Padroeiros do blog: SÃO PAULO; SÃO TOMÁS DE AQUINO; SÃO FILIPE DE NÉRI; SÃO JOSEMARIA ESCRIVÁ
17/03/2014
Evangelho do dia e comentário
| Tempo de Quaresma Semana II |
36 Sede
misericordiosos, como também vosso Pai é misericordioso. 37 Não
julgueis e não sereis julgados; não condeneis e não sereis condenados; perdoai
e sereis perdoados; 38 dai e dar-se-vos-á. Uma medida boa, cheia,
recalcada e a transbordar vos será lançada nas dobras do vosso vestido. Porque,
com a mesma medida com que medirdes para os outros, será medido para vós».
Comentário:
Assustam um pouco estas recomendações de Jesus
Cristo?
É natural, sobretudo pela “chave” final do
texto!
No fim e ao cabo este é um caminho de
perfeição, de santidade e, ser perfeito, ser santo, é uma meta tão altamente
colocada que toda uma vida de esforço contínuo e sem descanso não é demais.
Mas como sabemos que a Deus nada é impossível,
confiemos que, pondo nós o que nos cabe pôr – tudo quanto pudermos – o Senhor
porá o resto que faltar para que se complete a “medida”.
(ama, comentário sobre Lc 6, 36-38, 2013.02.25)
Leitura espiritual para Mar 17
A leitura tem feito muitos santos.
(S. josemaria, Caminho 116)
Está aconselhada a leitura espiritual diária de mais ou menos 15 minutos. Além da leitura do novo testamento, (seguiu-se o esquema usado por P. M. Martinez em “NOVO TESTAMENTO” Editorial A. O. - Braga) devem usar-se textos devidamente aprovados. Não deve ser leitura apressada, para “cumprir horário”, mas com vagar, meditando, para que o que lemos seja alimento para a nossa alma.
Evangelho: Lc 9, 23-43
23 Depois, dirigindo-Se a todos disse: «Se alguém quer vir
após Mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz todos os dias, e siga-Me. 24
Porque quem quiser salvar a sua vida, a perderá; e quem perder a sua vida por
causa de Mim, salvá-la-á. 25 Que aproveita ao homem ganhar todo o
mundo, se se perde a si mesmo ou se faz dano a si? 26 Porque quem se
envergonhar de Mim e das Minhas palavras, também o Filho do Homem se
envergonhará dele, quando vier na Sua majestade e na de Seu Pai e dos santos
anjos. 27 Digo-vos em verdade que estão aqui alguns presentes que
não morrerão sem que vejam o reino de Deus». 28 Cerca de oito dias
depois destas palavras, tomou consigo Pedro, Tiago e João, e subiu a um monte
para orar. 29 Enquanto orava modificou-Se o aspecto do Seu rosto, e
as Suas vestes tornaram-se brancas e resplandecentes. 30 E eis que
dois homens falavam com Ele: Moisés e Elias, 31 os quais apareceram
cheios de majestade, e falavam da morte que Ele devia sofrer em Jerusalém. 32
Entretanto, Pedro e os que estavam com ele tinham-se deixado vencer pelo sono.
Mas despertando, viram a majestade de Jesus e os dois varões que estavam com
Ele. 33 Enquanto estes se separavam d'Ele, Pedro que não sabia o que
dizia, disse a Jesus: «Mestre, que bom é nós estarmos aqui; façamos três
tendas, uma para Ti, uma para Moisés, e uma para Elias». 34 Estando
ele ainda a falar, formou-se uma nuvem, que os envolveu; e tiveram medo quando
entraram na nuvem. 35 Então saiu uma voz da nuvem que dizia: «Este é
o Meu Filho dilecto, escutai-O».36 Ao soar aquela voz, Jesus ficou
só. Eles calaram-se, e naqueles dias a ninguém disseram nada do que tinham
visto. 37 Sucedeu no dia seguinte que, ao descer eles do monte, lhes
saiu ao encontro uma grande multidão. 38 E eis que um homem do meio
da multidão clamou: «Mestre, peço-Te que olhes para o meu filho, porque é o
único que tenho. 39 Um espírito maligno apodera-se dele e
subitamente dá gritos, lança-o por terra, agita-o com violência, fazendo-o
espumar, e só o larga depois de o ter dilacerado. 40 Pedi aos Teus
discípulos que o expulsassem, mas não puderam». 41 Jesus respondeu:
«Ó geração incrédula e perversa! Até quando estarei convosco e vos suportarei?
Traz cá o teu filho». 42 Quando este se aproximava, o demónio
lançou-o por terra e agitou-o com violência. Mas Jesus ameaçou o espírito
imundo, curou o menino, e restituiu-o ao pai. 43 E todos se
admiravam da grandeza de Deus.
EXORTAÇÃO APOSTÓLICA
EVANGELII GAUDIUM
DO SANTO PADRE FRANCISCO
AO EPISCOPADO, AO CLERO ÀS PESSOAS CONSAGRADAS E AOS
FIÉIS LEIGOS
SOBRE
O ANÚNCIO DO EVANGELHO NO MUNDO ACTUAL
Capítulo
IV
A DIMENSÃO SOCIAL DA
EVANGELIZAÇÃO
IV. O diálogo social como
contribuição para a paz
O
diálogo social num contexto de liberdade religiosa
255.
Os Padres sinodais lembraram a importância do respeito pela liberdade
religiosa, considerada um direito humano fundamental. 202 Inclui «a
liberdade de escolher a religião que se crê ser verdadeira e de manifestar
publicamente a própria crença». 203 Um pluralismo são, que respeite
verdadeiramente aqueles que pensam diferente e os valorizem como tais, não
implica uma privatização das religiões, com a pretensão de as reduzir ao silêncio
e à obscuridade da consciência de cada um ou à sua marginalização no recinto
fechado das igrejas, sinagogas ou mesquitas. Tratar-se-ia, em definitivo, de
uma nova forma de discriminação e autoritarismo. O respeito devido às minorias
de agnósticos ou de não-crentes não se deve impor de maneira arbitrária que
silencie as convicções de maiorias crentes ou ignore a riqueza das tradições
religiosas. No fundo, isso fomentaria mais o ressentimento do que a tolerância
e a paz.
256.
Ao questionar-se sobre a incidência pública da religião, é preciso distinguir
diferentes modos de a viver. Tanto os intelectuais como os jornalistas caem,
frequentemente, em generalizações grosseiras e pouco académicas, quando falam
dos defeitos das religiões e, muitas vezes, não são capazes de distinguir que
nem todos os crentes – nem todos os líderes religiosos – são iguais. Alguns
políticos aproveitam esta confusão para justificar acções discriminatórias.
Outras vezes, desprezam-se os escritos que surgiram no âmbito duma convicção
crente, esquecendo que os textos religiosos clássicos podem oferecer um
significado para todas as épocas, possuem uma força motivadora que abre sempre
novos horizontes, estimula o pensamento, engrandece a mente e a sensibilidade.
