29/07/2019

Evangelho e comentário


TEMPO COMUM


Santa Marta

Evangelho: Jo 11 17-27

17 Ao chegar, Jesus encontrou-o sepultado havia quatro dias. 18 Betânia ficava perto de Jerusalém, a quase uma légua, 19 e muitos judeus tinham ido visitar Marta e Maria para lhes darem os pêsames pelo seu irmão. 20 Logo que Marta ouviu dizer que Jesus estava a chegar, saiu a recebê-lo, enquanto Maria ficou sentada em casa. 21 Marta disse, então, a Jesus: «Senhor, se Tu cá estivesses, o meu irmão não teria morrido. 22 Mas, ainda agora, eu sei que tudo o que pedires a Deus, Ele to concederá.» 23 Disse-lhe Jesus: «Teu irmão ressuscitará.» 24 Marta respondeu-lhe: «Eu sei que ele há-de ressuscitar na ressurreição do último dia.» 25 Disse-lhe Jesus: «Eu sou a Ressurreição e a Vida. Quem crê em mim, mesmo que tenha morrido, viverá. 26 E todo aquele que vive e crê em mim não morrerá para sempre. Crês nisto?» 27 Ela respondeu-lhe: «Sim, ó Senhor; eu creio que Tu és o Cristo, o Filho de Deus que havia de vir ao mundo.»

Comentário:

Porque seria que Maria, ao invés da irmã, «ficou sentada em casa»?

Teria a percepção do que iria acontecer? Estaria tão esmagada pela dor que ficou incapacitada de reagir?

Parece que a resposta nos será dada mais tarde quando, o Senhor voltar à casa dos irmãos e Maria ficar sentada junto d’Ele a ouvir quanto lhe dizia.

Maria tem uma finura de carácter que ressalta no Evangelho, será uma mulher calma, ponderada, tranquila.
A ressurreição do irmão, operada por Jesus, deve ter sido como que a ”pedra de toque” final para a confirmação da sua fé no Filho de Deus e, a partir daqui, parece que nada mais lhe importa.

(AMA, comentário sobre Jo 11, 19-27, 29.07.2017)




Temas para reflectir e meditar.


Olhar e reparar

São duas atitudes diferentes.

Olhar pode ser um acto automático que não tem que ser nem mau nem bom.

Faz parte da nossa condição humana, dos nossos sentidos, da forma como percorremos a vida de todos os dias.

Reparar é diferente.
É deter o olhar em algo que nos desperta a curiosidade e pretendemos avaliar – ou ver mais detidamente – os pormenores, os detalhes.

E isto pode ser mau porque, de certa forma alia-se ao reparar a curiosidade e, esta, é sempre má.

Trata-se, pois, de guardar a vista e não se pense que é fácil porque não é.

Constantemente, somos confrontados com autênticas “agressões visuais” e há que ter a prontidão de seguir em frente e deixar o assunto.

A vista é a porta da alma!

(AMA, reflexões, 2019)


Leitura espiritual

Contribuir para a evangelização no próprio trabalho
Ao longo da sua vida, S. Josemaria pregou incansavelmente que todos os batizados são chamados à santidade, e que pode atingir-se esta santidade no exercício de qualquer profissão honesta. Foi uma mensagem original, que abria horizontes inesperados na vida quotidiana de muitos católicos.
“O que a ti te maravilha, a mim parece-me razoável. – Por que foi Deus procurar-te no exercício da tua profissão? Assim procurou os primeiros: Pedro, André, João e Tiago, junto às redes; Mateus, sentado à mesa dos impostos... E – admira-te! – Paulo, na sua ânsia de acabar com a semente dos cristãos”[1].
Nos planos de Deus, o trabalho não ocupa um lugar acidental. É muito mais do que uma forma de garantir a própria subsistência. Inclusive do ponto de vista humano, “é testemunho da dignidade do homem, do seu domínio sobre a criação; é meio de desenvolvimento da personalidade; é vínculo de união com os outros seres; fonte de recursos para o sustento da família; meio de contribuir para o progresso da sociedade em que se vive e para o progresso de toda a humanidade”[2]. E o olhar da fé descobre que esta atividade é um modo de participar na tarefa da criação e redenção[3]; o valor do trabalho torna-se maior, porque se vê como “meio e caminho de santidade, realidade santificável e santificadora” [4]. Portanto, é lógico que consideremos a transcendência que esta realidade tem para a missão da Igreja, especialmente na tarefa da nova evangelização.

