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Tratado da vida de Cristo 168

Questão 55: Da manifestação da ressurreição

Art. 4 — Se Cristo devia aparecer aos discípulos sob figura diferente.

O quarto discute-se assim. — Parece que Cristo não devia aparecer aos discípulos sob uma figura diferente.

1. — Pois, não pode realmente aparecer senão o que existe. Ora Cristo só tinha uma figura. Se, portanto, apareceu com figura diferente a sua aparição não era real, mas fictícia. O que é inadmissível, porque, como diz Agostinho, se Cristo engana, não é a Verdade; ora Cristo é a Verdade. Logo, parece que Cristo não devia aparecer aos discípulos sob uma figura diferente.

2. Demais. — Ninguém pode aparecer aos outros com uma forma diferente da que tem salvo se os olhos dos que contemplam forem iludidos com fantasmagorias. Ora, essas fantasmagorias sendo produto das artes mágicas, não convinham a Cristo, segundo o Apóstolo: Que concórdia entre Cristo e Belial? Logo, parece que não devia aparecer sob uma forma diferente.

3. Demais. — Assim como pela Sagrada Escritura a nossa fé se certifica, assim os discípulos foram certificados na fé da ressurreição de Cristo por meio das aparições. Ora, como diz Agostinho, uma só inverdade que contenha a Sagrada Escritura infirma-lhe totalmente a autoridade. Se. portanto Cristo apareceu aos discípulos uma só vez, sob forma diferente da sua, ficou confirmado tudo quanto eles, depois da ressurreição, viram em Cristo. O que é inadmissível. Logo, não lhes devia ter aparecido sob forma diferente.

Mas, em contrário, o Evangelho: Depois disto se mostrou em outra forma a dois deles que iam caminhando para uma aldeia.

Como dissemos, a ressurreição de Cristo devia manifestar-se aos homens do modo pelo qual as coisas divinas lhes são reveladas. Ora, as coisas divinas são reveladas aos homens diversamente, conforme as diversas disposições que eles apresentam. Assim, os de mente bem disposta as percebem como verdadeiramente são. Os que, porém, são desprovidos dessa disposição, percebem-nas com um misto de dúvidas e erros; pois, como diz o Apóstolo, o homem animal não percebe aquelas coisas que são do Espírito de Deus. Por isso Cristo a alguns que, depois da ressurreição, estavam dispostos a crer manifestou-se-lhes com a sua forma própria. Mas a outros apresentou-se com forma diversa, que já parecia entibiarem na fé. Donde o dizer o Evangelho: Ora, nós esperávamos que ele fosse o que resgatasse Israel. E por isso diz Gregório, que Cristo se lhes manifestou corporalmente tal como eles pensavam que fosse. Senão, ser-lhes-ia  ainda estranho aos corações, de fé tíbia, fingiu que ia mais longe, isto é. como se fosse estrangeiro.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJECÇÃO. — Como diz Agostinho, nem tudo o que fingimos é mentira, senão só quando fingimos o que nada significa. Não há, pois, mentira, mas verdade figurada quando a nossa ficção significa alguma coisa. De contrário, por mentiras se reputariam todas as expressões figuradas usadas pelos sábios e varões santos, ou mesmo pelo Senhor, porque conforme o uso corrente tais expressões não encerram nenhuma verdade. Ora, como os ditos, também os factos podem ser fictícios, sem mentira, para significar alguma realidade. E tal é o caso presente, como se disse.

RESPOSTA À SEGUNDA. — Como diz Agostinho, o Senhor podia transformar a sua carne, de modo que exibisse figura realmente diferente daquela que costumavam ver; assim como, antes da Paixão, transformou-se no monte, de maneira que a face lhe resplandecia como o sol. Mas tal não se deu no caso presente e talvez não repugnasse também acreditar que os olhos dos discípulos fossem vítima da ilusão de Satã para impedi-los de reconhecer a Jesus. Daí o referir o Evangelho, que os olhos deles estavam como fechados, para o não reconhecerem.

RESPOSTA À TERCEIRA. — A razão aduzida colheria, se pelo aspecto de uma figura estranha os discípulos não tivessem sido levados a contemplar a verdadeira figura de Cristo. Pois, como diz Agostinho no mesmo lugar, que os olhos deles estivessem iludidos do modo referido, Cristo não o permitiu senão até a fracção do pão, ensinando-nos assim que o participar à unidade do seu corpo tem o efeito de afastar todos os obstáculos suscitados pelo inimigo para nos impedir de reconhecer  Cristo. Por isso, no mesmo lugar se acrescenta que, abriram-se-lhes os olhos e o reconheceram; não que andassem antes com os olhos fechados, mas se lhes interpunha um obstáculo que não lhes permitia reconhecer o que viam efeito esse habitual da caligem de algum humor. 


Nota: Revisão da versão portuguesa por ama.