São desprezados pela miopia dos racionalismos. Será razoável e inteligente
relegá-los para a obscuridade, só porque nasceram no contexto duma crença
religiosa? Contêm princípios profundamente humanistas que possuem um valor
racional, apesar de estarem permeados de símbolos e doutrinas religiosos.
257.
Como crentes, sentimo-nos próximo também de todos aqueles que, não se
reconhecendo parte de qualquer tradição religiosa, buscam sinceramente a
verdade, a bondade e a beleza, que, para nós, têm a sua máxima expressão e a
sua fonte em Deus. Sentimo-los como preciosos aliados no compromisso pela
defesa da dignidade humana, na construção duma convivência pacífica entre os
povos e na guarda da criação. Um espaço peculiar é o dos chamados novos
Areópagos, como o «Átrio dos Gentios», onde «crentes e não-crentes podem
dialogar sobre os temas fundamentais da ética, da arte e da ciência, e sobre a
busca da transcendência». 204 Também este é um caminho de paz para o
nosso mundo ferido.
258.
A partir de alguns temas sociais, importantes para o futuro da humanidade,
procurei explicitar uma vez mais a incontornável dimensão social do anúncio do
Evangelho, para encorajar todos os cristãos a manifestá-la sempre nas suas
palavras, atitudes e acções.
Capítulo
V
EVANGELIZADORES COM
ESPÍRITO
259.
Evangelizadores com espírito quer dizer evangelizadores que se abrem sem medo à
acção do Espírito Santo. No Pentecostes, o Espírito faz os Apóstolos saírem de
si mesmos e transforma-os em anunciadores das maravilhas de Deus, que cada um
começa a entender na própria língua. Além disso, o Espírito Santo infunde a
força para anunciar a novidade do Evangelho com ousadia (parresia), em voz alta
e em todo o tempo e lugar, mesmo contra-corrente. Invoquemo-Lo hoje, bem
apoiados na oração, sem a qual toda a acção corre o risco de ficar vã e o
anúncio, no fim de contas, carece de alma. Jesus quer evangelizadores que
anunciem a Boa Nova, não só com palavras mas sobretudo com uma vida
transfigurada pela presença de Deus.
260.
Neste último capítulo, não vou oferecer uma síntese da espiritualidade cristã,
nem desenvolverei grandes temas como a oração, a adoração eucarística ou a
celebração da fé, sobre os quais já possuímos preciosos textos do Magistério e
escritos célebres de grandes autores. Não pretendo substituir nem superar tanta
riqueza. Limitar-me-ei simplesmente a propor algumas reflexões acerca do
espírito da nova evangelização.
261.
Quando se diz de uma realidade que tem «espírito», indica-se habitualmente uma
moção interior que impele, motiva, encoraja e dá sentido à acção pessoal e
comunitária. Uma evangelização com espírito é muito diferente de um conjunto de
tarefas vividas como uma obrigação pesada, que quase não se tolera ou se
suporta como algo que contradiz as nossas próprias inclinações e desejos. Como
gostaria de encontrar palavras para encorajar uma estação evangelizadora mais
ardorosa, alegre, generosa, ousada, cheia de amor até ao fim e feita de vida
contagiante! Mas sei que nenhuma motivação será suficiente, se não arde nos
corações o fogo do Espírito. Em suma, uma evangelização com espírito é uma
evangelização com o Espírito Santo, já que Ele é a alma da Igreja
evangelizadora. Antes de propor algumas motivações e sugestões espirituais,
invoco uma vez mais o Espírito Santo; peço-Lhe que venha renovar, sacudir,
impelir a Igreja numa decidida saída para fora de si mesma a fim de evangelizar
todos os povos.
I.
Motivações para um renovado impulso missionário
262.Evangelizadores
com espírito quer dizer evangelizadores que rezam e trabalham. Do ponto de
vista da evangelização, não servem as propostas místicas desprovidas de um
vigoroso compromisso social e missionário, nem os discursos e acções sociais e
pastorais sem uma espiritualidade que transforme o coração. Estas propostas parciais
e desagregadoras alcançam só pequenos grupos e não têm força de ampla
penetração, porque mutilam o Evangelho. É preciso cultivar sempre um espaço
interior que dê sentido cristão ao compromisso e à actividade. 205 Sem
momentos prolongados de adoração, de encontro orante com a Palavra, de diálogo
sincero com o Senhor, as tarefas facilmente se esvaziam de significado,
quebrantamo-nos com o cansaço e as dificuldades, e o ardor apaga-se. A Igreja
não pode dispensar o pulmão da oração, e alegra-me imenso que se multipliquem,
em todas as instituições eclesiais, os grupos de oração, de intercessão, de
leitura orante da Palavra, as adorações perpétuas da Eucaristia. Ao mesmo
tempo, «há que rejeitar a tentação duma espiritualidade intimista e
individualista, que dificilmente se coaduna com as exigências da caridade, com
a lógica da encarnação». 206 Há o risco de que alguns momentos de
oração se tornem uma desculpa para evitar de dedicar a vida à missão, porque a
privatização do estilo de vida pode levar os cristãos a refugiarem-se nalguma
falsa espiritualidade.
263.
É salutar recordar-se dos primeiros cristãos e de tantos irmãos ao longo da
história que se mantiveram transbordantes de alegria, cheios de coragem,
incansáveis no anúncio e capazes de uma grande resistência activa. Há quem se
console, dizendo que hoje é mais difícil; temos, porém, de reconhecer que o
contexto do Império Romano não era favorável ao anúncio do Evangelho, nem à
luta pela justiça, nem à defesa da dignidade humana. Em cada momento da história,
estão presentes a fraqueza humana, a busca doentia de si mesmo, a comodidade
egoísta e, enfim, a concupiscência que nos ameaça a todos. Isto está sempre
presente, sob uma roupagem ou outra; deriva mais da limitação humana que das
circunstâncias. Por isso, não digamos que hoje é mais difícil; é diferente. Em
vez disso, aprendamos com os Santos que nos precederam e enfrentaram as
dificuldades próprias do seu tempo. Com esta finalidade, proponho-vos que nos
detenhamos a recuperar algumas motivações que nos ajudem a imitá-los nos nossos
dias. 207
O
encontro pessoal com o amor de Jesus que nos salva
264.
A primeira motivação para evangelizar é o amor que recebemos de Jesus, aquela
experiência de sermos salvos por Ele que nos impele a amá-Lo cada vez mais. Com
efeito, um amor que não sentisse a necessidade de falar da pessoa amada, de a
apresentar, de a tornar conhecida, que amor seria? Se não sentimos o desejo
intenso de comunicar Jesus, precisamos de nos deter em oração para Lhe pedir
que volte a cativar-nos. Precisamos de o implorar cada dia, pedir a sua graça
para que abra o nosso coração frio e sacuda a nossa vida tíbia e superficial.
