27/08/2018

Quando tiveres de corrigir, fá-lo com caridade


Só serás bom, se souberes ver as coisas boas e as virtudes dos outros. Por isso, quando tiveres de corrigir, fá-lo com caridade, no momento oportuno, sem humilhar... e com intenção de aprender e de melhorar tu próprio, naquilo que corriges. (Forja, 455)


Para curar uma ferida, primeiro limpa-se esta muito bem e inclusivamente ao seu redor, desde bastante distância. O médico sabe perfeitamente que isso dói, mas se omitir essa operação, depois doerá ainda mais. A seguir, põe-se logo o desinfectante; arde – pica, como dizemos na minha terra – mortifica, mas não há outra solução para a ferida não infectar.

Se para a saúde corporal é óbvio que se têm de tomar estas medidas, mesmo que se trate de escoriações de pouca importância, nas coisas grandes da saúde da alma – nos pontos nevrálgicos da vida do ser humano – imaginai como será preciso lavar, como será preciso cortar, como será preciso limpar, como será preciso desinfectar, como será preciso sofrer! A prudência exige-nos intervir assim e não fugir ao dever, porque não o cumprir seria uma falta de consideração e inclusivamente um atentado grave, contra a justiça e contra a fortaleza.

Persuadi-vos de que um cristão, se pretende deveras proceder rectamente diante de Deus e dos homens, precisa de todas as virtudes, pelo menos em potência. Mas, perguntar-me-eis: Padre, o que diz das minhas fraquezas? Responder-vos-ei: Porventura um médico que está doente, mesmo que a sua doença seja crónica, não cura os outros? A sua doença impede-o de prescrever a outros doentes o tratamento adequado? É claro que não. Para curar, basta-lhe ter a ciência necessária e aplicá-la com o mesmo interesse com que combate a sua própria enfermidade. (Amigos de Deus, 161)

Temas para meditar e reflectir


Formação humana e cristã – 45 


A ânsia de perfeição é óptima e legítima, mas não deve ofuscar a razoabilidade do nosso comportamento que nunca será perfeito - perfeitos só no Céu - o que interessa é o esforço, o empenho e completo envolvimento pessoal em tudo quanto fazemos.

Podemos estar certos que é isso exactamente o que o Senhor quer.

Já falámos que Ele disse para sermos perfeitos como o nosso Pai do Céu, mas, ao dizê-lo, quis apenas dar-nos um exemplo da perfeição a que devemos aspirar; qualquer outra ficará aquém da nossa condição de filhos de Deus.

Mas, perguntamo-nos, vale a pena lutar por algo que sabemos de antemão está ao nosso alcance?

Mas... porque é que se luta por algo? Não é para conseguir um objectivo, conquistar qualquer coisa?

Evidentemente que vemos imediatamente que o contrário, isto é, não lutar, é uma atitude cobarde, indigna e imprópria que levará sempre a um retrocesso imparável.

(AMA, reflexões)

Leitura espiritual

São Josemaria Escrivá


CRISTO QUE PASSA 

 
           
A concupiscência da carne não é só a tendência desordenada dos sentidos em geral nem a apetência sexual, que deve ser ordenada, mas que não é má em si mesma, pois é uma nobre realidade humana santificável. 
Por isso, nunca falo de impureza mas de pureza, porque a todos se dirigem as palavras de Cristo: bem-aventurados os limpos de coração porque verão a Deus. 
Por vocação divina, alguns terão de viver essa pureza no matrimónio; outros, pelo contrário, renunciarão aos amores humanos, para corresponderem única e apaixonadamente ao amor de Deus. 
Nem uns nem outros devem ser escravos da sensualidade, mas senhores do seu corpo e do seu coração para os poderem dar sacrificadamente aos demais.

Ao tratar da virtude da pureza, costumo acrescentar o qualificativo de santa. 
A pureza cristã, a santa pureza, não é o orgulho de sentir-se puro, não contaminado; é saber que temos os pés de barro, embora a graça de Deus nos livre dia a dia das ciladas do inimigo. 
Considero uma deformação do cristianismo a insistência de algumas pessoas em escrever ou pregar quase exclusivamente sobre esta matéria, esquecendo outras virtudes que são capitais para o cristão e, em geral, para a convivência entre os homens.