Fátima: Centenário - Oração diária


Senhora de Fátima:

Neste ano do Centenário da tua vinda ao nosso País, cheios de confiança vimos pedir-te que continues a olhar com maternal cuidado por todos os portugueses.
No íntimo dos nossos corações instala-se alguma apreensão e incerteza em relação a este nosso País.

Sabes bem que nos referimos às diferenças de opinião que se transformam em desavenças, desunião e afastamento; aos casais desfeitos com todas as graves consequências; à falta de fé e de prática da fé; ao excessivo apego a coisas passageiras deixando de lado o essencial; aos respeitos humanos que se traduzem em indiferença e falta de coragem para arrepiar caminho; às doenças graves que se arrastam e causam tanto sofrimento.
Faz com que todos, sem excepção, nos comportemos como autênticos filhos teus e com a sinceridade, o espírito de compreensão e a humildade necessárias para, com respeito de uns pelos outros, sermos, de facto, unidos na Fé, santos e exemplo para o mundo.

Que nenhum de nós se perca para a salvação eterna.

Como Paulo VI, aqui mesmo em 1967, te repetimos:

Monstra te esse Matrem”, Mostra que és Mãe.

Isto te pedimos, invocando, uma vez mais, ao teu Dulcíssimo Coração, a tua protecção e amparo.


AMA, Fevereiro, 2017

Evangelho e Comentário

Tempo Comum


Evangelho: Mt 11, 25-30

25 Naquela ocasião, Jesus tomou a palavra e disse: «Bendigo-te, ó Pai, Senhor do Céu e da Terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e aos entendidos e as revelaste aos pequeninos. 26 Sim, ó Pai, porque isso foi do teu agrado. 27 Tudo me foi entregue por meu Pai; e ninguém conhece o Filho senão o Pai, como ninguém conhece o Pai senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar.» 28 «Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, que Eu hei-de aliviar-vos. 29 Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração e encontrareis descanso para o vosso espírito. 30 Pois o meu jugo é suave e o meu fardo é leve.»

Comentário:

Jesus Cristo diz a respeito de Si próprio que é «manso e humilde de coração» duas virtudes que qualquer um de nós, cristãos, deve esforçar-se por cultivar.

A mansidão é a virtude dos que «verão a Deus», segundo dirá no Sermão da Montanha.

A humildade será, talvez, a mais perfeita e difícil de obter.

A mansidão atrai, a humildade convence e não há apostolado credível sem que estas duas virtudes estejam presentes.

Ambas são a expressão mais completa do cristão autêntico e, atrevo-me a dizer, arrastam com elas muitas outras virtudes necessárias para uma vida coerente e unidade de comportamento.

(AMA, comentário sobre Mt 11, 25-30, 14.03.2017)








Não recusemos a obrigação de viver

Ficaste muito sério ao ouvir-me: aceito a morte quando Ele quiser, como Ele quiser e onde Ele quiser; e, ao mesmo tempo, penso que é "um comodismo" morrer cedo, porque temos de desejar trabalhar muitos anos para Ele e, por Ele, ao serviço dos outros. (Forja, 1039)
Libertar-vos-ei do cativeiro, onde quer que estiverdes. Livramo-nos da escravidão com a oração: sabemo-nos livres, voando num epitalâmio de alma enamorada, num cântico de amor, que nos leva a desejar não nos afastarmos de Deus... Um novo modo de andar na terra, um modo divino, sobrenatural, maravilhoso! Recordando tantos escritores quinhentistas castelhanos, talvez nos agrade saborear frases como esta: Eu vivo, porque não vivo; é Cristo que vive em mim.

Aceita-se com todo o gosto a necessidade de trabalhar neste mundo, durante muitos anos, porque Jesus tem poucos amigos cá em baixo. Não recusemos a obrigação de viver, de nos gastarmos – bem espremidos– ao serviço de Deus e da Igreja. Desta maneira, em liberdade: in libertatem gloriae filiorum Dei, qua libertate Christus nos liberavit; com a liberdade dos filhos de Deus, que Jesus Cristo nos alcançou morrendo no madeiro da Cruz.


É possível que logo desde o princípio se levantem nuvens de poeira e que, ao mesmo tempo, os inimigos da nossa santificação empreguem uma técnica de terrorismo psicológico – de abuso de poder – tão veemente e bem orquestrada, que arrastem na sua absurda direcção inclusivamente aqueles que durante muito tempo mantinham uma conduta mais lógica e mais recta. E apesar de a sua voz soar a sino rachado, não fundido em bom metal e bem diferente do assobio do pastor, rebaixam a palavra, que é um dos dons mais preciosos que o homem recebeu de Deus, presente belíssimo destinado a manifestar altos pensamentos de amor e de amizade ao Senhor e às suas criaturas, até fazer com que se entenda por que motivo disse S. Tiago que a língua é um mundo de iniquidade. Tantos danos pode, realmente produzir! Mentiras, difamações, desonras, intrigas, insultos, murmurações tortuosas... (Amigos de Deus, nn. 297–298)

Pequena agenda do cristão


DOMINGO



(Coisas muito simples, curtas, objectivas)



Propósito:
Viver a família.