Colocados diante d’Ele com o coração aberto, deixando que Ele nos olhe,
reconhecemos aquele olhar de amor que descobriu Natanael no dia em que Jesus Se
fez presente e lhe disse: «Eu vi-te, quando estavas debaixo da figueira!» (Jo
1, 48). Como é doce permanecer diante dum crucifixo ou de joelhos diante do
Santíssimo Sacramento, e fazê-lo simplesmente para estar à frente dos seus
olhos! Como nos faz bem deixar que Ele volte a tocar a nossa vida e nos envie
para comunicar a sua vida nova! Sucede então que, em última análise, «o que nós
vimos e ouvimos, isso anunciamos» (1 Jo 1, 3). A melhor motivação para se
decidir a comunicar o Evangelho é contemplá-lo com amor, é deter-se nas suas
páginas e lê-lo com o coração. Se o abordamos desta maneira, a sua beleza
deslumbra-nos, volta a cativar-nos vezes sem conta. Por isso, é urgente recuperar
um espírito contemplativo, que nos permita redescobrir, cada dia, que somos
depositários dum bem que humaniza, que ajuda a levar uma vida nova. Não há nada
de melhor para transmitir aos outros.
265.
Toda a vida de Jesus, a sua forma de tratar os pobres, os seus gestos, a sua
coerência, a sua generosidade simples e quotidiana e, finalmente, a sua total
dedicação, tudo é precioso e fala à nossa vida pessoal. Todas as vezes que
alguém volta a descobri-lo, convence-se de que é isso mesmo o que os outros
precisam, embora não o saibam: «Aquele que venerais sem O conhecer, é Esse que
eu vos anuncio» (Act 17, 23). Às vezes perdemos o entusiasmo pela missão,
porque esquecemos que o Evangelho dá resposta às necessidades mais profundas
das pessoas, porque todos fomos criados para aquilo que o Evangelho nos propõe:
a amizade com Jesus e o amor fraterno. Quando se consegue exprimir, de forma
adequada e bela, o conteúdo essencial do Evangelho, de certeza que essa
mensagem fala aos anseios mais profundos do coração: «O missionário está
convencido de que existe já, nas pessoas e nos povos, pela acção do Espírito,
uma ânsia – mesmo se inconsciente – de conhecer a verdade acerca de Deus, do
homem, do caminho que conduz à liberação do pecado e da morte. O entusiasmo
posto no anúncio de Cristo deriva da convicção de responder a tal ânsia». 208
O
entusiasmo na evangelização funda-se nesta convicção. Temos à disposição um
tesouro de vida e de amor que não pode enganar, a mensagem que não pode
manipular nem desiludir. É uma resposta que desce ao mais fundo do ser humano e
pode sustentá-lo e elevá-lo. É a verdade que não passa de moda, porque é capaz
de penetrar onde nada mais pode chegar. A nossa tristeza infinita só se cura
com um amor infinito.
266.
Esta convicção, porém, é sustentada com a experiência pessoal, constantemente
renovada, de saborear a sua amizade e a sua mensagem. Não se pode perseverar
numa evangelização cheia de ardor, se não se está convencido, por experiência
própria, que não é a mesma coisa ter conhecido Jesus ou não O conhecer, não é a
mesma coisa caminhar com Ele ou caminhar tacteando, não é a mesma coisa poder
escutá-Lo ou ignorar a sua Palavra, não é a mesma coisa poder contemplá-Lo,
adorá-Lo, descansar n’Ele ou não o poder fazer. Não é a mesma coisa procurar
construir o mundo com o seu Evangelho em vez de o fazer unicamente com a
própria razão. Sabemos bem que a vida com Jesus se torna muito mais plena e,
com Ele, é mais fácil encontrar o sentido para cada coisa. É por isso que
evangelizamos. O verdadeiro missionário, que não deixa jamais de ser discípulo,
sabe que Jesus caminha com ele, fala com ele, respira com ele, trabalha com
ele. Sente Jesus vivo com ele, no meio da tarefa missionária. Se uma pessoa não
O descobre presente no coração mesmo da entrega missionária, depressa perde o
entusiasmo e deixa de estar segura do que transmite, faltam-lhe força e paixão.
E uma pessoa que não está convencida, entusiasmada, segura, enamorada, não
convence ninguém.
267.
Unidos a Jesus, procuramos o que Ele procura, amamos o que Ele ama. Em última
instância, o que procuramos é a glória do Pai, vivemos e agimos «para que seja
prestado louvor à glória da sua graça» (Ef 1, 6). Se queremos entregar-nos a
sério e com perseverança, esta motivação deve superar toda e qualquer outra. O
movente definitivo, o mais profundo, o maior, a razão e o sentido último de
tudo o resto é este: a glória do Pai que Jesus procurou durante toda a sua
existência. Ele é o Filho eternamente feliz, com todo o seu ser «no seio do
Pai» (Jo 1, 18). Se somos missionários, antes de tudo é porque Jesus nos disse:
«A glória do meu Pai consiste em que deis muito fruto» (Jo 15, 8).
Independentemente de que nos convenha, interesse, aproveite ou não, para além
dos estreitos limites dos nossos desejos, da nossa compreensão e das nossas
motivações, evangelizamos para a maior glória do Pai que nos ama.
O
prazer espiritual de ser povo
268.
A Palavra de Deus convida-nos também a reconhecer que somos povo: «Vós que
outrora não éreis um povo, agora sois povo de Deus» (1 Pd 2, 10). Para ser
evangelizadores com espírito é preciso também desenvolver o prazer espiritual
de estar próximo da vida das pessoas, até chegar a descobrir que isto se torna
fonte duma alegria superior. A missão é uma paixão por Jesus, e simultaneamente
uma paixão pelo seu povo. Quando paramos diante de Jesus crucificado, reconhecemos
todo o seu amor que nos dignifica e sustenta, mas lá também, se não formos
cegos, começamos a perceber que este olhar de Jesus se alonga e dirige, cheio
de afecto e ardor, a todo o seu povo. Lá descobrimos novamente que Ele quer
servir-Se de nós para chegar cada vez mais perto do seu povo amado. Toma-nos do
meio do povo e envia-nos ao povo, de tal modo que a nossa identidade não se
compreende sem esta pertença.
269.
