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24/02/2016

NUNC COEPI – Índice de publicações em Fev 24


nunc coepi – Índice de publicações em Fev 24

São Josemaria – Textos

Confissões (Santo Agostinho), Santo Agostinho, Vontade de Deus

AMA - Comentários ao Evangelho Mt 20 17-28, Leit Espiritual - Doutrina Social da Igreja

JMA - Quaresma

Doutrina – Demónio

AT - Salmos – 114

Alexandre Zabot, Notícias e outros temas – 22


Agenda Quarta-Feira

Reflexões quaresmais

Quaresma de 2016 – 13ª Reflexão

Veio ao meu coração a Tua chamada de atenção: «Marta, Marta, andas inquieta e perturbada com muitas coisas; mas uma só é necessária

Com um sorriso meigo, dizes-me:
Pois é, meu filho, já reparaste quantas coisas queres fazer? Em quantas actividades te desdobras? Até poderás ter tempo para todas elas, e até, se aproveitares os dons que te dei, poderás responder a todas elas com benefícios.
Mas quanto tempo dedicas a escutar-Me? Quanto tempo dedicas a entrar no silêncio do Teu coração, sentares-te a Meus pés e escutares o que Eu tenho para te dizer sobre a Tua vida e sobre todas essas actividades?
É que sem isso, meu filho, as muitas actividades que fazes serão muito mais tuas do que Minhas, e assim sendo não darão os frutos que poderiam dar.
Não te esqueças: «Maria escolheu a melhor parte, que não lhe será tirada.»

Olho-Te com os olhos cansados, abro-Te as minhas mãos e entrego-me.

E peço-Te humildemente:
Ajuda-me, Senhor, a escutar-Te em cada momento e em cada coisa que me é dada fazer.
Ensina-me, Senhor, a entrar no silêncio e a ficar ali, calado, de coração e mente abertas à Tua voz, ao teu amor, a tudo o que tens para me dizer.
Leva-me, Senhor, a buscar de Ti o amor que devo colocar em tudo o que faço, porque só no Teu amor os frutos acontecem, para Tua glória e para nosso bem.

Calo-me, Senhor, com um imenso obrigado!



joaquim mexia alves, Monte Real, 23 de Fevereiro de 2016

Ciência /Meio Ambiente

CIÊNCIA / MEIO AMBIENTE

Ciência e Fé: juntas a serviço da verdade

Há muitas frentes de batalha onde este conflito acontece de modo acirrado hoje e talvez uma das principais seja a questão do aborto

No determinismo, grosso modo, defende-se que o comportamento do Universo pode ser determinado com precisão a partir de um conjunto básico de leis físicas causais. O determinismo elimina a intervenção divina na criação postulando que a Física pode explicar e prever todos os acontecimentos passados, presentes e futuros. O curioso é que a mecânica newtoniana sempre foi um dos grandes pilares do determinismo apesar do próprio Newton ser contra esta filosofia! Segundo seus biógrafos as motivações de Newton eram claramente religiosas, mas isso não significa que ele não tivesse uma argumentação baseada em leis físicas. Muito pelo contrário, de certo modo ele antecipou em alguns séculos os argumentos que hoje os físicos têm para mostrar que o determinismo está errado pois não podemos prever cada acontecimento do universo com base nas leis físicas. Sabemos hoje, através da teoria do caos e da mecânica quântica, que alguns acontecimentos são imprevisíveis, só podendo ser descritos de maneira estatística.

A posição contrária de Newton ao determinismo é muito emblemática às relações entre ciência e fé, especialmente no que tange ao catolicismo pois mostra que a ciência pode se aliar à religião para mostrar que certas visões filosóficas estão erradas. De facto, é exactamente isso que a Igreja defende, como pode ser visto, por exemplo, no fabuloso discurso do beato João Paulo II aos universitários alemães de Colónia, em 15/11/1980:

“Entre uma razão, que em conformidade com a própria natureza vinda de Deus é ordenada para a verdade e habilitada para o conhecimento do que é verdadeiro, e uma fé, que se funda na mesma fonte divina de toda a verdade, não pode surgir nenhum conflito fundamental”.

Ou seja, não é possível haver contradição entre ciência, fé e filosofia quando todas estão orientadas para verdade porque a verdade provém de Deus e neste caso, a contradição seria um paradoxo. Longe de ser uma afirmação de nível puramente teórico, é um pensamento que traz consequências concretas e diretas aos dias de hoje, quando há tantos pontos de conflito do mundo moderno, “científico”, com a doutrina católica.

