23/06/2010

Textos de Reflexão para 23 de Junho

Evangelho: Mt 7, 15-20

15 «Guardai-vos dos falsos profetas, que vêm a vós vestidos de ovelhas, mas por dentro são lobos ferozes.16 Pelos seus frutos os conhecereis. Porventura se colhem uvas dos espinhos, ou figos dos abrolhos? 17 Assim toda a árvore boa dá bons frutos, e toda a árvore má dá maus frutos.18 Não pode uma árvore boa dar maus frutos, nem uma árvore má dar bons frutos.19 Toda a árvore que não dá bons frutos será cortada e lançada ao fogo.20 Vós os conhecereis, pois, pelos seus frutos.
Meditação:

Que seja conhecido pelos frutos, não para minha glória ou benefício mas para Te levar aqueles que esperam ver em mim caminho para Ti. Frutos de obras, Senhor, das obras que queres que eu leve a cabo e para as quais me falta tudo: vontade, disponibilidade, entrega e, sobretudo, humildade. Que tudo quanto faça seja por Ti e para a Tua glória. Docere me facere voluntatem Tuam quia Deus meus es Tu! 

(AMA, meditação sobre Mt 7, 15-20, Junho 2008)

Tema: Frutos da Redenção

Deus não só nos criou, deu-nos o ser, mas também nos outorgou a capacidade de actuar, de dominar o mundo, de o aperfeiçoar com o trabalho, desenvolvendo harmonicamente as potencialidades presentes na natureza. Além do mais, ama-nos até ao ponto de «querer necessitar» da nossa colaboração inclusive para o mais divino: a obra salvadora e redentora. O Pai enviou o Filho ao mundo para que nos redimisse com a Sua morte na Cruz, e envia-nos também o Espírito para que nos incorpore a Cristo e, formando uma só coisa com Cristo, cooperemos com Ele na tarefa de estender a todos os nossos irmãos, os homens, os frutos da Redenção. 

(D. Javier Echevarría, Itinerários de Vida Cristiana, Planeta, 2001, pg. 213)

22/06/2010



Recordare, Virgo mater, in conspectu Dei, ut loquaris pro nobis bona, et ut avertat indignationem suam a nobis.

Textos de Reflexão para 22 de Junho

Evangelho: Mt 7, 6. 12-14

6 «Não deis aos cães o que é santo, nem lanceis aos porcos as vossas pérolas, para que não suceda que eles as calquem com os seus pés, e que, voltando-se contra vós, vos despedacem.
12 «Portanto, tudo o que vós quereis que os homens vos façam, fazei-o também vós a eles; esta é a Lei e os Profetas.13 «Entrai pela porta estreita, porque larga é a porta, e espaçoso o caminho que leva à perdição, e muitos são os que entram por ele.14 Que estreita é a porta, e que apertado o caminho que leva à Vida, e quão poucos são os que dão com ele!

Comentário:

Este trecho do Evangelho realça como Jesus Cristo recomenda prudência no que diz respeito às coisas de Deus, nomeadamente quando o ambiente, aqueles que nos ouvem, não são os mais adequados ou têm algum objectivo pré determinado. Por exemplo, prudência em aceitar a comparência em algum fórum, programa de televisão, etc., ou responder a inquéritos cuja origem ou objectivos não são suficientemente claros e sérios. Esta prudência é a mesma que devemos usar no nosso caminhar diário para Deus. Sem dúvida que parece mais fácil e atraente o caminho aberto tão usado por tantos, já que, o outro, aparenta dificuldades, pede renúncias, sacrifícios, determinação.
Assim, a prudência com que devemos examinar por onde vamos é fundamental para não nos enganarmos no caminho

(ama, Comentário sobre Mt 7, 6; 12-14, 2009.03.11)

21/06/2010

Textos de Reflexão para 21 de Junho

Evangelho: Mt 7, 1-5

«Não julgueis, para que não sejais julgados; 2 pois, segundo o juízo com que julgardes, sereis julgados; e com a medida com que medirdes, vos medirão também a vós. 3 Porque olhas tu para a palha que está no olho de teu irmão, e não notas a trave no teu olho? 4 Como ousas dizer a teu irmão: Deixa-me tirar-te do olho uma palha, tendo tu uma trave no teu? 5 Hipócrita, tira primeiro a trave do teu olho, e então verás para tirar a palha do olho de teu irmão.