O próprio Jesus é o modelo desta opção evangelizadora que nos introduz no
coração do povo. Como nos faz bem vê-Lo perto de todos! Se falava com alguém,
fitava os seus olhos com uma profunda solicitude cheia de amor: «Jesus, fitando
nele o olhar, sentiu afeição por ele» (Mc 10, 21). Vemo-Lo disponível ao
encontro, quando manda aproximar-se o cego do caminho (cf. Mc 10, 46-52) e
quando come e bebe com os pecadores (cf. Mc 2, 16), sem Se importar que O
chamem de glutão e beberrão (cf. Mt 11, 19). Vemo-Lo disponível, quando deixa
uma prostituta ungir-Lhe os pés (cf. Lc 7, 36-50) ou quando recebe, de noite,
Nicodemos (cf. Jo 3, 1-15). A entrega de Jesus na cruz é apenas o culminar
deste estilo que marcou toda a sua vida. Fascinados por este modelo, queremos
inserir-nos a fundo na sociedade, partilhamos a vida com todos, ouvimos as suas
preocupações, colaboramos material e espiritualmente nas suas necessidades,
alegramo-nos com os que estão alegres, choramos com os que choram e
comprometemo-nos na construção de um mundo novo, lado a lado com os outros. Mas
não como uma obrigação, nem como um peso que nos desgasta, mas como uma opção
pessoal que nos enche de alegria e nos dá uma identidade.
270.
Às vezes sentimos a tentação de ser cristãos, mantendo uma prudente distância
das chagas do Senhor. Mas Jesus quer que toquemos a miséria humana, que
toquemos a carne sofredora dos outros. Espera que renunciemos a procurar
aqueles abrigos pessoais ou comunitários que permitem manter-nos à distância do
nó do drama humano, a fim de aceitarmos verdadeiramente entrar em contacto com
a vida concreta dos outros e conhecermos a força da ternura. Quando o fazemos,
a vida complica-se sempre maravilhosamente e vivemos a intensa experiência de
ser povo, a experiência de pertencer a um povo.
____________________________________
Notas:
202
Cf. Propositio 16.
203
Bento XVI, Exort. ap. pós-sinodal Ecclesia in Medio Oriente (14 de Setembro de
2012), 26: AAS 104 (2012), 762.
204
Propositio 55.
205
Cf. Propositio 36.
206
João Paulo II, Carta ap. Novo Millennio ineunte (6 de Janeiro de 2001), 52: AAS
93 (2001), 304.
207
Cf. Vítor Manuel Fernández, Discurso na abertura do I Congresso Nacional de
Doutrina Social da Igreja, na cidade de Rosário, em 2011: «Espiritualidad para
la esperanza activa», em UCActualidad 142 (2011), 16.
208
João Paulo II, Carta enc. Redemptoris missio (7 de Dezembro de 1990), 45: AAS
83 (1991), 292.
Tratado dos vícios e pecados 31
Art. 3 ― Se a ignorância isenta
totalmente do pecado.
(Supra, q. 19, a. 6 ; IIª:IIªª,
q. 59 a.4, ad 1 ; III, q. 47, a. 5, ad 3 ; Sent., dist. XXII, q. 2, a. 2; dist.
XLI, q. 2, a. 1, ad 3; IV dist. IX, a. 3, 1ª 2; De Malo, q. 3, a. 8; Quodl.
VIII, q. 6, a. 5 ; Ad Rom., cap. I, lect. VII ; Ad Tim., cap. 1, lect. III ; De
Div. Nom., cap. IV, lect. XXII ; V Ethic., lect. XIII).
O
terceiro discute-se assim. ― Parece que a ignorância isenta totalmente do
pecado.
1.
― Pois, como diz Agostinho, todo pecado é voluntário 1. Ora, a
ignorância causa o involuntário, conforme já se estabeleceu (q. 6, a. 8). Logo,
isenta-a totalmente do pecado.
2.
― Demais. ― O que fazemos sem intenção fazemo-lo acidentalmente. Ora, não
podemos ter intenção do desconhecido. Logo, o que fazemos por ignorância é, na
ordem dos nossos actos, acidental. Mas, o acidental não especifica. Logo, nada
do feito por ignorância deve ser considerado, na ordem dos actos humanos,
pecado ou virtude.
3.
― Demais. ― O homem é sujeito da virtude e do pecado, enquanto participa da
razão. Ora, a ignorância exclui a ciência, que aperfeiçoa a razão. Logo, isenta
totalmente o pecado.
Mas,
em contrário, diz Agostinho que certos actos praticados por ignorância são
justamente reprovados 2. Ora, justamente só se reprovam os pecados.
Logo, certos actos praticados por ignorância são tais, e portanto a ignorância
não escusa totalmente do pecado.
A ignorância, em si mesma, pode tornar involuntário o acto que causa. Pois,
como já se estabeleceu (a. 1), dissemos que ela causa o acto que proíbe à
ciência oposta. Assim que tal acto fosse acompanhado de ciência, seria
contrário à vontade, sendo por isso que se lhe aplica a denominação de
involuntário. Se porém a ciência, excluída pela ignorância, não proíbe o acto,
por causa da inclinação da vontade para ele, a ignorância dessa ciência não
causa em nós o involuntário, mas faz-nos não querê-lo, como diz Aristóteles 3.
E tal ignorância, não sendo causa do acto pecaminoso, como já dissemos (a. 1),
e não causando o involuntário, não isenta do pecado. E o mesmo se dá com
qualquer ignorância não causadora do acto pecaminoso, mas consequente ou
concomitante a ele. A ignorância, porém, causa do acto por o ser do
involuntário, pode em si mesma isentar do pecado, porque o voluntário é da
essência deste.
Mas,
de dois modos pode ela, às vezes, não isentar totalmente do pecado. ― Primeiro,
por parte da própria coisa ignorada. Pois, a ignorância isenta do pecado na
medida em que ignoramos ser um acto pecaminoso. Pode porém, acontecer que ignoremos
alguma circunstância do pecado, que, se fosse conhecida, nos afastaria dele,
quer essa circunstância seja da essência do pecado, quer não. E contudo, ainda
essa ciência conserva algum elemento pelo qual poderíamos saber que é pecado o
acto em questão. Assim, quem ferir outrem, que saiba ser um homem, faz o
bastante para haver essencialmente pecado, embora não saiba que o ferido seja o
próprio pai, circunstância constituinte de nova espécie de pecado. Ou talvez
não sabia que o atacado, defendendo-se, lhe revidasse o golpe, o que, se o
soubesse, não o atacaria, mas isso não se inclui na noção do pecado. Donde,
embora esse tal peque por ignorância, não fica contudo totalmente isento de
pecado, por ainda lhe restar o conhecimento deste último. ― De outro modo, pode
a ignorância, em si mesma, não isentar do pecado, quando voluntária. E isto
directamente, se, de propósito, queremos nos manter na ignorância para pecarmos
mais livremente, ou indirectamente, como quando, em virtude do trabalho de
outras ocupações, somos negligentes em aprender o que nos levaria a evitar o
pecado. Pois tal negligência torna a própria ignorância voluntária e
pecaminosa, contanto que recaia sobre o que deveríamos e podíamos saber. E
portanto, essa ignorância não isenta totalmente do pecado. Se ela porém for que
seja absolutamente involuntária, ou por invencível, ou por incidir sobre o que
não estávamos obrigados a saber, então isenta completamente do pecado.
