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26/11/2022

  


Dentro do Evangelho

 

Não assisti à conversa, nem poderia porque estavam só os dois: Jesus e a Samaritana conversando sentados na beira do poço de Jacob. Quando a conversa acabou segui a mulher até à cidade. Pude ouvi-la numa excitação incontrolável a contar a quem queria ouvir, e eram muitos e cada vez se juntavam mais, a sua conversa com Jesus.

Era algo saliente, inusitado. «Ele disse-me tudo a meu respeito»!

Os testemunhos simples, concretos e verdadeiros têm este efeito nas pessoas de boa índole: querer saber, conhecer pessoalmente quem é essa pessoa que se encontra por primeira vez e que demonstra um poder tão extraordinário: saber quem somos, o que fazenos ou fisemos.

E... foi o que fizeram: foram ter com Jesus a convidá-Lo para ficar com eles.

Jesus acedeu, contente, bem-disposto e ali ficou por três dias a conversar, responder a perguntas, falando do quer que fosse que eles queriam falar.

Eu, tenho a certeza que estes Samaritanos jamais esqueceram esses dias, isto porque eles próprios confessam à mulher que já não é por causa dela que acreditam em Jesus mas porque eles próprios ficaram convencidos que Ele era a indubitável Verdade que cada um procurava.

Esta "jornada" em Samaria causou-me profunda impressão. Era algo tão inusitado, tão extraordinário que não podia deixar de pensar nesta realidade: as pessoas, sejam quem forem, desejam ouvir a verdade, não interessa se quem a revela é alguém conhecido, do nosso círculo de amigos, ou alguém que se cruza connosco nos caminhos da nossa vida, importa que reconheçamos que o que nos revela seja a verdade tal qual é.

Alguém que logo num primeiro encontro prova que conhece os nossos "segredos", tem de levar-nos a “pensar duas vezes". 'Estou perante um "mágico", um "hábil adivinho" enfim... ou perante alguém com poderes que ultrapassam a minha compreensão?

É aqui que realmente se impõe ser honesto e tentar perceber o que se passa.

Desde logo a atitude: não foi revelado nenhum segredo íntimo mas mencionado um facto do conhecimento de muita gente; não há nem uma crítica nem uma recriminação, digamos... um "julgamento" mas a constatação de algo que pode comprovar-se, depois há uma postura pessoal da pessoa que leva à certeza lógica que não procura nada para si mesma mas tão só dar a entender que, seja como for, mais tarde ou mais cedo, "não há nada, ainda que bem guardado que esteja, que não venha a ser revelado".

Deixo-me de "ilacções filosóficas" para concluir que a Verdade só tem uma face: Ou é ou não é!

Esta consideração levanta algumas questões, uma das quais será esta que ficou na história como a "pergunta" mais patética até agora registada. Pilatos perguntou a Jesus: «O que é a verdade».

Mas foi uma pergunta capciosa, porque Pilatos não queria uma resposta, como refere o Evangelho, «voltou as costas e retirou-se».

Talvez erradamente, eu agradeço a Pilatos esta atitude, sobretudo porque me ensina a não perguntar o que for se a minha verdadeira intenção não é saber o que interrogo.

Confesso... tenho pena de Pilatos e, até tenho por ele alguma simpatia porque, procedendo como fez, me indica claramente que a resposta à sua pergunta, caso a tivesse tido, seria de tal forma "devastadora" que inevitavelmente o levaria a uma profundíssima revisão de vida... o que, realmente, não lhe apetecia fazer. Assim, ao procurar uma resposta a algo que me inquieta tenho que ser honesto e obtida esta considerar o que me foi respondido.

Mas... volto a Pilatos para considerar que seria muito difícil esperar que procedesse de outro modo.

Acontece quase sempre assim aos que estão como que "instalados" na vida; pretendem saber o que melhor lhes convém, e o que devem evitar conhecer que possa de algum modo alterar o "satus quo", ter como único objectivo "viver o melhor possível" sem "maçadas" ou preocupações.

