Segunda-Feira
(Coisas muito simples, curtas, objectivas)
Propósito: Sorrir; ser amável; prestar serviço.
Senhor que eu faça ‘boa cara’, que seja alegre e transmita aos outros, principalmente em minha casa, boa disposição.
Senhor que eu sirva sem reserva de intenção de ser recompensado; servir com naturalidade; prestar pequenos ou grandes serviços a todos mesmo àqueles que nada me são. Servir fazendo o que devo sem olhar à minha pretensa “dignidade” ou “importância” “feridas” em serviço discreto ou desprovido de relevo, dando graças pela oportunidade de ser útil.
Lembrar-me: Papa, Bispos, Sacerdotes.
Que o Senhor assista o Papa e vivifique santificando-o na terra e não consinta que seja vencido pelos seus inimigos.
Que os Bispos se mantenham firmes na Fé, apascentando a Tua Igreja na Tua fortaleza.
Que os Sacerdotes sejam fiéis à sua vocação e guias seguros do Povo de Deus.
Pequeno exame: Cumpri o propósito que me propus ontem?
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Padroeiros do blog: SÃO PAULO; SÃO TOMÁS DE AQUINO; SÃO FILIPE DE NÉRI; SÃO JOSEMARIA ESCRIVÁ
10/03/2014
Pequena agenda do cristão
Evangelho diário e comentário
| Tempo de Quaresma Semana I |
31
«Quando, pois, vier o Filho do Homem na Sua majestade, e todos os anjos com
Ele, então Se sentará sobre o trono de Sua majestade. 32 Todas as
nações serão congregadas diante d'Ele, e separará uns dos outros, como o pastor
separa as ovelhas dos cabritos, 33 e porá as ovelhas à sua direita,
e os cabritos à esquerda. 34 «Dirá então o Rei aos que estiverem à
Sua direita: “Vinde, benditos de Meu Pai, possuí o reino que vos está preparado
desde a criação do mundo, 35 porque tive fome, e Me destes de comer;
tive sede, e Me destes de beber; era peregrino, e Me recolhestes; 36
nu, e Me vestistes; enfermo, e Me visitastes; estava na prisão, e fostes
ver-Me”. 37 Então, os justos Lhe responderão: “Senhor, quando é que
nós Te vimos faminto, e Te demos de comer; com sede, e Te demos de beber? 38
Quando Te vimos peregrino, e Te recolhemos; nu, e Te vestimos? 39 Ou
quando Te vimos enfermo, ou na prisão, e fomos visitar-Te?”. 40 O
Rei, respondendo, lhes dirá: “Em verdade vos digo que todas as vezes que vós
fizestes isto a um destes Meus irmãos mais pequenos, a Mim o fizestes”. 41
Em seguida, dirá aos que estiverem à esquerda: “Apartai-vos de Mim, malditos,
para o fogo eterno, que foi preparado para o demónio e para os seus anjos; 42
porque tive fome, e não Me destes de comer; tive sede, e não Me destes de
beber; 43 era peregrino, e não Me recolhestes; estava nu, e não Me
vestistes; enfermo e na prisão, e não Me visitastes”. 44 Então, eles
também responderão: “Senhor, quando é que nós Te vimos faminto ou com sede, ou
peregrino, ou nu, ou enfermo, ou na prisão, e não Te assistimos?”. 45
E lhes responderá: “Em verdade vos digo: Todas as vezes que o não fizestes a um
destes mais pequenos, foi a Mim que não o fizestes”. 46 E esses irão
para o suplício eterno; e os justos para a vida eterna».
Comentário:
É extraordinário verificar
como o Senhor se “ contenta” com tão pouco
que nem um simples copo de água deixa sem recompensa!
Com Ele revê-se nos pobres e
marginalizados da vida e da sociedade que vivem com carências tremendas muitas
vezes muito para além do mínimo a que um ser humano tem direito sem que a sua
dignidade intrínseca seja severamente ofendida.
Não podemos, evidentemente,
socorrer a todos – pobres sempre os tereis convosco, disse o Senhor – mas, e
aquele que está ali, ao nosso lado, com quem nos cruzamos nos caminhos da vida,
sim… esse mesmo a quem, muitas vezes fingimos que não vemos…
Não podemos fazer nada?!!!
Sim… evidentemente que
podemos, se não for possível dar da nossa carteira – o quer seria muito útil –
sê-lo-á sempre dar do nosso coração, o que será muito conveniente.
(ama, comentário sobre Mt
25, 31-46, 2013.02.18)
Leitura espiritual para Mar 10
A leitura tem feito muitos santos.
(S. josemaria, Caminho 116)
Está aconselhada a leitura espiritual diária de mais ou menos 15 minutos. Além da leitura do novo testamento, (seguiu-se o esquema usado por P. M. Martinez em “NOVO TESTAMENTO” Editorial A. O. - Braga) devem usar-se textos devidamente aprovados. Não deve ser leitura apressada, para “cumprir horário”, mas com vagar, meditando, para que o que lemos seja alimento para a nossa alma.
Evangelho: Lc 6, 27-49
27 «Mas digo-vos a
vós, que Me escutais: Amai os vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam; 28
abençoai os que vos amaldiçoam, orai pelos que vos caluniam. 29 Ao
que te ferir numa face, oferece-lhe também a outra. Ao que te tirar o manto,
não o impeças de levar também a túnica. 30 Dá a todo aquele que te
pede; e ao que leva o que é teu, não lho tornes a pedir. 31 O que
quereis que vos façam os homens, fazei-o vós também a eles. 32 Se
amais os que vos amam, que mérito tendes? Porque os pecadores também amam quem
os ama. 33 Se fizerdes bem aos que vos fazem bem, que mérito tendes?