A santa pureza não é a única nem a principal virtude cristã; contudo, é indispensável para perseverar no esforço diário da nossa santificação e sem ela não é possível dedicar-se ao apostolado. 
A pureza é consequência do amor com que entregámos ao Senhor a alma e o corpo, as potências e os sentidos. 
Não é uma negação; é uma alegre afirmação.

Dizia que a concupiscência da carne não se reduz exclusivamente à desordem da sensualidade; também se traduz no comodismo, na falta de vibração que incita a procurar o que é mais fácil, o mais agradável, o caminho aparentemente mais curto, por vezes à custa de ceder na fidelidade a Deus.

Comportar-se assim seria como abandonar-se ao império duma daquelas leis - a do pecado - contra as quais nos previne S. Paulo: Eu encontro, pois, esta lei em mim: quando quero fazer o bem, o mal está junto de mim; porque me deleito na lei de Deus, segundo o homem interior; mas vejo nos meus membros outra lei que se opõe à lei do meu espírito e que me faz escravo da lei do pecado, que está nos meus membros. Infelix ego homo! Infeliz de mim! Quem me livrará deste corpo de morte? 
Ouvi o que responde o apóstolo: a graça de Deus por Jesus Cristo Nosso Senhor. 
Podemos e devemos lutar contra a concupiscência da carne, porque, se formos humildes, sempre nos será concedida a graça do Senhor.

            
O outro inimigo, escreve S. João, é a concupiscência dos olhos, uma avareza de fundo que nos leva a valorizar apenas o que se pode tocar. 
Os olhos ficam como que pegados às coisas terrenas e, por isso mesmo, não sabem descobrir as realidades sobrenaturais. 
Podemos, portanto, socorrer-nos desta expressão da Sagrada Escritura para nos referirmos à avareza dos bens materiais e, além disso, àquela deformação que nos leva a observar o que nos rodeia - os outros, as circunstâncias da nossa vida e do nosso tempo - só com visão humana.

Os olhos da alma embotam-se; a razão crê-se auto-suficiente para compreender todas as coisas, prescindindo de Deus. 
É uma tentação subtil, que se apoia na dignidade da inteligência, da inteligência que o nosso Pai, Deus, deu ao homem para que O conheça e O ame livremente. 
Arrastada por essa tentação, a inteligência humana considera-se o centro do universo, entusiasma-se de novo com a falsa promessa da serpente, sereis como deuses, e, enchendo-se de amor por si mesma, volta as costas ao amor de Deus.

Deste modo, a nossa existência pode entregar-se sem condições nas mãos do terceiro inimigo, a superbia vitae. 
Não se trata simplesmente dos pensamentos efémeros de vaidade ou de amor-próprio; é uma presunção generalizada. 
Não nos enganemos, porque este é o pior dos males, a raiz de todos os extravios. 
A luta contra a soberba há-de ser constante, pois não se disse já, dum modo tão gráfico, que essa paixão só morre um dia depois da morte da pessoa? 
É a altivez do fariseu, a quem Deus se mostra renitente em justificar por encontrar nele uma barreira de auto-suficiência. 
É a arrogância que conduz a desprezar os outros homens, a dominá-los, a maltratá-los, porque, onde houver soberba aí haverá também ofensa e desonra.

           

A misericórdia de Deus

Começa hoje o tempo do Advento e é bom que tenhamos considerado as insídias destes inimigos da alma: a desordem da sensualidade e a leviandade; o desatino da razão que se opõe ao Senhor; a presunção altaneira, esterilizadora do amor a Deus e às criaturas.

Todas estas disposições de ânimo são obstáculos certos e o seu poder perturbador é grande. 
Por isso a liturgia faz-nos implorar a misericórdia divina: a ti elevo a minha alma, Senhor, meu Deus. 
E em ti confio; não seja eu confundido! 
Não riam de mim os meus inimigos, rezamos no intróito. 
E na antífona do ofertório iremos repetir: espero em ti,; que eu não seja confundido!

Agora que se aproxima o tempo da salvação, dá gosto ouvir dos lábios de S. Paulo: depois de Deus, Nosso Salvador, ter manifestado a sua benignidade e o seu amor para com os homens, libertou-nos, não pelas obras de justiça que tivéssemos feito, mas por sua misericórdia.

