30/10/2014

Ajuda-os sem que o notem

O pensamento da morte ajudar-te-á a cultivar a virtude da caridade, porque talvez esse instante concreto de convivência seja o último em que estás com este ou com aquele... Eles, ou tu, ou eu, podemos faltar em qualquer momento. (Sulco, 895)

Dir-me-ás talvez: e porque havia eu de me esforçar? Não sou eu quem te responde, mas S. Paulo: o amor de Cristo urge-nos. Todo o espaço de uma existência é pouco para alargar as fronteiras da tua caridade. Desde os primeiríssimos começos do Opus Dei, manifestei o meu grande empenho em repetir sem cessar, para as almas generosas que se decidam a traduzi-lo em obras, aquele grito de Cristo: nisto conhecerão todos que sois meus discípulos, se tiverdes amor uns aos outros. Conhecer-nos-ão precisamente por isso, porque a caridade é o ponto de arranque de qualquer actividade de um cristão. (…)


Queria fazer-vos notar que, após vinte séculos, ainda aparece com toda a pujança de novidade o Mandato do Mestre, que é uma espécie de carta de apresentação do verdadeiro filho de Deus. Ao longo da minha vida sacerdotal, tenho pregado com muitíssima frequência que, desgraçadamente para muitos, continua a ser novo, porque nunca ou quase nunca se esforçaram por praticá-lo. É triste, mas é assim. E não há dúvida nenhuma de que a afirmação do Messias ressalta de modo terminante: nisto vos conhecerão, que vos amais uns aos outros! Por isso, sinto a necessidade de recordar constantemente essas palavras do Senhor. S. Paulo acrescenta: levai os fardos uns dos outros e, desta maneira, cumprireis a lei de Cristo. Momentos perdidos, talvez com a falsa desculpa de que te sobra tempo... Se há tantos irmãos, amigos teus, sobrecarregados de trabalho! Com delicadeza, com cortesia, com um sorriso nos lábios, ajuda-os, de tal maneira que se torne quase impossível que o notem; e que nem se possam mostrar agradecidos, porque a discreta finura da tua caridade fez com que ela passasse inadvertida. (Amigos de Deus, 43–44)

Temas para meditar - 257


Cristianização

A Igreja de hoje prepara-se para uma nova cristianização, que se apresenta aos seus olhos como um desafio, ao qual deverá responder adequadamente como em tempos passados.






(São joão paulo ii Disc. em Santiago de Compostela 1989.08.19)

Tratado do verbo encarnado 15

Questão 2: Do modo da união do Verbo Encarnado

Art. 9 — Se a união das duas naturezas em Cristo é a máxima das uniões.

O nono discute-se assim. — Parece que a união das duas naturezas em Cristo não é a máxima das uniões.

1. — Pois, o unido é inferior, em razão da unidade, ao que é uno, porque o unido o é por participação, e o uno, por essência. Ora, nas coisas criadas uma coisa é dita, absolutamente, una, como principalmente o demonstra a própria unidade, que é o princípio do número. Logo, a união de que falamos, não implica a máxima unidade.

2. Demais. — Quanto mais distam as coisas unidas tanto menor é a união. Ora, a natureza divina e a humana, unidas pela união de que tratamos, distam entre si em máximo grau, porque distam infinitamente. Logo, tal união é mínima.

3. Demais. — Da união resulta a unidade. Ora, da união da alma e do corpo em nós resulta a unidade da pessoa e da natureza, ao passo que da união da natureza divina com a humana resulta só a unidade da pessoa. Logo, maior é a união da alma com o corpo do que da natureza divina com a humana, e assim, a união de que agora tratamos não implica a máxima unidade.

Mas em contrário, diz Agostinho, que antes está o homem no Filho de Deus, que o Filho no Padre. Ora, o Filho está no Padre pela unidade de essência, ao passo que o homem está no Filho pela união da Encarnação. Logo, maior é a união da Encarnação que a unidade da essência divina. A qual porém é a máxima das unidades. E assim, por consequência, a união da Encarnação implica a máxima unidade.

A união implica a conjunção de dois seres num só ser. Donde, a união da Encarnação pode ser considerada a dupla luz: relativamente aos elementos unidos e relativamente àquele em que se unem. E, por este lado, a referida união tem a preeminência sobre as outras uniões, pois, a unidade da pessoa divina, em que se unem ias duas naturezas, é máxima. Portanto, não tem a preeminência relativamente aos elementos unidos.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJECÇÃO. — A unidade da pessoa divina é maior que a unidade numérica, isto é, que é o princípio do número. Pois, a unidade da pessoa divina é uma unidade por si subsistente, não recebida em outro ser por participação. E também é em si mesma completa, encerrando em si tudo o que compreende a noção de unidade. Por isso não lhe convém ser parte, como à unidade numeral, que é parte do número e é participada pelas coisas numeradas. E assim, a este respeito, a união da Encarnação tem preeminência sobre a unidade numeral, isto é, em razão da unidade de pessoa. Não porém em razão da natureza humana, que não é a unidade própria da pessoa divina, mas a esta está unida.

RESPOSTA À SEGUNDA. — A objecção colhe quanto aos elementos conjuntos, não, quanto à pessoa em que se fez a união.

RESPOSTA À TERCEIRA. — A unidade da pessoa divina é uma unidade maior que a da pessoa e da natureza, em nós. Por isso, a união da Encarnação é maior que a da alma e do corpo em nós. Quanto a objecção em contrário, ela supõe uma falsidade, a saber, que maior é a união da Encarnação que a unidade das pessoas divinas, na essência. E então devemos responder, quanto à autoridade de Agostinho, que a natureza humana não existe, mais, no Filho de Deus, que o Filho de Deus, no Pai, mas, muito menos. Mas, o próprio homem está, de certo modo, mais no Filho, que o Filho no Pai, isto é, quando digo — homem, tomando-o por Cristo, e quando digo — Filho de Deus, o suposto é o mesmo, mas não é o mesmo o suposto do Pai e do Filho.

Nota: Revisão da versão portuguesa por ama.


Jesus Cristo e a Igreja - 40

Como se explica a ressurreição de Jesus?

A ressurreição de Cristo é um acontecimento real que teve manifestações historicamente comprovadas.
Os Apóstolos deram testemunho do que tinham visto e ouvido. Pelo ano 57 São Paulo escreve aos Coríntios:
“Porque, antes de tudo, ensinei-vos o que eu mesmo recebi: Que Cristo morreu por nossos pecados, segundo as Escrituras, que foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia, segundo as mesmas Escrituras; que foi visto por Cefas e depois pelos onze” (1 Co 15, 3-5).
Quando alguém actualmente se aproxima desses factos para buscar, do modo mais objectivo possível, a verdade sobre o que sucedeu, pode surgir uma pergunta: donde procede a afirmação de que Jesus ressuscitou? É uma manipulação da realidade que teve um eco extraordinário na história humana, ou é um facto real, que continua a ser tão surpreendente e inesperado como foi naquela altura para os seus aturdidos discípulos?
Para essas questões só é possível encontrar uma solução razoável procurando estudar quais podiam ser as crenças daqueles homens sobre a vida depois da morte, para avaliar se a ideia de uma ressurreição como a que descreviam era uma ocorrência lógica para os seus esquemas mentais.

