24/01/2015

Nunca amarás bastante

Por muito que ames, nunca amarás bastante. O coração humano tem um coeficiente de dilatação enorme. Quando ama, dilata-se num crescendo de carinho que supera todas as barreiras. Se amas o Senhor, não haverá criatura que não encontre lugar no teu coração. (Via Sacra, 8ª Estação, n. 5)

Vede agora o mestre reunido com os seus discípulos na intimidade do Cenáculo. Ao aproximar-se o momento da sua Paixão, o Coração de Cristo, rodeado por aqueles que ama, abre-se em inefáveis labaredas: dou-vos um mandamento novo: que vos ameis uns aos outros e que, do mesmo modo que eu vos amei, vos ameis uns aos outros. Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos: se vos amardes uns aos outros. (Ioh XIII, 34–35.) (...).

Senhor, porque chamas novo a este mandamento? Como acabamos de ouvir, o amor ao próximo estava prescrito no Antigo Testamento e recordareis também que Jesus, mal começa a sua vida pública, amplia essa exigência com divina generosidade: ouvistes que foi dito: amarás o teu próximo e aborrecerás o teu inimigo. Eu peço-vos mais: amai os vossos inimigos, fazei bem aos que vos aborrecem e orai pelos que vos perseguem e caluniam.

Senhor, deixa-nos insistir: porque continuas a chamar novo a este preceito? Naquela noite, poucas horas antes de te imolares na Cruz, durante aquela conversa íntima com os que - apesar das suas fraquezas e misérias pessoais, como as nossas - te acompanharam até Jerusalém. Tu revelaste-nos a medida insuspeitada da caridade: como eu vos amei. Como não haviam de te entender os Apóstolos, se tinham sido testemunhas do teu amor insondável!


Se professamos essa mesma fé, se ambicionamos verdadeiramente seguir as pegadas, tão nítidas, que os passos de Cristo deixaram na terra, não podemos conformar-nos com evitar aos outros os males que não desejamos para nós mesmos. Isto é muito, mas é muito pouco, quando compreendemos que a medida do nosso amor é definida pelo comportamento de Jesus. Além disso, Ele não nos propõe essa norma de conduta como uma meta longínqua, como o coroamento de toda uma vida de luta. É – e insisto que deve sê-lo para que o traduzas em propósitos concretos – o ponto de partida, porque Nosso Senhor o indica como sinal prévio: nisto conhecerão que sois meus discípulos. (Amigos de Deus, nn. 222-223)

Temas para meditar - 344


Vida consagrada



O estado religioso é sem dúvida o mais alto, mas não é adequado para todos.


(são filipe de neri, Maxim’s, F.W.Faber, Cromwell Press, nr. 24-20)

Tratado do verbo encarnado 100

Questão 15: Das fraquezas atinentes à alma que Cristo assumiu com a natureza humana

Art. 7 — Se em Cristo houve temor.

O sétimo discute-se assim. — Parece que em Cristo não houve temor.

1. — Pois, diz a Escritura: O justo, como leão afoito, sem terror. Ora, Cristo era o justo por excelência. Logo, em Cristo não houve nenhum terror.

2. Demais. — Hilário diz: Pergunto àqueles, que tem tal persuasão, se é racional pensar que temesse a morte quem, expulsando da alma dos Apóstolos todo terror da morte, os exportava à glória do martírio. Logo, não é racional que houvesse em Cristo o temor.

3. Demais. — O homem só tem temor daquilo que não pode evitar. Ora, Cristo podia evitar tanto o mal da pena que sofreu, como o da culpa que atingiu os demais. Logo, em Cristo não houve nenhum temor.

Mas, em contrário, o Evangelho: Jesus começou a ter pavor e a angustiar-se.

Assim como a tristeza é causada pela apreensão do mal presente, assim o temor, pela do mal futuro. Ora, a apreensão do mal futuro, mesmo revestida de toda certeza, não causa temor. Donde o dizer o Filósofo, só há temor do que não temos nenhuma esperança de evitar, pois, o que nenhuma esperança de evitar, pois, o que nenhuma esperança temos de evitar apreendemos como um mal presente e, assim, causa antes tristeza que temor. 

Donde, o temor pode ser considerado a dupla luz. — Primeiro, quanto ao facto de o apetite sensitivo fugir naturalmente ao mal corpóreo presente, pela tristeza, e pelo temor, se for futuro. Ora, deste modo, houve temor em Cristo, como houve tristeza. — Pode ser considerado a outra luz, quanto à incerteza do acontecimento futuro, assim, quando tememos, de noite, por um som que ouvimos e cuja proveniência ignoramos. E deste modo, em Cristo não houve temor, como diz Damasceno.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJECÇÃO. — Dissemos que o justo não tem terror, compreendendo-se o terror como uma paixão perfeita, que priva o homem do bem da razão. E assim, não houve terror em Cristo, senão só na pro-paixão. Por isso, o Evangelho refere que Jesus começou a ter pavor e a angustiar-se, quase pela pro-paixão, como expõe Jerónimo.