Meditação:

Ajuda-me Senhor, a conter-me no meu tão frequente julgamento dos outros. Intimamente e de viva voz. Põe na minha frente o espelho dos meus próprios defeitos e faltas de carácter, tudo aquilo que julgo ver nos outros. Não valho nada, não sei nada, não tenho nada, não sou nada.

(AMA, meditação sobre Mt 7, 1-5, Junho 2005)

Tema: Hipocrisia

Hipocrisia é pretensão ou fingimento de ser o que não é. Hipocrisia é o ato de fingir ter crenças, virtudes e sentimentos que a pessoa na verdade não possui. A palavra deriva do latim hypocrisis e do grego hupokrisis ambos significando representar ou fingir (WKP). Os actores gregos usavam máscaras de acordo com o papel que representavam numa peça teatral. É daí que o termo hipócrita designa alguém que oculta a realidade atrás de uma máscara de aparência. Uma dos termos mais “fortes” empregues – pelo menos 19 vezes ([1]) - por Jesus foi exactamente “hipócritas” quando se refere à duplicidade de vida dos Fariseus e Escribas e as situações e referências que faz, não deixam de provocar em nós, um sentimento de repulsa por tais condutas. 

(ama, sobre a hipocrisia, a)


[1] Lc 12,1; 12, 56; 13, 15 – Mt 6, 2; 6, 5; 6, 16; 15, 7; 22, 18; 23, 13; 23, 14; 23, 15; 23, 23; 23, 25; 23, 27; 23, 28; 23, 29; 24, 51 – Mc 7, 6; 12, 15.

CAPITALISMO

A experiência mostra-nos, como regra geral, que um método deixa de ser qualquer coisa de puramente objectivo e inofensivo, e que necessariamente acaba por impor um carácter, uma determinada mentalidade a quem o utiliza: leva o homem a pensar como age. O exemplo mais claro a tal respeito é o do capitalismo. O capitalismo – se bem que inspirado na ideologia liberal – nunca se definiu como uma filosofia ou como um humanismo doutrinal, mas apenas como um método para produzir mais e melhor, um método cheio de boas intenções e promessas – porque fará ricos e felizes os homens – e que todos possam usar, independentemente da sua religião ou das suas ideologias. Todavia a história demonstrou, dolorosamente, até que ponto o uso deste simples meio de produção conseguiu impor a milhões de pessoas – digam-se elas teoricamente cristãs ou não – uma mesma mentalidade capitalista, ateia, anti-humana e manipuladora do homem e da sociedade, ao serviço do capital. Exactamente na mesma situação se encontram, em nosso parecer, aqueles que utilizam o método marxista de interpretação e acção histórica; isto é, encontram-se em sério perigo de chegar na prática – independentemente do que sugere a sua filosofia e o seu humanismo teórico – a uma visão igualmente economicista do homem e à consequente atitude manipuladora de quanto desta visão – queira-se ou não – deriva.

(Episcopado Chileno, Evangelho, Política e Socialismo, nr. 47, in Maestre della fede, nr. 43, Torino-Leuman, LDC, 1973) (coligido AMA)

19/06/2010

Textos de Reflexão para 20 de Junho

EvangelhoLc 9, 18-24

18 Aconteceu que, estando a orar só, se encontravam com Ele os Seus discípulos. Jesus interrogou-os: «Quem dizem as multidões que Eu sou?». 19 Responderam e disseram: «Uns dizem que és João Baptista, outros que Elias, outros que ressuscitou um dos antigos profetas». 20 Ele disse-lhes: «E vós quem dizeis que sou Eu?». Pedro, respondendo, disse: «O Cristo de Deus». 21 Mas Ele, em tom severo, mandou que não o dissessem a ninguém, 22 acrescentando: «É necessário que o Filho do Homem padeça muitas coisas, que seja rejeitado pelos anciãos, pelos príncipes dos sacerdotes e pelos escribas, que seja morto e ressuscite ao terceiro dia. 23 Depois, dirigindo-Se a todos disse: «Se alguém quer vir após Mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz todos os dias, e siga-Me. 24 Porque quem quiser salvar a sua vida, a perderá; e quem perder a sua vida por causa de Mim, salvá-la-á.