Senhor, que a minha família seja um espelho da Tua Família em Nazareth, que cada um, absolutamente, contribua para a união de todos pondo de lado diferenças, azedumes, queixas que afastam e escurecem o ambiente. Que os lares de cada um sejam luminosos e alegres.

Lembrar-me:
Cultivar a Fé

São Tomé, prostrado a Teus pés, disse-te: Meu Senhor e meu Deus!
Não tenho pena nem inveja de não ter estado presente. Tu mesmo disseste: Bem-aventurados os que crêem sem terem visto.
E eu creio, Senhor.
Creio firmemente que Tu és o Cristo Redentor que me salvou para a vida eterna, o meu Deus e Senhor a quem quero amar com todas as minhas forças e, a quem ofereço a minha vida. Sou bem pouca coisa, não sei sequer para que me queres mas, se me crias-te é porque tens planos para mim. Quero cumpri-los com todo o meu coração.

Pequeno exame:

Cumpri o propósito que me propus ontem?

Fátima: Centenário - Vida de Maria - 20

Centenário das aparições da Santíssima 

Virgem em Fátima


Os esponsais de Nossa Senhora



A VOZ DO MAGISTÉRIO

«O evangelho de Lucas, ao apresentar Maria como virgem, acrescenta que estava "desposada com um varão chamado José, da casa de David"[i]. Estas informações parecem, à primeira vista, contraditórias».

«Há que notar que o termo grego utilizado nesta passagem não indica a situação de uma mulher que contraiu matrimónio e, portanto, vive no estado matrimonial, mas a de noivado. Mas, de forma diferente do que acontece nas culturas modernas, no costume judaico antigo a instituição do noivado previa um contrato e tinha normalmente valor definitivo; efectivamente, introduzia os noivos no estado matrimonial embora o matrimónio se cumprisse plenamente apenas quando o jovem conduzia a noiva para sua casa».

«No momento da Anunciação, Maria encontra-se, pois, na situação de esposa prometida. Podemos perguntar-nos porque razão tinha aceite o noivado, dado que tinha feito o propósito de permanecer virgem para sempre. Lucas tem consciência desta dificuldade, mas limita-se a registar a situação sem dar explicações. O facto do evangelista, mesmo pondo em relevo o propósito de virgindade de Maria, a apresente igualmente como esposa de José, constitui um sinal de que ambas as notícias são historicamente dignas de crédito».

«Pode supor-se que entre José e Maria, no momento do compromisso, existisse um entendimento sobre o projecto de vida virginal. Além disso, o Espírito Santo, que tinha inspirado a Maria a opção da virgindade com vista ao mistério da Encarnação e que queria que esta acontecesse num contexto familiar idóneo para o crescimento do Menino, pôde muito bem suscitar também em José o ideal da virgindade».

«O anjo do Senhor, aparecendo-lhe em sonhos, diz-lhe: "José, filho de David, não temas receber em tua casa Maria tua esposa porque o que n’Ela foi concebido é obra do Espírito Santo"[ii]. Desta forma recebe a confirmação de estar chamado a viver de modo totalmente especial o caminho do matrimónio. Através da comunhão virginal com a mulher predestinada para dar Jesus à luz, Deus chama-o a cooperar na realização do Seu desígnio de salvação».

«O tipo de matrimónio para o qual o Espírito Santo orienta Maria e José é compreensível apenas no contexto do plano salvífico e no âmbito de uma elevada espiritualidade. A realização concreta do mistério da Encarnação exigia um nascimento virginal que pusesse em evidência a filiação divina e, ao mesmo tempo, uma família que pudesse assegurar o desenvolvimento normal da personalidade do Menino».

«José e Maria, precisamente tendo em vista o seu contributo para o mistério da Encarnação do Verbo, receberam a graça de viver juntos o carisma da virgindade e o dom do matrimónio. A comunhão de amor virginal de Maria e José, embora constituindo um caso especialíssimo, vinculado à realização concreta do mistério da Encarnação, foi, no entanto, um verdadeiro matrimónio».

«A dificuldade de se aproximar do mistério sublime da sua comunhão esponsal induziu alguns, já desde o século II, a atribuir a José uma idade avançada e a considerá-lo o custódio de Maria, mais do que seu esposo. É caso para supor, pelo contrário, que não fosse um homem idoso, mas que a sua perfeição interior, fruto da graça, o levasse a viver com afecto virginal a relação esponsal com Maria».

«A cooperação de José no mistério da Encarnação abarca também o exercício do papel paterno relativamente a Jesus. Esta função é-lhe reconhecida pelo anjo que, aparecendo-lhe em sonhos, o convida a pôr o nome ao Menino: "Dará à luz um filho, ao qual porás o nome de Jesus, porque Ele salvará o Seu povo dos seus pecados"» [iii]

São João Paulo II, Catequese mariana na audiência de 21-VIII-1996.




[i] Lc 1, 27
[ii] Mt 1, 20
[iii] Mt 1, 21