A dimensão social da profissão
Nosso Senhor Jesus Cristo, o Filho de Deus feito homem, quis partilhar também a condição de trabalhador, e exercer uma profissão concreta. O Evangelho conta que os seus compatriotas o reconheciam como “o filho do artesão”[5], e na sua pregação encontramos vários exemplos retirados dos labores quotidianos dos homens e mulheres do seu tempo: a agricultura[6], o trabalho da casa[7], o comércio[8]. O mundo do trabalho não lhe era alheio, e entendia o que significa desempenhar um ofício que pressupõe conhecimentos e capacidades específicas.
S. Lucas mostra no seu Evangelho que durante a sua infância, “Jesus crescia em estatura, em sabedoria e graça, diante de Deus e dos homens”[9]. Isso realizar-se-ia também através do trabalho diário na oficina de S. José. Porque a profissão é um meio para o desenvolvimento da personalidade. Em boa medida, configura um modo de ser particular: um administrador aprende a ser minucioso nas contas, os jornalistas desenvolvem aptidões comunicativas, etc. Por meio do trabalho executado durante anos, se a pessoa não cai na rotina, consegue crescer e desenvolver diversas aptidões, até chegar ao ponto de estar orgulhosa da sua atividade, cresce um entusiasmo pela profissão.
Mas a profissão não é simplesmente um recurso para cultivar uma atividade para a qual nos sintamos mais ou menos inclinados. Precisamente porque nos situa dentro da comunidade humana, a profissão supera o âmbito privado e chega a ter uma dimensão social evidente. A pessoa apresenta-se perante os outros cidadãos como operário, vendedor, professor, agricultor, etc. E, precisamente nesta posição, a pessoa insere-se numa rede de relações profissionais, onde ocorre um intercâmbio recíproco de bens e serviços. O resultado final é maior daquele que cada pessoa poderia conseguir sozinha, com as suas próprias forças. Por exemplo, para levantar um arranha-céus moderno é necessária a colaboração de milhares de operários, técnicos e engenheiros da empresa construtora, o trabalho também não seria possível sem os serviços realizados por outras empresas, bem como o financiamento externo e outras facilidades que a autoridade pública pode conceder, tendo em consideração a importância social do projeto.
De modo especial hoje em dia, exercer uma profissão implica relacionar-se com muitas pessoas, sem as quais não poderíamos atingir objetivos comuns. Diz-se, com razão, que somos interdependentes, ao constatar, entre outras coisas, que é indispensável o estabelecimento de relações profissionais. Relações que, no entanto, são sempre entre pessoas, e que – neste sentido – devem ser cultivadas de acordo com a dignidade do ser humano. Portanto, nesse intercâmbio de serviços, além das considerações em relação à produtividade e eficiência, que são lógicas, não podemos esquecer a sua dimensão ética. Assim o advertia Bento XVI: “O risco do nosso tempo é que, à real interdependência dos homens e dos povos, não corresponda a interação ética das consciências e das inteligências, da qual possa resultar um desenvolvimento verdadeiramente humano. Só através da caridade, iluminada pela luz da razão e da fé, é possível alcançar objetivos de desenvolvimento dotados de uma valência mais humana e humanizadora”[10].