RESPOSTA À SEGUNDA. — Hilário exclui de Cristo o temor no mesmo sentido em que dele exclui a tristeza, isto é, quanto à necessidade que ele impõe. Contudo, para provar que assumiu verdadeiramente a natureza humana, Jesus assumiu voluntariamente o temor, como também a tristeza.

RESPOSTA À TERCEIRA. — Embora Cristo pudesse evitar os males futuros, pelo poder da sua divindade, contudo eles eram inevitáveis, ou não facilmente evitáveis, por causa da fraqueza da carne.

Nota: Revisão da versão portuguesa por ama.


Ev. diário L. Esp. (Temas actuais do cristianismo)

Tempo Comum II Semana

São Francisco de Sales – Doutor da Igreja

Evangelho: Mc 3 20-21

20 Depois, foi para casa e de novo acorreu tanta gente, que nem sequer podiam tomar alimento. 21 Quando os Seus parentes ouviram isto, foram para tomar conta d'Ele; porque diziam: «Está louco».

Comentário

Ao ler este trecho do Evangelho de S. Lucas vem, uma vez mais, à evidência a discrição da vida de Jesus antes de iniciar a Sua vida pública de pregação do Reino de Deus. Trinta e três anos terá vivido no meio dos Seus conterrâneos e vizinhos e nunca alguém notou que houvesse nele algo de extraordinário.
Jesus viveu e trabalhou a maior parte da Sua vida como um qualquer do Seu tempo, um qualquer de nós.
Não é de admirar que o Filho de Deus, a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade se reduzisse, assim, a um anonimato tão discreto e prosaico?
Não nos provoca uma ternura enorme ver, assim, o Nosso Senhor, vivendo normalissimamente no seio da Sua família fazendo o que todos faziam, trabalhando como todos trabalhavam, indo à escola, primeiro, e, depois, na oficina de São José aprendendo com ele o ofício que seria o Seu trabalho durante tantos anos e, através do qual, ganhava o normal sustento para Sua casa?
O Verdadeiro Deus e o Verdadeiro Homem! 

(ama, comentário sobre Mc 3, 20-21, 2010.12.24)


Leitura espiritual


São Josemaria Escrivá

Temas actuais do cristianismo [i]


45             
Alguns leitores de Caminho manifestam estranheza perante a afirmação contida no ponto 28 desse livro: “O matrimónio é para os soldados e não para o estado-maior de Cristo”. Poderá ver-se nisto uma apreciação pejorativa do matrimónio, oposta ao desejo da Obra de inserir-se nas realidades vivas do mundo moderno?

Aconselho-o a ler o número anterior de Caminho, onde se diz que o matrimónio é uma vocação divina. Não era nada frequente ouvir afirmações como essa à roda de 1935. Tirar as conclusões de que fala é não entender as minhas palavras. Com essa metáfora quis recolher o que sempre ensinou a Igreja acerca da excelência e valor sobrenatural do celibato apostólico, e recordar ao mesmo tempo a todos os cristãos que, com palavras de São Paulo, devem sentir-se milites Christi, soldados de Cristo, membros desse Povo de Deus que realiza na Terra uma luta divina de compreensão, de santidade e de paz. Há em todo o Mundo muitos milhares de casais que pertencem ao Opus Dei, ou que vivem de acordo com o seu espírito, sabendo bem que um soldado pode ser condecorado na mesma batalha em que o general fugiu vergonhosamente.

46             
Em 1946, fixou residência em Roma. Dos Pontífices que conheceu, que traços se destacam nas suas recordações?

Para mim, depois da Santíssima Trindade e de nossa Mãe a Virgem, vem logo o Papa, na hierarquia do amor. Não posso esquecer que foi S.S. Pio XIl quem aprovou o Opus Dei, quando este caminho de espiritualidade parecia a alguns uma heresia; mas também não esqueço que as primeiras palavras de carinho e afecto que recebi em Roma, em 1946, disse-mas o então Mons. Montini. Tenho também muito presente o encanto afável e paternal de João XXIII, de todas as vezes que tive ocasião de o visitar. Uma vez disse-lhe: “Todos, católicos ou não, têm encontrado na nossa Obra um lugar acolhedor: não tive de aprender o ecumenismo com Vossa Santidade ...”. E o Santo Padre João sorriu emocionado. Que quer que lhe diga? Todos os Romanos Pontífices têm tido compreensão e carinho para com o Opus Dei.

47             
Tive oportunidade, Monsenhor, de ouvir as respostas às perguntas que lhe fazia um público de mais de 2000 pessoas, reunidas há ano e meio, em Pamplona. Nessa altura insistia na necessidade de que os católicos se comportem como cidadãos livres e responsáveis e “de que não vivam de ser católicos”. Que importância e que projecção dá a esta ideia?

Sempre me incomodou a atitude daqueles que fazem de chamar-se católicos uma profissão ou daqueles que querem negar o princípio da liberdade responsável, sobre o qual assenta toda a moral cristã.