Se lerdes as Santas Escrituras, descobrireis constantemente a presença da misericórdia de Deus: enche a terra, estende-se a todos os seus filhos, super omnem carnem; cerca-nos, antecede-nos, multiplica-se para nos ajudar e foi continuamente confirmada. 
Deus tem-nos presente na sua misericórdia, ao ocupar-se de nós como Pai amoroso. 
É uma misericórdia suave, agradável, como a nuvem que se desfaz em chuva no tempo da seca.

Jesus Cristo resume e compendia toda a história da misericórdia divina: Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia. 
E, noutra ocasião: Sede pois misericordiosos como também vosso Pai é misericordioso. 
Ficaram também muito gravadas em nós, entre muitas outras cenas do Evangelho, a clemência com a mulher adúltera, a parábola do filho pródigo, a da ovelha perdida, a do devedor perdoado, a ressurreição do filho da viúva de Naim. 
Quantas razões de justiça para explicar este grande prodígio! 
Era o filho único daquela pobre viúva; era ele quem dava sentido à sua vida; só ele poderia ajudá-la na sua velhice! 
Mas Cristo não faz o milagre por justiça; fá-lo por compaixão, porque interiormente se comove perante a dor humana.

Que segurança deve produzir-nos a comiseração do Senhor! 
Se ele clamar por mim, ouvi-lo-ei, porque sou misericordioso. 
É um convite, uma promessa que não deixará de cumprir. Aproximemo-nos, pois, confiadamente do trono da graça a fim de alcançar misericórdia e o auxílio da graça, no tempo oportuno. 
Os inimigos da nossa santificação nada poderão, porque essa misericórdia de Deus nos defende. 
E se caímos por nossa culpa e da nossa fraqueza, o Senhor socorre-nos e levanta-nos. 
Tinhas aprendido a afastar a negligência, a afastar de ti a arrogância, a adquirir piedade, a não ser prisioneiro das questões mundanas, a não preferir o caduco ao eterno. 
Mas, como a debilidade humana não pode manter o passo decidido num mundo resvaladiço, o bom médico indicou-te também os remédios contra a desorientação e o juiz misericordioso não te negou a esperança do perdão.

            
Correspondência humana

É neste clima da misericórdia de Deus que se desenvolve a existência do cristão. 
Este é o âmbito do seu esforço por se comportar como filho do Pai. 
E quais são os principais meios para conseguirmos que a vocação se mantenha firme? 
Vou dizer-te hoje dois, que são dois eixos vivos da conduta cristã: a vida interior e a formação doutrinal, o conhecimento profundo da nossa fé.

Vida interior, em primeiro lugar. 
Há ainda tão pouca gente que entenda isto! 
Ao ouvir falar de vida interior, pensa-se logo na obscuridade do templo, quando não no ambiente abafado de algumas sacristias. Estou há mais de um quarto de século a dizer que não se trata disso. Eu falo da vida interior de cristãos normais e correntes, que habitualmente se encontram em plena rua, ao ar livre; e que na rua, no trabalho, na família e nos momentos de diversão estão unidos a Jesus todo o dia. 
E o que é isto senão vida de oração contínua? 
Não é verdade que compreendeste a necessidade de ser alma de oração, numa intimidade com Deus que te leva a endeusar-te? 
Esta é a fé cristã e assim o compreenderam sempre as almas de oração. Torna-se Deus aquele homem, escreve Clemente de Alexandria, porque quer o mesmo que Deus quer.

A princípio custará. 
É preciso esforçarmo-nos por nos dirigir ao Senhor, por lhe agradecermos a sua piedade paternal e concreta para connosco. 
A pouco e pouco o amor de Deus torna-se palpável - embora isto não seja coisa de sentimentos - como uma estocada na alma. 
É Cristo que nos persegue amorosamente: Eis que estou à porta e chamo. 
Como anda a tua vida de oração? 
Não sentes às vezes, durante o dia, desejos de falar mais devagar com Ele? 
Não Lhe dizes: logo vou contar-te isto e aquilo; logo vou conversar sobre isso contigo?

Nos momentos dedicados expressamente a esse colóquio com o Senhor o coração expande-se, a vontade fortalece-se, a inteligência - ajudada pela graça - enche a realidade humana com a realidade sobrenatural. 
E, como fruto, sairão sempre propósitos claros, práticos, de melhorares a tua conduta, de tratares delicadamente, com caridade, todos os homens, de te empenhares a fundo - com o empenho dos bons desportistas - nesta luta cristã de amor e de paz.