Meditação:

Quantas vezes, Senhor, ao arrastar sobre os meus ombros do pobre homem que sou, uma carga quase insuportável, - esta carga que é formada pelo peso das minhas faltas de carácter, das minhas ambições pessoais, dos meus desleixos e ‘desamores’, do meu apego às coisas desta vida, - e não me lembro que, se não fosses Tu a carregares com a parte mais pesada, eu não conseguiria mover-me um passo sequer!
Prefiro, prefiro mil vezes a Tua Cruz, o Teu jugo, a Tua carga. Esses, leva-los Tu, eu, não farei mais que tentar ajudar-te. 

(ama, meditação sobre Lc 9, 18-24, 2008.07.05)

TemaA cruz de todos os dias

O que é a cruz de todos os dias de que constantemente nos fala Jesus? Tem algo que a diferencie das outras cruzes? É pessoal, particular? Que cruz é esta, afinal?
Bem, S. Filipe de Néri afirmava que o homem é, a maior parte das vezes, o carpinteiro da sua própria cruz. Sim, essa cruz pessoal que cada um carrega nos ombros, tem um peso a condizer com os erros, os enganos, os devaneios, os desvios que cada um vai cometendo.
       Claro, tem, também, algo de impessoal, de sofrimento, doença, privação,  dificuldades.
Levá-la depende muito de saber-mos exactamente o que, dos dois pesos, carrega mais. 

(ama, diário, 2010.05.04) 

18/06/2010

Evangelho: Mt 6, 24-34

24 «Ninguém pode servir a dois senhores: porque ou há-de odiar um e amar o outro, ou há-de afeiçoar-se a um e desprezar o outro. Não podeis servir a Deus e às riquezas.25 «Portanto vos digo: Não vos preocupeis, nem com a vossa vida, acerca do que haveis de comer, nem com o vosso corpo, acerca do que haveis de vestir. Porventura não vale mais a vida que o alimento, e o corpo mais que o vestido? 26 Olhai para as aves do céu que não semeiam, nem ceifam, nem fazem provisões nos celeiros, e, contudo, vosso Pai celeste as sustenta. Porventura não valeis vós muito mais do que elas? 27 Qual de vós, por mais que se afadigue, pode acrescentar um só côvado à duração da sua vida? 28 «E porque vos inquietais com o vestido? Considerai como crescem os lírios do campo: não trabalham nem fiam. 29 Digo-vos, todavia, que nem Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como um deles. 30 Se, pois, Deus veste assim uma erva do campo, que hoje existe e amanhã é lançada no forno, quanto mais a vós, homens de pouca fé? 31 Não vos aflijais, pois, dizendo: Que comeremos? Que beberemos? Com que nos vestiremos? 32 Os gentios é que procuram com excessivo cuidado todas estas coisas. Vosso Pai sabe que tendes necessidade delas. 33 Buscai, pois, em primeiro lugar, o reino de Deus e a Sua justiça, e todas estas coisas vos serão dadas por acréscimo. 34 Não vos preocupeis, pois, pelo dia de amanhã; o dia de amanhã terá as suas preocupações próprias. A cada dia bastam os seus trabalhos.

Comentário:

Parecem tão simples, estas recomendações do Senhor! Simples e definitivas, como se bastasse ter confiança em Deus e tudo se encontra resolvido nas nossas vidas, não se requerendo nada mais da nossa parte, nem trabalho, nem tentar resolver os problemas, enfrentar as dificuldades…
Não é, evidentemente, isto que o Senhor quer dizer. Noutra passagem do Evangelho, Jesus Cristo condena o homem que teve grande colheita e se considera, por isso, “a salvo” de quaisquer problemas ou preocupações.[i] E, em muitas outras ocasiões que os Evangelhos também relatam, explica o que se entende por riqueza e pobreza, a verdadeira “escala” de valores que devem presidir à vida humana.
Confiar em Deus, evidentemente, porque nada somos ou podemos em Ele e, também, porque sendo filhos, confiamos que o nosso Pai proverá às nossas necessidades. O problema está em saber compaginar as nossas necessidades e obrigações, os nossos desejos legítimos para a nossa própria vida e a dos que de nós dependem de alguma forma e essa confiança filial.
O Senhor não aceita atitudes resignadas ou derrotistas, não se compadece daquele que nada faz do que lhe compete fazer, do que não põe todo o seu empenho e saber em encontrar soluções para a vida corrente. Mais, o perigo, reside de facto, como Jesus afirma, na falta de critério nestes aspectos: Confiar em Deus sem nada fazer, ou tudo fazer sem ter em conta o nosso Pai do Céu.
No fim e ao cabo que temos de ter bem presente é um são critério de unidade de vida. Temos de trabalhar e, trabalhar o melhor que saibamos e possamos, mas com os olhos postos em Deus que, então, não deixará de abençoar os nossos esforços e compensará, com a Sua Misericórdia e Justiça infinitas, a nossa actuação. Ele tudo pode, nós, sem Ele, não podemos nada. 

(AMA, comentário – palestra sobre MT 6,24-34, Porto, Maio 2008)

Tema: Preocupações e virtudes

Ainda que a graça possa transformar por si mesma as pessoas, o normal é que requeira as virtudes humanas, pois, como poderia enraizar-se, por exemplo, a virtude cardeal da fortaleza num cristão que não se vencesse em pequenos hábitos de comodidade ou de preguiça, que estivesse excessivamente preocupado com o calor ou com o frio, que se deixasse levar habitualmente pelos estados de ânimo, que estivesse dependente de si mesmo e da sua comodidade? 

(Álvaro del Portillo, Escritos sobre el sacerdocio, Madrid, Epalsa, 4ª ed., nr. 28)


[i] Cf. Lc 12,13-21

Textos de Reflexão para 18 de Junho

Evangelho: Mt 6, 19-23

19 «Não acumuleis para vós tesouros na terra, onde a ferrugem e a traça os consomem, e onde os ladrões arrombam as paredes e roubam. 20 Entesourai para vós tesouros no céu, onde nem a ferrugem nem a traça os consomem, e onde os ladrões não arrombam as paredes nem roubam. 21 Porque onde está o teu tesouro, aí está também o teu coração. 22 «O olho é a lâmpada do corpo. Se o teu olho for são, todo o teu corpo terá luz. 23 Mas, se teu olho for malicioso todo o teu corpo estará em trevas. Se, pois, a luz que há em ti é trevas, quão tenebrosas serão essas trevas!

Meditação:

Lembro-me dos olhos de minha Mãe, negros como azeviche, com um brilho muito peculiar que pareciam ler os meus. Lembro-me deles húmidos de lágrimas rebeldes quando passava a Custódia com o Santíssimo abençoando os doentes em Fátima nos quais, eu, jovem de seis ou sete anos, me incluía. Lembro-me dos olhos de minha Mãe e tenho muitas saudades deles.
Mas, Senhor, o que eu de facto queria era ter uns olhos como os de minha Mãe, puros, límpidos sem nenhum vestígio de maldade ou malícia.
Como que eu gostaria, Senhor, de ter os olhos de minha Mãe, que agora contemplam a Tua divina Face. (ama, meditação sobre Mt 6, 19-23, 2010.04.29)

Tema: Humildade: O verdadeiro tesouro

Encontro, algures na minha natureza, alguma coisa que me diz que não há nada no mundo que seja desprovido de sentido, e muito menos o sofrimento. Essa qualquer coisa, escondida no mais fundo de mim, como um tesouro num campo, é a humildade. É a última coisa que me resta, e a melhor (...). Ela veio-me de dentro de mim mesmo e sei que veio no bom momento. Não teria podido vir mais cedo nem mais tarde. Se alguém me tivesse falada dela, tê-la-ia rejeitado. Se ma tivessem oferecido, tê-la-ia rejeitado (...). É a única coisa que contém os elementos da vida, de uma vida nova (...). Entre todas as coisas ela é a mais estranha (...). É somente quando perdemos todas as coisas que sabemos que a possuímos
(Óscar Wilde, in "De Profundis")