O espírito da Obra e dos seus sócios é servir a Igreja e todas as criaturas sem se servir da Igreja. Gosto de que o católico traga Cristo, não no nome, mas na conduta, dando real testemunho de vida cristã. Repugna-me o clericalismo e compreendo que, ao lado de um anticlericalismo mau, exista um anticlericalismo bom, que procede do amor ao sacerdócio, que se opõe a que o simples fiel ou o sacerdote se sirvam de uma missão sagrada para fins terrenos. Mas não pense que com isto me declaro contra quem quer que seja. Não existe na nossa Obra nenhuma preocupação exclusivista, mas somente o desejo de colaborar com todos os que trabalham para Cristo e com todos os que, cristãos ou não, fazem da sua vida uma esplêndida realidade de serviço.

De resto, o que importa não é tanto a projecção que tenho dado a estas ideias, especialmente desde 1928, mas a que lhe dá o Magistério da Igreja. Há pouco tempo, o Concílio - com uma emoção, para este pobre sacerdote, que é difícil de explicar - lembrava a todos os cristãos, na Constituição Dogmática Lumen gentium, que devem sentir-se plenamente cidadãos da cidade terrena, participando em todas as actividades humanas com competência profissional e com amor a todos os homens, procurando a perfeição cristã, à qual são chamados pelo simples facto de terem recebido o baptismo.

(cont)









[i] Entrevista realizada por Jacques-Guillemé-Brûlon, publicada em Le Figaro (Paris) em 16 de Maio de 1966.


Pequena agenda do cristão

SÁBADO



(Coisas muito simples, curtas, objectivas)




Propósito:
Honrar a Santíssima Virgem.

A minha alma glorifica o Senhor e o meu espírito se alegra em Deus meu Salvador, porque pôs os olhos na humildade da Sua serva, de hoje em diante me chamarão bem-aventurada todas as gerações. O Todo-Poderoso fez em mim maravilhas, santo é o Seu nome. O Seu Amor se estende de geração em geração sobre os que O temem. Manifestou o poder do Seu braço, derrubou os poderosos do seu trono e exaltou os humildes, aos famintos encheu de bens e aos ricos despediu de mãos vazias. Acolheu a Israel Seu servo, lembrado da Sua misericórdia, como tinha prometido a Abraão e à sua descendência para sempre.

Lembrar-me:
Santíssima Virgem Mãe de Deus e minha Mãe.

Minha querida Mãe: Hoje queria oferecer-te um presente que te fosse agradável e que, de algum modo, significasse o amor e o carinho que sinto pela tua excelsa pessoa.
Não encontro, pobre de mim, nada mais que isto: O desejo profundo e sincero de me entregar nas tuas mãos de Mãe para que me leves a Teu Divino Filho Jesus. Sim, protegido pelo teu manto protector, guiado pela tua mão providencial, não me desviarei no caminho da salvação.

Pequeno exame:
Cumpri o propósito que me propus ontem?

23/01/2015

Jesus Cristo e a Igreja - 52

O que sucedeu no Concílio de Niceia?

O Concílio I de Niceia é o primeiro Concílio Ecuménico, isto é, universal, em que participaram bispos de todas as regiões onde havia cristãos.

Teve lugar quando a Igreja pôde desfrutar de uma paz estável e dispunha de liberdade para se reunir abertamente. Desenrolou-se de 20 de Maio a 25 de Julho, do ano 325. Nele participaram alguns bispos que tinham nos seus corpos os sinais dos castigos que tinham sofrido por se terem mantido fiéis nas perseguições passadas, e que eram ainda muito recentes. O Imperador Constantino, que por essas datas ainda não se tinha baptizado, facilitou a participação dos bispos, pondo à sua disposição as diligências imperiais – para que fizessem a viagem – e oferecendo­lhes hospita­li­dade em Niceia da Bitínia, próximo da sua residência de Nicomédia. De facto, considerou muito oportuna essa reunião, uma vez que – depois de ter obtido com a sua vitória contra Licínio, no ano 324, a reunificação do Império – desejava também ver unida a Igreja, que nesses momentos andava agitada pela pregação de Ário, um sacerdote que negava a verdadeira divindade de Jesus Cristo. Desde o ano 318 Ário tinha-se oposto ao seu bispo Alexandre de Alexandria, e foi excomungado num sínodo de todos os bispos do Egipto. Ário fugiu para Nicomédia, para junto do seu amigo o bispo Eusébio.

Entre os Padres Conciliares contavam-se as figuras eclesiásticas mais relevantes do momento. Estava Ósio, bispo de Córdova que, segundo parece, presidiu às sessões. Assistiu também Alexandre de Alexan­dria, ajudado pelo então diácono Atanásio, Marcelo de Ancira, Macário de Jerusalém, Leôncio de Cesareia da Capadócia, Eustácio de Antioquia, e alguns presbíteros em representação do bispo de Roma, que não pôde assistir, devido à sua avançada idade. Também não faltaram os amigos de Ário, como Eusébio de Cesareia, Eusébio de Nicomédia e alguns outros. No total, participaram uns trezentos bispos. Os partidários de Árrio, que contavam também com as simpatias do Imperador Constantino, pensavam que, desde que expusessem os seus pontos de vista, a assembleia lhes daria razão. Todavia, quando Eusébio de Nicomédia tomou a palavra para dizer que Jesus Cristo não era mais que uma criatura – se bem que muito excelsa e eminente – e que não era de natureza divina, a imensa maioria dos assistentes compreendeu imediatamente que essa doutrina atraiçoava a fé recebida dos Apóstolos. Para evitar tão graves confusões, os Padres Conciliares decidiram redigir, tendo como base do credo baptis­mal da igreja de Cesareia, um símbolo de fé que reflectisse, de modo sintético e claro, a confissão genuína da fé recebida e admitida pelos cristãos desde as origens. Nele se diz que Jesus Cristo é “da substância do Pai, Deus de Deus, Luz da Luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado, não criado, homoousios tou Patrou (consubstancial ao Pai)”. Todos os Padres Conciliares, excepto dois bispos, ratificaram esse Credo – o Símbolo Niceno – a 19 de Junho do ano 325.

