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Temas para reflectir e meditar

Sofrimento

Recorrentemente, há pessoas que me escrevem a contar suas desgraças. Contam que já não têm mais forças. Os motivos podem ter várias origens: umas sentem-se cada vez oprimidas pelas dívidas. Outras sofrem pelo facto de os filhos seguirem caminhos diferentes ou por terem sido afastados do caminho certo, devido à doença ou à depressão. Muitas asseguram que rezam constantemente, mas que, apesar de todas as orações, a situação simplesmente não melhora. Muitas vezes, estas pessoas perguntam-me se terão rezado de forma errada ou feito qualquer coisa mal, porque nada se altera. Isso indicia um entendimento muito peculiar da oração. Pensam que é apenas necessário rezar a Deus, rezar constante, para que Ele as ajude. E, quando não ajuda, duvidam Deus ou das suas orações. Acham que tiveram pouca fé e procuram então apoio junto de outros.
Certamente que é bom pedir também a outras pessoas que por nós. Mas, muitas vezes - segundo me parece - essa - oração está turvada com a ideia de um resultado, com a atitude ­interior de que... “Quanto mais eu rezar, maior é a obrigação de Deus em me ajudar.” Muitas vezes, as pessoas não encaram ­verdadeiramente os seus problemas. Pedem a Deus que resolva tudo. Mas não se esforçam por examinar e abordar os problemas livremente. E significaria colocar em questão o próprio conceito de vida. Isso conduziria à humildade. Apen­as a oração, em que eu apresento impiedosamente a Deus a verdade, poderá ajudar-me. Mas nem sempre ajuda no sentido de Deus retirar do meu caminho todas as pedras. Talvez ­me dê simplesmente a força para o suportar. A qualquer altura despontará em mim uma solução ou as circunstâncias exteriores alterar-se-ão, de modo a que, de repente, se revele um caminho por onde eu possa seguir.

(anselm grunA incompreensível existência de Deus, Paulinas, p. 74-75)

Evangelho e comentário



TEMPO DA QUARESMA
Semana Santa



Evangelho: Mt 26, 14-25

14 Então um dos Doze, chamado Judas Iscariotes, foi ter com os sumos sacerdotes 15 e disse-lhes: «Quanto me dareis, se eu vo-lo entregar?» Eles garantiram-lhe trinta moedas de prata. 16 E, a partir de então, Judas procurava uma oportunidade para entregar Jesus. 17 No primeiro dia da festa dos Ázimos, os discípulos foram ter com Jesus e perguntaram-lhe: «Onde queres que façamos os preparativos para comer a Páscoa?» 18 Ele respondeu: «Ide à cidade, a casa de um certo homem e dizei-lhe: ‘O Mestre manda dizer: O meu tempo está próximo; é em tua casa que quero celebrar a Páscoa com os meus discípulos.’» 19 Os discípulos fizeram como Jesus lhes ordenara e prepararam a Páscoa. 20 Ao cair da tarde, sentou-se à mesa com os Doze. 21 Enquanto comiam, disse: «Em verdade vos digo: Um de vós me há-de entregar.» 22 Profundamente entristecidos, começaram a perguntar-lhe, cada um por sua vez: «Porventura serei eu, Senhor?» 23 Ele respondeu: «O que mete comigo a mão no prato, esse me entregará. 24 O Filho do Homem segue o seu caminho, como está escrito acerca dele; mas ai daquele por quem o Filho do Homem vai ser entregue. Seria melhor para esse homem não ter nascido!» 25 Judas, o traidor, tomou a palavra e perguntou: «Porventura serei eu, Mestre?» «Tu o disseste» - respondeu Jesus

Comentário:

Esta figura de Judas torna-se central na história da salvação por motivos tais que o Senhor afirma que "melhor seria não ter nascido".

A traição independentemente de quem trai e de quem é traído é sempre um acto vil e desprezível que coloca o traidor à margem da sociedade e, quase sempre, no isolamento mais absoluto.

Podia ser perdoado?
Evidentemente que sim, tudo tem perdão desde que haja arrependimento sincero e reparação do mal praticado.

Mas… reparação como?

Um coração contrito e humilhado é mais que suficiente para que o Senhor se compadeça de quem se arrepende e, uma vez perdoado, tudo fica esquecido tal como era antes da falta cometida.

O que sabemos – ou intuímos – é que para Jesus terá sido uma dor profunda e dilacerante, não tanto por ter sido traído por um dos Seus escolhidos, mas porque o que O traiu desprezou o Seu perdão.

(AMA, comentário sobre MT 26, 14-25, 28.03.2018)

Pequena agenda do cristão

Quarta-Feira



(Coisas muito simples, curtas, objectivas)






Propósito:

Simplicidade e modéstia.


Senhor, ajuda-me a ser simples, a despir-me da minha “importância”, a ser contido no meu comportamento e nos meus desejos, deixando-me de quimeras e sonhos de grandeza e proeminência.


Lembrar-me:
Do meu Anjo da Guarda.


Senhor, ajuda-me a lembrar-me do meu Anjo da Guarda, que eu não despreze companhia tão excelente. Ele está sempre a meu lado, vela por mim, alegra-se com as minhas alegrias e entristece-se com as minhas faltas.

Anjo da minha Guarda, perdoa-me a falta de correspondência ao teu interesse e protecção, a tua disponibilidade permanente. Perdoa-me ser tão mesquinho na retribuição de tantos favores recebidos.