A oração torna-se contínua como o bater do coração, como as pulsações. Sem essa presença de Deus não há vida contemplativa. 
E sem vida contemplativa de pouco vale trabalhar por Cristo, porque em vão se esforçam os que constroem se Deus não sustenta a casa.

(cont)

Pequena agenda do cristão

SeGUNDa-Feira



(Coisas muito simples, curtas, objectivas)



Propósito:
Sorrir; ser amável; prestar serviço.

Senhor que eu faça "boa cara" que seja alegre e transmita aos outros, principalmente em minha casa, boa disposição.

Senhor que eu sirva sem reserva de intenção de ser recompensado; servir com naturalidade; prestar pequenos ou grandes serviços a todos mesmo àqueles que nada me são. Servir fazendo o que devo sem olhar à minha pretensa “dignidade” ou “importância” “feridas” em serviço discreto ou desprovido de relevo, dando graças pela oportunidade de ser útil.

Lembrar-me:
Papa, Bispos, Sacerdotes.

Que o Senhor assista e vivifique o Papa, santificando-o na terra e não consinta que seja vencido pelos seus inimigos.

Que os Bispos se mantenham firmes na Fé, apascentando a Igreja na fortaleza do Senhor.

Que os Sacerdotes sejam fiéis à sua vocação e guias seguros do Povo de Deus.

Pequeno exame:

Cumpri o propósito que me propus ontem?







Evangelho e comentário


 
Evangelho: Mt 23, 13-22

13 Ai de vós, doutores da Lei e fariseus hipócritas, porque fechais aos homens o Reino do Céu! Nem entrais vós nem deixais entrar os que o querem fazer. 14 Ai de vós, doutores da Lei e fariseus hipócritas, que devorais as casas das viúvas, com o pretexto de prolongadas orações! Por isso, sereis mais rigorosamente julgados. 15 Ai de vós, doutores da Lei e fariseus hipócritas, que percorreis o mar e a terra para fazer um prosélito e, depois de o terdes seguro, fazeis dele um filho do inferno, duas vezes pior do que vós! 16 Ai de vós, guias cegos, que dizeis: ‘Se alguém jura pelo santuário, isso não tem importância; mas, se jura pelo ouro do santuário, fica sujeito ao juramento.’ 17 Insensatos e cegos! Que é o que vale mais? O ouro ou o santuário, que tornou o ouro sagrado? 18 Dizeis ainda: ‘Se alguém jura pelo altar, isso não tem importância; mas, se jura pela oferta que está sobre o altar, fica sujeito ao juramento.’ 19 Cegos! Qual é o que vale mais? A oferta ou o altar, que torna sagrada a oferta? 20 Portanto, jurar pelo altar é o mesmo que jurar por ele e por tudo o que está sobre ele; 21 jurar pelo santuário é jurar por ele e por aquele que nele habita; 22 jurar pelo Céu é jurar pelo trono de Deus e por aquele que nele está sentado.

Comentário:

Jesus Cristo numa assaz longa palestra põe a nu, sem quaisquer reticências ou escolha de palavras, quanto no comportamento dos fariseus é reprovável e falso.

Fala à chamado “classe dominante” do povo, aqueles que se outorgam qualidades e direitos de guias e mentores, responsáveis pela aplicação da lei.

Não são, de facto, o que dizem ser e, ainda pior, praticam o contrário do que exigem aos outros.

O Senhor detesta a hipocrisia e a duplicidade e não pode aceitar sem se pronunciar vigorosamente contar tal gente.

(AMA, comentário sobre Mt 23, 13-22, 08.05.2018)





26/08/2018

Abri a alma! Asseguro-vos a felicidade


Quem oculta ao seu director uma tentação, tem um segredo a meias com o demónio: fez-se amigo do inimigo. (Sulco, 323)


Começai por contar o que não quereríeis que se soubesse. Abaixo o demónio mudo! De uma coisa de nada, dando-lhe voltas e mais voltas, faz-se uma grande bola como com a neve, e acaba-se por ficar fechado lá dentro. Porquê?... Abri a alma! Asseguro-vos a felicidade, que é fidelidade à vocação cristã, se fordes sinceros. A clareza e a simplicidade são disposições absolutamente indispensáveis. Abramos pois, de par em par a nossa alma, de modo que o sol de Deus possa entrar e com ele a caridade do Amor.