Além dessa questão fundamental, em Niceia fixou­se a celebração da Páscoa no primeiro Domingo depois do primeiro plenilúnio da Primavera, seguindo a prática habitual na igreja de Roma e em muitas outras. Também se trataram algumas questões disci­plinares de menor importância, relativas ao funciona­mento interno da Igreja. No que respeita ao tema mais importante – a crise arriana – Eusébio de Nico­média conseguiu, pouco tempo depois, voltar à sua sede contando com a ajuda de Constantino, tendo o próprio Imperador ordenado depois ao bispo de Cons­tantinopla que admitisse Árrio à comunhão. Entre­tanto, depois da morte de Alexandre, Atanásio acedeu ao episcopado em Alexandria. Foi uma das maiores figuras da Igreja em todo o século IV, que defendeu, com grande altura intelectual, a fé de Niceia, mas que – precisamente por isso – foi enviado para o exílio pelo Imperador. O historiador Eusébio de Cesareia – também próximo das teses arrianas – exagera, nos seus escritos, a influência de Cons­tantino no Concílio de Niceia. Se só se dispusesse dessa fonte, poderia pensar-se que o Imperador, além de pronunciar umas palavras de saudação no início das sessões, assumiu o protagonismo na reconciliação dos adversários e na restauração da concórdia, impondo-se também nas questões doutrinais, acima dos bispos que participa­vam no Concílio. Trata-se de uma versão deformada da realidade. Atendendo a todas as fontes disponíveis, pode dizer-se certamente, que Constantino tornou possível a celebração do Concílio de Niceia, e teve influência na sua celebra­ção prestando todo o seu apoio. Contudo, o estudo dos documentos mostra que o Imperador não influenciou a formulação da fé que se consubstanciou no Credo porque não tinha capacidade teológica para dominar as questões que ali se debatiam, mas também, e sobretudo, porque as fórmulas aprovadas não coincidem com as suas inclinações pessoais, que se identificam melhor com a corrente arriana, isto é, considerar que Jesus Cristo não era Deus, mas sim uma criatura excelsa.

© www.opusdei.org - Textos elaborados por uma equipa de professores de Teologia da Universidade de Navarra, dirigida por Francisco Varo.


Cristo também vive agora

Vive junto de Cristo! Deves ser, no Evangelho, uma personagem mais, convivendo com Pedro, com João, com André..., porque Cristo também vive agora: "Iesus Christus, heri et hodie, ipse et in saecula!" Jesus Cristo vive!, hoje como ontem; é o mesmo, pelos séculos dos séculos. (Forja, 8)

É esse amor de Cristo que cada um de nós deve se esforçar por realizar na sua vida. Mas para ser ipse Christus é preciso mirar-se Nele. Não basta ter-se uma ideia geral do espírito que Jesus viveu; é preciso aprender com Ele pormenores e atitudes. É preciso contemplar a sua vida, sobretudo para daí tirar força, luz, serenidade, paz.

Quando se ama alguém, deseja-se conhecer toda a sua vida, o seu carácter, para nos identificarmos com essa pessoa. Por isso temos de meditar na vida de Jesus, desde o Seu nascimento num presépio até à Sua morte e à Sua Ressurreição. Nos primeiros anos do meu labor sacerdotal costumava oferecer exemplares do Evangelho ou livros onde se narra a vida de Jesus, porque é necessário que a conheçamos bem, que a tenhamos inteira na mente e no coração, de modo que, em qualquer momento, sem necessidade de nenhum livro, cerrando os olhos, possamos contemplá-la como um filme; de forma que, nas mais diversas situações da nossa vida, acudam à memória as palavras e os actos do Senhor.


Sentir-nos-emos assim metidos na sua vida. Na verdade, não se trata apenas de pensar em Jesus e de imaginar aqueles episódios; temos de meter-nos em cheio neles, como actores. (Cristo que passa, 107)

Temas para meditar - 343


Desprendimento


Muitas vezes, no meio das maiores dificuldades e carência económicas, o difícil é manter uma atitude de verdadeiro desprendimento e resistir, por muito que custe, ao apego “ao que não se tem”.


(ama, Diário, 2005.04.12)

Tratado do verbo encarnado 99

Questão 15: Das fraquezas atinentes à alma que Cristo assumiu com a natureza humana

Art. 6 — Se Cristo sofreu a tristeza.

O sexto discute-se assim. — Parece que Cristo não sofreu a tristeza.

