitou um talento: comporta-se de uma forma que na minha terra se chama esperteza de cuco.
Pensa, raciocina com aquele cérebro pequenino e decide-se: cavou na terra e escondeu o dinheiro do seu senhor.

Que ocupação escolherá depois este homem, se abandonou o instrumento de trabalho?
Decidiu irresponsavelmente optar pela comodidade de devolver só o que lhe entregaram.
Dedicar-se-á a matar os minutos, as horas, os dias, os meses, os anos, a vida!
Os outros afadigam-se, negoceiam, empenham-se nobremente em restituir mais do que receberam: aliás, o legítimo fruto, porque a recomendação foi muito concreta: negotiamini dum venio, encarregai-vos deste trabalho para conseguirdes algum lucro, até que o dono regresse.
Pois este não; este inutiliza a sua existência.

46
         
Que pena viver tendo como ocupação matar o tempo, que é um tesouro de Deus!

Não há desculpas para justificar essa actuação.

Que ninguém diga: só tenho um talento, não posso ganhar nada.
Também com um só talento podes agir de modo meritório.
Que tristeza não tirar partido, autêntico rendimento de todas as faculdades, poucas ou muitas, que Deus concede ao homem para que se dedique a servir as almas e a sociedade!

Quando o cristão mata o seu tempo na Terra, coloca-se em perigo de matar o seu Céu, se, pelo seu egoísmo, se retrai, se esconde, se despreocupa.
Quem ama a Deus, não entrega só o que tem, o que é, ao serviço de Deus: dá-se a si mesmo.
Não vê - em perspectiva rasteira - o seu eu na saúde, no nome, na carreira.

47
          
Meu, meu, meu..., pensam, dizem e fazem muitos.

Que coisa tão triste!
Comenta S. Jerónimo que, verdadeiramente, o que está escrito: "para encontrar desculpas dos pecados" (Ps CXL, 4), acontece com estas pessoas que, ao pecado de soberba, acrescentam a preguiça e a negligência.

É a soberba que afirma continuamente meu, meu, meu... é um vício que converte o homem numa criatura estéril, que lhe anula as ânsias de trabalhar por Deus e que o leva a desaproveitar o tempo.

A tua vida para ti?
A tua vida para Deus, para o bem de todos os homens, por amor ao Senhor.
Desenterra esse talento!
Torna-o produtivo e saborearás a alegria de saber que, neste negócio sobrenatural, não importa que o resultado na terra não seja uma maravilha que os homens possam admirar.
O essencial é entregarmos tudo o que somos e possuímos, procurarmos que o talento renda e empenharmo-nos continuamente em produzir bom fruto.

Deus concede-nos talvez um ano mais para o servir.
Não penses em cinco, nem em dois.
Pensa só neste: em um, no que começámos.
E entrega-o, não o enterres!
Esta há-de ser a nossa determinação.

48
         
Junto da vinha


Havia um pai de família, que plantou uma vinha, e a cercou com uma sebe, e cavou nela um lagar, e edificou uma torre, e arrendou-a a uns lavradores, e ausentou-se daquela região.

Gostaria que meditássemos nos ensinamentos desta parábola, do ponto de vista que nos interessa agora.
A tradição viu, neste relato, uma imagem do destino do povo eleito por Deus; e ensinou-nos sobretudo como, a tanto amor da parte do Senhor, correspondemos nós, homens, com infidelidade, com falta de gratidão.

Pretendo concretamente deter-me nas palavras ausentou-se daquela região.
Chego logo à conclusão de que nós, cristãos, não devemos abandonar esta vinha em que nos meteu o Senhor.
Temos de empregar as nossas forças nesta tarefa, dentro da cerca, trabalhando no lagar e, acabada a jornada, descansando na torre.
Se nos deixássemos arrastar pelo comodismo, seria o mesmo que responder a Cristo: os meus anos são para mim; não para Ti.
Não quero decidir-me a tratar da tua vinha.

49
          
O Senhor deu-nos a vida, os sentidos, as potências, graças sem conta.
E não temos o direito de esquecer que somos, cada um, um operário, entre tantos, nesta fazenda em que ele nos colocou, para colaborar na tarefa de dar alimento aos outros.
Este é o nosso sítio: dentro destes limites.
Aqui temos nós de nos gastar diariamente com ele, ajudando-o no seu trabalho redentor.

Deixai-me que insista: o teu tempo para ti?
O teu tempo para Deus!
Pode ser que, pela misericórdia do Senhor, esse egoísmo não tenha entrado de momento na tua alma.
Digo-te isto desde já, para estares prevenido no caso de sentires alguma vez que o teu coração vacila na fé de Cristo.
Então, peço-te - pede-te Deus - que sejas fiel no teu empenhamento, que domines a soberba, que sujeites a imaginação, que não te deixes ir longe demais por leviandade, que não desertes.

Àqueles jornaleiros que estavam no meio da praça sobrava-lhes todo o dia; o que escondeu o talento na terra queria matar as horas; o que se devia ocupar da vinha vai para outro lado.
Todos demonstram a mesma insensibilidade perante a grande tarefa que a cada um dos cristãos foi encomendada pelo Mestre - a de nos considerarmos e de nos comportarmos como instrumentos seus, para corredimir com Ele; a de consumirmos toda a vida no alegre sacrifício de nos entregarmos pelo bem das almas.

50
         
A figueira estéril

Também é S. Mateus quem nos conta que Jesus voltava de Betânia com fome.

A mim comove-me sempre Cristo - particularmente quando vejo que é Homem verdadeiro e perfeito, sendo também perfeito Deus - que nos ensina a aproveitar até a nossa indigência e as nossas debilidades naturais e pessoais, a fim de nos oferecermos integralmente - tal como somos - ao Pai, que aceita gostosamente esse holocausto.

Tinha fome!
O Criador do universo, o Senhor de todas as coisas padece fome!
Senhor, agradeço-Te que - por inspiração divina - o escritor sagrado tenha deixado esse sinal nesta passagem, com um pormenor que me obriga a amar-Te mais, que me ensina a desejar vivamente a contemplação da tua Humanidade Santíssima! Perfectus Deus, perfectus homo, perfeito Deus e perfeito Homem, de carne e osso, como tu, como eu!

(cont)