Há muitas frentes de batalha onde este conflito acontece de modo acirrado hoje e talvez uma das principais seja a questão do aborto. Quem acompanha as pessoas e as entidades que lutam contra a legalização do aborto percebe quase imediatamente que seus argumentos vão todos na linha do que dizem os estudos médicos e psicológicos. Não é difícil convencer-se do grande mal que um aborto representa quando se estuda as evidências científicas que são apresentadas. Há uma infinidade de relatos médicos constatando os males à saúde da mulher e danos psicológicos irreversíveis causados por um aborto. Entretanto, é ainda mais fácil diagnosticar todos malefícios de um aborto do ponto de vista teológico. Pergunta-se portanto porque tantas pessoas defendem tal barbárie. A resposta me parece ser simples, analisando os argumentos a favor do aborto fica patente que todos eles são influenciados por uma mentalidade utilitária da vida, egoísta, típica do mundo secularizado onde vivemos. Para defender esta mentalidade, distorcem as informações científicas de um modo escandaloso. Ao meu ver está muito claro que nesta questão tanto a ciência quanto a filosofia mostram de forma definitiva que a defesa da vida é a única opção boa, no sentido de que abarcam toda a verdade sobre a natureza humana. E, sendo assim, a Igreja mais uma vez está do lado da ciência e da razão.

Já vi muitas pessoas questionarem os métodos dos movimentos pró-vida por basearem sua defesa em argumentos médicos e científicos. Afirmam que uma defesa com argumentos religiosos seria mais “honesta”, já que geralmente estes movimentos têm origem em grupos de fiéis. Entretanto, discordo deste ponto de vista porque penso que para dialogar com o mundo atual é preciso usar a linguagem do mundo atual, uma linguagem científica na maioria dos casos. Como a ciência e a fé tem uma harmonia natural, é indiferente defender a causa por argumentos religiosos ou científicos, por ambos pontos de vista se chega a verdade. E neste caso particular, onde se procura um diálogo capaz de mostrar a verdade para os outros, o melhor caminho é usar uma linguagem universalmente conhecida.

Outra área com vários aspectos de tensão entre ciência e fé é a neurociência, especialmente no que diz respeito aos estudos sobre o comportamento humano. A neurociência estuda o cérebro e suas interacções com o resto do corpo bem como as relações entre nosso comportamento e personalidade com as atividades cerebrais. O que mais gera conflito entre a neurociência e a fé é a visão positivista que alguns neurocientistas têm de sua ciência. Ou seja, o problema em si não são as descobertas mas as interpretações que são dadas a elas. Em meados de 2011, por exemplo, pesquisadores americanos divulgaram um estudo onde mostravam que criminosos têm amígdalas (região do cérebro responsável pelo sentimento de culpa, medo, etc) cerca de 20% menores que pessoas comuns. Enquanto fato científico não há problema, mas este tipo de pesquisa pode gerar muitos problemas éticos se não for analisada criteriosamente. Pode-se, só para citar um exemplo simplista, fazer eugenia estudando o cérebro de fetos, abordando-se os que têm potencial para dar “problemas”.

Entretanto, o tipo de pesquisa mais comum hoje em dia nesta área são as investigações que tentam mostrar, por meio da neurociência, que nossos comportamentos são totalmente determinados pelas características cerebrais e pelo ambiente. De forma mais concreta, há muitos pesquisadores empenhados em demonstrar que não somos livres para fazermos nossas escolhas, mas que estas são determinadas pelo nosso cérebro. É o caso, por exemplo, de estudos que tentam provar que não há verdadeiro altruísmo, mas que tudo é uma questão de troca e benefícios, meticulosamente avaliada por nossos cérebros com base em uma “experiência evolutiva” que nos é transmitida geneticamente. Evidente que não se nega a importância do cérebro no nosso comportamento, o que não é razoável do ponto de vista da filosofia e da teologia, é dizer que não temos liberdade para executar nossas próprias acções. Nisso a fé pode auxiliar muito a ciência, dando as interpretações corretas para as descobertas que forem feitas.