Para se afastar da sinceridade total nem sempre é preciso má intenção; às vezes, basta um erro de consciência. Há pessoas que formaram (isto é, deformaram) de tal modo a consciência que o seu mutismo, a sua falta de simplicidade lhes parece bom; até pensam que é bom calar. Acontece que às vezes até receberam uma boa preparação e conhecem as coisas de Deus e talvez, por isso, se convençam de que é conveniente calar. Enganam-se, porém, porque a sinceridade é sempre necessária e não cabem desculpas, ainda que pareçam boas. (Amigos de Deus, 189)

Temas para meditar e reflectir

Formação humana e cristã – 44  


Pensemos, por exemplo, no que nos diferencia dos outros, no bom e no mau, evidentemente.
Vemos um determinado defeito - ou, pelo menos assim julgamos - e devemos considerar se de facto não se trata de um reflexo nosso, quer dizer, não estamos como que a ver-nos ao espelho?
Mas não devemos ocupar-nos apenas dos defeitos, mas também das virtudes.
Talvez descubramos o que nos falta a nós.

Já o dissemos, o que importa é termos um conhecimento próprio correcto, com critério, justo tanto quanto possível.

A idiossincrasia de cada um e, na sua totalidade, irrepetível, mas em muitos aspectos pode ser comparável.

Somos cada um de nós um indivíduo, com um nome pelo qual somos conhecidos, não fazemos, portanto, parte de uma "massa" anónima que se move e age toda num mesmo sentido.

Daqui, que a nossa preocupação deva ser cumprir o melhor possível o papel que nos compete. O que temos de fazer só pode ser feito por nós, qualquer outro, se o fizer certamente não o fará da mesma forma embora, até, possa fazê-lo melhor.

O deverás importante é que no exame do fim do dia possamos concluir que fizemos o que devíamos ter feito da melhor forma que fomos capazes.
Isto tanto nas coisas importantes como nas de escasso relevo.

Por isso mesmo - e voltamos a referir - o exame pessoal é tão importante.

(AMA, reflexões)

Diálogos apostólicos

O FIM DO MUNDO

Pergunto:

1. Quando será o fim do mundo?

Respondo:

Não se sabe com certeza. Só se conhecem alguns sinais não muito claros que antecipam o final:
Pregar-se-á o Evangelho por todo o mundo. (Mas ignora-se até que ponto).
Haverá uma dura provação para a Igreja. (Sempre as houve, mas esta será especialmente grave).
Haverá caos na natureza.

Leitura espiritual


São Josemaria Escrivá


CRISTO QUE PASSA

            
Começa o ano litúrgico e o intróito da Missa propõe-nos uma consideração intimamente relacionada com o princípio da nossa vida cristã: a vocação que recebemos.
Vias tuas, Domine, demonstra mihi et semitas tuas edoce me, mostra-me Senhor os teus caminhos e ensina-me as tuas veredas.
Pedimos ao Senhor que no guie, que nos deixe ver os seus passos, para que possamos aspirar à plenitude dos seus mandamentos que é a caridade.

Julgo que vós, tal como eu, ao pensar nas circunstâncias que acompanharam a vossa decisão de vos esforçardes por viver integralmente a fé, dareis muitas graças ao Senhor e tereis a convicção sincera - sem falsas humildades - de que não há mérito algum da vossa parte.
Geralmente, aprendemos a invocar Deus desde a infância, dos lábios de pais cristãos. Mais adiante, professores, companheiros e simples conhecidos ajudaram-nos de muitas maneiras a não perder de vista Jesus Cristo.

Um dia (não quero generalizar; abre o coração ao Senhor e conta-lhe tu a história) talvez um amigo, um cristão normal e corrente como tu, te tenha feito descobrir um panorama profundo e novo e ao mesmo tempo tão antigo como o Evangelho.
Sugeriu-te a possibilidade de te empenhares seriamente em seguir Cristo, em ser apóstolo de apóstolos.
Talvez tenhas perdido então a tranquilidade e não a terás recuperado, convertida em paz, até que, livremente, "porque muito bem te apeteceu" - que é a razão mais sobrenatural - respondeste a Deus que sim.
E veio a alegria, vigorosa, constante, que só desaparece quando te afastas d'Ele.