Cultivar relações profissionais à medida do homem
A atividade profissional perderia o seu sentido se não contribuísse para a perfeição global da pessoa, em última análise, se não ajudasse os homens e mulheres a responderem ao seu chamamento para a santidade. E, apesar disso, não é raro encontrar perspetivas – teóricas ou práticas – que ferem a dignidade do homem por dar realce excessivo à capacidade produtiva dos indivíduos, e reduzir a finalidade do trabalho ao simples aumento do consumo. Chegam até a pensar que é possível construir uma civilização fundada no egoísmo, e consideram o trabalhador uma mera engrenagem de uma grande máquina de produção.
O Papa Francisco, reflectindo sobre os problemas que muitos países actualmente enfrentam, apontou claramente os limites de tais abordagens reducionistas: “A crise mundial, que envolve as finanças e a economia, parece evidenciar as suas deformações e, sobretudo, a sua grave carência de perspectiva antropológica, que reduz o homem a uma única das suas exigências: o consumo. Pior ainda, hoje o próprio ser humano é visto como um bem de consumo, que se pode usar e deitar fora. Começámos esta cultura do descartável. Esta perversão verifica-se tanto a nível individual como social” [11].
Diante deste panorama, os cristãos são chamados a demonstrar, com obras, que é possível desenvolver relações profissionais que ajudem as pessoas do ambiente de trabalho a realizarem-se como pessoas, e ao mesmo tempo serem proveitosas e produtivas. Trata-se da tarefa de ordenar rectamente as actividades temporais[12]. De certo modo, é necessário redescobrir o autêntico sentido do profissionalismo, que é um valor comum a muitas culturas.
Como é o perfil de um bom profissional? Pensamos imediatamente que essa pessoa deve realizar o seu trabalho com competência: apresentar um produto de qualidade, dominar os conhecimentos técnicos específicos da profissão, ter a desenvoltura necessária para usar certas máquinas ou programas informáticos. É preciso acrescentar a isso outras aptidões ou hábitos, que facilitam o trabalho de toda a equipa e dos clientes: pontualidade nas reuniões, tratamento afável no escritório ou na fábrica, a lealdade de quem não gera conflitos com os seus companheiros e dirigentes, etc.
A lista poderia continuar a crescer de modo ilimitado. Em qualquer caso, é claro que as virtudes contribuem para a boa realização da atividade laboral. E, neste ponto, todos os baptizados podem dar um claro testemunho de como a fé contribui para a perfeição da pessoa, incluindo a dimensão profissional. Não porque procurem uma oportunidade de autoafirmação, mas porque consideram o trabalho como um campo privilegiado para levar, com naturalidade, a mensagem do Evangelho, de servir os homens, em todas as suas dimensões. Assim o dizia S. Josemaria: “Não acredito na rectidão de intenção de quem não se esforça por alcançar a competência necessária para cumprir bem as tarefas que lhe são confiadas. Não basta querer fazer o bem; é preciso saber fazê-lo. E, se realmente o queremos, esse desejo traduzir-se-á no empenho por utilizar os meios adequados para deixar as coisas acabadas, com perfeição humana”[13].
Quando um cristão, apesar das suas limitações pessoais, se esforça por ser um bom profissional, adquire uma reputação que facilita o apostolado no seu ambiente de trabalho, e essa atitude torna-se num convite a aproximar-se da fé católica para os outros. É um testemunho de vida cristã ao qual são particularmente sensíveis os homens e mulheres que vivem numa cultura que valoriza o trabalho bem feito. É um campo em que podemos aplicar o seguinte convite de Bento XVI: “A renovação da Igreja realiza-se também através do testemunho prestado pela vida dos crentes: de facto, os cristãos são chamados a fazer brilhar, com a sua própria vida no mundo, a Palavra de verdade que o Senhor Jesus nos deixou.”[14]