Os pecadores também fazem o mesmo. 34 Se emprestardes àqueles de
quem esperais receber, que mérito tendes? Os pecadores também emprestam aos
pecadores, para que se lhes faça outro tanto. 35 Vós, porém, amai os
vossos inimigos; fazei bem e emprestai sem daí esperardes nada; e será grande a
vossa recompensa, e sereis filhos do Altíssimo, que é bom para com os ingratos
e os maus. 36 Sede misericordiosos, como também vosso Pai é
misericordioso. 37 Não julgueis e não sereis julgados; não condeneis
e não sereis condenados; perdoai e sereis perdoados; 38 dai e
dar-se-vos-á. Uma medida boa, cheia, recalcada e a transbordar vos será lançada
nas dobras do vosso vestido. Porque, com a mesma medida com que medirdes para
os outros, será medido para vós». 39 Dizia-lhes também esta comparação:
«Pode, porventura, um cego guiar outro cego? Não cairão ambos nalguma cova? 40
O discípulo não é mais que o mestre; mas todo o discípulo será perfeito, se for
como o seu mestre. 41 «Porque vês tu a palha no olho do teu irmão, e
não notas a trave que tens no teu? 42 Ou como podes tu dizer a teu
irmão: “Deixa, irmão, que eu tire do teu olho a palha”, não vendo tu mesmo a
trave que tens no teu? Hipócrita, tira primeiro a trave do teu olho, e depois
verás bem para tirar a palha do olho de teu irmão. 43 Porque não há
árvore boa que dê mau fruto, nem árvore má que dê bom fruto. 44
Porquanto cada árvore se conhece pelo seu fruto; pois nem se colhem figos dos
espinheiros, nem se vindimam uvas dos abrolhos. 45 O homem bom, do
bom tesouro do seu coração tira o bem; o homem mau, do mau tesouro tira o mal;
porque a boca fala da abundância do coração. 46 «Porque Me chamais
Senhor, Senhor, e não fazeis o que Eu vos digo? 47 Todo aquele que
vem a Mim, ouve as Minhas palavras, e as põe em prática, vou mostrar-vos a quem
é semelhante. 48 É semelhante a um homem que, edificando uma casa,
cavou profundamente e pôs os alicerces sobre a rocha. Vindo uma inundação,
investiu a torrente contra aquela casa e não pôde movê-la, porque estava bem
edificada. 49 Mas quem ouve e não pratica, é semelhante a um homem
que edificou a sua casa sobre a terra, sem alicerces. Investiu a torrente contra
ela, e logo caiu, e foi grande a ruína daquela casa».
EXORTAÇÃO APOSTÓLICA
EVANGELII GAUDIUM
DO SANTO PADRE FRANCISCO
AO EPISCOPADO, AO CLERO ÀS PESSOAS CONSAGRADAS E AOS
FIÉIS LEIGOS
SOBRE
O ANÚNCIO DO EVANGELHO NO MUNDO ACTUAL
Capítulo
III
O ANÚNCIO DO EVANGELHO
II. A homilia
135.
Consideremos agora a pregação dentro da Liturgia, que requer uma séria
avaliação por parte dos Pastores. Deter-me-ei particularmente, e até com certa
meticulosidade, na homilia e sua preparação, porque são muitas as reclamações
relacionadas com este ministério importante, e não podemos fechar os ouvidos. A
homilia é o ponto de comparação para avaliar a proximidade e a capacidade de
encontro de um Pastor com o seu povo. De facto, sabemos que os fiéis lhe dão
muita importância; e, muitas vezes, tanto eles como os próprios ministros
ordenados sofrem: uns a ouvir e os outros a pregar. É triste que assim seja. A
homilia pode ser, realmente, uma experiência intensa e feliz do Espírito, um
consolador encontro com a Palavra, uma fonte constante de renovação e
crescimento.
136.
Renovemos a nossa confiança na pregação, que se funda na convicção de que é
Deus que deseja alcançar os outros através do pregador e de que Ele mostra o
seu poder através da palavra humana. São Paulo fala vigorosamente sobre a
necessidade de pregar, porque o Senhor quis chegar aos outros por meio também
da nossa palavra (cf. Rm 10, 14-17). Com a palavra, Nosso Senhor conquistou o
coração da gente. De todas as partes, vinham para O ouvir (cf. Mc 1, 45).
Ficavam maravilhados, «bebendo» os seus ensinamentos (cf. Mc 6, 2). Sentiam que
lhes falava como quem tem autoridade (cf. Mc 1, 27). E os Apóstolos, que Jesus
estabelecera «para estarem com Ele e para os enviar a pregar» (Mc 3, 14),
atraíram para o seio da Igreja todos os povos com a palavra (cf. Mc 16, 15.20).
O
contexto litúrgico
137.
Agora é oportuno recordar que «a proclamação litúrgica da Palavra de Deus,
principalmente no contexto da assembleia eucarística, não é tanto um momento de
meditação e de catequese, como sobretudo o diálogo de Deus com o seu povo, no
qual se proclamam as maravilhas da salvação e se propõem continuamente as
exigências da Aliança». 112 Reveste-se de um valor especial a
homilia, derivado do seu contexto eucarístico, que supera toda a catequese por
ser o momento mais alto do diálogo entre Deus e o seu povo, antes da comunhão
sacramental. A homilia é um retomar este diálogo que já está estabelecido entre
o Senhor e o seu povo. Aquele que prega deve conhecer o coração da sua
comunidade para identificar onde está vivo e ardente o desejo de Deus e também
onde é que este diálogo de amor foi sufocado ou não pôde dar fruto.
138.
A homilia não pode ser um espectáculo de divertimento, não corresponde à lógica
dos recursos mediáticos, mas deve dar fervor e significado à celebração. É um
género peculiar, já que se trata de uma pregação no quadro duma celebração
litúrgica; por conseguinte, deve ser breve e evitar que se pareça com uma
conferência ou uma lição. O pregador pode até ser capaz de manter vivo o
interesse das pessoas por uma hora, mas assim a sua palavra torna-se mais importante
que a celebração da fé. Se a homilia se prolonga demasiado, lesa duas
características da celebração litúrgica: a harmonia entre as suas partes e o
seu ritmo. Quando a pregação se realiza no contexto da Liturgia, incorpora-se
como parte da oferenda que se entrega ao Pai e como mediação da graça que
Cristo derrama na celebração. Este mesmo contexto exige que a pregação oriente
a assembleia, e também o pregador, para uma comunhão com Cristo na Eucaristia,
que transforme a vida. Isto requer que a palavra do pregador não ocupe um lugar
excessivo, para que o Senhor brilhe mais que o ministro.
A
conversa da mãe
139.
Dissemos que o povo de Deus, pela acção constante do Espírito nele, se
evangeliza continuamente a si mesmo. Que implicações têm esta convicção para o
pregador? Lembra-nos que a Igreja é mãe e prega ao povo como uma mãe fala ao
seu filho, sabendo que o filho tem confiança de que tudo o que se lhe ensina é
para seu bem, porque se sente amado. Além disso, a boa mãe sabe reconhecer tudo
o que Deus semeou no seu filho, escuta as suas preocupações e aprende com ele.
O espírito de amor que reina numa família guia tanto a mãe como o filho nos
seus diálogos, nos quais se ensina e aprende, se corrige e valoriza o que é
bom; assim deve acontecer também na homilia. O Espírito que inspirou os
Evangelhos e actua no povo de Deus, inspira também como se deve escutar a fé do
povo e como se deve pregar em cada Eucaristia. Portanto a pregação cristã
encontra, no coração da cultura do povo, um manancial de água viva tanto para
saber o que se deve dizer como para encontrar o modo mais apropriado para o
dizer. Assim como todos gostamos que nos falem na nossa língua materna, assim
também, na fé, gostamos que nos falem em termos da «cultura materna», em termos
do idioma materno (cf. 2 Mac 7, 21.27), e o coração dispõe-se a ouvir melhor.