Para começar, no mundo grego há referências a uma vida após a morte, mas com características singulares. O Hades, motivo recorrente já desde os poemas homéricos, é o domicílio da morte, um mundo de sombras que é como uma vaga recordação da morada dos vivos. Mas Homero jamais imaginou que na realidade fosse possível um regresso do Hades. Platão, com uma perspectiva diferente tinha especulado acerca da reencarnação, mas não imaginou como algo real a possibilidade de revitalização do próprio corpo, depois de morto. Isto significa que, embora se falasse por vezes na vida após a morte, nunca passava pela cabeça a ideia de ressurreição isto é, que algum indivíduo pudesse regressar à vida corporal no mundo presente.
No judaísmo a situação é em parte diferente e em parte semelhante. O sheol de que falam o Antigo Testamento e outros textos judeus antigos não é muito diferente do Hades homérico, onde as pessoas estão como adormecidas. Mas, em contraste com a concepção grega, há portas abertas à esperança. O Senhor é o único Deus, quer dos vivos quer dos mortos, com poder tanto no mundo de cima como no sheol. É possível um triunfo sobre a morte. Na tradição judaica, manifesta-se alguma crença numa ressurreição. E espera-se também a chegada do Messias, mas ambos os acontecimentos não aparecem ligados. Para qualquer judeu contemporâneo de Jesus trata-se, pelo menos à partida, de duas questões teológicas que dizem respeito a âmbitos muito diferentes.
Espera-se que o Messias derrote os inimigos do Senhor, restabeleça em todo o seu esplendor e pureza o culto do templo, estabeleça o domínio do Senhor sobre o mundo, mas nunca se imagina que ressuscitará depois da sua morte: é algo que não passava habitualmente pela cabeça de um judeu piedoso e instruído.
Roubar o seu corpo e difundir a ideia de que tinha ressuscitado com esse corpo, como argumento para mostrar que era o Messias, é impensável. No dia de Pentecostes, segundo referem os Actos dos Apóstolos, Pedro afirma que “Deus O ressuscitou desfazendo as ligaduras da morte”, e por consequência conclui: “Saiba, pois, toda a casa de Israel com absoluta certeza que Deus constituiu Senhor e Cristo a este Jesus, a quem vós crucificastes” (Act 2, 36).
A explicação dessas afirmações é que os Apóstolos tinham contemplado algo que jamais tinham imaginado e viam-se no dever de dar testemunho, apesar da sua perplexidade e das troças que supunham, com razão, que iam suscitar.

© www.opusdei.org - Textos elaborados por uma equipa de professores de Teologia da Universidade de Navarra, dirigida por Francisco Varo.


Reflectindo - 44

Julgar os outros


Julgar os outros é muitas vezes, quase sempre, espelhar os nossos próprios defeitos, e ver o argueiro no olho do vizinho sem reparar que o nosso está obstruído por uma trave.
Não me refiro só ao julgamento público, os comentários ou avaliações que fazemos dos outros, sobretudo quando não estão presentes, mas também aquele julgamento que muitas vezes, permitimos que exista no segredo do nosso coração.

(AMA, Palestras sobre os Evangelhos, Minho Fevereiro de 1991, (Ref. Mc 5 21-43))


Evangelho diário, coment., leit. espiritual (História de uma alma)

Tempo comum XXX Semana

Evangelho: Lc 13 31-35

31 No mesmo dia alguns dos fariseus foram dizer-Lhe: «Sai e vai-Te daqui porque Herodes quer matar-Te». 32 Ele respondeu-lhes: «Ide dizer a essa raposa: Eis que Eu expulso os demónios e faço curas hoje e amanhã, e ao terceiro dia atinjo o Meu termo.33 Importa, contudo, que Eu caminhe ainda hoje, amanhã e no dia seguinte; porque não convém que um profeta morra fora de Jerusalém. 34 «Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas os que te são enviados, quantas vezes quis juntar os teus filhos como a galinha recolhe os seus pintainhos debaixo das asas, e tu não quiseste! 35 Eis que a vossa casa vos será deixada deserta. Digo-vos que não Me vereis, até que venha o dia em que digais: “Bendito O que vem em nome do Senhor”».

Comentário:

De facto repetimos esta frase “bendito o que vem em nome do Senhor” sempre que recebemos na Hóstia Consagrada o próprio Corpo, Sangue, Alma e Divindade do mesmo Jesus Cristo que a pronunciou como consta neste Evangelho.

Não O veremos fisicamente mas sim com os olhos da nossa alma e, quanto melhores sejam as disposições com que O recebemos melhor O veremos.

(ama, comentário sobre Lc 13, 31-35, 2013.10.31)
 

Leitura espiritual


HISTÓRIA DE UMA ALMA


Santa Teresinha do Menino Jesus

Manuscrito "A" - Parte II

…/3

Pensais, talvez, minha querida Madre, que exagero a aflição que estava sentindo?... Levo em conta que não podia ser lá muito grande, pois tinha a esperança de encontrar-vos novamente no Carmelo, mas é que minha alma estava LONGE da maturidade. Por muitos crisóis devia eu passar até atingir o termo que tanto almejava...

Dois de outubro era o dia fixado para a reabertura de aulas na Abadia. Por isso precisei ir para lá, não obstante minha tristeza... Pela tarde veio Titia buscar-nos para irmos ao Carmelo, e vi minha querida Paulina atrás das grades... Oh! como sofri nessa visita ao Carmelo! Já que escrevo a história de minha alma, tenho a obrigação de dizer tudo à minha querida Mãe. Confesso que os sofrimentos anteriores à sua entrada não eram nada em comparação com os que lhe sucederam... Cada quinta-feira, íamos toda a família ao Carmelo, e eu, habituada que era a entreter-me com Paulina, de coração a coração, conseguia a muito custo dois ou três minutos ao terminar a visita. Entende-se que os passasse a chorar, e me fosse embora como o coração em frangalhos... Não percebia que, por atenção à Titia, preferíeis dirigir a palavra à Joana e à Maria, em vez de falar com vossas filhinhas... Não o percebia, e no fundo do coração punha-me a dizer: "Paulina está perdida para mim!!!" Surpreende ver como meu espírito se abriu no meio do sofrimento. Abriu-se a tal ponto que não tardei em cair doente.

A doença que me atingira, provinha certamente do demónio. Furioso com vossa entrada no Carmelo, quis desforrar-se contra mim do grande dano que nossa família lhe infligiria para o futuro, mas não sabia que a carinhosa Rainha do Céu velava por sua débil florzinha e lhe sorria do alto de seu trono, dispondo-se a deter a tempestade no momento que sua flor poderia quebrar irremediavelmente...

Pelo fim do ano, fui acometida de contínua dor de cabeça, que quase não me fazia sofrer. Estava em condições de continuar os estudos, e ninguém se preocupava por minha causa. Assim ficou a situação até a Páscoa de 1883. Tendo Papai ido a Paris com Maria e Leónia, Titia levou-me com Celina para sua casa. Certa noite, Titio que ficara comigo, falou-me de Mamãe, de recordações antigas, de uma maneira tão bondosa, que profundamente me comoveu e fez chorar. Disse-me, então, que eu tinha um coração demasiado sensível e necessitava de muita distração. E, com Titia, resolveu proporcionar-nos folguedos nos feriados de Páscoa. Naquela noite, devíamos ir ao Círculo Católico. Achando, porém, que estava muito cansada, Titia fez-me deitar. Ao trocar de roupa, fui sacudida por estranho tremor. Crendo que eu estava com frio, Titia rodeou-me de cobertores e botijas com água quente. Nada, entretanto, fazia reduzir minha agitação, que durou quase a noite inteira. Ao regressar do Círculo Católico, com minhas primas e Celina, Titio ficou muito surpreso de encontrar-me em tal estado. Tinha-o por muito grave, mas não o quis declarar, para que Titia se não sobressaltasse. No dia seguinte, mandou chamar o Dr. Notta que achou, como Titio, estar eu com doença muito grave, da qual nunca fora atingida criança tão nova. Todo o mundo ficou consternado. Minha Tia viu-se obrigada a deixar-me na casa, e cuidou de mim com um desvelo verdadeiramente maternal. Quando Papai voltou de Paris com minhas irmãs maiores, Aimée recebeu-os com um ar tão desconsolado, que Maria me supôs já morta... A doença, porém, não era ainda para morrer. Era, antes, como a de Lázaro, para que Deus fosse glorificado.. De fato, Ele o foi, graças à admirável resignação do meu pobre Paizinho, cuja idéia era que "sua filhinha ficaria louca, ou então morreria". Ele o foi, outrossim, graças à resignação de Maria! ... Oh! quanto não sofreu por minha causa... Como lhe sou reconhecida pelos cuidados que com tão grande desprendimento me prodigalizou... O coração ditava-lhe o que me era necessário. Na verdade, o coração de mãe é muito mais sagaz do que o de um médico. Sabe adivinhar o que convém na doença da filha...