Ser coerentes com o chamamento à santidade na profissão
É possível contribuir para a tarefa da evangelização a partir de todos os campos profissionais, por mais variados que sejam. Isso implica apresentar um estilo de trabalho, de relacionamento com os outros, que provavelmente entrará em contraste com outros modos que não são coerentes com o chamamento à santidade que todo o homem possui. Nestas circunstâncias, a unidade de vida dos fiéis cobra uma maior importância.
Os filhos de Deus não podem contentar-se com ocupar posições de influência no local de trabalho (empresas, associações profissionais, sindicatos), se não colocarem os meios que puderem para mudar práticas contrárias à dignidade da pessoa. Devem aproveitar as oportunidades que têm para que a sua organização ou empresa promova um ambiente que facilite o desenvolvimento humano, e, ao mesmo tempo, seja rentável. E não apenas porque oferece formação profissional, mas também porque as condições de trabalho proporcionam aos funcionários dedicar o tempo necessário para cultivar o relacionamento com Deus, a vida familiar, alguns hobbies.
Por outro lado, é evidente que na profissão há situações em que a coerência cristã é testada: convites dos colegas a um ganho pessoal à custa de prejudicar os recursos da empresa; prestação de serviços que, embora à primeira vista pareçam de acordo com os termos do contrato, a longo prazo causam dano aos clientes; estratégias de concorrência desleal, etc. Às vezes, são colocados como condições que devem ser aceites, porque “as coisas funcionam assim”, ou “temos feito isso há já muito tempo”. Podem até mesmo ser práticas que, por um defeito na legislação, não teriam repercussões legais, mas para o cristão, é evidente que não estão de acordo com a lei de Deus.
É hora de lembrar que o Senhor quer que sejamos, também no nosso ambiente de trabalho, o sal da terra que não pode perder o seu sabor[15]. E para contribuir para a missão da Igreja, temos de vencer os respeitos humanos e o medo de condicionar a carreira. Ultimamente, o Papa Francisco tem insistido em que não podemos ceder ao domínio dos interesses económicos desordenados que prejudicam o bem geral do indivíduo, especialmente dos mais vulneráveis: “O que manda hoje não é o homem, mas o dinheiro, é o dinheiro que manda! E Deus, nosso Pai, confiou a tarefa de conservar a terra, não ao dinheiro, mas a nós: são os homens e mulheres que temos esta tarefa!”[16].
É verdade que em muitos casos pode chegar-se a ganhos e sucesso fácil quando a lei de Deus não é seguida, mas são frágeis: não faltam exemplos nos últimos anos de escândalos no mundo dos negócios e no financeiro que confirmam isso. Os fiéis, porém, sabem que um estilo de trabalho impregnado pela caridade cristã responde à verdade sobre o homem e, consequentemente, não implica de forma alguma exercer uma profissão medíocre. Vivem com essa visão de fé que os leva a medir bem o seu bem-estar material e realizações temporais, com a consciência de que não temos morada permanente na terra[17] e que o maior projecto que podem realizar é o da santidade pessoal: “cem por um e a vida eterna! – Parece-te pequeno o ‘negócio’?”[18]

R. Valdés
Copyright © opusdei.org

[1] S. Josemaria Escrivá, Caminho, n. 799
[2] S. Josemaria Escrivá, Cristo que passa, n. 47
[3] Cf. S. João Paulo II, Carta enc. Laborem exercens, 14-IX-1981, n. 27.
[4] S. Josemaria Escrivá, Cristo que passa, n. 47
[5] Cf. Mt 13, 55
[6] Cf. Mt 13, 1-9.
[7] Cf. Lc 15, 8-10.
[8] Cf. Mt 13, 45-46.
[9] Lc 2, 52.
[10] Bento XVI, Carta. enc. Caritas in veritate, 29-VI-2009, n. 9.
[11] Francisco, Discurso aos novos embaixadores do Quirguistão, Antígua e Barbados, Grão-Ducado do Luxemburgo e Botswana, 16-V-2013.
[12] Cf. Conc. Vaticano II, Const. dogm. Lumen gentium, n. 36; Const. past. Gaudium et spes, n. 43.
[13] S. Josemaria Escrivá, Cristo que passa, n. 50
[14] Bento XVI, Carta apost. Porta fidei, 11-X-2011, n. 6.
[15] Cf. Mt 5, 13.
[16] Francisco, Audiência, 5-VI-2013.
[17] Cf. Hb 13, 14.
[18] S. Josemaria Escrivá, Caminho, n. 791



Pequena agenda do cristão

SeGUNDa-Feira



(Coisas muito simples, curtas, objectivas)



Propósito:
Sorrir; ser amável; prestar serviço.