Esta linguagem é uma tonalidade que transmite coragem, inspiração, força,
impulso.
140.
Este âmbito materno-eclesial, onde se desenrola o diálogo do Senhor com o seu
povo, deve ser encarecido e cultivado através da proximidade cordial do
pregador, do tom caloroso da sua voz, da mansidão do estilo das suas frases, da
alegria dos seus gestos. Mesmo que às vezes a homilia seja um pouco maçante, se
houver este espírito materno-eclesial, será sempre fecunda, tal como os conselhos
maçantes duma mãe, com o passar do tempo, dão fruto no coração dos filhos.
141.
Ficamos admirados com os recursos empregues pelo Senhor para dialogar com o seu
povo, revelar o seu mistério a todos, cativar a gente comum com ensinamentos
tão elevados e exigentes. Creio que o segredo de Jesus esteja escondido naquele
seu olhar o povo mais além das suas fraquezas e quedas: «Não temais, pequenino
rebanho, porque aprouve ao vosso Pai dar-vos o Reino» (Lc 12, 32); Jesus prega com
este espírito. Transbordando de alegria no Espírito, bendiz o Pai por Lhe
atrair os pequeninos: «Bendigo-Te, ó Pai, Senhor do Céu e da Terra, porque
escondeste estas coisas aos sábios e aos inteligentes e as revelaste aos
pequeninos» (Lc 10, 21). O Senhor compraz-Se verdadeiramente em dialogar com o
seu povo, e compete ao pregador fazer sentir este gosto do Senhor ao seu povo.
Palavras
que abrasam os corações
142.
Um diálogo é muito mais do que a comunicação duma verdade. Realiza-se pelo
prazer de falar e pelo bem concreto que se comunica através das palavras entre
aqueles que se amam. É um bem que não consiste em coisas, mas nas próprias
pessoas que mutuamente se dão no diálogo. A pregação puramente moralista ou
doutrinadora e também a que se transforma numa lição de exegese reduzem esta
comunicação entre os corações que se verifica na homilia e que deve ter um
carácter quase sacramental: «A fé surge da pregação, e a pregação surge pela
palavra de Cristo» (Rm 10, 17). Na homilia, a verdade anda de mãos dadas com a
beleza e o bem. Não se trata de verdades abstractas ou de silogismos frios,
porque se comunica também a beleza das imagens que o Senhor utilizava para
incentivar a prática do bem. A memória do povo fiel, como a de Maria, deve
ficar transbordante das maravilhas de Deus. O seu coração, esperançado na
prática alegre e possível do amor que lhe foi anunciado, sente que toda a
palavra na Escritura, antes de ser exigência, é dom.
143.
O desafio duma pregação inculturada consiste em transmitir a síntese da
mensagem evangélica, e não ideias ou valores soltos. Onde está a tua síntese,
ali está o teu coração. A diferença entre fazer luz com sínteses e o fazê-lo
com ideias soltas é a mesma que há entre o ardor do coração e o tédio. O
pregador tem a belíssima e difícil missão de unir os corações que se amam: o do
Senhor e os do seu povo. O diálogo entre Deus e o seu povo reforça ainda mais a
aliança entre ambos e estreita o vínculo da caridade. Durante o tempo da
homilia, os corações dos crentes fazem silêncio e deixam-No falar a Ele. O
Senhor e o seu povo falam-se de mil e uma maneiras directamente, sem
intermediários, mas, na homilia, querem que alguém sirva de instrumento e
exprima os sentimentos, de modo que, depois, cada um possa escolher como
continuar a sua conversa. A palavra é, essencialmente, mediadora e necessita
não só dos dois dialogantes mas também de um pregador que a represente como
tal, convencido de que «não nos pregamos a nós mesmos, mas a Cristo Jesus, o
Senhor, e nos consideramos vossos servos, por amor de Jesus» (2 Cor 4, 5).
144.
Falar com o coração implica mantê-lo não só ardente, mas também iluminado pela
integridade da Revelação e pelo caminho que essa Palavra percorreu no coração
da Igreja e do nosso povo fiel ao longo da sua história. A identidade cristã,
que é aquele abraço baptismal que o Pai nos deu em pequeninos, faz-nos anelar,
como fi-lhos pródigos – e predilectos em Maria –, pelo outro abraço, o do Pai
misericordioso que nos espera na glória. Fazer com que o nosso povo se sinta,
de certo modo, no meio destes dois abraços é a tarefa difícil, mas bela, de
quem prega o Evangelho.
III.
A preparação da pregação
145.
A preparação da pregação é uma tarefa tão importante que convém dedicar-lhe um
tempo longo de estudo, oração, reflexão e criatividade pastoral. Com muita
amizade, quero deter-me a propor um itinerário de preparação da homilia.
Trata-se de indicações que, para alguns, poderão parecer óbvias, mas considero
oportuno sugeri-las para recordar a necessidade de dedicar um tempo
privilegiado a este precioso ministério. Alguns párocos sustentam
frequentemente que isto não é possível por causa de tantas incumbências que
devem desempenhar; todavia atrevo-me a pedir que todas as semanas se dedique a
esta tarefa um tempo pessoal e comunitário suficientemente longo, mesmo que se
tenha de dar menos tempo a outras tarefas também importantes. A confiança no
Espírito Santo que actua na pregação não é meramente passiva, mas activa e
criativa. Implica oferecer-se como instrumento (cf. Rm 12, 1), com todas as
próprias capacidades, para que possam ser utilizadas por Deus. Um pregador que
não se prepara não é «espiritual»: é desonesto e irresponsável quanto aos dons
que recebeu.
O
culto da verdade
146.
O primeiro passo, depois de invocar o Espírito Santo, é prestar toda a atenção
ao texto bíblico, que deve ser o fundamento da pregação. Quando alguém se detém
procurando compreender qual é a mensagem dum texto, exerce o «culto da
verdade». 113 É a humildade do coração que reconhece que a Palavra
sempre nos transcende, que somos, «não os árbitros nem os proprietários, mas os
depositários, os arautos e os servidores». 114 Esta atitude de
humilde e deslumbrada veneração da Palavra exprime-se detendo-se a estudá-la
com o máximo cuidado e com um santo temor de a manipular. Para se poder
interpretar um texto bíblico, faz falta paciência, pôr de parte toda a
ansiedade e atribuir-lhe tempo, interesse e dedicação gratuita. Há que pôr de
lado qualquer preocupação que nos inquiete, para entrar noutro âmbito de serena
atenção. Não vale a pena dedicar-se a ler um texto bíblico, se aquilo que se
quer obter são resultados rápidos, fáceis ou imediatos. Por isso, a preparação
da pregação requer amor. Uma pessoa só dedica um tempo gratuito e sem pressa às
coisas ou às pessoas que ama; e aqui trata-se de amar a Deus, que quis falar. A
partir deste amor, uma pessoa pode deter-se todo o tempo que for necessário,
com a atitude dum discípulo: «Fala, Senhor; o teu servo escuta» (1 Sam 3, 9).