A coitada da Maria teve de acomodar-se em casa do meu Tio, por não haver então possibilidade de me transportarem aos Buissonnets. Aproximava-se, entretanto, a tomada de hábito de Paulina. Diante de mim, evitavam de falar a respeito, sabendo do desgosto que teria em não poder assistir, mas era eu quem muitas vezes tocava no assunto, quando dizia que estaria bastante melhor para visitar minha querida Paulina. Realmente, o Bom Deus não quis privar-me dessa consolação. Quis antes consolar sua querida Desposada, que tanto sofrera com a doença de sua filhinha... Notei que, no dia do noivado, Jesus não quer submeter suas filhas a provações. Deve a festa correr sem contratempos, como ante-gozo das alegrias do Paraíso. Disso, não deu Ele prova já cinco vezes? Pude, por conseguinte, abraçar minha Mãe querida, sentar-me em seus joelhos, e cobri-la de afagos... Pude contemplá-la, tão encantadora, em seu branco ornato de noiva... Oh! foi um dia radiante, de permeio em minha sombria provação, mas o dia passou com presteza... Tive logo de tomar a carruagem que dali me levou, bem longe de Paulina... bem longe do meu amado Carmelo. Depois de chegarmos aos Buissonnets, fizeram-me deitar, a contragosto meu, pois afiançava estar perfeitamente curada e já não precisar de tratamento. Ainda mal, não me encontrava senão no começo de minha provação!. .. No dia seguinte, tive uma recaída, e a doença agravou-se de tal maneira, que, por cálculos humanos, eu já não podia sarar... Não sei como descrever doença tão estranha. Persuadi-me agora de ser obra do demónio. Mas, bastante tempo depois da cura, acreditava ter ficado doente por acinte, o que constituía verdadeiro martírio para minha alma...
Falei disso com Maria que me tranquilizou o mais que podia, com sua bondade de sempre. Falei disso também em confissão, e meu confessor tentou acalmar-me, alegando que não era possível fingir estado de doença ao ponto em que ficara. O Bom Deus que indubitavelmente queria purificar-me, e antes de tudo humilhar-me, deixou comigo tal martírio íntimo até minha entrada para o Carmelo, onde o Pai de nossas almas me tirou, como que com a mão, todas as minhas dúvidas, e desde então ando perfeitamente tranquila.

Não é de surpreender que receasse ter-me fingido de doente, sem o ser na realidade? Pois, dizia e fazia cousas em que nem pensava, quase sempre parecia estar em delírio, a proferir palavras incoerentes. Apesar disso, tenho a certeza de não ter ficado, um instante sequer, privada do uso da razão... Muitas vezes parecia estar desfalecida, e não fazia o mínimo movimento. Então, deixaria praticar comigo o que quisessem, até que me matassem. Não obstante, escutava tudo o que se dizia em redor de mim, e ainda estou lembrada de tudo... Certa vez, aconteceu-me ficar sem poder abrir os olhos por mais tempo, nem abri-los por um instante, quando estava sozinha...

Creio que o demónio recebera um poder exterior sobre mim, mas não podia acercar-se de minha alma nem de meu espírito, senão para me inspirar enormes receios de certas cousas, por exemplo, de remédios muito simples, que em vão se esforçavam por me fazer tomar. No entanto, se o Bom Deus permitia ao demónio achegar-se a mim, também me enviava anjos visíveis... Maria ficava sempre junto à minha cama, cuidava de mim e consolava-me com a afeição de mãe. Jamais demonstrou o menor enfado, e eu, todavia, lhe dava muito incómodo, não admitindo que se arredasse de mim. No entanto, ela tinha a justa necessidade de ir tomar refeição com Papai, mas eu não parava de chamar por ela todo o tempo de sua ausência. Vitória que me fazia guarda, era bastantes vezes obrigada a ir chamar minha querida "Mamãe", como eu lhe chamava. Quisesse Maria sair, havia de ser para ir à missa, ou então para visitar Paulina. Então, eu não falava nada...

Meu Tio e minha Tia eram igualmente muito bons para comigo. Minha boa querida Titia vinha visitar-me todos os dias, e trazia-me uma infinidade de agrados. Vinham também visitar-me outras pessoas, amigas da família. Eu, porém, suplicava à Maria lhes dissesse que não queria receber visitas. Não me era agradável "ver, em redor de minha cama, pessoas sentadas, ENFILEIRADAS, a olharem para mim como se fosse um bicho raro". A única visita que me dava prazer era a do Titio e da Titia.

Depois da doença, não poderia precisar quanto minha afeição por eles subiu de ponto. Mais do que nunca, compreendi melhor que, para nós, não se tratava de parentes comuns. Oh! o pobre de nosso Paizinho tinha muita razão em nos repetir, de vez em quando, as palavras que acabo de escrever. Mais tarde, teve prova de que não se enganara, e agora deve por certo proteger e bendizer os que lhe tributaram tão abnegadas atenções... Quanto a mim, como estou ainda no exílio, e não posso demonstrar meu reconhecimento, só disponho de um único meio para aliviar meu coração: rezar pelos parentes que estremeço, e que foram e ainda são tão bondosos para comigo!

Leônia também usava de muita bondade para comigo. Tentava distrair-me do melhor modo ao seu alcance. Eu é que algumas vezes a magoava, pois ela bem se capacitava de que, junto a mim, Maria era insubstituível... E que não fazia minha querida Celina por sua Teresa?... Em dia de domingo, em vez de sair a passeio, vinha fechar-se horas inteiras dentro de casa, ao pé de uma pobre menininha que tinha a aparência de idiota. Realmente, precisava haver amor para que se não esquivassem de mim... Ah! minhas queridas maninhas, quanto não vos fiz padecer! Ninguém, mais do que eu, vos causou tanto sofrimento, e ninguém recebeu tanto amor, quanto vós me prodigalizastes... Por sorte, terei o Céu para me desforrar. Muito rico é meu Esposo, e de seus tesouros de amor tirarei para vos retribuir, ao cêntuplo, tudo quanto sofrestes por minha causa...

Na doença, meu maior consolo, era receber carta de Paulina... Eu a lia, tornava a ler, até sabê-la de cor... Certa vez, minha querida Mãe, enviastes-me uma ampulheta e uma das minhas bonecas vestida de carmelita. Dar uma ideia de minha alegria é algo de impossível... Titio não ficou satisfeito, dizendo que, em vez de me fazerem lembrar do Carmelo, seria preciso mantê-lo longe do meu espírito. Mas, eu sentia pelo contrário, que a esperança de ser um dia carmelita, me alentava viver... Meu gosto era trabalhar para Paulina. Fazia-lhe pequenos artefactos de cartolina, e minha maior ocupação era tecer grinaldas de boninas e miosótis para a Santíssima Virgem. Estávamos no belo mês de maio. Toda a natureza se guarnecia de flores e trescalava de alegria. Só a "florzinha" é que se finava, e parecia murchar para sempre...