Senhor que eu faça "boa cara" que seja alegre e transmita aos outros, principalmente em minha casa, boa disposição.

Senhor que eu sirva sem reserva de intenção de ser recompensado; servir com naturalidade; prestar pequenos ou grandes serviços a todos mesmo àqueles que nada me são. Servir fazendo o que devo sem olhar à minha pretensa “dignidade” ou “importância” “feridas” em serviço discreto ou desprovido de relevo, dando graças pela oportunidade de ser útil.

Lembrar-me:
Papa, Bispos, Sacerdotes.

Que o Senhor assista e vivifique o Papa, santificando-o na terra e não consinta que seja vencido pelos seus inimigos.

Que os Bispos se mantenham firmes na Fé, apascentando a Igreja na fortaleza do Senhor.

Que os Sacerdotes sejam fiéis à sua vocação e guias seguros do Povo de Deus.

Pequeno exame:

Cumpri o propósito que me propus ontem?








Servir o Senhor no mundo


Repara bem: há muitos homens e mulheres no mundo, e nem a um só deles o Mestre deixa de chamar. Chama-os a uma vida cristã, a uma vida de santidade, a uma vida de eleição, a uma vida eterna. (Forja, 13)


Permiti-me que volte de novo à naturalidade, à simplicidade da vida de Jesus, que já vos tenho feito considerar tantas vezes. Esses anos ocultos do Senhor não são coisa sem significado, nem uma simples preparação dos anos que viriam depois, os da sua vida pública. Desde 1928 compreendi claramente que Deus deseja que os cristãos tomem exemplo de toda a vida do Senhor. Entendi especialmente a sua vida escondida, a sua vida de trabalho corrente no meio dos homens: o Senhor quer que muitas almas encontrem o seu caminho nos anos de vida calada e sem brilho. Obedecer à vontade de Deus, portanto, é sempre sair do nosso egoísmo; mas não tem por que se traduzir no afastamento das circunstâncias ordinárias da vida dos homens, iguais a nós pelo seu estado, pela sua profissão, pela sua situação na sociedade.

Sonho – e o sonho já se tornou realidade – com multidões de filhos de Deus santificando-se na sua vida de cidadãos correntes, compartilhando ideais, anseios e esforços com as outras pessoas. Preciso de lhes gritar esta verdade divina: se permaneceis no meio do mundo, não é porque Deus se tenha esquecido de vós; não é porque o Senhor vos não tenha chamado; convidou-vos a permanecer nas actividades e nas ansiedades da Terra, porque vos fez saber que a vossa vocação humana, a vossa profissão, as vossas qualidades não só não são alheias aos seus desígnios divinos, mas que Ele as santificou como oferenda gratíssima ao Pai! (Cristo que passa, 20)

28/07/2019

Leitura espiritual


"Christus vivit": Exortação Apostólica aos Jovens


Capítulo IX

A chamada do Amigo

287. Para discernir a própria vocação, é preciso reconhecer que a mesma é a chamada dum amigo: Jesus. Aos amigos, quando se dá um presente, oferece-se o melhor; isto não significa que seja necessariamente o presente mais caro ou difícil de conseguir, mas o que - sabemos - dará alegria ao outro. Um amigo tem uma percepção tão clara disto mesmo que consegue visualizar, na sua imaginação, o sorriso do amigo ao abrir o seu presente. Este discernimento de amizade é o que proponho aos jovens como modelo se quiserem compreender qual é a vontade de Deus para a sua vida.