147.
Em primeiro lugar, convém estarmos seguros de compreender adequadamente o
significado das palavras que lemos. Quero insistir em algo que parece evidente,
mas que nem sempre é tido em conta: o texto bíblico, que estudamos, tem dois ou
três mil anos, a sua linguagem é muito diferente da que usamos agora. Por mais
que nos pareça termos entendido as palavras, que estão traduzidas na nossa
língua, isso não significa que compreendemos correctamente tudo o que o
escritor sagrado queria exprimir. São conhecidos os vários recursos que proporciona
a análise literária: prestar atenção às palavras que se repetem ou evidenciam,
reconhecer a estrutura e o dinamismo próprio dum texto, considerar o lugar que
ocupam os personagens, etc. Mas o objectivo não é o de compreender todos os
pequenos detalhes dum texto; o mais importante é descobrir qual é a mensagem
principal, a mensagem que confere estrutura e unidade ao texto. Se o pregador
não faz este esforço, é possível que também a sua pregação não tenha unidade
nem ordem; o seu discurso será apenas uma súmula de várias ideias
desarticuladas que não conseguirão mobilizar os outros. A mensagem central é
aquela que o autor quis primariamente transmitir, o que implica identificar não
só uma ideia mas também o efeito que esse autor quis produzir. Se um texto foi
escrito para consolar, não deveria ser utilizado para corrigir erros; se foi
escrito para exortar, não deveria ser utilizado para instruir; se foi escrito
para ensinar algo sobre Deus, não deveria ser utilizado para explicar várias
opiniões teológicas; se foi escrito para levar ao louvor ou ao serviço
missionário, não o utilizemos para informar sobre as últimas notícias.
148.
É verdade que, para se entender adequadamente o sentido da mensagem central dum
texto, é preciso colocá-lo em ligação com o ensinamento da Bíblia inteira,
transmitida pela Igreja. Este é um princípio importante da interpretação
bíblica, que tem em conta que o Espírito Santo não inspirou só uma parte, mas a
Bíblia inteira, e que, nalgumas questões, o povo cresceu na sua compreensão da
vontade de Deus a partir da experiência vivida. Assim se evitam interpretações
equivocadas ou parciais, que contradizem outros ensinamentos da mesma
Escritura. Mas isto não significa enfraquecer a acentuação própria e específica
do texto que se deve pregar. Um dos defeitos duma pregação enfadonha e ineficaz
é precisamente não poder transmitir a força própria do texto que foi
proclamado.
_________________________________
Notas:
112
João Paulo II, Carta ap. Dies Domini (31 de Maio de 1998), 41: AAS 90 (1998),
738-739.
113
Paulo VI, Exort. ap. Evangelii nuntiandi (8 de Dezembro de 1975), 78: AAS 68
(1976), 71.
114
Ibid., 78: o. c., 71.
Tratado dos vícios e pecados 26
Art. 10 – Se na razão
superior, como tal, i. é, enquanto contempla as razões eternas, pode haver
pecado venial.
(II
Sent., dist. XXIV, q. 6, a. 5; De Verit., q. 15, a. 5; De Malo, q. 7, a. 5)
O
décimo discute-se assim. ― Parece que na razão superior, como tal, i. é,
enquanto contemplativa das razões eternas, não pode haver pecado venial.
1.
― Pois, o acto da potência não vem a ser deficiente senão porque se comporta
desordenadamente em relação ao seu objecto. Ora, o objecto da razão superior
são as razões eternas, das quais não é possível afastar-se sem pecado mortal.
Logo, na razão superior, como tal, não pode haver pecado venial.
2.
Demais. ― Sendo a razão uma potência deliberativa, o seu acto é sempre
acompanhado de deliberação. Ora, todo acto deliberadamente desordenado,
relativo às coisas de Deus, é pecado mortal. Logo, na razão superior como tal
não há nunca pecado venial.
3.
Demais. ― Às vezes acontece que o pecado sub-reptício é venial. É mortal, ao
contrário, o que implica deliberação, porque a razão deliberante se apoia num
bem maior, agindo contra o qual peca mais gravemente. Assim, se a razão,
consentindo deliberadamente num acto deleitável desordenado e contrário à lei
de Deus, pecará mais gravemente do que se considerar que esse acto só é
contrário a uma virtude moral. Ora, a razão superior não pode apoiar-se em nada
mais elevado do que o seu objecto. Logo, se a moção sub-reptícia não for pecado
mortal, nem o fará tal a deliberação superveniente, o que é evidentemente
falso. Logo, na razão superior, como tal, não pode haver pecado venial.
Mas,
em contrário. ―A moção sub-reptícia de infidelidade é pecado venial. Ora, é
próprio da razão superior como tal. Logo, nela, como tal, pode haver pecado
venial.
A razão superior é levada, de um modo, para o seu objecto, e, de outro, para
os objectos das potências inferiores, dirigidas por ela. ― Ora, não é levada
para os objectos dessas potências, senão na medida em que consulta, sobre eles,
as razões eternas. Portanto não é levado para eles senão por deliberação. Ora,
o consentimento deliberado no pecado genericamente mortal, constitui pecado
mortal. Logo, a razão superior peca sempre mortalmente, se forem pecados
mortais os actos das potências inferiores em que consente.
Por
outro lado, ela é capaz de dois actos, relativamente ao seu objecto próprio, a
saber: a simples intuição, e a deliberação, pela qual, mesmo relativamente ao
seu objecto próprio, consulta as razões eternas. Ora, por simples intuição, ela
é suscetível a uma moção desordenada relativa às coisas divinas, assim, quando
nos sobrevém uma súbita moção de infidelidade. E embora esta seja genericamente,
pecado mortal, contudo a seu súbito consentimento é só venial. Porque se não há
pecado mortal senão contra a lei de Deus, pode contudo uma verdade de fé
aparecer subitamente à razão sob um aspecto diferente, antes de, no caso, ser
ou poder ser consultada a razão eterna, i. é, a lei de Deus. Assim, se tivermos
o súbito pensamento de ser impossível na ordem natural a ressurreição dos
mortos, e subitamente rejeitá-la antes de ter tempo de deliberar que nos foi
transmitida, para nela crermos, pela lei divina. Se porém, depois dessa
deliberação, permanecer a moção de infidelidade, haverá pecado mortal. E
portanto, em relação ao seu objecto próprio, a razão superior pode, nos
movimentos súbitos, pecar venialmente, ou mesmo mortalmente, por consentimento
deliberado, embora o pecado seja, no seu género, mortal. No atinente, porém, às
potências inferiores, peca sempre mortalmente, quanto ao pecado genericamente
mortal, mas não quanto aos genericamente veniais.