Sem embargo, tinha junto a si um Sol. Esse Sol era a Estátua milagrosa da Santíssima Virgem que, por duas vezes, tinha falado à Mamãe. Amiúde, sim, bem amiúde, a florzinha pendia sua corola em direção do Astro bendito... Certo dia, vi quando Papai entrou no quarto de Maria, onde eu estava acamada. Deu-lhe, com expressão de grande tristeza, várias moedas de ouro, dizendo-lhe escrevesse para Paris, mandando celebrar missas em honra de Nossa Senhora das Vitórias, para curar sua pobre filhinha. Oh! 3O como me comoveu ver a fé e o amor do meu querido Rei! Queria poder dizer-lhe que estava curada, mas já eram demais as falsas alegrias que lhe tinha preparado. Não eram, pois, meus desejos que poderiam produzir milagre, e para minha cura se fazia mister um milagre... Havia mister um milagre, e foi Nossa Senhora das Vitórias que o praticou. Num domingo (durante a novena de missas), Maria saiu para o jardim, e deixou-me com Leônia, que lia perto da janela. Ao cabo de alguns minutos, pus-me a chamar quase que à surdina: "Mamã... Mamã". Habituada a ouvir-me sempre chamar assim, Leônia não me deu atenção. Isso durou muito tempo. Então chamei mais forte, e por fim Maria voltou. Vi perfeitamente quando entrou, mas não conseguia dizer que a reconhecia, continuando a chamar cada vez mais forte: "Mamã..." Padecia muito com a luta violenta e inexplicável, e Maria talvez sofresse mais do que eu. Após baldados esforços para me mostrar que estava junto a mim, pôs-se de joelhos perto de minha cama, com Leônia e Celina. Voltando-se depois para a Santíssima Virgem, e rezando-lhe com o fervor de uma mãe que pede pela vida de sua filha, Maria alcançou o que desejava...

Por não encontrar nenhuma ajuda na terra, a coitada da Teresinha também se voltara para sua Mãe do Céu, suplicando-lhe de todo o coração, tivesse enfim piedade dela... De repente, a Santíssima Virgem me pareceu bela, tão bela, como nunca tinha visto nada tão formoso. O rosto irradiava inefável bondade e ternura, mas o que me calou no fundo da alma foi o "empolgante sorriso da Santíssima Virgem". Nesta altura, desvaneceram-se todos os meus sofrimentos. Das pálpebras me saltaram duas grossas lágrimas e deslizaram silenciosas sobre as faces. Eram lágrimas de uma alegria sem inquietação... Oh! pensei comigo, a Santíssima Virgem sorriu para mim, como sou feliz... Mas, nunca jamais o contarei a ninguém, porque então desapareceria minha felicidade. Sem nenhum esforço, baixei os olhos e enxerguei Maria que olhava para mim com amor. Parecia emocionada e dava impressão de suspeitar o valimento que a Santíssima Virgem me concedera... Oh! era exactamente a ela, às suas edificantes orações que devia a graça do sorriso da Rainha dos Céus. Quando viu meu olhar fito na Santíssima Virgem, disse de si para si: "Teresa está curada!" Sim, a florzinha ia renascer para a vida, o Raio luminoso que a reanimara, não pararia suas beneficências. Não actuou de uma só vez, mas de modo manso e agradável foi levantando e revigorando sua flor, de tal sorte que cinco anos depois ela desabrocharia na montanha do Carmelo.

Como o disse, Maria adivinhara que a Santíssima Virgem me tinha outorgado alguma graça oculta. Por isso, logo que fiquei a sós com ela, como perguntasse o que vira, não pude resistir às suas indagações, tão carinhosas e insistentes. Admirada de ver meu segredo descoberto, sem que o tivesse revelado, confiei-o em toda a sua extensão à minha querida Maria... Mas, infelizmente, como o tinha pressentido, minha felicidade ia desaparecer e redundar em amargura. Por quatro anos, a lembrança da inefável graça recebida foi para mim verdadeiro tormento espiritual. Não recuperaria minha felicidade senão aos pés de Nossa Senhora das Vitórias, quando então me foi devolvida em toda a sua plenitude... Mais tarde, tornarei a falar desta segunda graça da Santíssima Virgem.

Tenho agora que vos contar, minha Mãe querida, como minha alegria se converteu em tristeza. Depois de ter ouvido o relato ingénuo e sincero da "minha graça", Maria pediu-me autorização de comunicá-la no Carmelo, e por mim não podia dizer que não... Por ocasião de minha primeira visita ao querido Carmelo, fiquei inundada de alegria, quando vi minha Paulina com o hábito da Santíssima Virgem. Foi para nós duas, um momento muito venturoso... Havia tanta cousa por dizer, que não pude absolutamente falar nada. O coração estava cheio demais... A bondosa Madre Maria de Gonzaga ali estava também, e dava-me mil demonstrações de afecto.

Vi ainda outras freiras, diante das quais me inquiriram a respeito da graça que recebera, e quiseram saber de mim, se a Santíssima Virgem trazia ao colo o Menino Jesus, ou também se havia muita luminosidade etc. Todas essas perguntas me conturbaram e atormentaram. Só podia declarar uma cousa: "A Santíssima Virgem pareceu-me muito linda... e eu a vi sorrir para mim". Foi a sua simples figura que me impressionara, razão por que me parecia ter mentido (meus tormentos espirituais acerca de minha doença já tinham começado), ao verificar que em seu íntimo as carmelitas imaginavam cousa muito diferente...

Não padece dúvida, tivesse guardado meu segredo, teria também guardado minha felicidade, mas a Santíssima Virgem permitiu tal tormento para o bem de minha alma. Sem ele, teria talvez algum pensamento de vaidade. Quando, pelo contrário, a humilhação se tornou minha partilha, não podia considerar a mim mesma senão com sentimento de profunda aversão... Oh! só no Céu poderei revelar o quanto sofri! ...

Por falar em visitas às carmelitas, lembro-me da primeira, pouco após a entrada de Paulina. Esqueceu-me falar disto, mas trata-se de um detalhe que não posso deixar de lado. Na manhã do dia em que devia dirigir-me ao parlatório, estando a refletir sozinha na cama (pois ali fazia minhas orações mais recolhidas, e sempre encontrava meu Bem-Amado, ao contrário do que acontecia à esposa dos Cantares), perguntava-me qual seria meu nome no Carmelo. Sabia que lá existia uma Irmã Teresa de Jesus. Apesar disso, meu belo nome de Teresa não me podia ser tirado. De repente, pensei no Menino Jesus a quem tanto amava e disse para mim mesma: "Oh! Como seria feliz em ser chamada de Teresa do Menino Jesus!" Nada disse no parlatório do sonho que tivera acordada, mas essa boa Madre M. de Gonzaga, perguntando para as irmãs qual o nome que deveria usar, veio-lhe à mente chamar-me pelo nome que eu tinha sonhado... Minha alegria foi grande e esse feliz encontro de pensamento pareceu-me uma delicadeza do meu Bem-Amado Menino Jesus.

(cont.) 





29/10/2014

Terceiro mistério luminoso: o anúncio do Reino de Deus

Textos do fundador do Opus Dei sobre o terceiro mistério da luz do Santo Rosário. 