De facto, concluo que Pilatos é um "gigantesco" ignorante e, considerado como tal, é difícil esperar que procedesse de outro modo.

Lembro-me que Jesus pouco antes de expirar na Cruz disse... «Pai... perdoai-lhes porque não sabem o que fazem», e eu atrevo-me a incluir Pilatos nestes.

Sou levado irremediavelmente a pensar: 'E eu... sei o que faço?'

Não quero voltar a fazer esta pergunta e por isso prefiro pedir a Jesus que me ensine a fazer, em tudo, a Justíssima e Amabilissima Vontade de Deus em tudo e, assim fico tranquilo.

 

Perigo das riquezas 

 

Recompensa do desprendimento 

 

Detenho-me agora numas palavras que ouvi a Jesus dizendo aos Seus discípulos mais próximos: «Filhos, como é difícil entrar no Reino de Deus! É mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha, do que um rico entrar no Reino de Deus».

A referência ao "camelo" pode ter duas interpretações, uma seria relativa a um fio, uma linha bastante grossa, difícil de enfiar no buraco de uma agulha de coser, outra a "agulha", (como se chamava) da abertura de uma fortificação normalmente bastante estreita para impedir a entrada de inimigos tornando mais fácil a defesa contra os invasores.

A preocupação excessiva com que tenho, os bens, recursos... pode - e seguramente é - a exacta imagem que o Senhor refere. Mas... não só o que tenho... também os desejos de ter estão aqui enquadrados porque "me carregarão com uma carga tal que me impeça de atravessar o "buraco da agulha" impedindo-me de ir onde devo e desejo ir.

A alguns poderá parecer que este tema é exaustivamente considerado nas homilias dos Sacerdotes, pondo como que um "labéu" negativo nos ombros de quem tem meios de fortuna. Quando oiço homilias deste teor procuro abstrair-me das palavras que o Celebrante profere - nem todos têm o dom da palavra - e considerar apenas a mensagem que pretendem transmitir pensando bem se realmente considero que o que devo fazer é agradecer o que tenho - pouco ou muito - e lhe dou o correcto uso.

De facto ter bens, até ter muitos bens, pode ser uma boa ajuda para conquistar a Vida Eterna.

Um contrasenso?

Não! Fazendo o bem à minha volta, não recusando ajuda a quem ma pede e me seja possível prestar, ora aí está o "juro" mais adequado.

Nem um simples copo de água dado a outro ficará sem recompensa, foi o que Jesus afirmou. Um copo de água? Uma coisa tão simples,  trivial, sem relevo! Que valor tem? Pois eu acredito que tem um enormíssimo valor que ultrapassa o agradecimento daquele a quem o dei porque o Senhor não recompensa o valor que possa ter a dádiva mas o espírito com que o fiz. Além da imediata compensação íntima que possa sentir por ter dado algo receberei como que um "crédito para abater" no extenso rol de dívidas quando for presente ao Julgamento após a minha morte.

Não será isto muito conveniente?

Considero, também, o muito que recebi de outros sempre dispostos a assistir-me nas minhas dificuldades e nunca me pressionando para que devolvesse o emprestado.

Após tantos anos de vida repleta de "altos e baixos" não me lembro de quem foram mas, isso, não me impede de rezar diariamente por eles como os Meus Bemfeitores.

Ainda hoje em dia pasmo como como ao longo da vida fui ajudado a resolver problemas, por vezes muito sérios, por amigos e outros e lembro, a propósito, algo que aconteceu já lá vão muitos anos.

Estava á espera de uma reunião com algumas pessoas. Entrou alguém na sala onde me encontrava, alguém que conhecia mas com quem não tinha intimidade de amigo, e que, sem mais... me disse: 'Vejo que está preocupado, posso ajudar’?