1. — Pois, diz de Cristo a Escritura: Não será triste nem turbulento.

2. Demais. — Diz a Escritura: Não entristecerá ao justo coisa alguma, seja o que for que lhe acontecer. E a razão disto os estoicos davam-na dizendo, que ninguém se entristece senão pela perda dos seus bens, ora o justo não considera bens senão a justiça e a virtude, que não pode perder. Do contrário, estaria sujeito à fortuna, se se entristecesse quando perdesse os bens dela. Ora, Cristo era o justo por excelência, segundo a Escritura: Este é o nome que lhe chamaram, o Senhor nosso justo. Logo, não sofreu a tristeza,

3. Demais. — O Filosofo diz, que toda tristeza deve ser evitada como um mal. Ora, Cristo não tinha que evitar nenhum mal. Logo, não sofreu a tristeza.

4. Demais. — Como diz Agostinho, Nós nos entristecemos com o que nos contraria a vontade. Ora, Cristo não sofreu nada contra a sua vontade, pois, como diz a Escritura, foi oferecido porque ele mesmo quis. Logo, Cristo não sofreu a tristeza.

Mas, em contrário, diz o Senhor: A minha alma está numa tristeza mortal. E Ambrósio: Como homem, sofreu tristeza, pois, assumiu a minha tristeza, Pois, exprimo por certo a tristeza quando me refiro à cruz.

Como dissemos, o prazer da contemplação divina concentrava-se, por disposição do poder de Deus, na alma de Cristo, a ponto de não derivar para as potências sensitivas e, assim, excluir a dor sensível. Ora, como a dor sensível tem a sua sede no apetite sensitivo, assim também a tristeza, mas diferentemente, pelo seu motivo ou objecto. Pois, o objecto e o motivo da dor é uma lesão percebida pelo sentido do tacto, como quando alguém é ferido. Ora, o objecto e o motivo da tristeza é um dano ou um mal interiormente apreendido, pela razão ou pela imaginação, como dissemos na Segunda Parte, tal o caso de quem se entristece pela perda da graça ou do dinheiro. Ora, a alma de Cristo podia apreender interiormente uma coisa como nociva, tanto para si mesmo, como o foi a sua paixão e morte, quanto para os outros, como o pecado dos discípulos ou ainda dos Judeus que o mataram. Donde, assim como Cristo podia sofrer realmente a dor, também podia padecer realmente a tristeza, mas de maneira diferente de nós, daqueles três modos que assinalamos, quando tratamos em geral das paixões da alma de Cristo.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJECÇÃO. — Cristo não sofreu a tristeza, como paixão, no seu sentido perfeito, mas houve nele uma tristeza incoativa, como pro-paixão. Donde o dizer a Escritura: Começou a entristecer-se e a angustiar-se. — Ora, uma coisa é entristecer-se e outra começar a entristecer-se.

RESPOSTA À SEGUNDA. — Como diz Agostinho, os estoicos ensinavam que há na alma do sábio três eupatias, isto é, boas paixões, correspondentes às três perturbações - a cobiça, a alegria e o temor. Essas três eupatias correspondentes são: a cobiça, a vontade, a alegria, o gáudio, o medo, a cautela. Mas negavam que pudesse haver algo na alma do sábio de correspondente à tristeza, porque a tristeza supõe um mal já acontecido, ora, julgavam que nenhum mal podia atingir o sábio. E pensavam assim por só considerarem como bem o honesto, que torna os homens bons, e como sendo mal só o desonesto, que torna os homens maus. — Mas, embora o honesto seja o principal bem do homem, e o desonesto o mal principal, por dizerem respeito à razão, que é o principal no homem, há contudo, alguns bens humanos secundários, relativos ao corpo ou às coisas exteriores que servem ao corpo. E, assim sendo, pode haver tristeza na alma do sábio, quando o apetite sensitivo venha a apreender algum dos referidos males, não vai porém essa tristeza até perturbar a razão. E também a esta luz se entende que o justo não se contristará, seja o que for que lhe suceda, pois, nenhum acontecimento lhe perturba a razão, Donde, Cristo sofreu tristeza, quanto à pro-paixão, mas não quanto à paixão.

RESPOSTA À TERCEIRA. — Toda tristeza implica o mal da pena, mas nem sempre o mal da culpa, senão só quando procede do afecto desordenado. Donde o dizer Agostinho: Quando estas paixões obedecem à razão recta e lhes cedemos em tempo e lugar oportunos, quem ousará chamar-lhes doenças ou paixões más?

RESPOSTA À QUARTA. — Nada impede que uma coisa contrária à vontade ser, em si mesma considerada e, contudo, querida, em razão do fim a que se ordena. Assim, não queremos em si mesmo um remédio amargo, mas enquanto ordenado à saúde. Ora, deste modo, a morte de Cristo e a sua paixão foram, consideradas em si mesmas, involuntárias e causas de tristeza, embora fossem voluntárias quanto ao fim, que é a redenção do género humano.

Nota: Revisão da versão portuguesa por ama.