DONDE
A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJECÇÃO. ― Nem toda ignorância causa o involuntário,
como já dissemos (q. 6, a. 8). Logo, nem toda isenta totalmente do pecado.
RESPOSTA
À SEGUNDA. ― Na medida em que o ignorante tem algo de voluntário, nessa mesma
intenciona o pecado. E deste modo o pecado não será acidental.
RESPOSTA
À TERCEIRA. ― Se a ignorância for tal que exclua totalmente o uso da razão,
também isenta totalmente do pecado, como é o caso dos loucos e dementes. Mas
nem sempre é tal a ignorância, causa do pecado. E portanto, nem sempre isenta
totalmente dele.
Revisão da tradução portuguesa por ama
_______________________________________
Notas:
1.
Lib. I Retract. (cap. IX).
2. Lib. III De libero arb. (cap.
XVIII).
3. III Ethic. (lect. III).
Temas para meditar 45
Desprendimento
Possui,
mas como se nada possuísse, o que reúne tudo o necessário para seu uso, mas
prevê cautamente que depressa o há-de deixar. Usa este mundo como se não o
usasse, o que dispõe do necessário para viver, mas não deixando que domine o
seu coração, para que todo ele sirva e nunca desvie, a boa marcha da alma, que
tende a coisas mais altas.
(são gregório magno, Homílias sobre o Evangelho de S. Lucas, 40, 2)
´Diálogos apostólicos 7
Reservando a privacidade e sob este título genérico de ‘Diálogos apostólicos’ publicam-se alguns diálogos, recados e excertos de conversas a respeito da Melhoria Pessoal e da Vida Interior.
Pequena agenda do cristão
Segunda-Feira
(Coisas muito simples, curtas, objectivas)
Propósito: Sorrir; ser amável; prestar serviço.
Senhor que eu faça ‘boa cara’, que seja alegre e transmita aos outros, principalmente em minha casa, boa disposição.
Senhor que eu sirva sem reserva de intenção de ser recompensado; servir com naturalidade; prestar pequenos ou grandes serviços a todos mesmo àqueles que nada me são. Servir fazendo o que devo sem olhar à minha pretensa “dignidade” ou “importância” “feridas” em serviço discreto ou desprovido de relevo, dando graças pela oportunidade de ser útil.
Lembrar-me: Papa, Bispos, Sacerdotes.
Que o Senhor assista o Papa e vivifique santificando-o na terra e não consinta que seja vencido pelos seus inimigos.
Que os Bispos se mantenham firmes na Fé, apascentando a Tua Igreja na Tua fortaleza.
Que os Sacerdotes sejam fiéis à sua vocação e guias seguros do Povo de Deus.
Pequeno exame: Cumpri o propósito e lembrei-me do que me propus ontem?
|
Comunhão dos Santos
Vivei uma particular Comunhão dos Santos: e
cada um sentirá, à hora da luta interior, e à hora do trabalho profissional, a
alegria e a força de não estar só. (Caminho, 545)
Há instantes, antes do lavabo, invocámos o
Espírito Santo, pedindo-Lhe que abençoasse o Sacrifício oferecido ao Seu Santo
Nome. Terminada a purificação, dirigimo-nos à Trindade – Suscipe, Sancta Trinitas
–, para que receba o que apresentamos em memória da Vida, da Paixão, da
Ressurreição e da Ascensão de Cristo, em honra de Maria, sempre Virgem, e em
honra de todos os santos.
A oblação deve redundar em benefício de todos
– Orate, fratres, reza o sacerdote –, porque este sacrifício é meu e vosso, de
toda a Igreja Santa. Orai, irmãos, mesmo que sejam poucos os que se encontram
reunidos, mesmo que se encontre materialmente presente apenas um cristão ou até
só o celebrante, porque uma Missa é sempre o holocausto universal, o resgate de
todas as tribos e línguas e povos e nações!
Todos os cristãos, pela comunhão dos Santos,
recebem as graças de cada Missa, quer se celebre diante de milhares de pessoas,
quer haja apenas como único assistente um menino, possivelmente distraído, a
ajudar o sacerdote. Tanto num caso como noutro, a Terra e o Céu unem-se para
entoar com os Anjos do Senhor: Sanctus, Sanctus, Sanctus... (Cristo que passa, 89)
16/03/2014
Diário: 16 Mar 2014
Publicações de hoje
Evangelho do dia e comentário
| Tempo de Quaresma Semana II |
1 Naquele tempo, num dia de sábado, passava Jesus por umas searas, e
Seus discípulos, tendo fome, começaram a colher espigas e a comê-las. 2
Vendo isto os fariseus, disseram-Lhe: «Olha que os Teus discípulos fazem o que
não é permitido fazer ao sábado». 3 Jesus respondeu-lhes: «Não
lestes o que fez David e os seus companheiros, quando tiveram fome? 4
Como entrou na casa de Deus, e comeu os pães sagrados, dos quais não era lícito
comer, nem a ele, nem aos que com ele iam, mas só aos sacerdotes? 5
Não lestes na Lei que aos sábados os sacerdotes no templo violam o sábado e
ficam sem culpa? 6 Ora Eu digo-vos que aqui está Alguém que é maior
que o templo. 7 Se vós soubésseis o que quer dizer: “Quero
misericórdia e não sacrifício”, jamais condenaríeis inocentes. 8
Porque o Filho do Homem é senhor do próprio sábado».9 Partindo dali,
foi à sinagoga deles,10 onde se encontrava um homem que tinha
atrofiada uma das mãos; e, eles, para terem de que O acusar, perguntaram-Lhe:
«É permitido curar aos sábados?». 11 Ele respondeu-lhes: «Que homem
haverá entre vós que, tendo uma ovelha, se esta cair no dia de sábado a uma
cova, não a agarre, e não a tire de lá? 12 Ora quanto mais vale um
homem do que uma ovelha? Logo, é permitido fazer bem no dia de sábado».
Comentário:
Uma vez mais o Senhor
sublinha o que quer: misericórdia e não sacrifício!
De que vale, podemos
perguntar-nos, os sacrifícios que possamos fazer, se não usamos a misericórdia,
sobretudo, nas nossas relações com os outros?
Que o sacrifício é bom e
útil, sem dúvida, porque fortalece a vontade, enrijece o carácter.
Privar-se de algo por
opção, vontade própria, é bom e meritório, mas, o que define o carácter do
cristão é a misericórdia.
É, além do mais, o que nos
aproxima mais de Deus, Ele próprio, a Suma Misericórdia.
E, até pode muito bem
acontecer, que ao exercer a misericórdia tenhamos que fazer algum sacrifício
pessoal, então estaremos numa posição ideal para oferecer ao Senhor que,
seguramente, o aceitará e lhe dará um valor que nós nem suspeitamos que tenha.
(ama,
comentário sobre Mt 12, 1-8, 2013.07.19)
Leitura espiritual para Mar 16
A leitura tem feito muitos santos.