Pequeno exame:

Cumpri o propósito que me propus ontem?









Leitura espiritual


Cruzando o umbral da esperança

CHAMAM-NA
«HISTÓRIA DA SALVAÇÃO»

Pergunta:

Aproveitando a cordial liberdade que quis conceder-me, permita-me continuar expondo-lhe perguntas que ainda que possa parecer-lhe peculiares, talvez exponho, como Vossa Santidade mesmo observou, em nome de não pouco dos nossos contemporâneos, os quais, ante o anúncio evangélico proposto pela Igreja, parecem perguntar-se:
Porquê esta «história da salvação», como os cristãos a chamam, se apresenta de uma forma tão complicada? Para nos perdoar, para nos salvar, um Deus-Pai tinha verdadeiramente necessidade do sacrifício cruento do Seu próprio Filho?

Resposta:

A sua pergunta respeitante à história da salvação toca o que é o significado mais profundo da salvação redentora. Comecemos lançando um olhar à história do pensamento europeu depois de Descartes.
Porque ponho também aqui Descartes em primeiro plano? Não só porque ele marca o início de uma nova época na história do pensamento europeu, mas também porque este filósofo, que certamente esta entre os maiores que a França deu ao mundo, inaugura a grande mudança antropocêntrica na filosofia. «Penso, logo existo», como antes recordamos, é o tema do racionalismo moderno.

Todo o racionalismo dos últimos tempos – tanto na sua expressão anglo-saxónica como na continental com o kantismo, o hegelianismo e a filosofia alemã dos séculos IX e XX até Husserl e Heidegger pode considerar-se uma continuação e um desenvolvimento das posições cartesianas O autor de Meditações de prima filosofia, com a sua prova ontológica, afastou-nos da filosofia da existência, e também das vias tradicionais de São Tomás. Tais vias levam a Deus, «existência autónoma», Ipsum esse subsistens («o próprio Ser subsistente»). Descartes, com a absolutização da consciência subjectiva, conduz antes para a pura consciência do Absoluto, que é o puro pensar; um tal Absoluto que não é a existência autónoma, mas de certo modo o pensar autónomo: somente faz sentido o que se refere ao pensamento humano; não importa tanto a verdade objectiva deste pensamento como próprio facto de que algo esteja presente no conhecimento humano.

Encontramo-nos no umbral do imanentismo e do subjectivismo modernos. Descartes representa o início do desenvolvimento tanto das ciências exactas e naturais como das ciências humanas segundo esta nova expressão. Com tal voltam-se as costas à metafísica e centra-se o foco de interesse na filosofia do conhecimento. Kant é o maior representante desta corrente.

Se não é possível atribuir ao pai do racionalismo moderno o afastamento do cristianismo, é difícil não reconhecer que ele criou o clima, no qual, na época moderna, tal afastamento pode realizar-se. Não se realizou de modo imediato, mas sim gradualmente.

Com efeito, uns cento e cinquenta anos depois de Descartes, comprovamos como o que era essencialmente cristão na tradição do pensamento europeu, já se colocou entre parêntesis. Estamos nos tempos em que em França o protagonista é o iluminismo uma doutrina com a qual se leva a cabo a afirmação definitiva do racionalismo puro. A Revolução francesa durante o Terror, derrubou os altares dedicados a Cristo, derrubou os crucifixos dos caminhos, e no seu lugar introduziu a deusa Razão, sob cuja base foram proclamadas a liberdade, a igualdade e a fraternidade. Deste modo, o património espiritual, e em concreto o moral, do cristianismo foi arrancado do seu fundamento evangélico, ao qual é necessário devolvê-lo para que se reencontre a sua plena vitalidade.

Todavia, o processo do afastamento do Deus dos Padres, do Deus de Jesus Cristo, do Evangelho e da Eucaristia não trouxe consigo a ruptura com um Deus existente mais para além do mundo. De facto, o Deus dos deístas esteve sempre presente nos enciclopedistas franceses, nas obras de Voltaire e Jean Jacques Rousseau, e mais ainda nos Philosophiae naturalis prinsipia mathematica de Isaac Newton, que marcam o o início da física moderna.



Este Deus, todavia, é decididamente um Deus fora do mundo. Um Deus presente no mundo aparecia como inútil para o conhecimento moderno, para a moderna ciência do homem, do que examina os seus mecanismos conscientes e subconscientes. O racionalismo iluminista pôs entre parêntesis o verdadeiro Deus e, em particular, o Deus Redentor.

Isto que consequências trouxe? Que o homem tinha que viver deixando-se guiar exclusivamente pela razão própria, como se Deus não existisse. Não só tinha de prescindir de Deus no conhecimento objectivo do mundo – devido a que a premissa da existência do Criador ou da Providência não tinha qualquer utilidade para a ciência, mas que tinha, de actuar como se Deus não existisse, quer dizer, como se Deus não se interessasse pelo mundo. O racionalismo iluminista podia aceitar um Deus fora do mundo, sobretudo porque esta era uma hipótese não comprovável. Era imprescindível, todavia, que esse Deus se colocasse fora do mundo.




(Cfr entrevista de Vittorio Messori a São João Paulo II, CRUZANDO EL UMBRAL DE LA ESPERANZA, Outubro de 1994)
(Tradução do castelhano por AMA)