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Temas para reflectir e meditar


Todos os dias

Quem admite que tem dias iguais, ou seja, hoje tal qual foi ontem, não tem vida verdadeiramente.

Ou melhor, não vive, deixa que os dias passem sem se preocupar se poderiam ser melhores. Quero dizer, se os poderia viver melhor, dando mais rendimento, alcançando melhores resultados.

Não temos ninguém para nos “apreciar” o comportamento e, por isso mesmo, estamos dependentes apenas de nós próprios.
Evidentemente que, connosco, temos uma tendência para ser complacentes, isto é, satisfazermo-nos com o que temos vivido.
Sim é verdade, temos memórias de outros tempos em que os desejos de melhoria pessoal nos levavam a algum desassossego. Não era muito confortável, é melhor assim.

Não é nada melhor assim!

Pensando deste modo já estamos mortos, já não vivemos.

(AMA, reflexões, Dez, 2018)


Evangelho e comentário


TEMPO COMUM

Evangelho Mar 01



Evangelho: Mc 10, 1-12

1 Saindo dali, foi para a região da Judeia, para além do Jordão. As multidões agruparam-se outra vez à volta dele, e outra vez as ensinava, como era seu costume. 2 Aproximaram-se uns fariseus e perguntaram-lhe, para o experimentar, se era lícito ao marido divorciar-se da mulher. 3 Ele respondeu-lhes: «Que vos ordenou Moisés?» 4 Disseram: «Moisés mandou escrever um documento de repúdio e divorciar-se dela.» 5 Jesus retorquiu: «Devido à dureza do vosso coração é que ele vos deixou esse preceito. 6 Mas, desde o princípio da criação, Deus fê-los homem e mulher. 7 Por isso, o homem deixará seu pai e sua mãe para se unir à sua mulher, 8 e serão os dois um só. Portanto, já não são dois, mas um só. 9 Pois bem, o que Deus uniu não o separe o homem.» 10 De regresso a casa, de novo os discípulos o interrogaram acerca disto. 11 Jesus disse: «Quem se divorciar da sua mulher e casar com outra, comete adultério contra a primeira. 12 E se a mulher se divorciar do seu marido e casar com outro, comete adultério.»

Comentário:

Poderá haver discurso mais claro e linear sobre a sacralidade do matrimónio?

Jesus Cristo responde de forma concreta a uma pergunta concreta embora a mesma tenha uma intenção dúbia.

Não recorre nem a imagens nem a meias palavras, sinal que considera a matéria em causa muitíssimo séria – grave mesmo – e que não se compadece com meios-termos.

Ninguém pode ter dúvidas nem cabem interpretações.

Trata-se da Palavra de Deus e, esta, não permite tergiversações.

(AMA, comentário sobre Mc 10, 1-12, 11.12.2018)





Apoiar-vos-eis uns aos outros


Se souberes querer aos outros e difundir, entre todos, esse carinho – caridade de Cristo, fina, delicada –, apoiar-vos-eis uns aos outros, e o que for a cair sentir-se-á amparado – e urgido – com essa fortaleza fraterna, para ser fiel a Deus. (Forja, 148)

Chega a plenitude dos tempos e, para cumprir essa missão, não aparece um génio filosófico, como Sócrates ou Platão; não se instala na terra um conquistador poderoso, como Alexandre Magno. Nasce um Menino em Belém. É o Redentor do mundo; mas, antes de começar a falar, demonstra o seu amor com obras. Não é portador de nenhuma fórmula mágica, porque sabe que a salvação que nos traz há-de passar pelo coração do homem. As suas primeiras acções são risos e choros de criança, o sono inerme de um Deus humanado; para que fiquemos tomados de amor, para que saibamos acolhê-Lo nos nossos braços.
Uma vez mais consciencializamos que isto é que é o Cristianismo. Se o cristão não ama com obras, fracassa como cristão, o que significa fracassar também como pessoa. Não podes pensar nos outros homens como se fossem números, ou degraus para tu subires; como se fossem massa, para ser exaltada ou humilhada, adulada ou desprezada, conforme os casos. Tens de pensar nos outros – antes de mais, nos que estão ao teu lado – vendo neles o que na verdade são: filhos de Deus, com toda a dignidade que esse título maravilhoso lhes confere.

Com os filhos de Deus, temos de comportar-nos como filhos de Deus: o nosso amor há-de ser abnegado, diário, tecido de mil e um pormenores de compreensão, de sacrifício calado, de entrega silenciosa. Este é o bonus odor Christi que arrancava uma exclamação aos que conviviam com os primeiros cristãos: Vede como se amam! (Cristo que passa, 36)

Pequena agenda do cristão

Sexta-Feira


(Coisas muito simples, curtas, objectivas)




Propósito:

Contenção; alguma privação; ser humilde.