ALEXANDRE ZABOT


(Revisão da versão portuguesa por ama)

Evangelho, comentário, L. espiritual


Quaresma
Semana II

Evangelho: Mt 20, 17-28


17 Ao subir Jesus para Jerusalém, tomou à parte os doze discípulos, e disse-lhes pelo caminho: 18 «Eis que subimos a Jerusalém, e o Filho do Homem será entregue aos príncipes dos sacerdotes e aos escribas, e O condenarão à morte, 19 e O entregarão aos gentios para ser escarnecido, açoitado e crucificado, e ao terceiro dia ressuscitará». 20 Então, aproximou-se d'Ele a mãe dos filhos de Zebedeu com seus filhos, prostrando-se, para Lhe fazer um pedido. 21 Ele disse-lhe: «Que queres?». Ela respondeu: «Ordena que estes meus dois filhos se sentem no Teu reino, um à Tua direita e outro à Tua esquerda». 22 Jesus disse: «Não sabeis o que pedis. Podeis beber o cálice que Eu hei-de beber?». Eles responderam-Lhe: «Podemos». 23 Disse-lhes: «Efectivamente haveis de beber o Meu cálice, mas, quanto a sentar-se à Minha direita ou à Minha esquerda, não pertence a Mim concedê-lo; será para aqueles para quem está reservado por Meu Pai». 24 Os outros dez, ouvindo isto, indignaram-se contra os dois irmãos. 25 Mas Jesus chamou-os e disse-lhes: «Vós sabeis que os príncipes das nações as subjugam e que os grandes as governam com autoridade. 26 Não seja assim entre vós, mas todo aquele que quiser ser entre vós o maior, seja vosso servo, 27 e quem quiser ser entre vós o primeiro, seja vosso escravo. 28 Assim como o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a Sua vida para resgate de todos».

Comentário:

Talvez que para alguns a palavra “servir” tenha algo de pejorativo, afinal, tem a ver com servo, criado, servidor… enfim depender de alguém que nos diz o que fazer, como e quando.

Então? E a nossa liberdade?

Bastará, talvez, pensar que de facto também nós temos inúmeros servidores desde o condutor do transporte que utilizamos, ao professor que nos transmite conhecimentos, ao médico que nos vigia a saúde.

Servir e servir bem é o maior e mais belo acto de liberdade pessoal que podemos praticar!

(ama, comentário sobre Mt 20, 17-28, 2015.03.4


Leitura espiritual



COMPÊNDIO
DA DOUTRINA SOCIAL
DA IGREJA


PRIMEIRA PARTE


CAPÍTULO I

O DESÍGNIO DE AMOR DE DEUS
A TODA A HUMANIDADE


I. O AGIR LIBERTADOR DE DEUS  NA HISTÓRIA DE ISRAEL


a) A proximidade gratuita de Deus


20 Toda autêntica experiência religiosa, em todas as tradições culturais, conduz a uma intuição do Mistério que, não raro, chega a divisar alguns traços do rosto de Deus.
Ele aparece, por um lado, como origem daquilo que é, como presença que garante aos homens, socialmente organizados, as condições básicas de vida, pondo à disposição os bens necessários; por outro lado, como medida do que deve ser, como presença que interpela o agir humano ― tanto no plano pessoal como no social ― sobre o uso dos mesmos bens nas relações com os outros homens.
Em toda experiência religiosa, portanto, revelam-se importantes quer a dimensão do dom e da gratuitidade, que se percebe como subjacente à experiência que a pessoa humana faz do seu existir junto com os outros no mundo, quer as repercussões desta dimensão sobre a consciência do homem, que adverte ser interpelado a gerir de forma responsável e convival o dom recebido.
Prova disso é o reconhecimento universal da regra de ouro, em que se exprime, no plano das relações humanas, a lei que inscrita por Deus no homem:

«Tudo o que quereis que os homens vos façam, fazei-o vós a eles» [i].

21 Sobre o pano de fundo, compartilhado em vária medida, da experiência religiosa universal, emerge a Revelação que Deus faz progressivamente de Si próprio a Israel.
Ela responde à busca humana do divino de modo inopinado e surpreendente, graças aos gestos históricos, pontuais e incisivos, nos quais se manifesta o amor de Deus pelo homem.
Segundo o livro do Êxodo, o Senhor dirige a Moisés a seguinte palavra:
«Eu vi, eu vi a aflição do meu povo que está no Egipto, e ouvi os seus clamores por causa dos seus opressores.
Sim, eu conheço os seus sofrimentos.
E desci para livrá-lo da mão dos egípcios e para fazê-lo sair do Egipto para uma terra fértil e espaçosa, uma terra onde corre leite e mel» [ii].