288. Quero que saibais que o Senhor, quando pensa em alguém, no que gostaria de lhe dar de presente, vê-o como seu amigo pessoal. E se decidiu presentear-te com uma graça, um carisma que te fará viver plenamente a tua vida transformando-te numa pessoa útil aos outros, em alguém que deixa uma marca na história, será certamente algo que te deixará feliz no mais íntimo de ti mesmo e te entusiasmará mais do que qualquer outra coisa neste mundo. Não, porque o dom concedido seja um carisma extraordinário ou raro, mas porque é precisamente à tua medida, à medida de toda a tua vida.

289. O dom da vocação será, sem dúvida, um dom exigente. Os dons de Deus são interactivos e, para desfrutá-los, é preciso pôr-me em caminho, arriscar. Não será a exigência dum dever imposto por outro de fora, mas algo que te estimulará a crescer e a optar por que esse presente amadureça e se transforme em dom para os outros. Quando o Senhor suscita uma vocação, não pensa apenas no que és, mas em tudo o que poderás, juntamente com Ele e os outros, chegar a ser.

290. A energia da vida e a força da própria personalidade alimentam-se mutuamente, no interior de cada jovem, e impelem-no a ultrapassar todos os limites. A inexperiência permite que isto aconteça, embora bem depressa se transforme em experiência muitas vezes dolorosa. É importante pôr em contacto este desejo do «infinito de quando ainda não se tentou começar»


[1] com a amizade incondicional que Jesus nos oferece.
Antes de toda a lei e dever, aquilo que Jesus nos propõe escolher é um seguimento como o de amigos que se frequentam, procuram e encontram por pura amizade. Tudo o mais vem depois; e até os fracassos da vida poderão ser uma experiência inestimável de tal amizade que não se rompe jamais.

Escuta e acompanhamento

291. Há sacerdotes, religiosos, religiosas, leigos, profissionais e até jovens qualificados, que podem acompanhar os jovens no seu discernimento vocacional.
Quando nos toca ajudar o outro a discernir o caminho da sua vida, a primeira coisa a fazer é ouvir.
Esta escuta pressupõe três sensibilidades ou atenções diferentes e complementares:

292. A primeira sensibilidade ou atenção é à pessoa.
Trata-se de escutar o outro, que se nos dá com as suas palavras.
O sinal desta escuta é o tempo que dedico ao outro.
Não é questão de quantidade, mas de que o outro sinta que o meu tempo é dele: todo o tempo que precisar para me manifestar o que quer.
Deve sentir que o escuto incondicionalmente, sem me ofender, escandalizar, aborrecer nem cansar.
Tal é a escuta que o Senhor realiza quando Se põe a caminho com os discípulos de Emaús e os acompanha durante longo tempo por uma estrada cuja direcção seguida era oposta à correcta (cf. Lc 24, 13-35).
Quando Jesus faz menção de continuar em frente, porque os dois discípulos tinham chegado a casa, estes compreendem que Ele lhes oferecera o seu tempo e, então, dão-Lhe o deles, oferecendo-Lhe hospedagem.
Esta escuta atenta e desinteressada mostra o valor que tem para nós a outra pessoa, independentemente das suas ideias e opções de vida.

293. A segunda sensibilidade ou atenção é no discernir.
Trata-se de individuar o ponto certo onde se discerne o que é a graça e o que é tentação. Com efeito, às vezes as coisas que cruzam a nossa imaginação não passam de tentações que nos afastam do nosso verdadeiro caminho.
Aqui preciso de me interrogar:
O que é que, exactamente, esta pessoa me está dizendo?
O que me quer dizer?
O que deseja que eu compreenda do que lhe acontece?
São perguntas que ajudam a entender onde se ligam os argumentos que movem o outro, e a sentir o peso e o ritmo dos seus afectos influenciados por esta lógica.
Esta escuta tem em vista discernir as palavras salvíficas do Espírito bom, que nos propõe a verdade do Senhor, mas também as armadilhas do espírito mau, os seus enganos e as suas seduções.
É preciso ter a coragem, o afecto e a delicadeza necessários para ajudar o outro a reconhecer a verdade e os enganos ou as desculpas.