(S. josemaria, Caminho 116)
Está aconselhada a leitura espiritual diária de mais ou menos 15 minutos. Além da leitura do novo testamento, (seguiu-se o esquema usado por P. M. Martinez em “NOVO TESTAMENTO” Editorial A. O. - Braga) devem usar-se textos devidamente aprovados. Não deve ser leitura apressada, para “cumprir horário”, mas com vagar, meditando, para que o que lemos seja alimento para a nossa alma.
Evangelho: Lc 9, 1-22
1 Convocados os doze Apóstolos, deu-lhes poder e autoridade
sobre todos os demónios, e para curar as doenças. 2 Enviou-os a
pregar o reino de Deus e a curar os doentes. 3 Disse-lhes: «Não
leveis nada para o caminho, nem bastão, nem alforge, nem pão, nem dinheiro, nem
leveis duas túnicas. 4 Em qualquer casa em que entrardes, ficai lá,
e não saiais dela até à vossa partida, 5 e se alguém não vos receber,
ao sair dessa cidade, sacudi até o pó dos vossos pés, em testemunho contra
eles». 6 Tendo eles partido, andavam de aldeia em aldeia pregando a
boa nova, e fazendo curas por toda a parte. 7 O tetrarca Herodes
ouviu falar de tudo o que se passava, e não sabia que pensar, porque uns
diziam: 8 «É João que ressuscitou dos mortos»; outros: «É Elias que
apareceu»; outros: «É um dos antigos profetas que ressuscitou».9
Herodes disse: «Eu mandei degolar João. Quem é, pois, Este de quem ouço tais
coisas?». E buscava ocasião de O ver. 10 Tendo voltado os Apóstolos,
contaram-Lhe tudo o que tinham feito. Ele, tomando-os consigo, retirou-Se à
parte a um lugar do território de Betsaida. 11 Sabendo isto, as
multidões foram-n'O seguindo. E as recebeu, falou-lhes do reino de Deus e curou
os que necessitavam de cura. 12 Ora o dia começava a declinar.
Aproximando-se d'Ele os doze, disseram-Lhe: «Despede as multidões, para que,
indo pelas aldeias e herdades circunvizinhas, se alberguem e encontrem que
comer, porque aqui estamos num lugar deserto». 13 Ele
respondeu-lhes: «Dai-lhes vós de comer». Eles disseram: «Não temos mais do que
cinco pães e dois peixes, a não ser que vamos comprar mantimento para toda esta
multidão». 14 Pois eram quase cinco mil homens. Então disse aos
discípulos: «Mandai-os sentar divididos em grupos de cinquenta». 15
Eles assim fizeram, e mandaram-nos sentar a todos. 16 Tendo tomado
os cinco pães e os dois peixes, levantou os olhos ao céu, pronunciou sobre eles
a bênção, partiu-os e distribuiu-os aos Seus discípulos, para que os servissem
à multidão. 17 Comeram todos e ficaram saciados. E recolheram do que
sobrou doze cestos de fragmentos. 18 Aconteceu que, estando a orar
só, se encontravam com Ele os Seus discípulos. Jesus interrogou-os: «Quem dizem
as multidões que Eu sou?». 19 Responderam e disseram: «Uns dizem que
és João Baptista, outros que Elias, outros que ressuscitou um dos antigos
profetas». 20 Ele disse-lhes: «E vós quem dizeis que sou Eu?».
Pedro, respondendo, disse: «O Cristo de Deus». 21 Mas Ele, em tom
severo, mandou que não o dissessem a ninguém, 22 acrescentando: «É
necessário que o Filho do Homem padeça muitas coisas, que seja rejeitado pelos
anciãos, pelos príncipes dos sacerdotes e pelos escribas, que seja morto e
ressuscite ao terceiro dia.
EXORTAÇÃO APOSTÓLICA
EVANGELII GAUDIUM
DO SANTO PADRE FRANCISCO
AO EPISCOPADO, AO CLERO ÀS PESSOAS CONSAGRADAS E AOS
FIÉIS LEIGOS
SOBRE
O ANÚNCIO DO EVANGELHO NO MUNDO ACTUAL
Capítulo
IV
A DIMENSÃO SOCIAL DA
EVANGELIZAÇÃO
IV. O diálogo social como
contribuição para a paz
238.
A evangelização implica também um caminho de diálogo. Neste momento, existem
sobretudo três campos de diálogo onde a Igreja deve estar presente, cumprindo
um serviço a favor do pleno desenvolvimento do ser humano e procurando o bem
comum: o diálogo com os Estados, com a sociedade – que inclui o diálogo com as
culturas e as ciências – e com os outros crentes que não fazem parte da Igreja
Católica. Em todos os casos, «a Igreja fala a partir da luz que a fé lhe dá»,
186 oferece a sua experiência de dois mil anos e conserva sempre na
memória as vidas e sofrimentos dos seres humanos. Isto ultrapassa a razão
humana, mas também tem um significado que pode enriquecer a quantos não creem e
convida a razão a alargar as suas perspectivas.
239.
A Igreja proclama o «evangelho da paz» (Ef 6, 15) e está aberta à colaboração
com todas as autoridades nacionais e internacionais para cuidar deste bem
universal tão grande. Ao anunciar Jesus Cristo, que é a paz em pessoa (cf. Ef
2, 14), a nova evangelização incentiva todo o baptizado a ser instrumento de
pacificação e testemunha credível duma vida reconciliada. 187 É hora
de saber como projectar, numa cultura que privilegie o diálogo como forma de
encontro, a busca de consenso e de acordos mas sem a separar da preocupação por
uma sociedade justa, capaz de memória e sem exclusões. O autor principal, o
sujeito histórico deste processo, é a gente e a sua cultura, não uma classe,
uma fracção, um grupo, uma elite. Não precisamos de um projecto de poucos para
poucos, ou de uma minoria esclarecida ou testemunhal que se aproprie de um
sentimento colectivo. Trata-se de um acordo para viver juntos, de um pacto
social e cultural.
240.
O cuidado e a promoção do bem comum da sociedade compete ao Estado. 188 Este,
com base nos princípios de subsidiariedade e solidariedade e com um grande
esforço de diálogo político e criação de consensos, desempenha um papel
fundamental – que não pode ser delegado – na busca do desenvolvimento integral
de todos. Este papel exige, nas circunstâncias actuais, uma profunda humildade
social.
241.
No diálogo com o Estado e com a sociedade, a Igreja não tem soluções para todas
as questões específicas. Mas, juntamente com as várias forças sociais,
acompanha as propostas que melhor correspondam à dignidade da pessoa humana e
ao bem comum. Ao fazê-lo, propõe sempre com clareza os valores fundamentais da
existência humana, para transmitir convicções que possam depois traduzir-se em
acções políticas.
O
diálogo entre a fé, a razão e as ciências
242.