Quando Cristo inicia a sua pregação na Terra, não oferece um programa político, mas diz: fazei penitência, porque está perto o reino dos Céus. Encarrega os seus discípulos de anunciar esta boa nova e ensina a pedir, na oração, a chegada do reino, isto é o reino dos Céus e a sua justiça, uma vida santa, aquilo que temos de procurar em primeiro lugar, a única coisa verdadeiramente necessária.

A salvação pregada por Nosso Senhor Jesus Cristo é um convite dirigido a todos: o reino dos céus é semelhante a um rei, que fez as núpcias de seu filho. E mandou os seus servos chamar convidados para as núpcias. Por isso, o Senhor revela que o reino dos Céus está no meio de vós.

Ninguém se encontra excluído da salvação se adere livremente às exigências amorosas de Cristo: nascer de novo fazer-se como menino, na simplicidade de espírito; afastar o coração de tudo aquilo que aparte de Deus. Jesus quer factos; não só palavras; e um esforço, denodado, porque apenas aqueles que lutam serão merecedores da herança eterna.

A perfeição do reino – o juízo definitivo de salvação ou de condenação – não se dará na Terra. Agora o reino é como uma semente, como o crescimento do grão de mostarda. O seu fim será como a rede que apanhava toda a espécie de peixes, donde – depois de trazida para a areia – serão extraídos, para destinos diferentes, os que praticaram a justiça e os que fizeram a iniquidade. Mas, enquanto aqui vivemos, o reino assemelha-se à levedura que uma mulher tomou e misturou com três medidas de farinha, até que toda a massa ficou fermentada.

Quem compreender o reino que Cristo propõe, reconhece que vale a pena jogar tudo para o conseguir: é a pérola que o mercador adquire à custa de vender tudo o que possui, é o tesoiro encontrado no campo. O reino dos céus é uma conquista difícil e ninguém tem a certeza de o alcançar, embora o clamor humilde do homem arrependido consiga que se abram as suas portas de par em par. Um dos ladrões que foram crucificados com Jesus suplica-Lhe: Senhor, lembra-te de mim, quando entrares no teu reino. E Jesus disse-lhe: Em verdade te digo: Hoje estarás comigo no paraíso. (Cristo que passa, 180)

O reino dos céus alcança-se com violência, e os violentos arrebatam-no. Essa força não se manifesta na violência contra os outros; é fortaleza para combater as próprias debilidades e misérias, valentia para não mascarar as nossas infidelidades, audácia para confessar a fé, mesmo quando o ambiente é contrário. (Cristo que passa, 82)

No meio das ocupações de cada jornada, no momento de vencer a tendência para o egoísmo, ao sentir a alegria da amizade com os outros homens, em todos esses instantes o cristão deve reencontrar Deus. Por Cristo e no Espírito Santo, o cristão tem acesso à intimidade de Deus Pai, e percorre o seu caminho buscando esse reino, que não é deste mundo, mas que neste mundo se inicia e prepara. (Cristo que passa, 116)

Enquanto esperamos o regresso do Senhor que voltará a tomar posse plena do seu Reino, não podemos estar de braços cruzados. A extensão do Reino de Deus não é só tarefa oficial dos membros da Igreja que representam Cristo, por d'Ele terem recebido os poderes sagrados. Vos autem estis corpus Christi, vós também sois Corpo de Cristo, ensina-nos o Apóstolo, com o mandato concreto de negociar até ao fim. (Cristo que passa, 121)

Desde a nossa primeira decisão consciente de viver integralmente a doutrina de Cristo, é certo que avançámos muito pelo caminho da fidelidade à sua Palavra. Mas não é verdade que restam ainda tantas coisas por fazer? Não é verdade que resta, sobretudo, tanta soberba? É precisa, sem dúvida, uma outra mudança, uma lealdade maior, uma humildade mais profunda, de modo, que, diminuindo o nosso egoísmo, cresça em nós Cristo, pois illum oportet crescere, me autem minui, é preciso que Ele cresça e que eu diminua.

Não é possível deixar-se ficar imóvel. É necessário avançar para a meta que S. Paulo apontava: não sou eu quem vive; é Cristo que vive em mim. A ambição é alta e nobilíssima: a identificação com Cristo, a santidade. Mas não há outro caminho, se se deseja ser coerente com a vida divina que, pelo Baptismo, Deus fez nascer nas nossas almas. O avanço é o progresso na santidade; o retrocesso é negar-se ao desenvolvimento normal da vida cristã. Porque o fogo do amor de Deus precisa de ser alimentado, de aumentar todos os dias arreigando-se na alma; e o fogo mantém-se vivo queimando novas coisas. Por isso, se não aumenta, está a caminho de se extinguir.

Recordai as palavras de Santo Agostinho: Se disseres basta, estás perdido. Procura sempre mais, caminha sempre, progride sempre. Não permaneças no mesmo sítio, não retrocedas, não te desvies.


A Quaresma coloca-nos agora perante estas perguntas fundamentais: Avanço na minha fidelidade a Cristo? Em desejos de santidade? Em generosidade apostólica na minha vida diária, no meu trabalho quotidiano entre os meus companheiros de profissão? (Cristo que passa, 58)

«Dou-vos a minha paz»

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Confesso que estou cansado! Mais do que cansado, estou farto!
Um Cardeal, um Bispo, o próprio Papa não podem emitir uma opinião, que não venha logo alguém, escalpelizar, interpretar, retorcer e distorcer a seu belo prazer o que o senhor em questão possa ter dito.

E depois as “notícias”, (conforme o que lhes interessa), lá vão rotulando e adjectivando os intervenientes, como progressistas, conservadores, tradicionalistas, liberais, procurando argumentar da veracidade da opinião de cada um, com coisas tão “palpáveis” e “verdadeiras” como: “muito próximo do Papa Francisco”, “colaborador de Bento XVI”, “teólogo mais importante”, “teólogo mais profundo”, “profundo conhecedor dos Evangelhos”, etc., etc.
E paulatinamente vai-se instalando a zizânia, a divisão, vão-se extremando campos, vão-se “comprando” guerras doutrinais, pastorais, etc., e a oração, (a meu ver), vai ficando cada vez mais para trás.

E então veio ao meu coração este versículo do Evangelho de São João: «Deixo-vos a paz; dou-vos a minha paz. Não é como a dá o mundo, que Eu vo-la dou. Não se perturbe o vosso coração nem se acobarde.» Jo 14, 27
Não andaremos nós à procura da paz do mundo?
Ou seja, não andaremos nós à procura de satisfazer o mundo em detrimento do que Jesus nos ensinou?

Nesse mesmo capítulo também Jesus nos diz: «Se me tendes amor, cumprireis os meus mandamentos» Jo 14, 15 e ainda «o Espírito da Verdade, que o mundo não pode receber, porque não o vê nem o conhece» Jo 14, 17
Mas andaremos nós à procura de cumprir os mandamentos, ou apenas à procura de fazer as nossas vontades e aquilo que achamos melhor para o mundo?

Curioso que este capítulo termina da seguinte forma: «Já não falarei muito convosco, pois está a chegar o dominador deste mundo; ele nada pode contra mim, mas o mundo tem de saber que Eu amo o Pai e actuo como o Pai me mandou. Levantai-vos, vamo-nos daqui!» Jo 14, 30-31

Cada vez mais … me interessam menos as notícias sobre a Igreja, o Sínodo, etc., veiculadas pela comunicação social em geral.

Cada vez mais … me interessa mais amar e rezar, rezar e amar, amar rezando e rezar amando!