A proximidade gratuita de Deus ― à qual alude o Seu próprio Nome, que Ele revela a Moisés, «Eu sou aquele que sou» [iii] ― manifesta-se na libertação da escravidão e na promessa, tornando-se acção histórica, na qual tem origem o processo de identificação colectiva do povo do Senhor, através da aquisição da liberdade e da terra que Deus lhe oferece em dom.

22 À gratuitidade do agir divino, historicamente eficaz, acompanha constantemente o compromisso da Aliança, proposto por Deus e assumido por Israel.
No Monte Sinai a iniciativa de Deus concretiza-se na aliança com o Seu povo, ao qual é dado o Decálogo dos mandamentos revelados pelo Senhor [iv].

As «dez palavras» [v] «exprimem as implicações da pertença a Deus, instituída pela Aliança.
A existência moral é resposta à iniciativa amorosa do Senhor.
É reconhecimento, homenagem a Deus e culto de acção de graças.
É cooperação com o plano que Deus executa na história» [vi].

Os dez mandamentos, que constituem um extraordinário caminho de vida indicam as condições mais seguras para uma existência livre da escravidão do pecado, contêm uma expressão privilegiada da lei natural.
Eles «ensinam-nos a verdadeira humanidade do homem.
Iluminam os deveres essenciais e, portanto, indirectamente, os deveres fundamentais, inerentes à natureza da pessoa humana» [vii].

Conotam a moral humana universal.

Lembrados também por Jesus ao jovem rico do Evangelho [viii], os dez mandamentos «constituem as regras primordiais de toda a vida social» [ix].

23 Do Decálogo deriva um compromisso que diz respeito não só ao que concerne à fidelidade ao Deus único e verdadeiro, como também às relações sociais no seio do povo da Aliança.
Estas últimas são reguladas, em particular, pelo que se tem definido como o direito do pobre:

«Se houver no meio de ti um pobre entre os teus irmãos não endurecerás o teu coração e não fecharás a mão diante do teu irmão pobre; mas abrir-lhe-ás a mão e emprestar-lhe-ás segundo as necessidades da sua indigência» [x].

Tudo isto vale também em relação ao forasteiro:

«Se um estrangeiro vier habitar convosco na vossa terra, não o oprimireis, mas esteja ele entre vós como um compatriota e tu amá-lo-ás como a ti mesmo, por que vós fostes já estrangeiros no Egipto.
Eu sou o Senhor vosso Deus» [xi].

O dom da libertação e da terra prometida, a Aliança do Sinai e o Decálogo estão, portanto, intimamente ligados a uma praxe que deve regular, na justiça e na solidariedade, o desenvolvimento da sociedade israelita.

24 Entre as multíplices disposições inspiradas por Deus, que tendem a concretizar o estilo de gratuitidade e de dom, a lei do ano sabático (celebrado a cada sete anos) e do ano jubilar (cada cinquenta anos) [xii] distingue-se como uma importante orientação — ainda que nunca plenamente realizada — para a vida social e económica do povo de Israel.
È uma lei que prescreve, além do repouso dos campos, a remissão das dívidas e uma libertação geral das pessoas e dos bens: cada um pode retornar à sua família e retomar posse do seu património.

Esta legislação entende deixar assente que o evento salvífico do êxodo e a fidelidade à Aliança representam não somente o princípio fundante da vida social, política e económica de Israel, mas também o princípio regulador das questões atinentes à pobreza económica e às injustiças sociais.
Trata-se de um princípio invocado para transformar continuamente e a partir de dentro a vida do povo da Aliança, de maneira a torná-la conforme ao desígnio de Deus.
Para eliminar as discriminações e desigualdades provocadas pela evolução sócio-económica, a cada sete anos a memória do êxodo e da Aliança é traduzida em termos sociais e jurídicos, de sorte que a questão da propriedade, das dívidas, das prestações de serviço e dos bens seja reconduzida ao seu significado mais profundo.

25 Os preceitos do ano sabático e do ano jubilar constituem uma doutrina social «in nuce» [xiii].

Eles mostram como os princípios da justiça e da solidariedade social são inspirados pela gratuidade do evento de salvação realizado por Deus e não têm somente o valor de correctivo de uma praxe dominada por interesses e objectivos egoístas, mas, pelo contrário, devem tornar-se, enquanto «prophetia futuri», a referência normativa à qual cada geração em Israel se deve conformar se quiser ser fiel ao seu Deus.