Não me agrada falar de escolhidos nem de privilegiados.
Mas é Cristo quem fala disso, quem escolhe. É a linguagem da escritura: elegit nos in ipso ante mundi constitutionem - diz S. Paulo - ut essemus sancti, escolheu-nos antes da criação do mundo para sermos santos.
Eu sei que isto não te enche de orgulho, nem contribui para que te consideres superior aos outros homens.
Essa escolha, raiz do teu chamamento, deve ser a base da tua humildade.
Costuma levantar-se porventura algum monumento aos pincéis dum grande pintor? Serviram para fazer obras-primas mas o mérito é do artista.
Nós - os cristãos - somos apenas instrumentos do Criador do mundo, do Redentor de todos os homens.

2
             
Os Apóstolos, homens correntes

A mim, anima-me muito considerar um precedente, narrado passo a passo, nas páginas do Evangelho: a vocação dos primeiros doze.
Vamos meditá-la devagar, pedindo a essas santas testemunhas do Senhor que saibamos seguir Cristo como eles o fizeram.

Aqueles primeiros doze apóstolos - a quem tenho grande devoção e carinho - eram, segundo os critérios humanos, bem pouca coisa.
Quanto à posição social, com excepção de Mateus - que com certeza ganhava bem a vida e deixou tudo quando Jesus lhe pediu - eram pescadores; viviam do dia-a-dia, trabalhando até de noite para poderem alcançar o seu sustento.

Mas a posição social é o de menos.
Não eram cultos, nem sequer muito inteligentes, pelo menos no que diz respeito às realidades sobrenaturais.
Até os exemplos e as comparações mais simples lhes eram incompreensíveis e pediam ao Mestre: Domine, edissere nobis parabolam, Senhor, explica-nos a parábola.
Quando Jesus, com uma imagem, alude ao fermento dos fariseus, supõem que os está a recriminar por não terem comprado pão.

Pobres, ignorantes.
E nem sequer eram simples, humildes.
Dentro das suas limitações, eram ambiciosos. Muitas vezes discutem sobre quem seria o maior, quando - segundo a sua mentalidade - Cristo instaurasse na terra o reino definitivo de Israel.
Discutem e excitam-se até naquela hora sublime em que Jesus está prestes a imolar-se pela humanidade, na intimidade do Cenáculo.

Fé?
Pouca.
O próprio Jesus Cristo o diz.
Viram ressuscitar mortos, curar todo o tipo de doenças, multiplicar o pão e os peixes, acalmar tempestades, expulsar demónios.
Pois S. Pedro, escolhido como cabeça, é o único que sabe responder com prontidão: Tu és o Cristo, Filho de Deus vivo.
Mas é uma fé que ele interpreta à sua maneira; por isso atreve-se a enfrentar Jesus Cristo, a fim de que Ele não se entregue pela redenção dos homens.
E Jesus tem de responder-lhe: Retira-te de mim, Satanás; tu serves-me de escândalo, porque não tens a sabedoria das coisas de Deus mas das coisas dos homens.
Pedro raciocinava humanamente, comenta S. João Crisóstomo, e concluía que tudo aquilo (a Paixão e a Morte) era indigno de Cristo, reprovável.
Por isso Jesus repreende-o e diz-lhe: não, sofrer não é coisa indigna de Mim; tu pensas assim porque raciocinas com ideias carnais, humanas.

Em que sobressaem então aqueles homens de pouca fé?
Talvez no amor a Cristo?
Sem dúvida que O amavam, pelo menos de palavra.
Chegam até a deixar-se arrebatar pelo entusiasmo: Vamos nós também e morramos com Ele.
Mas à hora da verdade, todos hão-de fugir, excepto João, que O amava com obras e de verdade. Só este adolescente, o mais jovem dos Apóstolos, permanece junto da cruz.
Os outros não sentiam esse amor tão forte como a morte.

Eram estes os discípulos escolhidos pelo Senhor; assim os escolhe Cristo; assim se comportavam antes de que, cheios do Espírito Santo, se tornassem colunas da Igreja. São homens correntes, com defeitos, com debilidades, com palavras maiores do que as suas obras.
E, contudo, Jesus chama-os para fazer deles pescadores de homens, corredentores, administradores da graça de Deus.

            
Sucedeu connosco uma coisa semelhante.
Sem grande dificuldade, poderíamos encontrar na nossa família, entre os nossos amigos e companheiros - para não me referir já ao imenso panorama do mundo - tantas pessoas mais dignas do que nós de receber o chamamento de Cristo.
Mais simples, mais sábias, mais influentes, mais importantes, mais gratas, mais generosas...