DONDE
A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJECÇÃO. ― O pecado contra as razões eternas, embora só
genericamente mortal, pode contudo ser venial, por causa da imperfeição da
moção súbita, como já se disse.
RESPOSTA
À SEGUNDA. ― Na ordem dos actos, a razão a que pertence a deliberação pertence
também a simples intuição daquilo de que a deliberação procede, assim como
também, na ordem especulativa, pertence à razão formar tanto os silogismos como
as proposições. E portanto, a razão também pode ser susceptível de movimentos
súbitos.
RESPOSTA
À TERCEIRA. ― Um mesmo objecto pode ser susceptível de considerações diversas,
dos quais seja um superior ao outro. Assim, Deus pode ser considerado, ou
enquanto cognoscível pela razão humana, ou enquanto ensinado pela revelação
divina, que é consideração mais alta. E portanto, embora o objecto da razão
superior seja algo de altíssimo, por natureza, pode contudo ser reduzido a uma
consideração mais alta. E por esta razão, aquilo que, no movimento súbito, não
era pecado mortal, vem a sê-lo, pela deliberação redutora a uma consideração
mais alta, como ficou exposto.
Revisão da tradução portuguesa por ama
Diálogos apostólicos 6
Reservando a privacidade e sob este título genérico de ‘Diálogos apostólicos’ publicam-se alguns diálogos, recados e excertos de conversas a respeito da Melhoria Pessoal e da Vida Interior.
Renova a alegria de lutar
Em certos momentos angustia-te um princípio de
desânimo, que mata todo o teu entusiasmo, e que mal consegues vencer à força de
actos de esperança. Não importa; é a melhor hora de pedir mais graça a Deus, e
avante! Renova a alegria de lutar, ainda que percas uma escaramuça. (Sulco, 77)
Com monótona cadência sai da boca de muitos o
ritornello já tão vulgar, de que a esperança é a última coisa que se perde;
como se a esperança fosse um apoio para continuarmos a deambular sem complicações,
sem inquietações de consciência; ou como se fosse um expediente que permite
adiar sine die a oportuna rectificação do procedimento, a luta para alcançar
metas nobres e, sobretudo, o fim supremo de nos unirmos com Deus.
Eu diria que esse é o caminho para confundir a
esperança com a comodidade. No fundo, não há ânsias de conseguir um verdadeiro
bem, nem espiritual, nem material legítimo; a mais alta pretensão de alguns
reduz-se a evitar o que poderia alterar a tranquilidade – aparente – de uma
existência medíocre. Com uma alma tímida, acanhada, preguiçosa, a criatura
enche-se de egoísmos subtis e conforma-se com o facto de os dias, os anos
decorrerem sine spe nec metu, sem aspirações que exijam esforço, sem os perigos
da peleja: o que importa é evitar o risco do desaire e das lágrimas. Que longe
se está de obter uma coisa, se se malogrou o desejo de a possuir, por temor das
exigências que a sua conquista comporta! (Amigos de Deus, n. 207)
09/03/2014
Evangelho diário e comentário
| Tempo de Quaresma Semana I |
1 Então Jesus foi conduzido pelo Espírito ao
deserto, para ser tentado pelo demónio. 2 Jejuou quarenta dias e
quarenta noites, e depois teve fome. 3 E, aproximando-se d'Ele o
tentador, disse-Lhe: «Se és Filho de Deus, diz que estas pedras se convertam em
pães». 4 Jesus respondeu: «Está escrito: “Não só de pão vive o
homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus”». 5 Então o
demónio transportou-O à cidade santa, pô-l'O sobre o pináculo do templo, 6
e disse-Lhe: «Se és Filho de Deus, lança-Te daqui a baixo, porque está escrito:
“Mandou aos seus anjos em teu favor, eles te levarão nas suas mãos, para que o
teu pé não tropece em alguma pedra”». 7 Jesus disse-lhe: «Também
está escrito: “Não tentarás o Senhor teu Deus”». 8 De novo o demónio
O transportou a um monte muito alto, e Lhe mostrou todos os reinos do mundo e a
sua magnificência, 9 e disse-Lhe: «Tudo isto Te darei, se,
prostrado, me adorares». 10 Então, Jesus disse-lhe: «Vai-te,
satanás, porque está escrito: “Ao Senhor teu Deus adorarás e a Ele só
servirás”». 11 Então o demónio deixou-O; e eis que os anjos se
aproximaram e O serviram.
Comentário:
Ninguém está "a
salvo" das tentações do demónio e, quanto mais se progride na santidade
pessoal mais se encarniça o tentador, por isso, não devemos admirar-nos de em
qualquer idade ou circunstância sermos tentados.
Por vezes, a tentação
incomoda bastante pelo "despropósito" ou pela "realidade" e
nitidez do quadro apresentado.
Mas, perigosa é aquela que
se apresenta subtil, quase despercebida que se insinua sub-reptícia de tal modo
que, quando nos damos conta já nos dominou o pensamento ou a imaginação.
(ama, comentário sobre Mt 4, 1-11,
2011.03.13)
Leitura espiritual para 09 Mar
A leitura tem feito muitos santos.
(S. josemaria, Caminho 116)
Está aconselhada a leitura espiritual diária de mais ou menos 15 minutos. Além da leitura do novo testamento, (seguiu-se o esquema usado por P. M. Martinez em “NOVO TESTAMENTO” Editorial A. O. - Braga) devem usar-se textos devidamente aprovados. Não deve ser leitura apressada, para “cumprir horário”, mas com vagar, meditando, para que o que lemos seja alimento para a nossa alma.