Ev. diário L. Esp. (Temas actuais do cristianismo)

Tempo Comum II Semana

Evangelho: Mc 3 13-19

13 Tendo subido a um monte, chamou a Si os que quis, e aproximaram-se d'Ele. 14 Escolheu doze para que andassem com Ele e para os enviar a pregar, 15 com poder de expulsar os demónios: 16 Simão, a quem pôs o nome de Pedro; 17 Tiago, filho de Zebedeu, e João, irmão de Tiago, aos quais pôs o nome de Boanerges, que quer dizer “filhos do trovão”; 18 e André, Filipe, Bartolomeu, Mateus, Tomé, Tiago, filho de Alfeu, Tadeu, Simão, o Cananeu, 19 e Judas Iscariotes, que foi quem O entregou

Comentário:

É – sempre – Jesus Quem chama e chama aqueles que quer. E não sabemos bem porquê, qual o critério do Senhor para escolher este em lugar daquele.

Mas, a questão está mal colocada porque, na verdade, o Senhor chama todos, sem excepção. Sim… é verdade, chama todos os homens sem acepção alguma à santidade pessoal porque todos somos Seus filhos e, um Pai, quer a todos os filhos por igual sejam quais forem as suas virtudes, aptidões, defeitos ou limitações.

Como é que chama este Doze simples pescadores na sua maioria e não outros?
Porquê escolhe Paulo um perseguidor e carrasco de cristãos?
Será que não viu que Judas O haveria de vender por trinta moedas?
Não conhecia a fragilidade de Pedro que O negaria com juramento?

Claro que sim mas também sabia que o apurado sentido de justiça de Paulo o levaria por inauditos caminhos de apostolado!

Que a fragilidade de Pedro seria ultrapassada pelo seu amor ao Mestre e, por isso lhe entregaria as chaves do Reino e confiando-lhe a chefia da Sua Igreja!

Que a tragédia pessoal de Judas seria a consequência de não ser capaz de amar e, amando, converter-se e pedir perdão!

(ama, comentário sobre Mc 3, 13-19, 2014.01.24)


Leitura espiritual


São Josemaria Escrivá

Temas actuais do cristianismo [i]

34             

Algumas pessoas têm afirmado às vezes que o Opus Dei é organizado internamente segundo as normas das sociedades secretas. Que se deve pensar de tal afirmação? Poderia dar-nos, a propósito dista, uma ideia da mensagem que desejou dirigir aos homens do nosso tempo ao fundar a Obra em 1928?

Desde 1928 não tenho deixado de pregar que a santidade não está reservada a privilegiados, que todos os caminhos da Terra podem ser divinos, porque o cerne da espiritualidade específica do Opus Dei é a santificação do TRABALHO. É preciso acabar com o preconceito de que os fiéis correntes não podem senão limitar-se a ajudar o clero, em apostolados eclesiásticos; e fazer notar que, para alcançar esse fim sobrenatural, os homens têm necessidade de ser e de se sentir pessoalmente livres, com a liberdade que Jesus Cristo ganhou para nós. Para pregar e ensinar a praticar esta doutrina, nunca tive necessidade de segredo algum. Os membros da Obra detestam o segredo, porque são fiéis correntes, pessoas exactamente iguais às outras: ao entrarem para o Opus Dei não mudam de estado. Repugnar-lhes-ia trazer um letreiro nas costas que dissesse: “Reparem que estou dedicado ao serviço de Deus”. Isto não seria nem laical nem secular. Mas os conhecidos e amigos dos sócios do Opus Dei sabem que eles fazem parte da Obra, porque o não dissimulam, ainda que o não apregoem.

35             
Poderia traçar um rápido esquema da estrutura do Opus Dei à escala mundial e da sua articulação com o Conselho Geral a que preside em Roma?

O Conselho Geral tem o seu domicílio em Roma, independente para cada Secção: a de homens e a de mulheres (“Anuário Pontifício” de 1966, págs. 885 e 1226); e em cada país existe um organismo análogo, presidido pelo Conselheiro nessa nação [*]. Não pense numa organização poderosa, estendida capilarmente até ao último recanto do Mundo. Imagine antes uma organização desorganizada, pois o trabalho dos directores do Opus Dei destina-se principalmente a fazer com que chegue a todos os seus membros o espírito genuíno do Evangelho - espírito de caridade, de convivência, de compreensão, absolutamente alheio ao fanatismo - mediante uma sólida e adequada formação teológica e apostólica. Depois, cada um actua com inteira liberdade pessoal e, formando de modo autónomo a sua própria consciência, esforça-se por procurar a perfeição cristã e cristianizar o seu ambiente, santificando o seu próprio trabalho intelectual ou manual, em todas as circunstâncias da sua vida e no seu próprio lar.

Por outro lado, a direcção da Obra é sempre colegial. Detestamos a tirania, especialmente neste governo exclusivamente espiritual do Opus Dei. Amamos a pluralidade: o contrário não conduziria senão à ineficácia, a não fazer nem deixar fazer, a não progredir.