Quase "de um jacto" contei-lhe o que se passava... enormes revezes financeiros tinham provocado o acumular dívidas da renda de casa. Era, para mim, um valor astronómico que não sabia como solucionar. O senhorio tinha já posto em Tribunal uma acção de despejo urgente.

Olhou para mim uns momentos e perguntou-me: 'De quanto estamos a falar’?

Disse-lhe. Retorquiu-me, mais ou menos: 'Eu posso disponibilizar esse dinheiro, dê-me o número da sua conta bancária e agora mesmo faço a transferência'.

Depois de resolvido o problema com o senhorio, falei a essa pessoa para lhe agradecer mais uma vez e para lhe afirmar que me empenharia em devolver o emprestado. Respondeu-me simplesmente que estava certo disso mas que não me preocupassse... quando pudesse...

Mas, este episódio não acaba aqui porque ao chegar a casa tinha uma mensagem de alguém a quem tinha contado o assunto, a dizer-me que tinha transferido para a minha conta o mesmo valor.

A primeira coisa que fiz, foi liquidar a dívida com o primeiro, a segunda foi agradecer ao segundo que me disse simplesmente: 'Esquece isso... não te preocupes...'. Já lá vão muitos anos mas, confesso, ainda hoje me sinto como que aturdido pelo que se passou.

Com o passar dos dias seguindo Jesus no Seu incessante deambular pelas terras da Palestina,  vendo e ouvindo o que faz dou-me conta que repete uma e outra vez as mesmas palavras. Hoje compreendo que não poderia ser de outra forma. A Sua Doutrina não muda é como que uma edificação sólida, sobre rocha, que não é abalada nem por tempestades ou terramotos, não "evolui" consoante as circunstâncias... É! Na Igreja que fundou e É Cabeça surgiram  e de vez em quando ainda surgem, pessoas com responsabilidades e destaque cujo comportamento pessoal chocavam com o múnus que exerciam. No entanto e apesar disso nunca foi alterado "um Til ou um Jota" da Doutrina Fundamental o que na verdade se compreende porque só  Cabeça o poderia fazer.

Como cristão que sou tenho de ter bem presente que a Igreja é constituida por pessoas, seres humanos com virtudes e defeitos mas que sendo a Igreja Santa não implica imediatamente que todos os seus membros sejam santos. Considero que ao nomear Pedro como o Seu Primeiro Vigário à frente da Sua Igreja Jesus quis expressamente que assim o entendessemos. Pedro era, sem dúvida um "entusiasta" seguidor de Jesus mas era um homem com fraquezas e debilidades de tal forma que num momento crucial negou conhecer Jesus. Espantar-me-ia a escolha de Jesus se não soubesse que o arrependimento sincero e profundo de Pedro foram o bastante para que Jesus o perdoasse e lhe restituisse a Sua confiança nele e... sou levado a perguntar: O que deixaste Pedro? Uma vida sem grandes oscilações, a pesca, um barco, umas redes? Em troca de quê? Ah! Em troca de uma missão grandiosa para a qual não te sentias capaz nem competente mas que, não obstante aceitaste porque Jesus to pediu.

O Papa  seja quem for, é o "herdeiro" do múnus de Pedro e terá sempre a assistência do Divino Espírito Santo para o exercer. Este cargo é de tal forma "pesado e difícil" que não creio que alguém o possa desejar. Por isso mesmo tenho como certo que ao aceitar o cargo para que foi eleito, o Papa está a entregar toda a sua vida ao serviço da Igreja fundada por Jesus Cristo.

Eu, como cristão que sou, tenho bem presente que devo rezar diariamente pelo Sumo Pontífice, pela sua vida, pelas suas intenções. É um dever de filho! A "riqueza" do Papa não consiste em bens materiais - para que os quereria ?  - mas essa contínua cadeia de orações que os cristãos fazem pela sua pessoa e  intenções.

 

Reflectindo

 

O dia seguinte é aquele que sucede ao de ontem ou é o que  vou "usando" como desculpa para adiar o que tenho de fazer hoje?

E... se não houver???

 

 

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