17/06/2010

Textos de Reflexão para 17 de Junho

Evangelho: Mt 6, 7-15

7 Nas vossas orações não useis muitas palavras como os gentios, os quais julgam que serão ouvidos à força de palavras. 8 Não os imiteis, porque vosso Pai sabe o que vos é necessário, antes que vós Lho peçais. 9 «Vós, pois, orai assim: Pai nosso, que estás nos céus, santificado seja o Teu nome. 10 «Venha o Teu reino. Seja feita a Tua vontade, assim na terra como no céu.11 O pão nosso supersubstancial nos dá hoje. 12 Perdoa-nos as nossas dívidas assim como nós perdoamos aos nossos devedores.13 E não nos deixes cair em tentação, mas livra-nos do mal. 14 «Porque, se vós perdoardes aos homens as suas ofensas, também o vosso Pai celeste vos perdoará. 15 Mas, se não perdoardes aos homens, também o vosso Pai não perdoará as vossas ofensas.

Meditação:

Julgo que o que, para mim, é o cerne do Pai-Nosso é a justiça. Quer parecer-me que Jesus faz depender tudo o que nos possa vir de Deus da nossa atitude para com os outros, não só no que respeita ao perdão das ofensas – muitas vezes presumidas e empoladas – de que somos alvo, mas também de todas as outras faltas à justiça que, muitas vezes, nem nos lembramos de classificar. (Um estudante que não estuda, falta à justiça para com os pais, os professores, a sociedade e contra si próprio). Quando julgo, apressadamente, às vezes quase de forma automática, as atitudes ou comportamento dos outros, não estarei a ver-me ao espelho, isto é, os defeitos que julgo que têm não são os que eu próprio possuo? (ama, meditação sobre Mt 6, 7-15, 2010.04.28)

Tema: Pai-Nosso

Sem Jesus, não sabemos verdadeiramente o que é um “Pai”. Foi na sua oração que isso se tornou claro e esta oração pertence-lhe intrinsecamente. Um Jesus que não estivesse perpetuamente mergulhado no Pai, ou que não estivesse em permanente comunicação com Ele, seria um ser totalmente diferente do Jesus da Bíblia e do verdadeiro Jesus da História. A sua vida parte do núcleo da oração; foi a partir dela que Ele compreendeu Deus, o mundo e os homens. […]
Surge então uma nova questão: será esta comunicação […] também essencial ao Pai que Ele invoca, de tal modo que também Ele fosse diferente se não fosse invocado sob este nome? Ou trata-se de algo que apenas O aflora sem nele penetrar? A resposta é a seguinte: pertence ao Pai dizer “Filho” como pertence a Jesus dizer “Pai”. Sem esta invocação, Ele próprio também não seria Ele. Jesus não tem apenas um contacto exterior a Ele; é parte integrante do ser divino de Deus, enquanto Filho. Antes mesmo de o mundo ser criado, Deus já é o Amor do Pai e do Filho. E, se pode tornar-se nosso Pai e a medida de toda a paternidade, é porque Ele próprio é Pai desde toda a eternidade. Na oração de Jesus, é pois a própria interioridade de Deus que se torna visível; vemos como é Deus; a fé no Deus trinitário não é senão a explicação daquilo que se passa na oração de Jesus. Nesta oração, a Trindade aparece em toda a sua clareza. […]
Ser cristão significa, pois: participar na oração de Jesus, entrar no seu modelo de vida, ou seja, no seu modelo de oração. Ser cristão significa: dizer “Pai” com Ele e tornar-se assim criança, filho de Deus, na unidade do Espírito que nos faz ser nós próprios, agregando-nos à unidade de Deus. Ser cristão significa: olhar o mundo a partir deste núcleo, tornando-se assim livre, cheio de esperança, decidido e confiante. 