Marinha Grande, 22 de Outubro de 2014
Joaquim Mexia Alves
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Obediência



A obediência torna meritórios os nossos actos e sofrimentos, de tal modo que, inúteis que estes últimos possam parecer, podem chegar a ser muito fecundos. Uma das maravilhas realizadas por Nosso Senhor é ter feito com que se tornasse proveitosa a coisa mais inútil, como é a dor. Ele glorificou-a mediante a obediência e o amor.


(R. GARRIGOU-LAGRANGE Las três edades de la vida interior vol. II nr. 683, trad ama)

Tratado do verbo encarnado 14

Questão 2: Do modo da união do Verbo Encarnado

Art. 8 — Se união e assunção se identificam.

O oitavo discute-se assim. — Parece que união e assunção se identificam.

1. — Pois, as relações, como os movimentos, especificam-se pelo termo. Ora, os termos da assunção e da união são idênticos, isto é, são a divina hipóstase. Logo, parece que não diferem a união e a assunção.

2. Demais. — Parece que no mistério da Encarnação se identificam o que une e o que assume, o unido e o assumido. Ora, a união e a assunção resulta da acção e da paixão do que une e do unido, do que assume e do assumido. Logo, parece se identificarem a união e a assunção.

3. Demais. — Damasceno diz: Uma coisa é a união e outra, a encarnação, Pois, a união significa só a conjunção, mas não indica com o que é feita esta. Mas, a encarnação e a humanidade determinam com o que se faz a conjunção. Ora, semelhantemente, a assunção não determina com o que se faz a conjunção. Logo, parecem idênticos a união e a assunção.

Mas, em contrário, dizemos que a natureza divina foi unida e não, assumida.

Como dissemos, a união importa relação da natureza divina e da humana, enquanto convêm numa mesma pessoa. Ora, toda relação com um começo temporal é causada por alguma mudança. Ora, a mudança consiste na acção e na paixão. Donde devemos concluir, que a primeira e principal diferença entre a assunção e a união é que a união implica a relação em si mesma, ao passo que a assunção implica a acção que faz alguém assumir, ou a paixão que torna alguma coisa assumida. - E desta diferença se deduz, em segundo lugar, uma outra. Pois, a assunção significa um como vir-a-ser, ao passo que a união exprime o que já é como feito. Por isso, considera-se o que une como o unido, mas não dizemos ser o que assume, o assumido. Ora, a natureza humana é significada como o termo da assunção relativamente à hipóstase divina, pelo ser chamado homem, por isso verdadeiramente dizemos que o Filho de Deus, que se uniu a si a natureza humana, é homem. Mas, a natureza humana em si mesmo considerada, isto é, em abstrato, é significada como assumida, assim, não dizemos que o Filho de Deus seja a natureza humana. - E daí mesmo resulta uma terceira diferença a saber, a relação, sobretudo a de equiparação, não se relaciona mais com um extremo do que com outro, ao passo que a acção e a paixão se relacionam diversamente com o agente e o paciente e com os termos diversos. Por onde, a assunção determina o termo origem (a quo) e o de chegada (ad quem), pois, a assunção significa, em latim, quase ab alio ad se sumptio (acto de assumir outra coisa para si). Ao passo que a união nada disso determina, por isso dizemos indiferentemente que a natureza humana está unida à divina inversamente. Pois, não dizemos que a natureza divina foi assumida pela humana, mas ao inverso, que a natureza humana foi adjunta à personalidade divina, isto é, de modo que a pessoa divina subsista em a natureza humana.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJECÇÃO. — A união e a assunção não se relacionam do mesmo modo com o termo, mas diversamente, como dissemos.

RESPOSTA À SEGUNDA. — O que une e o que assume não são absolutamente o mesmo. Assim, toda pessoa que assume, une, mas não inversamente. Pois, a pessoa do Pai uniu a natureza humana ao Filho, mas não a si, por isso dizemos que une, mas não que assume. E semelhantemente, não se identifica o unido com o assumido, assim, dizemos que a natureza divina é unida, mas não, assumida.

RESPOSTA À TERCEIRA. — A assunção determina com o que foi feita a conjunção por parte de quem assumiu, pois, assunção em latim (assumptio) significa quase ad se sumptio, mas a encarnação e a humanidade determinam relativamente ao assumido, que é a carne ou a natureza humana. Por onde, a assunção difere, logicamente, da união e da encarnação ou humanidade,

Nota: Revisão da versão portuguesa por ama.


Evangelho diário, coment., leit. espiritual (História de uma alma)

Tempo comum XXX Semana

Evangelho: Lc 13 22-30

22 Ia pelas cidades e aldeias ensinando, e caminhando para Jerusalém. 23 Alguém Lhe perguntou: «Senhor, são poucos os que se salvam?». Ele respondeu-lhes: 24 «Esforçai-vos por entrar pela porta estreita, porque vos digo que muitos procurarão entrar e não conseguirão. 25 Quando o pai de família tiver entrado e fechado a porta, vós, estando fora, começareis a bater à porta, dizendo: Senhor, abre-nos. Ele vos responderá: Não sei donde sois. 26 Então começareis a dizer: Comemos e bebemos em tua presença, tu ensinaste nas nossas praças. 27 Ele vos dirá: Não sei donde sois; “afastai-vos de mim vós todos os que praticais a iniquidade”. 28 Ali haverá choro e ranger de dentes, quando virdes Abraão, Isaac, Jacob, e todos os profetas no reino de Deus, e vós serdes expulsos para fora. 29 Virão muitos do Oriente e do Ocidente, do Norte e do Sul, e se sentarão à mesa do reino de Deus. 30 Então haverá últimos que serão os primeiros, e primeiros que serão os últimos».

Comentário

Com palavras minhas, retiro da pregação do P. Jesus Gomez Pablos, na recolecção de hoje, a ‘explicação’ do versículo 30:
Ser o ‘primeiro’ quer dizer servir como se fosse o último.
O serviço aos outros, empenhado, amigo, solidário, coloca-nos em primeiro lugar aos olhos de Deus.

(ama, comentário sobre Lc 13, 22-30, 2013.08.25)


Leitura espiritual

HISTÓRIA DE UMA ALMA


Santa Teresinha do Menino Jesus

Manuscrito "A" - Parte II

…/2

Tinha meus oito anos e meio, quando Leônia deixou o internato, e tomei o lugar dela na Abadia. Ouvi dizer, muitas vezes, que o tempo passado em colégio é o melhor e o mais doce da vida. Para mim, não foi assim. Os cinco anos que ali passei foram os mais tristonhos da minha vida. Não tivesse comigo minha querida Celina, ali não poderia ter ficado um mês sequer, sem cair doente... A pobre florzinha estava habituada a lançar suas débeis raízes em terra de escol, feita sob medida para ela. Parecia-lhe, também, muito desagradável viver entre flores de toda espécie, com raízes frequentemente pouco delicadas, e ver-se na obrigação de procurar em terra comum a seiva necessária para sua subsistência! ...

Vós, porém, me instruístes tão bem, minha querida Mãe, que chegando ao internato era a mais adiantada das crianças de minha idade. Entrei em classe de alunas todas superiores a mim em tamanho. Uma delas, com seus 13 a 14 anos, era pouco inteligente, mas sabia, contudo, impor-se às colegas e às próprias mestras. Vendo-me tão nova, quase sempre a primeira da classe e estimada de todas as religiosas, sentiu por certo inveja, cousa muito perdoável em aluna interna, e fez-me pagar de mil modos os meus pequenos bons êxitos...