294. A terceira sensibilidade ou atenção consiste em escutar os impulsos «para diante» que o outro experimenta.
É a escuta profunda do ponto «para onde o outro quer verdadeiramente ir». Além do que sente e pensa no presente e do que fez no passado, a atenção orienta-se para o que quereria ser.
Às vezes, isto requer que a pessoa não olhe tanto para o que gosta, os seus desejos superficiais, mas para o que mais agrada ao Senhor, o seu projecto para a própria vida que se expressa numa inclinação do coração, além da casca dos gostos e sentimentos.
Esta escuta é atenção à intenção última, que é aquela que, em última análise, decide a vida, porque há Alguém como Jesus que entende e valoriza esta intenção última do coração.
Por isso, Ele está sempre disposto a ajudar cada um a reconhecê-la e, para isso, basta que alguém Lhe diga:
«Senhor, salvai-me! Tende misericórdia de mim!»

295. Então, o discernimento torna-se um instrumento de compromisso forte para seguir melhor o Senhor[2].

Assim, o desejo de reconhecer a própria vocação adquire uma intensidade suprema, uma qualidade diferente e um nível superior, que responde muito melhor à dignidade da vida.
Porque, em última análise, um bom discernimento é um caminho de liberdade que faz aflorar a realidade única de cada pessoa, aquela realidade que é tão sua, tão pessoal que só Deus a conhece.
Os outros não podem entender plenamente nem prever de fora como se desenvolverá.

296. Por conseguinte, quando alguém escuta o outro desta maneira, a dado momento deve desaparecer para o deixar seguir o caminho que ele descobriu.
Desaparecer como desaparece o Senhor da vista dos seus discípulos, deixando-os sozinhos com o ardor do coração que se transforma num impulso irresistível de se porem a caminho (cf. Lc 24, 31-33).
De regresso à comunidade, os discípulos de Emaús receberão a confirmação de que o Senhor verdadeiramente ressuscitou (cf. Lc 24, 34).

297. Uma vez que «o tempo é superior ao espaço»[3], devemos suscitar e acompanhar processos, não impor percursos.
Trata-se de processos de pessoas, que sempre são únicas e livres.
Por isso é difícil elaborar receituários, mesmo quando todos os sinais forem positivos, porque «tem-se de submeter os próprios factores positivos a um atento discernimento, para que não se isolem uns dos outros, nem entrem em oposição entre si, absolutizando-se e combatendo-se mutuamente.
O mesmo se diga dos factores negativos: não são de rejeitar em bloco e sem distinções, porque em cada um deles pode ocultar-se algum valor que espera ser libertado e reconduzido à sua verdade plena»[4].

298. Mas, para acompanhar os outros neste caminho, primeiro precisas de ter o hábito de o percorreres tu próprio.
Maria fê-lo, enfrentando as suas questões e as suas próprias dificuldades, quando era ainda muito jovem.
Que Ela renove a tua juventude com a força da sua oração e te acompanhe sempre com a sua presença de Mãe.

* * *

E para concluir... um desejo

299. Queridos jovens, ficarei feliz vendo-vos correr mais rápido do que os lentos e medrosos.
Correi «atraídos por aquele Rosto tão amado, que adoramos na sagrada Eucaristia e reconhecemos na carne do irmão que sofre.
O Espírito Santo vos impulsione nesta corrida para a frente.
A Igreja precisa do vosso ímpeto, das vossas intuições, da vossa fé. Nós temos necessidade disto!
E quando chegardes aonde nós ainda não chegámos, tende a paciência de esperar por nós»[5].


Loreto, no Santuário da Santa Casa, a 25 de Março – Solenidade da Anunciação do Senhor – do ano 2019, sétimo do pontificado.