Eu, ao pensar nisto, fico envergonhado.
Mas compreendo também que a nossa lógica humana não serve para explicar as realidades da graça.
Deus costuma procurar instrumentos fracos para que se manifeste com evidente clareza que a obra é sua.
O próprio S. Paulo evoca com estremecimento a sua vocação; e por último, depois de todos, foi também visto por mim, como por um aborto.
Porque eu sou o mínimo dos apóstolos, que não sou digno de ser chamado apóstolo, porque persegui a Igreja de Deus.
Assim escreve Paulo de Tarso, homem de uma personalidade e de um vigor que a história não fez mais do que engrandecer.

Fomos chamados sem mérito algum da nossa parte, dizia-vos.
Realmente, na base da nossa vocação está o conhecimento da nossa miséria, a consciência de que as luzes que iluminam a alma - a fé - o amor com que amamos - a caridade - e o desejo que nos mantém - a esperança - são dons gratuitos de Deus.
Por isso, não crescer em humildade significa perder de vista o objectivo da escolha divina: ut essemus sancti, a santidade pessoal.

Agora, tomando como ponto de partida essa humildade, podemos compreender toda a maravilha da chamada divina.
A mão de Cristo colheu-nos num trigal: o semeador aperta na sua mão chagada o punhado de trigo; o sangue de Cristo banha a semente, empapa-a.
Depois, o Senhor lança ao ar esse trigo, para que, morrendo, seja vida e, afundando-se na terra, seja capaz de multiplicar-se em espigas de oiro.

4
             
É hora de despertar

A Epístola da Missa recorda-nos que temos de assumir esta responsabilidade de apóstolos com novo espírito, com ânimo, despertos.
Porque já é hora de nos levantarmos do sono. Porquanto agora está mais perto a nossa salvação do que quando abraçámos a fé.
A noite está quase passada e o dia aproxima-se.
Deixemos, pois, as obras das trevas e revistamo-nos das armas da luz.
Dir-me-eis que isso não é fácil, e não vos faltará razão.
Os inimigos do homem, que são os inimigos da santidade, procuram impedir essa vida nova, que é revestirmo-nos com o espírito de Cristo.
Não conheço melhor enumeração dos obstáculos à fidelidade cristã do que a que nos dá S. João: concupiscentia carnis, concupiscentia oculorum et superbia vitae.
Tudo o que há no mundo é concupiscência da carne, concupiscência dos olhos e soberba de vida.

(cont)


Pequena agenda do cristão

DOMINGO



(Coisas muito simples, curtas, objectivas)



Propósito:
Viver a família.

Senhor, que a minha família seja um espelho da Tua Família em Nazareth, que cada um, absolutamente, contribua para a união de todos pondo de lado diferenças, azedumes, queixas que afastam e escurecem o ambiente. Que os lares de cada um sejam luminosos e alegres.

Lembrar-me:
Cultivar a Fé

São Tomé, prostrado a Teus pés, disse-te: Meu Senhor e meu Deus!
Não tenho pena nem inveja de não ter estado presente. Tu mesmo disseste: Bem-aventurados os que crêem sem terem visto.
E eu creio, Senhor.
Creio firmemente que Tu és o Cristo Redentor que me salvou para a vida eterna, o meu Deus e Senhor a quem quero amar com todas as minhas forças e, a quem ofereço a minha vida. Sou bem pouca coisa, não sei sequer para que me queres mas, se me crias-te é porque tens planos para mim. Quero cumpri-los com todo o meu coração.

Pequeno exame:

Cumpri o propósito que me propus ontem?

Evangelho e comentário


 
Evangelho: Jo 6, 60-69

60 Depois de o ouvirem, muitos dos seus discípulos disseram: «Que palavras insuportáveis! Quem pode entender isto?» 61 Mas Jesus, sabendo no seu íntimo que os seus discípulos murmuravam a respeito disto, disse-lhes: «Isto escandaliza-vos? 62 E se virdes o Filho do Homem subir para onde estava antes? 63 É o Espírito quem dá a vida; a carne não serve de nada: as palavras que vos disse são espírito e são vida. 64 Mas há alguns de vós que não crêem.» De facto, Jesus sabia, desde o princípio, quem eram os que não criam e também quem era aquele que o havia de entregar. 65 E dizia: «Por isso é que Eu vos declarei que ninguém pode vir a mim, se isso não lhe for concedido pelo Pai.» 66 A partir daí, muitos dos seus discípulos voltaram para trás e já não andavam com Ele. 67 Então, Jesus disse aos Doze: «Também vós quereis ir embora?» 68Respondeu-lhe Simão Pedro: «A quem iremos nós, Senhor? Tu tens palavras de vida eterna! 69 Por isso nós cremos e sabemos que Tu é que és o Santo de Deus.»