Evangelho: Lc 6, 1-26
1 Num sábado, passando Jesus pelas searas, os Seus
discípulos colhiam espigas e debulhando-as nas mãos, as comiam. 2
Alguns dos fariseus disseram-lhes: «Porque fazeis o que não é permitido aos
sábados?». 3 Jesus respondeu-lhes: «Não lestes o que fez David,
quando teve fome, ele e os que com ele estavam? 4 Como entrou na
casa de Deus, tomou os pães da proposição, comeu deles e deu aos seus
companheiros, embora não fosse permitido comer deles senão aos sacerdotes?». 5
Depois acrescentou: «O Filho do Homem é Senhor também do sábado». 6
Aconteceu que, noutro sábado, entrou Jesus na sinagoga e ensinava. Estava ali
um homem que tinha a mão direita atrofiada. 7 Os escribas e os
fariseus observavam-n'O para ver se curava ao sábado, a fim de terem de que O
acusar. 8 Mas Ele conhecia os seus pensamentos, e disse ao homem que
tinha a mão atrofiada: «Levanta-te e põe-te em pé no meio». Ele, levantando-se,
pôs-se de pé. 9 Jesus disse-lhes: «Pergunto-vos se é lícito, aos sábados,
fazer bem ou mal, salvar a vida ou tirá-la». 10 Depois, percorrendo
a todos com o olhar, disse ao homem: «Estende a tua mão». Ele estendeu-a, e a
sua mão ficou curada. 11 Eles encheram-se de furor e falavam uns com
os outros para ver que fariam contra Jesus. 12 Naqueles dias Jesus
retirou-se para o monte a orar, e passou toda a noite em oração a Deus. 13
Quando se fez dia, chamou os Seus discípulos e escolheu doze dentre eles, aos
quais deu o nome de Apóstolos: 14 Simão, a quem deu o sobrenome de
Pedro, seu irmão André, Tiago, João, Filipe, Bartolomeu, 15 Mateus,
Tomé, Tiago, filho de Alfeu, Simão, chamado o Zelote, 16 Judas,
irmão de Tiago, e Judas Iscariotes, que foi o traidor. 17 Descendo
com eles, parou numa planície. Estava lá um grande número dos Seus discípulos e
uma grande multidão de povo de toda a Judeia, de Jerusalém, do litoral de Tiro
e de Sidónia, 18 que tinham vindo para O ouvir, e para ser curados
das suas doenças. Os que eram atormentados pelos espíritos imundos ficavam
também curados. 19 Todo o povo procurava tocá-l'O, porque saía d'Ele
uma virtude que os curava a todos. 20 Levantando os olhos para os
Seus discípulos, dizia: «Bem-aventurados vós os pobres, porque vosso é o reino
de Deus. 21 Bem-aventurados os que agora tendes fome, porque sereis
saciados. Bem-aventurados os que agora chorais, porque haveis de rir. 22
Bem-aventurados sereis quando os homens vos odiarem, vos repelirem, vos
carregarem de injúrias e rejeitarem o vosso nome como infame, por causa do
Filho do Homem. 23 Alegrai-vos nesse dia e exultai, porque será
grande a vossa recompensa no céu. Era assim que os pais deles tratavam os profetas.
24 «Mas, ai de vós, os ricos, porque tendes já a vossa consolação. 25
Ai de vós os que estais saciados, porque vireis a ter fome. Ai de vós os que
agora rides, porque gemereis e chorareis. 26 Ai de vós, quando todos
os homens vos louvarem, porque assim faziam aos falsos profetas os pais deles.
EXORTAÇÃO APOSTÓLICA
EVANGELII GAUDIUM
DO SANTO PADRE FRANCISCO
AO EPISCOPADO, AO CLERO ÀS PESSOAS CONSAGRADAS E AOS
FIÉIS LEIGOS
SOBRE
O ANÚNCIO DO EVANGELHO NO MUNDO ACTUAL
Capítulo
III
O ANÚNCIO DO EVANGELHO
Todos
somos discípulos missionários
119.
Em todos os baptizados, desde o primeiro ao último, actua a força santificadora
do Espírito que impele a evangelizar. O povo de Deus é santo em virtude desta
unção, que o torna infalível «in credendo», ou seja, ao crer, não pode
enganar-se, ainda que não encontre palavras para explicar a sua fé. O Espírito
guia-o na verdade e condu-lo à salvação. 96 Como parte do seu
mistério de amor pela humanidade, Deus dota a totalidade dos fiéis com um
instinto da fé – o sensus fidei – que os ajuda a discernir o que vem realmente
de Deus. A presença do Espírito confere aos cristãos uma certa conaturalidade
com as realidades divinas e uma sabedoria que lhes permite captá-las
intuitivamente, embora não possuam os meios adequados para expressá-las com
precisão.
120.
Em virtude do Baptismo recebido, cada membro do povo de Deus tornou-se
discípulo missionário (cf. Mt 28, 19). Cada um dos baptizados,
independentemente da própria função na Igreja e do grau de instrução da sua fé,
é um sujeito activo de evangelização, e seria inapropriado pensar num esquema
de evangelização realizado por agentes qualificados enquanto o resto do povo
fiel seria apenas receptor das suas acções. A nova evangelização deve implicar
um novo protagonismo de cada um dos baptizados. Esta convicção transforma-se
num apelo dirigido a cada cristão para que ninguém renuncie ao seu compromisso
de evangelização, porque, se uma pessoa experimentou verdadeiramente o amor de
Deus que o salva, não precisa de muito tempo de preparação para sair a
anunciá-lo, não pode esperar que lhe deem muitas lições ou longas instruções.
Cada cristão é missionário na medida em que se encontrou com o amor de Deus em
Cristo Jesus; não digamos mais que somos «discípulos» e «missionários», mas
sempre que somos «discípulos missionários». Se não estivermos convencidos
disto, olhemos para os primeiros discípulos, que logo depois de terem conhecido
o olhar de Jesus, saíram proclamando cheios de alegria: «Encontrámos o Messias»
(Jo 1, 41). A Samaritana, logo que terminou o seu diálogo com Jesus, tornou-se
missionária, e muitos samaritanos acreditaram em Jesus «devido às palavras da
mulher» (Jo 4, 39). Também São Paulo, depois do seu encontro com Jesus Cristo,
«começou imediatamente a proclamar (…) que Jesus era o Filho de Deus» (Act 9, 20).
Porque esperamos nós?
121.
Certamente todos somos chamados a crescer como evangelizadores. Devemos
procurar simultaneamente uma melhor formação, um aprofundamento do nosso amor e
um testemunho mais claro do Evangelho. Neste sentido, todos devemos deixar que
os outros nos evangelizem constantemente; isto não significa que devemos renunciar
à missão evangelizadora, mas encontrar o modo de comunicar Jesus que
corresponda à situação em que vivemos. Seja como for, todos somos chamados a
dar aos outros o testemunho explícito do amor salvífico do Senhor, que, sem
olhar às nossas imperfeições, nos oferece a sua proximidade, a sua Palavra, a
sua força, e dá sentido à nossa vida. O teu coração sabe que a vida não é a
mesma coisa sem Ele; pois bem, aquilo que descobriste, o que te ajuda a viver e
te dá esperança, isso é o que deves comunicar aos outros. A nossa imperfeição
não deve ser desculpa; pelo contrário, a missão é um estímulo constante para
não nos acomodarmos na mediocridade, mas continuarmos a crescer. O testemunho
de fé, que todo o cristão é chamado a oferecer, implica dizer como São Paulo:
«Não que já o tenha alcançado ou já seja perfeito; mas corro para ver se o
alcanço, (…) lançando-me para o que vem à frente» (Fl 3, 12-13).