Com minha índole tímida e delicada, não sabia como defender-me e limitava-me a chorar sem dizer nada, não me queixando, nem sequer a vós, daquilo que padecia. Não tinha, contudo, bastante virtude para me sobrepor a tais misérias da vida, e meu pobre coraçãozinho sofria deveras. ... Por sorte minha, todas as tardes retornava ao lar paterno, e então meu coração expandia-se. Pulava aos joelhos do meu Rei, a quem dizia as notas que tinha recebido, e o seu beijo fazia-me esquecer todas as minhas mágoas... Com que alvoroço não anunciei o resultado de minha primeira composição (composição de História Sagrada). Faltou-me um só ponto para a nota máxima, pois não soubera o nome do pai de Moisés. Era, portanto, a primeira e tirei uma bela condecoração de prata. Papai deu-me em recompensa uma linda moedinha de quatro soldos. Coloquei-a num estojo que ficou destinado a receber nova moeda, sempre da mesma importância, quase todas as quinta-feiras... (Do mesmo estojo ia tirar, quando em algumas festas queria contribuir do meu bolso na coleta de esmolas, quer para a propagação da fé, quer para outras obras congêneres). Encantada com o bom êxito de sua pupila, Paulina deu-lhe de presente um lindo arco de brincar, com o fito de encorajá-la a continuar bem estudiosa. A pobrezinha tinha real necessidade das alegrias de família, sem as quais a vida de colégio lhe seria árdua demais.

Quinta-feira de tarde, não havia aulas. Não era, porém, como as folgas dadas por Paulina. Não ficava no mirante com Papai. Tinha que brincar, não com minha Celina, o que me agradava, quando sozinha com ela, mas em companhia de minhas priminhas e das meninas Maudelonde. Era para mim verdadeira mortificação, pois não sabia brincar, como as demais crianças. Não era companheira agradável. No entanto, sem o conseguir, fazia todo o meu possível para imitar as outras. Sentia muito tédio, principalmente quando tinha que passar toda a tarde a dançar quadrilhas. A única cousa do meu gosto era ir ao Jardim da Estrela. Então, eu era a primeira em tudo, colhendo muitas flores, e, por saber encontrar as mais bonitas, provocava a inveja de minhas coleguinhas...

O que também me agradava, era ficar por acaso a sós com Mariazinha. Por já não contar com Celina Maudelonde que a levava a jogos comuns, deixava-me livre escolha, e eu escolhia então um jogo inteiramente novo. Maria e Teresa passam a ser duas solitárias, que não dispunham senão de uma mísera choupana, de um pequeno trigal, e de alguns legumes para cultivar. A vida delas corria numa contemplação contínua; quer dizer, uma das solitárias substituía a outra na oração quando era preciso cuidar da vida ativa. Tudo se fazia num acordo, num silêncio, em moldes tão religiosos, que raiava à perfeição. Quando titia vinha buscar-nos a passeio, nosso jogo continuava até na rua. As duas solitárias rezavam juntas o terço, valendo-se dos dedos, a fim de não exibir sua devoção ao público indiscreto. Um dia, entretanto, a mais jovem solitária distraiu-se. Tendo recebido um bolo para o lanche, antes de comer fez um grande sinal-da-cruz, o que provocou o riso de todos os profanos do século...

Maria e eu tínhamos sempre os mesmos palpites. Os próprios gostos afinavam-se tão harmoniosamente que, certa vez, nossa união de vontades passou da conta. Ao voltarmos uma tarde da Abadia, disse à Maria: "Conduze-me, que vou fechar os olhos". - "Eu também quero fechá-los", respondeu-me. Dito e feito. Sem discutir, cada qual pôs em obra sua vontade... Estávamos na calçada, não havíamos de temer os carros. Depois de passear assim por alguns minutos, tendo apreciado as delícias de andar sem ver, as duas tontinhas caíram juntas sobre umas caixas colocadas à porta de uma loja. Melhor, derrubaram-nas. Muito encolerizado, saiu o negociante para pegar sua mercadoria. As duas ceguinhas voluntárias se levantaram por si mesmas em boas condições, e corriam a passos largos, com olhos esbugalhados, enquanto ouviam as justas reprimendas de Joana, que ficara tão zangada quanto o negociante!... Por isso, para nos punir, resolveu separar-nos uma da outra. E daquele dia em diante Maria e Celina iam juntas, enquanto eu caminhava com Joana. Isto pôs fim à nossa grande união de vontade. Não foi um mal para as mais velhas, que nunca entravam em acordo e discutiam durante todo o trajeto do caminho. Desta forma a paz foi completa.

Nada disse ainda a respeito do meu relacionamento íntimo com Celina. Oh! se fosse preciso narrar tudo, não acabaria nunca...

Em Lisieux, inverteram-se os papéis. Celina tornara-se uma criança terrivelmente arteira e buliçosa, enquanto Teresa já não passava de uma menininha muito tratável, mas choramingas a mais não poder... Isto não impedia que Celina e Teresa crescessem cada vez mais em sua mútua afeição. De vez em quando, havia algumas pequenas discussões, sem maiores consequências, e no fundo elas sempre se entendiam. Posso afiançar que minha querida maninha jamais me causou desgosto, mas foi para comigo como que um raio de sol, sempre a alegrar-me e a consolar-me... Quem descreveria a intrepidez com que tomava minha defesa na Abadia, quando me acusavam?... Tão grande era seu cuidado pela minha saúde, que por vezes me importunava. O que não me enfadava era observá-la, quando brincava. Punha em certa ordem todo o magote de nossas bonequinhas, e dava-lhes aula como uma mestra competente. Só que dava um jeito de serem suas filhas sempre bem comportadas, enquanto que as minhas eram, muitas vezes, expulsas da classe, por mau comportamento... Falava-me de todas as cousas novas que vinha aprendendo na classe, o que muito me entretinha, considerando-a um poço de ciência.

Haviam-me apelidado "filhinha de Celina". Por isso, quando ela estava descontente comigo, seu maior sinal de aborrecimento era declarar-me: "Já não és minha filhinha. Acabou-se. Disso nunca esquecerei. . . " Então só me restava chorar como Madalena, suplicando-lhe ainda me considerasse sua filhinha. Logo me abraçava e prometia-me de já não se lembrar de nada... Para me consolar, tomava uma de suas bonecas e dizia-lhe: "Minha querida, dá um abraço em tua tia". Certa ocasião, a boneca foi tão ardorosa em abraçar-me com carinho, que me enfiou os dois bracinhos pelo nariz... Celina, que não o fizera de caso pensado, olhava espantada... para mim com a boneca suspensa ao nariz. A tia não levou muito tempo em se desfazer dos abraços por demais carinhosos de sua sobrinha, e desatou a rir, gostosamente, de tão singular aventura.

O mais divertido era ver-nos comprar juntas os nossos presentes de boas-festas no bazar. Cuidávamos de ficar escondidas uma da outra. Dispondo de 10 soldos para gastar, precisávamos pelo menos de 5 ou 6 objetos diferentes, e tratava-se de ver quem compraria as cousas mais bonitas. Encantadas com nossas aquisições, aguardávamos com impaciência o primeiro dia do ano, a fim de oferecermos, uma à outra, nossos grandiosos presentes. Quem acordasse antes da outra, apressava-se em lhe desejar feliz ano novo, e logo nos dávamos uma à outra os presentes de boas-festas. Cada qual de nós ficava extasiada com as preciosidades, que se vendiam por 10 soldos!...