(Card. Joseph Ratzinger [Papa Bento XVI], Der Gott Jesu Christi)

ESPIRITUALIDADE

A espiritualidade nunca pode ser entendida como um conjunto de práticas piedosas e ascéticas justapostas de qualquer maneira ao conjunto de direitos e deveres determinados pela própria vocação; pelo contrário, as circunstâncias próprias, enquanto respondem ao querer de Deus, hão-de ser assumidas e vitalizadas sobrenaturalmente por um determinado modo de desenvolver a vida espiritual, desenvolvimento que tem de se alcançar precisamente em e através daquelas circunstâncias.

(Álvaro del Portillo, O Sacerdote do Vaticano II, Aster, Lisboa 1972, nr. 117)

16/06/2010

SINAIS DOS TEMPOS

 Conferência do Cardeal-Patriarca de Lisboa nas Jornadas Pastorais da CEP

«Sinais dos tempos» hoje, na sociedade e na Igreja em Portugal

Este é um ponto prévio para uma leitura actual dos “sinais dos tempos”: olhar o mundo com amor e com esperança. Podemos cair, facilmente de mais, na atitude de condenação da sociedade actual. Mas é possível amar o mundo sem concordar com o mundo. O anúncio cristão pode, por vezes, ser uma denúncia, embora deva ser, sobretudo, anúncio. Mas se começa pela denúncia, corre o risco de nunca ser anúncio.
Não se trata de um confronto ético entre um sistema laico e um sistema religioso, mas de uma questão de sentido, à qual se entrega a própria liberdade.[1] 

“Viver na pluralidade de sistemas de valores e de quadros éticos, exige uma viagem ao centro de si mesmo e ao cerne do cristianismo para reforçar a qualidade do testemunho até à santidade, inventar caminhos de missão até à radicalidade do martírio” [2].

Frente à actual realidade da sociedade portuguesa, ouso ter um pressentimento: é preciso encontrar formas novas de intervenção da Igreja na sociedade. A Igreja faz parte integrante do todo da sociedade e dada a qualidade da sua mensagem e o número dos seus membros, não pode deixar de procurar formas sempre novas para contribuir para o bem da comunidade humana em que está integrada.
Estamos a cair na situação anacrónica que qualquer intervenção da Igreja, de modo particular da hierarquia, em dimensões fundamentais como o são uma sã antropologia ou a defesa de valores éticos é facilmente julgada como intervenção na esfera do estritamente político, esquecendo que o domínio político é todo o interesse pelo bem da “polis”. É preciso valorizar a Igreja como o conjunto dos fiéis, a comunidade crente, e não a identificar só com a hierarquia. Esta, por decisão própria e em defesa do carácter específico do seu ministério, abstém-se habitualmente de se imiscuir no âmbito do estritamente político. Mas os cristãos leigos não são a isso obrigados e devem ser porta-vozes, no seio da sociedade, dos autênticos valores cristãos. Aliás, pressinto que virá dos leigos a energia para esta renovação da intervenção da Igreja na sociedade. O Santo Padre, dirigindo-se aos Bispos, sublinha a importância decisiva de um “laicado maduro”: “Os tempos que vivemos exigem um novo vigor missionário dos cristãos chamados a formar um laicado maduro, identificado com a Igreja, solidário com a complexa transformação do mundo. Há necessidade de verdadeiras testemunhas de Jesus Cristo, sobretudo nos meios humanos, onde o silêncio da fé é mais amplo e profundo: políticos, intelectuais, profissionais da comunicação que professam e promovem uma proposta mono-cultural com menosprezo pela dimensão religiosa e contemplativa da vida. Em tais âmbitos, não faltam crentes envergonhados que dão as mãos ao secularismo, construtor de barreiras à inspiração cristã”[3].

A intervenção profética da Igreja na sociedade contemporânea tem de privilegiar a proclamação de uma correcta antropologia, levando à descoberta do mistério do homem, de que decorre a defesa ética dos princípios da convivência humana, em ordem à construção duma sociedade fraterna. Este desafio antropológico esteve fortemente presente na palavra do Papa entre nós. Referindo-se à contribuição da Igreja no “ordenamento justo da sociedade”, explicita: “Situada na história, a Igreja está aberta a colaborar com quem não marginaliza a essencial consideração do sentido humano da vida”[4]. Esta sã antropologia tem de integrar a dimensão transcendente da vida humana, “integrar a fé e a racionalidade moderna numa única visão antropológica, que completa o ser humano e torna, desse modo, comunicáveis as culturas humanas”[5].