[*] Cfr. nota ao n.º 19. A erecção do Opus Dei como Prelatura pessoal reforçou juridicamente a unidade do Opus Dei, ficando muito claro que toda a Prelatura - homens e mulheres, sacerdotes e leigos, casados e solteiros - constitui uma unidade pastoral orgânica e indivisível, que realiza os seus apostolados por meio da Secção de varões e da Secção feminina, sob o governo e a direcção do Prelado que, ajudado pelos seus Vigários e pelos seus Conselhos, dá e assegura a unidade fundamental de espírito e de jurisdição entre as duas Secções.

36             
O ponto 484 do seu código religioso, Caminho, precisa: “Sê instrumento”. Que sentido se deve atribuir a esta afirmação dentro do contexto das perguntas precedentes?

Caminho, um código? Não! Escrevi em 1934 uma boa parte deste livro, resumindo para todas as almas que dirigia - do Opus Dei ou não - a minha experiência sacerdotal. Não suspeitei que trinta anos mais tarde alcançaria uma difusão tão ampla - milhões de exemplares - em tantas línguas. Não é um livro somente para os sócios do Opus Dei; é para todos, mesmo para os não cristãos. Caminho deve ser lido com um mínimo de espírito sobrenatural, de vida interior e de preocupação apostólica. Não é um código do homem de acção. Pretende ser um livro que leva a viver na intimidade de Deus e a amá-lo, e a servir todas as almas: a ser um instrumento - era esta a sua pergunta - como o Apóstolo Paulo queria sê-lo de Cristo. Instrumento livre e responsável; aqueles que querem ver nas suas páginas uma finalidade temporal, enganam-se. Não se esqueça que é corrente, nos autores espirituais de todos os tempos, considerar as almas como instrumentos nas mãos de Deus.

37             
A Espanha ocupa um lugar de preferência na Obra? Pode considerar-se como ponto de partida dum programa mais ambicioso, ou um simples sector de actividade entre muitos outros?

A Espanha não é senão um dos 65 países em que há sócios do Opus Dei, e os espanhóis são uma minoria. Geograficamente, o Opus Dei nasceu na Espanha; mas o seu fim é universal desde o princípio. De resto, eu resido em Roma há vinte anos.

38             
O facto de alguns membros da Obra estarem presentes na vida pública do país, não politizou, de certo modo, o Opus Dei em Espanha? Não comprometem, assim, a Obra e a própria Igreja?

Nem em Espanha, nem em nenhum outro sítio! Insisto em que os sócios do Opus Dei trabalham com plena liberdade e sob a sua responsabilidade pessoal, sem comprometer nem a Igreja nem a Obra, porque não se apoiam nem na Igreja nem na Obra para realizarem as suas actividades pessoais.

Pessoas formadas numa concepção militar do apostolado e da vida espiritual tenderão a ver no trabalho livre e responsável dos cristãos um modo de actuar colectivo. Mas digo-lhe, como não me tenho cansado de repetir desde 1928, que a diversidade de opiniões e de comportamentos no terreno temporal e no campo teológico opinável não constitui problema algum para a Obra: a diversidade que existe e existirá sempre entre os sócios do Opus Dei é, pelo contrário, uma manifestação de bom espírito, de vida honesta, de respeito pelas opiniões legítimas de cada um.

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Não lhe parece que em Espanha, e em virtude do particularismo inerente à raça ibérica, um certo sector da Obra poderia ser tentado a utilizar o seu poder para satisfazer interesses particulares?

Levanta uma hipótese que me atrevo a garantir que nunca se apresentará na nossa Obra, não só porque nos associamos exclusivamente para fins sobrenaturais, mas ainda porque, se alguma vez um membro do Opus Dei quisesse impor, directa ou indirectamente, um critério temporal aos outros, ou servir-se deles para fins humanos, seria expulso sem contemplações, porque os outros sócios se revoltariam legitimamente, santamente.

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Em Espanha, o Opus Dei orgulha-se de reunir pessoas de todas as classes sociais. Esta afirmação é válida também para o resto do Mundo, ou deve admitir-se que nos outros países os sócios do Opus Dei procedem antes de meios ilustrados, como os estados-maiores da Indústria, da Administração, da Política e das Profissões Liberais?

De facto, pertencem ao Opus Dei, tanto em Espanha como em todo o mundo, pessoas de todas as condições sociais: homens e mulheres, velhos e jovens, operários, industriais, empregados, camponeses, representantes das profissões liberais, etc. A vocação é Deus quem a dá e para Deus não há acepção de pessoas.

Mas o Opus Dei não se orgulha de coisa nenhuma: não e às forças humanas que as obras de apostolado devem o seu crescimento, é ao sopro do Espírito Santo. Numa associação com fins temporais, é lógico publicar estatísticas que ostentem o número, a condição e as qualidades dos sócios, e assim costumam fazer as organizações que buscam prestígio temporal; mas este modo de actuar, quando se procura a santificação das almas, favorece a soberba colectiva: ora Cristo quer a humildade para cada um dos cristãos e para todos os cristãos.

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Qual é a situação actual do desenvolvimento da Obra em França?

Corno lhe dizia, o governo da Obra em cada país é autónomo. A melhor informação sobre o trabalho do Opus Dei em França, pode obtê-la perguntando-o aos directores da Obra nesse país.