A
força evangelizadora da piedade popular
122.
Da mesma forma, podemos pensar que os diferentes povos, nos quais foi
inculturado o Evangelho, são sujeitos colectivos activos, agentes da
evangelização. Assim é, porque cada povo é o criador da sua cultura e o
protagonista da sua história. A cultura é algo de dinâmico, que um povo recria
constantemente, e cada geração transmite à seguinte um conjunto de atitudes
relativas às diversas situações existenciais, que esta nova geração deve
reelaborar face aos próprios desafios. O ser humano «é simultaneamente filho e
pai da cultura onde está inserido». 97 Quando o Evangelho se
inculturou num povo, no seu processo de transmissão cultural também transmite a
fé de maneira sempre nova; daí a importância da evangelização entendida como
inculturação. Cada porção do povo de Deus, ao traduzir na vida o dom de Deus
segundo a sua índole própria, dá testemunho da fé recebida e enriquece-a com
novas expressões que falam por si. Pode dizer-se que «o povo se evangeliza
continuamente a si mesmo». 98 Aqui ganha importância a piedade
popular, verdadeira expressão da actividade missionária espontânea do povo de
Deus. Trata-se de uma realidade em permanente desenvolvimento, cujo
protagonista é o Espírito Santo. 99
123.
Na piedade popular, pode-se captar a modalidade em que a fé recebida se
encarnou numa cultura e continua a transmitir-se. Vista por vezes com
desconfiança, a piedade popular foi objecto de revalorização nas décadas
posteriores ao Concílio. Quem deu um impulso decisivo nesta direcção, foi Paulo
VI na sua Exortação Apostólica Evangelii nuntiandi. Nela explica que a piedade
popular «traduz em si uma certa sede de Deus, que somente os pobres e os
simples podem experimentar» 100 e «torna as pessoas capazes para
terem rasgos de generosidade e predispõe-nas para o sacrifício até ao heroísmo,
quando se trata de manifestar a fé». 101 Já mais perto dos nossos
dias, Bento XVI, na América Latina, assinalou que se trata de um «precioso
tesouro da Igreja Católica» e que nela «aparece a alma dos povos latino-americanos».
102
124.
No Documento de Aparecida, descrevem-se as riquezas que o Espírito Santo
explicita na piedade popular por sua iniciativa gratuita. Naquele amado
Continente, onde uma multidão imensa de cristãos exprime a sua fé através da
piedade popular, os Bispos chamam-na também «espiritualidade popular» ou
«mística popular». 103 Trata-se de uma verdadeira «espiritualidade
encarnada na cultura dos simples». 104 Não é vazia de conteúdos, mas
descobre-os e exprime-os mais pela via simbólica do que pelo uso da razão
instrumental e, no acto de fé, acentua mais o credere in Deum que o credere
Deum. 105 É «uma maneira legítima de viver a fé, um modo de se
sentir parte da Igreja e uma forma de ser missionários»; 106 comporta
a graça da missionariedade, do sair de si e do peregrinar: «O caminhar juntos
para os santuários e o participar em outras manifestações da piedade popular,
levando também os filhos ou convidando a outras pessoas, é em si mesmo um gesto
evangelizador». 107 Não coarctemos nem pretendamos controlar esta
força missionária!
125.
Para compreender esta necessidade, é preciso abordá-la com o olhar do Bom
Pastor, que não procura julgar mas amar. Só a partir da conaturalidade afectiva
que dá o amor é que podemos apreciar a vida teologal presente na piedade dos
povos cristãos, especialmente nos pobres. Penso na fé firme das mães ao pé da
cama do filho doente, que se agarram a um terço ainda que não saibam elencar os
artigos do Credo; ou na carga imensa de esperança contida numa vela que se
acende, numa casa humilde, para pedir ajuda a Maria, ou nos olhares de profundo
amor a Cristo crucificado. Quem ama o povo fiel de Deus, não pode ver estas
acções unicamente como uma busca natural da divindade; são a manifestação duma
vida teologal animada pela acção do Espírito Santo, que foi derramado em nossos
corações (cf. Rm 5, 5).
126.Na
piedade popular, por ser fruto do Evangelho inculturado, subjaz uma força
activamente evangelizadora que não podemos subestimar: seria ignorar a obra do
Espírito Santo. Ao contrário, somos chamados a encorajá-la e fortalecê-la para
aprofundar o processo de inculturação, que é uma realidade nunca acabada. As
expressões da piedade popular têm muito que nos ensinar e, para quem as sabe
ler, são um lugar teológico a que devemos prestar atenção particularmente na
hora de pensar a nova evangelização.
De
pessoa a pessoa
127.
Hoje que a Igreja deseja viver uma profunda renovação missionária, há uma forma
de pregação que nos compete a todos como tarefa diária: é cada um levar o
Evangelho às pessoas com quem se encontra, tanto aos mais íntimos como aos
desconhecidos. É a pregação informal que se pode realizar durante uma conversa,
e é também a que realiza um missionário quando visita um lar. Ser discípulo
significa ter a disposição permanente de levar aos outros o amor de Jesus; e
isto sucede espontaneamente em qualquer lugar: na rua, na praça, no trabalho,
num caminho.
128.
Nesta pregação, sempre respeitosa e amável, o primeiro momento é um diálogo
pessoal, no qual a outra pessoa se exprime e partilha as suas alegrias, as suas
esperanças, as preocupações com os seus entes queridos e muitas coisas que
enchem o coração. Só depois desta conversa é que se pode apresentar-lhe a
Palavra, seja pela leitura de algum versículo ou de modo narrativo, mas sempre
recordando o anúncio fundamental: o amor pessoal de Deus que Se fez homem,
entregou-Se a Si mesmo por nós e, vivo, oferece a sua salvação e a sua amizade.
É o anúncio que se partilha com uma atitude humilde e testemunhal de quem
sempre sabe aprender, com a consciência de que esta mensagem é tão rica e
profunda que sempre nos ultrapassa. Umas vezes exprime-se de maneira mais
directa, outras através dum testemunho pessoal, uma história, um gesto, ou
outra forma que o próprio Espírito Santo possa suscitar numa circunstância
concreta. Se parecer prudente e houver condições, é bom que este encontro
fraterno e missionário conclua com uma breve oração que se relacione com as
preocupações que a pessoa manifestou. Assim ela sentirá mais claramente que foi
ouvida e interpretada, que a sua situação foi posta nas mãos de Deus, e
reconhecerá que a Palavra de Deus fala realmente à sua própria vida.
129.