Senhor: Ajuda-me a ser contido, a privar-me de algo por pouco que seja, a ser humilde. Sou formado por este barro duro e seco que é o meu carácter, mas não Te importes, Senhor, não Te importes com este barro que não vale nada. Parte-o, esfrangalha-o nas Tuas mãos amorosas e, estou certo, daí sairá algo que se possa - que Tu possas - aproveitar. Não dês importância à minha prosápia, à minha vaidade, ao meu desejo incontido de protagonismo e evidência. Não sei nada, não posso nada, não tenho nada, não valho nada, não sou absolutamente nada.

Lembrar-me:
Filiação divina.

Ser Teu filho Senhor! De tal modo desejo que esta realidade tome posse de mim, que me entrego totalmente nas Tuas mãos amorosas de Pai misericordioso, e embora não saiba bem para que me queres, para que queres como filho a alguém como eu, entrego-me confiante que me conheces profundamente, com todos os meus defeitos e pequenas virtudes e é assim, e não de outro modo, que me queres ao pé de Ti. Não me afastes, Senhor. Eu sei que Tu não me afastarás nunca. Peço-Te que não permitas que alguma vez, nem por breves instantes, seja eu a afastar-me de Ti.

Pequeno exame:

Cumpri o propósito que me propus ontem?





Leitura espiritual


As quatro dimensões da Fidelidade

Ao encontro do outro

“A primeira dimensão chama-se busca.
MARIA foi fiel antes de mais nada quando, com amor, se pôs a procurar o sentido profundo do desígnio de Deus sobre ela e sobre o mundo
Quomodo fiet istud? Como sucederá isto? Pergunta Ela ao anjo da Anunciação. Já no Antigo Testamento o sentido desta busca se traduz numa expressão de rara beleza:

Procurar o rosto do Senhor

A fidelidade requer um fundamento profundo e forte de paciente indagação, o anelo de encontrar um motivo para viver.
Não é possível falar de fidelidade a quem carece de ideais ou a quem não sabe de valores que transcendem a própria vida.

Na formação para a fidelidade, deve insistir-se em que sempre se pode “ir mais longe”.
Se queremos ser alguma coisa, não nos devemos estancar nos estreitos limites do nosso mundo pessoal, encerrados nos nossos egoísmos e comodidades.
Impõe-se procurar continuamente um ideal mais elevado, abrir horizontes e aspirar a aventuras audazes.

Os atletas procuram melhorar as suas próprias marcas, ganhar décimos ou centésimos de segundo, chegar uns centímetros mais longe.
Esse mesmo espírito pode ser vivido no estudo, na profissão, na vida matrimonial, no ministério sacerdotal, no caminho para a santidade…
Devemos propor-nos cada dia novas conquistas e afastar as nuvens negras que poderiam desanimar-nos.

Trata-se, pois, do que poderíamos chamar uma fidelidade humilde, que, partindo do reconhecimento da sua indigência, da sua limitação, ambiciona encontrar alguma coisa, alguém, que a incite a ser melhor, a sair do nada pessoal.

“Não haverá fidelidade- diz o Papa nessa homilía – senão houver na raiz esta busca ardente, paciente e generosa, se não estiver alojada no coração do homem uma pergunta para a qual só Deus tem resposta, ou melhor, Deus é a resposta”.

Dar um lugar no coração

A segunda dimensão da fidelidade humana chama-se aceitação.
O quomodo fiet istud transforma-se nos lábios de Maria num fiat, aceito.

Dar um lugar no coração é abrira alma a esses ideais, talvez apenas esboçados, mas que já se vislumbram como possíveis. É passar pel etapa de meditar detidamente – como fazia a Santíssima Virgem – em tudo aquilo que nos pareça árduo, até lhe encontrar o sentido profundo, a razão que nos levanta e nos impele para além de nós mesmos e nos faz ambicionar conquistas novas, embora laboriosas

É como despertar e dar vida ao espírito de fidelidade.
Assim como o valor da velhice não reside em acumular anos de vida, mas em encher de vida os anos, o meso acontece coma fidelidade: trata-se de anima-la de um espírito jovem, receptivo, dando ânimos à alma mediante a meditação e a leitura de textos ilustrativos.
É contemplar o Evangelho e toda a Sagrada Escritura, em cujas páginas se encontram inúmeros exemplos de pessoas que, passando por cima dos sofrimentos e penas, souberam corresponder soa ditames da responsabilidade e foram leais aos seus compromissos de amor e de entrega.
O primeiro de todos, o próprio Jesus Cristo.

Quem acolhe Jesus Cristo como modelo e como causa de fidelidade encontrará n’Ele o fundamento de toda a sua existência.
É o momento em que o homem se abandona ao mistério, não com a resignação de alguém que capitula em face de um enigma, de um absurdo, mas com a disponibilidade de quem se abre para ser habitado por alguma coisa – por Alguém- maior que o seu próprio coração.
Esta aceitação cumpre-se em última análise por meio da fé, que é a adesão de todo o ser ao mistério que se revela.


(Cfr FIDELIDADE, de Javier Abad Gómez, 1989)

(Revisão da versão portuguesa por AMA)