Fátima, 16 de Junho de 2010

†JOSÉ, Cardeal-Patriarca

(fonte: Ecclesia)


[1] Bento XVI em Portugal, Discurso no Aeroporto da Portela, 11 de Maio de 2010
[2] Ibidem
[3] Bento XVI, Discurso no Encontro com os Bispos de Portugal, Fátima, 13 de Maio de 2010
[4] Bento XVI em Portugal, Discurso no Aeroporto da Portela, 11 de Maio de 2010
[5] Bento XVI, diálogo com os Jornalistas durante o Voo para Portugal, 11 de Maio de 2010

Textos de Reflexão para 16 de Junho

Evangelho: Mt 6, 1-6; 16-18

1 «Guardai-vos de fazer as boas obras diante dos homens, com o fim de serdes vistos por eles. De contrário não tereis direito à recompensa do vosso Pai que está nos céus. 2 «Quando, pois, dás esmola, não faças tocar a trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas nas sinagogas e nas ruas, para serem louvados pelos homens. Em verdade vos digo que já receberam a sua recompensa. 3 Mas, quando dás esmola, não saiba a tua mão esquerda o que faz a tua direita, 4 para que a tua esmola fique em segredo, e teu Pai, que vê o que fazes em segredo, te pagará. 5 «Quando orardes, não sejais como os hipócritas, que gostam de orar em pé nas sinagogas e nos cantos das praças, a fim de serem vistos pelos homens. Em verdade vos digo que já receberam a sua recompensa. 6 Tu, porém, quando orares, entra no teu quarto, e, fechada a porta, ora a teu Pai; e teu Pai, que vê o que se passa em segredo, te dará a recompensa. 16 «Quando jejuais, não vos mostreis tristes como os hipócritas que desfiguram o rosto para mostrar aos homens que jejuam. Na verdade vos digo que já receberam a sua recompensa. 17 Mas tu, quando jejuares, unge a tua cabeça e lava o teu rosto ,18 a fim de que não pareça aos homens que jejuas, mas sim a teu Pai, que está presente no oculto, e teu Pai, que vê no oculto, te dará a recompensa.

Comentário:

Quantas vezes, Senhor, eu quero ser visto e, mais, admirado, não por Ti, mas por outros, que vejam a minha piedade, o meu porte, a minha capacidade! O que me deve interessar é que Tu me vejas e, isso, tenho eu a certeza que acontece. Por isso mesmo, devo comportar-me, sempre, bem ciente dessa realidade: que Tu me vês, me escutas, me acompanhas SEMPRE, e em qualquer circunstância. Se tiver bem presente esta realidade, então não me importará nada que os outros vejam porque ficarão sabendo que apenas tento cumprir a Tua Vontade Santa, em tudo, Amém. 

(ama, meditação sobre Mt 6,1-6.16-18, 2009.06.17)

Tema: Discrição

Discrição não é mistério nem segredo. - É, simplesmente, naturalidade. 

(Leo J. Trese, A Fé Explicada, Edições Quadrante, S. Paulo, 4ª Ed., nr. 280/1)

O CAJADO DO PASTOR

USAR O CAJADO

«O vosso cajado me sossega»: o pastor precisa de usar o cajado como um bastão contra os animais selvagens que querem irromper no meio do rebanho; contra os salteadores que procuram o seu botim. A par de bastão, o cajado serve também de apoio e ajuda para atravessar sítios difíceis. As duas coisas fazem parte também do ministério da Igreja, do ministério do sacerdote. Também a Igreja deve usar o bastão do pastor, o bastão com que protege a fé contra os falsificadores, contra as orientações que, na realidade, são desorientações. Por isso mesmo este uso do bastão pode ser um serviço de amor. Hoje vemos que não se trata de amor, quando se toleram comportamentos indignos da vida sacerdotal. E também não se trata de amor, se se deixa proliferar a heresia, a deturpação e o descalabro da fé, como se tivéssemos nós autonomamente inventado a fé; como se já não fosse dom de Deus, a pedra preciosa que não deixaremos arrebatar. Ao mesmo tempo, porém, o bastão deve continuar a ser o cajado do pastor, cajado que ajude os homens a poderem caminhar por sendas difíceis e a seguirem o Senhor. 