O diálogo entre ciência e fé também faz parte da acção evangelizadora que
favorece a paz. 189 O cientificismo e o positivismo recusam-se a
«admitir, como válidas, formas de conhecimento distintas daquelas que são
próprias das ciências positivas». 190 A Igreja propõe outro caminho,
que exige uma síntese entre um uso responsável das metodologias próprias das
ciências empíricas e os outros saberes como a filosofia, a teologia, e a
própria fé que eleva o ser humano até ao mistério que transcende a natureza e a
inteligência humana. A fé não tem medo da razão; pelo contrário, procura-a e
tem confiança nela, porque «a luz da razão e a luz da fé provêm ambas de Deus»,
191 e não se podem contradizer entre si. A evangelização está atenta aos
progressos científicos para os iluminar com a luz da fé e da lei natural, tendo
em vista procurar que sempre respeitem a centralidade e o valor supremo da
pessoa humana em todas as fases da sua existência. Toda a sociedade pode ser
enriquecida através deste diálogo que abre novos horizontes ao pensamento e
amplia as possibilidades da razão. Também este é um caminho de harmonia e
pacificação.
243.
A Igreja não pretende deter o progresso admirável das ciências. Pelo contrário,
alegra-se e inclusivamente desfruta reconhecendo o enorme potencial que Deus
deu à mente humana. Quando o progresso das ciências, mantendo-se com rigor
académico no campo do seu objecto específico, torna evidente uma determinada
conclusão que a razão não pode negar, a fé não a contradiz. Nem os crentes
podem pretender que uma opinião científica que lhes agrada – e que nem sequer
foi suficientemente comprovada – adquira o peso dum dogma de fé. Em certas
ocasiões, porém, alguns cientistas vão mais além do objecto formal da sua
disciplina e exageram com afirmações ou conclusões que extravasam o campo da
própria ciência. Neste caso, não é a razão que se propõe, mas uma determinada
ideologia que fecha o caminho a um diálogo autêntico, pacífico e frutuoso.
O
diálogo ecuménico
244.
O compromisso ecuménico corresponde à oração do Senhor Jesus pedindo «que todos
sejam um só» (Jo 17, 21). A credibilidade do anúncio cristão seria muito maior,
se os cristãos superassem as suas divisões e a Igreja realizasse «a plenitude
da catolicidade que lhe é própria naqueles filhos que, embora incorporados pelo
Baptismo, estão separados da sua plena comunhão». 192 Devemos sempre
lembrar-nos de que somos peregrinos, e peregrinamos juntos. Para isso, devemos
abrir o coração ao companheiro de estrada sem medos nem desconfianças, e olhar
primariamente para o que procuramos: a paz no rosto do único Deus. O abrir-se
ao outro tem algo de artesanal, a paz é artesanal. Jesus disse-nos: «Felizes os
pacificadores» (Mt 5, 9). Neste esforço, mesmo entre nós, cumpre-se a antiga
profecia: «Transformarão as suas espadas em relhas de arado» (Is 2, 4).
245.
Sob esta luz, o ecumenismo é uma contribuição para a unidade da família humana.
A presença no Sínodo do Patriarca de Constantinopla, Sua Santidade Bartolomeu
I, e do Arcebispo de Cantuária, Sua Graça Rowan Douglas Williams, 193 foi
um verdadeiro dom de Deus e um precioso testemunho cristão.
246.
Dada a gravidade do contra-testemunho da divisão entre cristãos, sobretudo na
Ásia e na África, torna-se urgente a busca de caminhos de unidade. Os
missionários, nesses continentes, referem repetidamente as críticas, queixas e
sarcasmos que recebem por causa do escândalo dos cristãos divididos. Se nos
concentrarmos nas convicções que nos unem e recordarmos o princípio da
hierarquia das verdades, poderemos caminhar decididamente para formas comuns de
anúncio, de serviço e de testemunho. A imensa multidão que não recebeu o
anúncio de Jesus Cristo não pode deixar-nos indiferentes. Por isso, o esforço
por uma unidade que facilite a recepção de Jesus Cristo deixa de ser mera
diplomacia ou um dever forçado para se transformar num caminho imprescindível
da evangelização. Os sinais de divisão entre cristãos, em países que já estão
dilacerados pela violência, juntam outros motivos de conflito vindos da parte
de quem deveria ser um activo fermento de paz. São tantas e tão valiosas as
coisas que nos unem! E, se realmente acreditamos na acção livre e generosa do
Espírito, quantas coisas podemos aprender uns dos outros! Não se trata apenas
de receber informações sobre os outros para os conhecermos melhor, mas de
recolher o que o Espírito semeou neles como um dom também para nós. Só para dar
um exemplo, no diálogo com os irmãos ortodoxos, nós, os católicos, temos a
possibilidade de aprender algo mais sobre o significado da colegialidade
episcopal e sobre a sua experiência da sinodalidade. Através dum intercâmbio de
dons, o Espírito pode conduzir-nos cada vez mais para a verdade e o bem.
As
relações com o Judaísmo
247.
Um olhar muito especial é dirigido ao povo judeu, cuja Aliança com Deus nunca foi
revogada, porque «os dons e o chamamento de Deus são irrevogáveis» (Rm 11, 29).
A Igreja, que partilha com o Judaísmo uma parte importante das Escrituras
Sagradas, considera o povo da Aliança e a sua fé como uma raiz sagrada da
própria identidade cristã (cf. Rm 11, 16-18). Como cristãos, não podemos considerar
o Judaísmo como uma religião alheia, nem incluímos os judeus entre quantos são
chamados a deixar os ídolos para se converter ao verdadeiro Deus (cf. 1 Ts 1,
9). Juntamente com eles, acreditamos no único Deus que actua na história, e
acolhemos, com eles, a Palavra revelada comum.
248.
O diálogo e a amizade com os filhos de Israel fazem parte da vida dos
discípulos de Jesus. O afecto que se desenvolveu leva-nos a lamentar, sincera e
amargamente, as terríveis perseguições de que foram e são objecto,
particularmente aquelas que envolvem ou envolveram cristãos.
249.
Deus continua a operar no povo da Primeira Aliança e faz nascer tesouros de
sabedoria que brotam do seu encontro com a Palavra divina. Por isso, a Igreja
também se enriquece quando recolhe os valores do Judaísmo. Embora algumas
convicções cristãs sejam inaceitáveis para o Judaísmo e a Igreja não possa
deixar de anunciar Jesus como Senhor e Messias, há uma rica complementaridade
que nos permite ler juntos os textos da Bíblia hebraica e ajudar-nos mutuamente
a desentranhar as riquezas da Palavra, bem como compartilhar muitas convicções
éticas e a preocupação comum pela justiça e o desenvolvimento dos povos.
O
diálogo inter-religioso
250.