Entre as actividades que o Opus Dei realiza corporativamente e pelas quais responde como tal, há residências de estudantes - como a Résidence lnternationale de Rouvray, em Paris; a Résidence Universitaire de L'Ile-Verte, em Grenoble -, centros de reuniões e convívios - como o Centre de Rencontre de Couvrelles, no departamento de L'Aisne - etc. Mas recordo-lhe que as obras corporativas são o que menos importa; o trabalho principal do Opus Dei é o testemunho pessoal, directo, que os seus sócios dão no ambiente do seu trabalho. E para isso a enumeração não serve. Não pense no fantasma do segredo. Não! As aves que sulcam o céu não são segredo e a ninguém passa pela cabeça contá-las.

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Qual é a situação actual da Obra no resto do Mundo, especialmente no mundo anglo-saxónico?

O Opus Dei encontra-se tão à vontade na Inglaterra como no Quénia, na Nigéria, como no Japão, nos Estados Unidos como na Áustria, na Irlanda como no México ou na Argentina: em cada lugar é o mesmo fenómeno teológico e pastoral, enraizado nas almas do país. Não se baseia numa cultura determinada nem numa época concreta da História. No mundo anglo-saxónico, o Opus Dei tem, graças à ajuda de Deus e à colaboração de grande número de pessoas, obras apostólicas de diversas espécies: Netherhall House, em Londres, que presta especial atenção aos estudantes afro-asiáticos; Hudson Center, em Montreal, para a formação humana e intelectual de raparigas; Nairana Cultural Center, que se dirige aos estudantes de Sydney... Nos Estados Unidos, onde o Opus Dei começou a trabalhar em 1949, podem mencionar-se: Midtown, centro para operários num bairro do coração de Chicago; Stonecrest Community Center, em Washington, destinado à formação de mulheres que carecem de preparação profissional; Trimount House, residência universitária, em Boston, etc. Uma advertência: a influência da Obra, na medida em que exista em cada caso, será sempre espiritual e de carácter religioso, nunca temporal.

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Fontes diversas pretendem que uma inimizade profunda oporia a maior parte das ordens religiosas, e singularmente a Companhia de Jesus, ao Opus Dei. Estes boatos têm algum fundamento ou fazem parte desses mitos que o público alimenta quando não conhece bem algum assunto?

Embora não sejamos religiosos nem nos pareçamos com os religiosos - nem há autoridade no Mundo que nos possa obrigar a sê-lo - no Opus Dei veneramos e amamos o estado religioso. Todos os dias rezo para que todos os veneráveis religiosos continuem a oferecer à Igreja frutos de virtudes, de obras apostólicas e de santidade. Os boatos de que se falou são... boatos. O Opus Dei teve sempre a admiração e a simpatia de inúmeras ordens e congregações, particularmente dos religiosos e das religiosas de clausura, que rezam por nós, nos escrevem com frequência e dão a conhecer a nossa Obra de mil e uma maneiras, porque se dão conta da nossa vida de contemplação no meio dos afazeres da rua. O secretário geral do Opus Dei, Dr. Alvaro del Portillo, conhecia e estimava o anterior Geral da Companhia de Jesus. O actual Geral, o Padre Arrupe, conheço-o eu e estimo-o, e ele a mim. As incompreensões, se as houvesse, demonstrariam pouco espírito cristão, porque a nossa fé é de unidade, não de rivalidade e divisões.

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Qual é a posição da Obra acerca da declaração conciliar em favor da liberdade religiosa, e de modo especial acerca da sua aplicação em Espanha, onde o “projecto Castiella” continua suspenso? E que dizer desse famoso “integrismo” atribuído alguma vez ao Opus Dei?

lntegrismo? O Opus Dei não está à direita, nem à esquerda, nem ao centro. Pessoalmente, como sacerdote, procuro estar com Cristo, que na Cruz estendeu os dois braços, e não apenas um deles. - Tomo com liberdade, de cada grupo, aquilo que me convence, e que me torna o coração e os braços acolhedores para com toda a gente. Por sua vez, cada um dos sócios da Obra é libérrimo de fazer as opções que quiser, no âmbito da fé cristã.

Quanto à liberdade religiosa, o Opus Dei, desde a sua fundação, nunca fez discriminações: trabalha e convive com todos, porque vê, em cada um, uma alma que é preciso respeitar e amar. Não são meras palavras: a nossa Obra foi a primeira organização católica a admitir, com autorização da Santa Sé, como Cooperadores os não católicos, sejam ou não cristãos. Defendi sempre a liberdade das consciências. Não compreendo a violência: não me parece apta para convencer nem para vencer. O erro supera-se com a oração, com a graça de Deus, com o estudo; nunca com a força, sempre com a caridade. Compreenderá que, sendo este o espírito que temos vivido desde o princípio, só me podem ter causado alegria os ensinamentos que o Concílio promulgou sobre este tema. Acerca do projecto concreto a que se refere, não é questão da minha competência, mas da hierarquia da Igreja em Espanha e dos católicos desse país, aplicando ao caso concreto o espírito do Concílio.

(cont)








[i] Entrevista realizada por Jacques-Guillemé-Brûlon, publicada em Le Figaro (Paris) em 16 de Maio de 1966.