Comentário:

A declaração de São Pedro é a que todos os homens gostaríamos de fazer, deveríamos fazer!

Não há outro caminho para a salvação, não existe outro meio para atingir o Reino de Deus.

Esta é a verdade mais intrínseca da nossa fé.


(AMA, comentário sobre Jo 6, 60-69 2015.08.23)



25/08/2018

Que bonito ser jogral de Deus!


Em certa altura, alguém me disse: – Padre, mas se eu me encontro cansado e frio; se, quando rezo ou cumpro outra norma de piedade, me parece que estou a fazer teatro... A esse amigo e a ti, se te encontrares na mesma situação, respondo: – Teatro? Grande coisa, meu filho! Faz teatro! O Senhor é o teu espectador!: o Pai, o Filho, o Espírito Santo; a Santíssima Trindade estará a contemplar-nos, naqueles momentos em que "fazemos teatro". Actuar assim diante de Deus, por amor, para lhe agradar, quando se vive a contragosto, que bonito! Ser jogral de Deus! Que maravilhoso é esse recital realizado por Amor, com sacrifício, sem nenhuma satisfação pessoal, para dar gosto a Nosso Senhor! Isso sim que é viver de Amor. (Forja, 485)


Lê-se na Escritura: Iudens in orbe terrarum, que Ele brinca em toda a superfície da terra. Mas Deus não nos abandona, porque imediatamente acrescenta: deliciæ meæ esse cum filiis hominum, a minha delícia é estar com os filhos dos homens. O Senhor brinca connosco. E quando nos parecer que estamos a representar uma comédia, por nos sentirmos gelados e apáticos, quando estivermos aborrecidos e sem vontade de fazer nada, quando nos custar cumprir o nosso dever e alcançar as metas espirituais que nos tínhamos proposto, é altura de pensar que Deus brinca connosco e espera então que saibamos representar a nossa comédia com galhardia.

Não me importo de vos contar que, em algumas ocasiões, o Senhor me concedeu muitas graças, mas que geralmente vou a contrapelo. Prossigo o meu plano de vida, não porque me agrade, mas porque devo fazê-lo por Amor. Mas, Padre, pode-se representar uma comédia diante de Deus? Não será uma hipocrisia? Não te inquietes, pois chegou para ti o momento de entrares numa comédia humana que tem um espectador divino. Persevera, pois o Pai, o Filho e o Espírito Santo assistem a essa tua comédia. Faz tudo por amor de Deus, para lhe agradar, mesmo que te custe.

Que bonito é ser jogral de Deus! Como é belo representar essa comédia por Amor, com sacrifício, sem nenhuma satisfação pessoal, para agradar ao nosso Pai Deus, que brinca connosco! Põe-te diante do Senhor e diz-lhe confiadamente: não me apetece nada fazer isto, mas oferecê-lo-ei por Ti. E ocupa-te a sério desse trabalho, ainda que penses que é uma comédia. Abençoada comédia! (Amigos de Deus, 152)

Temas para meditar e reflectir

Formação humana e cristã – 43 


Um conhecido guia de almas escreveu que perfeitos só no Céu.

De acordo, mas a santidade no Céu prepara-se na terra no dia-a-dia num esforço constante por melhorar aperfeiçoando as virtudes que possamos ter lutando contra os defeitos que nos tolhem o caminhar para Deus.

Sabemos muito bem que nada se conquista sem esforço e luta perseverante e que quanto maior valor tiver o objecto da conquista mais acesa e determinada será essa luta.

Nenhum atleta se atreve a participar numa competição importante sem uma cuidada preparação prévia.

Assim nós devemos fazer com a necessária paciência e humildade - não é possível haver paciência sem humildade.

Esta não é um "rebaixamento" da nossa pessoa, mas o justo reconhecimento do que somos com as nossas capacidades e limitações, defeitos e virtudes porque é assim que o Senhor nos conhece e nos ama.


(AMA, reflexões)