Contudo não se deve pensar que o anúncio evangélico tenha de ser transmitido
sempre com determinadas fórmulas pré-estabelecidas ou com palavras concretas
que exprimam um conteúdo absolutamente invariável. Transmite-se com formas tão
diversas que seria impossível descrevê-las ou catalogá-las, e cujo sujeito
colectivo é o povo de Deus com seus gestos e sinais inumeráveis. Por
conseguinte, se o Evangelho se encarnou numa cultura, já não se comunica apenas
através do anúncio de pessoa a pessoa. Isto deve fazer-nos pensar que, nos
países onde o cristianismo é minoria, para além de animar cada baptizado a
anunciar o Evangelho, as Igrejas particulares hão-de promover activamente
formas, pelo menos incipientes, de inculturação. Enfim, o que se deve procurar
é que a pregação do Evangelho, expressa com categorias próprias da cultura onde
é anunciado, provoque uma nova síntese com essa cultura. Embora estes processos
sejam sempre lentos, às vezes o medo paralisa-nos demasiado. Se deixamos que as
dúvidas e os medos sufoquem toda a ousadia, é possível que, em vez de sermos
criativos, nos deixemos simplesmente ficar cómodos sem provocar qualquer avanço
e, neste caso, não seremos participantes dos processos históricos com a nossa
cooperação, mas simplesmente espectadores duma estagnação estéril da Igreja.
Carismas
ao serviço da comunhão evangelizadora
130.
O Espírito Santo enriquece toda a Igreja evangelizadora também com diferentes
carismas. São dons para renovar e edificar a Igreja. 108 Não se
trata de um património fechado, entregue a um grupo para que o guarde; mas são
presentes do Espírito integrados no corpo eclesial, atraídos para o centro que
é Cristo, donde são canalizados num impulso evangelizador. Um sinal claro da
autenticidade dum carisma é a sua eclesialidade, a sua capacidade de se
integrar harmoniosamente na vida do povo santo de Deus para o bem de todos. Uma
verdadeira novidade suscitada pelo Espírito não precisa de fazer sombra sobre
outras espiritualidades e dons para se afirmar a si mesma. Quanto mais um
carisma dirigir o seu olhar para o coração do Evangelho, tanto mais eclesial
será o seu exercício. É na comunhão, mesmo que seja fadigosa, que um carisma se
revela autêntica e misteriosamente fecundo. Se vive este desafio, a Igreja pode
ser um modelo para a paz no mundo.
131.
As diferenças entre as pessoas e as comunidades por vezes são incómodas, mas o
Espírito Santo, que suscita esta diversidade, de tudo pode tirar algo de bom e
transformá-lo em dinamismo evangelizador que actua por atracção. A diversidade
deve ser sempre conciliada com a ajuda do Espírito Santo; só Ele pode suscitar
a diversidade, a pluralidade, a multiplicidade e, ao mesmo tempo, realizar a unidade.
Ao invés, quando somos nós que pretendemos a diversidade e nos fechamos em
nossos particularismos, em nossos exclusivismos, provocamos a divisão; e, por
outro lado, quando somos nós que queremos construir a unidade com os nossos
planos humanos, acabamos por impor a uniformidade, a homologação. Isto não
ajuda a missão da Igreja.
Cultura,
pensamento e educação
132.
O anúncio às culturas implica também um anúncio às culturas profissionais,
científicas e académicas. É o encontro entre a fé, a razão e as ciências, que
visa desenvolver um novo discurso sobre a credibilidade, uma apologética
original 109 que ajude a criar as predisposições para que o
Evangelho seja escutado por todos. Quando algumas categorias da razão e das
ciências são acolhidas no anúncio da mensagem, tais categorias tornam-se
instrumentos de evangelização; é a água transformada em vinho. É aquilo que,
uma vez assumido, não só é redimido, mas torna-se instrumento do Espírito para
iluminar e renovar o mundo.
133.Uma
vez que não basta a preocupação do evangelizador por chegar a cada pessoa, mas
o Evangelho também se anuncia às culturas no seu conjunto, a teologia – e não
só a teologia pastoral – em diálogo com outras ciências e experiências humanas
tem grande importância para pensar como fazer chegar a proposta do Evangelho à
variedade dos contextos culturais e dos destinatários. 110 A Igreja,
comprometida na evangelização, aprecia e encoraja o carisma dos teólogos e o
seu esforço na investigação teológica, que promove o diálogo com o mundo da
cultura e da ciência. Faço apelo aos teólogos para que cumpram este serviço
como parte da missão salvífica da Igreja. Mas, para isso, é necessário que
tenham a peito a finalidade evangelizadora da Igreja e da própria teologia, e
não se contentem com uma teologia de gabinete.
134.As
universidades são um âmbito privilegiado para pensar e desenvolver este
compromisso de evangelização de modo interdisciplinar e inclusivo. As escolas
católicas, que sempre procuram conjugar a tarefa educacional com o anúncio
explícito do Evangelho, constituem uma contribuição muito válida para a
evangelização da cultura, mesmo em países e cidades onde uma situação adversa
nos incentiva a usar a nossa criatividade para se encontrar os caminhos
adequados. 111
____________________________________-
Notas:
96
Cf. Conc. Ecum. Vat.II, Const. dogm. sobre a Igreja Lumen gentium, 12.
97
João Paulo II, Carta enc. Fides et ratio (14 de Setembro de 1998), 71: AAS 91
(1999), 60.
98
III Conferência Geral do Episcopado Latino-americano e do Caribe, Documento de
Puebla (23 de Março de 1979), 450; cf. V Conferência Geral do Episcopado
Latino-americano e do Caribe, Documento de Aparecida (29 de Junho de 2007),
264.
99
Cf. João Paulo II, Exort. ap. pós-sinodal Ecclesia in Asia (6 de Novembro de
1999), 21: AAS 92 (2000), 482-484.
100 N.º 48: AAS 68 (1976),
38.
101 Ibid., 48: o. c., 38.
102
Discurso na Sessão inaugural da V Conferência Geral do Episcopado
Latino-americano e do Caribe (13 de Maio de 2007), 1: AAS 99 (2007), 446-447.
103
V Conferência Geral do Episcopado Latino-americano e do Caribe, Documento de
Aparecida (29 de Junho de 2007), 262.
104
Ibid., 263.
105
Cf. São Tomás de Aquino, Summa theologiae II-II, q. 2, a. 2.
106
V Conferência Geral do Episcopado Latino-americano e do Caribe, Documento de
Aparecida (29 de Junho de 2007), 264.
107
Ibid., 264.
108
Cf. Conc. Ecum. Vat. II, Const. dogm. sobre a Igreja Lumen gentium, 12.
109
Cf. Propositio 17.
110
Cf. Propositio 30.
111
Cf. Propositio 27.
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