Estes mimos nos causavam quase tanto prazer quanto os lindos presentes de boas-festas que vinham de Titio. Isto, aliás, era apenas o começo das alegrias.. Naquele dia, vestíamo-nos num instante, e cada qual se punha à espreita para saltar ao pescoço de Papai. Logo que ele saísse do quarto, eram gritos de alegria por toda a casa, e nosso bom Paizinho mostrava-se feliz por nos ver tão contentes ... Os presentes de boas festas que Maria e Paulina davam às suas filhinhas, não eram de grande valor, mas também lhes proporcionavam grande alegria... Oh! naquela idade não éramos enfaradas. Nossa alma expandia-se em toda a sua frescura, como uma flor que é feliz por receber o orvalho da manhã... a mesma aragem balouçava nossas corolas, e o que para uma fosse motivo de alegria ou de mágoa, sê-lo-ia ao mesmo tempo também para a outra. Com efeito, nossas alegrias eram em comum. Bem o percebi no belo dia da primeira Comunhão de minha querida Celina. Só tendo sete anos, ainda não frequentava a Abadia, mas conservei no coração a gratíssima lembrança da preparação que vós, minha querida Mãe, ministrastes à Celina. Todas as tardes, vós a tomáveis aos joelhos, e com ela conversáveis sobre o grande ato que ia praticar. Eu cá escutava, muito desejosa de preparar-me também, mas frequentemente me dizíeis que fosse embora, por ser ainda muito pequena. Sentia então um desgosto muito grande, pensando comigo que quatro anos não eram demais como preparação para receber o Bom Deus...

Uma noite, escutei-vos falar que, feita a primeira Comunhão, se devia começar vida nova. Resolvi, imediatamente, a não esperar por esse dia, mas começá-la ao mesmo tempo que Celina... Nunca sentira tanto que a amava, como vim a senti-lo durante seu retiro de três dias. Pela primeira vez na vida, estava longe dela e não dormia em sua cama... No primeiro dia, esquecida de que não ia voltar, guardei uma mão-cheia de cerejas para as comer com ela. Quando percebi que não chegava, fiquei muito pesarosa. Papai consolou-me com a declaração de que no dia seguinte me levaria até a Abadia para visitar minha Celina, e que eu lhe daria outra mão-cheia de cerejas! ... O dia da Primeira Comunhão de Celina deixou-me uma impressão semelhante à que tive na minha própria. Ao despertar de manhã, sozinha, na cama grande, senti-me inundada de alegria. "É hoje! ... Chegou o grande dia..." Não me cansava de repetir estas palavras. Parecia-me que era eu quem ia fazer minha Primeira Comunhão. Creio ter recebido grandes graças nesse dia, e considero-o como um dos mais belos de minha vida...

Voltei um pouco a fim de recordar essa deliciosa e suave passagem. Devo, agora, falar da dolorosa provação que veio partir o coração de Teresinha, quando Jesus lhe arrebatou a querida mamãe, a sua Paulina, tão afectuosamente amada! ...

Um dia dissera à Paulina que queria ser solitária, partir com ela para um deserto longínquo. Deu-me por resposta que meu desejo era também o seu, e que esperaria até que eu fosse bastante grande para a partida. Isto, sem dúvida, não fora dito seriamente, mas Teresinha tinha-o levado a sério. Por conseguinte, qual não foi sua dor ao ouvir, um dia, sua querida Paulina falar com Maria de sua próxima entrada no Carmelo... Não sabia o que era Carmelo, mas entendia que Paulina me deixaria para entrar em convento. Entendia que não esperaria por mim, e que eu perderia minha segunda Mãe! ... Oh! Como descrever a angústia do meu coração?... Compreendi num instante o que era a vida. Até ali não a tinha visto tão tristonha, mas então se me deparou em toda a sua realidade. Vi que não era senão sofrimento e separação contínua. Bem amargas as lágrimas que derramei, pois ainda não compreendia o gozo do sacrifício. Era fraca, tão fraca, que tomo por grande graça ter podido suportar uma provação que parecia colocar-se muito acima de minhas forças... Se ficasse sabendo, aos poucos, da partida de minha querida Paulina, talvez meu sofrimento não fora tanto. Mas, tê-lo sabido de surpresa foi como se uma espada se me cravasse no coração.

Sempre me lembrarei, minha querida Mãe, com que ternura me consolastes. Depois, explicastes-me a vida do Carmelo, que me pareceu muito bonita! Rememorando tudo o que me dissestes, senti dentro de mim ser o Carmelo o deserto onde o Bom Deus queria que fosse também esconder-me... Senti-o com tanta veemência que não tive a mínima dúvida no coração. Não era um devaneio de criança que se deixa levar, mas a certeza de um chamado divino. Queria eu ir para o Carmelo, não por causa de Paulina, mas por Jesus tão-somente... Pensei muitas coisas que se não podem exprimir por palavras, mas que me deixaram grande paz na alma...

No dia seguinte, confiei meu segredo à Paulina. Tomando meus desejos como vontade do Céu, disse-me que eu iria logo com ela visitar a Madre Priora do Carmelo, e precisava dizer-lhe o que o Bom Deus me fazia sentir ... Escolheu-se um domingo para a solene visita. Grande foi meu acanhamento, ao saber que Maria G. ficaria junto a mim, por ser eu muito pequena para visitar as Carmelitas. Entretanto, precisava descobrir um meio de estar sozinha. Eis a ideia que me ocorreu. Disse à Maria que, tendo o privilégio de visitar a Madre Priora, devíamos ser muito atenciosas e delicadas. Por isso, tínhamos de confiar-lhe nossos segredos. Portanto, cada qual, por sua vez, sairia um instante e deixaria a outra sozinha. Maria acreditou no que eu dizia, e a despeito de sua relutância em confiar segredos que não possuía, permanecemos, uma após outra, sozinha junto à nossa Madre. Tendo ouvido minhas grandes confidências, essa boa Madre acreditou em minha vocação. Declarou-me, todavia, que não eram recebidas postulantes de nove anos, e seria preciso aguardar meus dezasseis anos... Resignei-me, não obstante meu vivo desejo de entrar o mais cedo possível, e de fazer minha Primeira Comunhão no dia que Paulina tomasse o hábito... No mesmo dia, pela segunda vez, recebi louvores. Tinha vindo ver-me a Irmã Teresa de Santo Agostinho e não cansava de repetir que eu era engraçadinha... Minha intenção não era ir ao Carmelo para receber elogios, por isso, depois de sair, não parava de repetir ao Bom Deus que era única e exclusivamente por Ele que queria ser carmelita.

Procurei aproveitar bastante da minha Paulina querida durante as poucas semanas que ainda ficou no mundo. Todos os dias, Celina e eu comprávamos para ela, bolo e bombons, pensando que dentro em pouco já não os comeria. Estávamos sempre ao seu lado, e não lhe dávamos um minuto de sossego. Chegou, afinal, o dia 2 de Outubro, dia de lágrimas e de bênçãos, quando Jesus colheu a primeira de suas flores, que devia ser a mãe daquelas que poucos anos depois viriam unir-se de novo a ela.

Vejo ainda o lugar, onde recebi o derradeiro beijo de Paulina. Em seguida, Titia levou-nos todas para a missa, enquanto Papai subia a montanha do Carmelo para oferecer seu primeiro sacrifício... Toda a família se debulhava em lágrimas, de sorte que as pessoas, vendo-nos entrar na igreja, olhavam-nos com espanto. Mas isto importava-me pouco e não me impedia de chorar. Creio que, se tudo desmoronasse em redor de mim, não teria tomado nenhum conhecimento. Contemplava o belo céu azul, e ficava surpresa de que o Sol luzisse com tanto esplendor, enquanto minha alma submergia em tristeza!...

(cont.)