Franciscus

Revisão da versão portuguesa por AMA




Notas



[1] Romano Guardini, As idades da vidaOpera omnia, IV (Brescia 2015), 209.
[2] Cf. Francisco, Exort. ap. Gaudete et exsultate (19 de Março de 2018), 169.
[3] Francisco, Exort. ap. Evangelii gaudium (24 de Novembro de 2013), 222: AAS 105 (2013), 1111.
[4] São João Paulo II, Exort. ap. pós-sinodal Pastores dabo vobis (25 de Março de 1992), 10: AAS 84 (1992), 672.
[5] Francisco, Encontro e oração com jovens italianos, no Circo Máximo de Roma (11 de Agosto de 2018): L’Osservatore Romano (ed. portuguesa de 23/VIII/2018), 2.


Temas para reflectir e meditar

Julgar os outros



Procurai viver as virtudes que, segundo julgais, faltam aos vossos irmãos e já não vereis os seus defeitos, porque não os tereis vós.




(Santo AgostinhoEnarrationes in Psalmos, 30, 2, 7, trad. do castelhano por ama


Pequena agenda do cristão

DOMINGO



(Coisas muito simples, curtas, objectivas)



Propósito:
Viver a família.

Senhor, que a minha família seja um espelho da Tua Família em Nazareth, que cada um, absolutamente, contribua para a união de todos pondo de lado diferenças, azedumes, queixas que afastam e escurecem o ambiente. Que os lares de cada um sejam luminosos e alegres.

Lembrar-me:
Cultivar a Fé

São Tomé, prostrado a Teus pés, disse-te: Meu Senhor e meu Deus!
Não tenho pena nem inveja de não ter estado presente. Tu mesmo disseste: Bem-aventurados os que crêem sem terem visto.
E eu creio, Senhor.
Creio firmemente que Tu és o Cristo Redentor que me salvou para a vida eterna, o meu Deus e Senhor a quem quero amar com todas as minhas forças e, a quem ofereço a minha vida. Sou bem pouca coisa, não sei sequer para que me queres mas, se me crias-te é porque tens planos para mim. Quero cumpri-los com todo o meu coração.

Pequeno exame:

Cumpri o propósito que me propus ontem?

Primeira condição: trabalhar, e trabalhar bem!


Se queremos de verdade santificar o trabalho, é preciso cumprir iniludivelmente a primeira condição: trabalhar, e trabalhar bem!, com seriedade humana e sobrenatural. (Forja, 698)



Na vossa ocupação profissional, corrente e ordinária, encontrareis a matéria – real, consciente, valiosa – para realizar toda a vida cristã, para corresponder à graça que nos vem de Cristo.

Nas vossas ocupações profissionais, realizadas face a Deus, pôr-se-ão em jogo a Fé, a Esperança e a Caridade. Os incidentes, as relações e os problemas que o vosso trabalho traz consigo alimentarão a vossa oração. O esforço por cumprirdes os vossos deveres correntes será o modo de viverdes a Cruz, que é essencial para o Cristão. A experiência da vossa debilidade e os fracassos que existem sempre em todo o esforço humano dar-vos-ão mais realismo, mais humildade, mais compreensão com os outros. Os êxitos e as alegrias convidar-vos-ão a dar graças e a pensar que não viveis para vós mesmos, mas para o serviço dos outros e de Deus.

Para viver assim, para santificar a profissão, é necessário, primeiro que tudo, trabalhar bem, com seriedade humana e sobrenatural. (…) O milagre que o Senhor vos pede é a perseverança na nossa vocação cristã e divina, a santificação do trabalho de cada dia: o milagre de converter a prosa diária em decassílabos, em verso heróico, pelo amor com que realizais a vossa ocupação habitual. Aí vos espera Deus para que sejais almas com sentido de responsabilidade, com zelo apostólico, com competência profissional. (Cristo que passa, nn. 49–50)