(Bento XVI, Homilia aos Sacerdotes na Solenidade do Sagrado Coração de Jesus - 11. 06. 2010) 
Cardeal-Patriarca pede nova atitude da Igreja perante a sociedade
D. José Policarpo falou aos Bispos portugueses da necessidade de uma atitude dialogante e das implicações políticas da fé

“A Igreja faz parte integrante do todo da sociedade e dada a qualidade da sua mensagem e o número dos seus membros, não pode deixar de procurar formas sempre novas para contribuir para o bem da comunidade humana em que está integrada”, afirmou.
O Patriarca de Lisboa falava nas Jornadas Pastorais da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP), uma iniciativa de estudo e debate que decorre em Fátima, centradas no tema «Repensar juntos a Pastoral da Igreja em Portugal».
“O anúncio cristão pode, por vezes, ser uma denúncia, embora deva ser, sobretudo, anúncio. Mas se começa pela denúncia, corre o risco de nunca ser anúncio”, alertou.
O Cardeal-Patriarca lamentou a “situação anacrónica” de considerar “qualquer intervenção da Igreja” como uma “intervenção na esfera do estritamente político” e deixou uma confissão: “Pressinto que virá dos leigos a energia para esta renovação da intervenção da Igreja na sociedade”.
“É impressionante verificar a pouca importância que a dimensão ética tem nas escolhas políticas”, observou, antes de recordar que “o voto deveria ser sempre a escolha de uma consciência bem formada e esclarecida”.
A hierarquia, referiu o antigo presidente da CEP, "abstém-se habitualmente de se imiscuir no âmbito do estritamente político, mas os cristãos leigos não são a isso obrigados e devem ser porta-vozes, no seio da sociedade, dos autênticos valores cristãos".
D. José Policarpo lembrou várias passagens dos discursos proferidos por Bento XVI na sua viagem a Portugal, frisando que o próprio Papa afirmou a importância de uma “atitude aberta e dialogante”.
“Esta atitude dialogante da Igreja perante a sociedade real, com os seus valores e os seus desvios, não pode significar uma cedência”, apontou, ao declarar que o anúncio feito pela Igreja “não pode ser apenas denúncia negativa, mas afirmação do nosso empenho no progresso da humanidade”.
Para o Cardeal-Patriarca, “se nos limitarmos à denúncia, a nossa voz pode ser facilmente interpretada como mera tomada de posição política e ser vítima de fundamentalismos”.
“Estes, sejam de matriz religiosa ou ideológica, acabam sempre por roçar a intervenção política na defesa de posições pessoais ou grupais, isolando a verdade que defendem da verdade fundamental que é o amor salvífico de Deus”, alertou.
Citando a Constituição Pastoral “Gaudium et Spes” (1965), do Concílio Vaticano II, D. José Policarpo defendeu que “só amando o mundo se podem captar os sinais que a realidade emite, para que a Igreja intua caminhos concretos de missão”.
“Podemos cair, facilmente de mais, na atitude de condenação da sociedade actual, mas é possível amar o mundo sem concordar com o mundo”, assinalou, apelando a um “olhar construtivo sobre a sociedade, por parte da Igreja”.
Entre os pontos que valorizou, na sua longa intervenção, o Patriarca de Lisboa destacou a “busca de sentido” na sociedade actual, mas deixou como alerta a constatação de que “muitos já não procuram, espontaneamente, a resposta da Igreja, na sua acção institucional”.
Neste contexto, D. José Policarpo falou em particular do “universo juvenil”, convidando os presentes a “aceitar o desafio de rever profundamente a nossa pastoral juvenil”.
Após recordar os apelos do Papa para que a acção social da Igreja portuguesa fosse repensada, o Patriarca de Lisboa concluiu a sua intervenção com uma nota crítica: “Trabalhamos mais do que amamos, criamos estruturas mas quando as pessoas precisam do pastor, nós estamos ocupados”.  

(Fonte: Ecclesia)