Uma atitude de abertura na verdade e no amor deve caracterizar o diálogo com os
crentes das religiões não-cristãs, apesar dos vários obstáculos e dificuldades,
de modo particular os fundamentalismos de ambos os lados. Este diálogo
inter-religioso é uma condição necessária para a paz no mundo e, por
conseguinte, é um dever para os cristãos e também para outras comunidades
religiosas. Este diálogo é, em primeiro lugar, uma conversa sobre a vida humana
ou simplesmente – como propõem os Bispos da Índia – «estar aberto a eles,
compartilhando as suas alegrias e penas». 194 Assim aprendemos a
aceitar os outros, na sua maneira diferente de ser, de pensar e de se exprimir.
Com este método, poderemos assumir juntos, o dever de servir a justiça e a paz,
que deverá tornar-se um critério básico de todo o intercâmbio. Um diálogo, no
qual se procurem a paz e a justiça social, é em si mesmo, para além do aspecto
meramente pragmático, um compromisso ético que cria novas condições sociais. Os
esforços à volta dum tema específico podem transformar-se num processo em que,
através da escuta do outro, ambas as partes encontram purificação e
enriquecimento. Portanto, estes esforços também podem ter o significado de amor
à verdade.
251.
Neste diálogo, sempre amável e cordial, nunca se deve descuidar o vínculo
essencial entre diálogo e anúncio, que leva a Igreja a manter e intensificar as
relações com os não-cristãos. 195 Um sincretismo conciliador seria,
no fundo, um totalitarismo de quantos pretendem conciliar prescindindo de
valores que os transcendem e dos quais não são donos. A verdadeira abertura
implica conservar-se firme nas próprias convicções mais profundas, com uma
identidade clara e feliz, mas «disponível para compreender as do outro» e «sabendo
que o diálogo pode enriquecer a ambos». 196 Não nos serve uma
abertura diplomática que diga sim a tudo para evitar problemas, porque seria um
modo de enganar o outro e negar-lhe o bem que se recebeu como um dom para
partilhar com generosidade. Longe de se contraporem, a evangelização e o
diálogo inter-religioso apoiam-se e alimentam-se reciprocamente. 197
252.
Neste tempo, adquire grande importância a relação com os crentes do Islão, hoje
particularmente presentes em muitos países de tradição cristã, onde podem celebrar livremente o seu culto e viver
integrados na sociedade. Não se deve jamais esquecer que eles «professam seguir
a fé de Abraão, e connosco adoram o Deus único e misericordioso, que há-de
julgar os homens no último dia». 198 Os escritos sagrados do Islão
conservam parte dos ensinamentos cristãos; Jesus Cristo e Maria são objecto de
profunda veneração e é admirável ver como jovens e idosos, mulheres e homens do
Islão são capazes de dedicar diariamente tempo à oração e participar fielmente
nos seus ritos religiosos. Ao mesmo tempo, muitos deles têm uma profunda
convicção de que a própria vida, na sua totalidade, é de Deus e para Deus.
Reconhecem também a necessidade de Lhe responder com um compromisso ético e com
a misericórdia para com os mais pobres.
253.
Para sustentar o diálogo com o Islão é indispensável a adequada formação dos
interlocutores, não só para que estejam sólida e jubilosamente radicados na sua
identidade, mas também para que sejam capazes de reconhecer os valores dos
outros, compreender as preocupações que subjazem às suas reivindicações e fazer
aparecer as convicções comuns. Nós, cristãos, deveríamos acolher com afecto e
respeito os imigrantes do Islão que chegam aos nossos países, tal como
esperamos e pedimos para ser acolhidos e respeitados nos países de tradição
islâmica. Rogo, imploro humildemente a esses países que assegurem liberdade aos
cristãos para poderem celebrar o seu culto e viver a sua fé, tendo em conta a
liberdade que os crentes do Islão gozam nos países ocidentais. Frente a
episódios de fundamentalismo violento que nos preocupam, o afecto pelos
verdadeiros crentes do Islão deve levar-nos a evitar odiosas generalizações,
porque o verdadeiro Islão e uma interpretação adequada do Alcorão opõem-se a
toda a violência.
254.
Os não-cristãos fiéis à sua consciência podem, por gratuita iniciativa divina,
viver «justificados por meio da graça de Deus» 199 e, assim,
«associados ao mistério pascal de Jesus Cristo». 200 Devido, porém,
à dimensão sacramental da graça santificante, a acção divina neles tende a
produzir sinais, ritos, expressões sagradas que, por sua vez, envolvem outros
numa experiência comunitária do caminho para Deus. 201 Não têm o
significado e a eficácia dos Sacramentos instituídos por Cristo, mas podem ser
canais que o próprio Espírito suscita para libertar os não-cristãos do
imanentismo ateu ou de experiências religiosas meramente individuais. O mesmo
Espírito suscita por toda a parte diferentes formas de sabedoria prática que
ajudam a suportar as carências da vida e a viver com mais paz e harmonia. Nós,
cristãos, podemos tirar proveito também desta riqueza consolidada ao longo dos
séculos, que nos pode ajudar a viver melhor as nossas próprias convicções.
______________________________
Notas:
186
Bento XVI, Discurso à Cúria Romana (21 de Dezembro de 2012): AAS 105 (2013),
51.
187
Cf. Propositio 14.
188
Cf. Catecismo da Igreja Católica, 1910; Pont. Conselho «Justiça e Paz»,
Compêndio de Doutrina Social da Igreja, 168.
189
Cf. Propositio 54.
190
João Paulo II, Carta enc. Fides et ratio (14 de Setembro de 1998), 88: AAS 91
(1999), 74.
191
São Tomás de Aquino, Summa contra gentiles, I, 7; cf. João Paulo II, Carta enc.
Fides et ratio (14 de Setembro de 1998), 43: AAS 91 (1999), 39.
192
Conc. Ecum. Vat. II, Decr. sobre o ecumenismo Unitatis redintegratio, 4.
193
Cf. Propositio 52.
194
Conferência dos Bispos da Índia, Decl. final da XXX Assembleia Geral: The
Church’s Role for a Better India (8 de Março de 2012), 8.9.
195
Cf. Propositio 53.
196
João Paulo II, Carta enc. Redemptoris missio (7 de Dezembro de 1990), 56: AAS
83 (1991), 304.
197
Cf. Bento XVI, Discurso à Cúria Romana (21 de Dezembro de 2012): AAS 105
(2013), 51; Conc. Ecum. Vat. II, Decr. sobre a actividade missionária da Igreja
Ad gentes, 9; Catecismo da Igreja Católica, 856.
198
Conc. Ecum. Vat.II, Const. dogm. sobre a Igreja Lumen gentium, 16.
199
Comissão Teológica Internacional, O cristianismo e as religiões (1996), 72:
Enchiridion Vaticanum 15, n.º 1061.
200 Ibid., 72: o. c., 1061.
201 Cf. ibid., 81-87: o. c.,
1070-1076.
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