Tais princípios tornam-se o fulcro da pregação profética, que visa a proporcionar a sua interiorização.
O Espírito de Deus, derramado no coração do homem ― anunciam-no os Profetas ― fará aí medrar aqueles mesmos sentimentos de justiça e solidariedade que moram no coração do Senhor [xiv].

Então a vontade de Deus, expressa na Decálogo doado no Sinai, poderá enraizar-se criativamente no próprio íntimo do homem.
Desse processo de interiorização derivam maior profundidade e realismo para o agir social, tornando possível a progressiva universalização da atitude de justiça e solidariedade, que o povo da Aliança é chamado a assumir diante de todos os homens, de todo o povo e nação.


b) Princípio da criação e agir gratuito de Deus


26 A reflexão profética e sapiencial atinge a manifestação primeira e a própria fonte do projecto de Deus sobre toda a humanidade, quando chega a formular o princípio da criação de todas as coisas por parte de Deus.
No Credo de Israel, afirmar que Deus é criador não significa exprimir somente uma convicção teorética, mas perceber o horizonte originário do agir gratuito e misericordioso do Senhor em favor do homem. Ele, na verdade, livre e gratuitamente dá o ser e a vida a tudo aquilo que existe.
O homem e a mulher, criados à Sua imagem e semelhança [xv], são por isso mesmo chamados a ser o sinal visível e o instrumento eficaz da gratuidade divina no jardim em que Deus os pós quais cultivadores e guardiões dos bens da criação.

27 No agir gratuito de Deus Criador encontra expressão o próprio sentido da criação, ainda que obscurecido e distorcido pela experiência do pecado.
A narração do pecado das origens [xvi], com efeito, descreve a tentação permanente e ao mesmo tempo a situação de desordem em que a humanidade veio a encontrar-se com a queda dos primeiros pais. Desobedecer a Deus significa furtar-se ao seu olhar de amor e querer administrar por conta própria o existir e o agir no mundo.
A ruptura da relação de comunhão com Deus provoca a ruptura da unidade interior da pessoa humana, da relação de comunhão entre o homem e a mulher e da relação harmoniosa entre os homens e as demais criaturas [xvii].

É nesta ruptura originária que se há-de procurar a raiz mais profunda de todos os males que inquinam as relações sociais entre as pessoas humanas, de todas as situações que, na vida económica e política, atentam contra a dignidade da pessoa, contra a justiça e a solidariedade.

(cont)





[i] Cf. Catecismo da Igreja Católica, 1789; 1970; 2510.
[ii] Ex 3, 7-8
[iii] cf. Ex 3, 14
[iv] cf. Ex 19-24
[v] Ex 34, 28; cf. Dt 4, 13; 10, 4
[vi] Catecismo da Igreja Católica, 2062.
[vii] Catecismo da Igreja Católica, 2070.
[viii] cf. Mt 19, 18
[ix] João Paulo II, Carta encicl. Veritatis splendor, 97: AAS 85 (1993) 1209.
[x] Dt 15, 7-8
[xi] Lv 19, 33-34
[xii] A lei é enunciada em Ex 23, Dt 15, Lv 25.
[xiii] Cf. João Paulo II, Carta apost. Tertio Millennio adveniente, 13: AAS 87 (1995) 14.
[xiv] cf. Jr 31, 33 e Ez 36, 26-27
[xv] cf. Gn 1, 26-27
[xvi] cf. Gn 3, 1-24
[xvii] Cf. Concílio Vaticano II, Const. past. Gaudium et spes, 13: AAS 58 (1966) 1035.

Antigo testamento / Salmos

Salmo 114








1 Quando Israel saiu do Egito e a casa de Jacó saiu do meio de um povo de língua estrangeira,
2 Judá tornou-se o santuário de Deus; Israel, o seu domínio.
3 O mar olhou e fugiu, o Jordão retrocedeu;
4 os montes saltaram como carneiros; as colinas, como cordeiros.
5 Por que fugir, ó mar? E você, Jordão, por que retroceder?
6 Por que vocês saltaram como carneiros, ó montes? E vocês, colinas, porque saltaram como cordeiros?
7 Estremeça na presença do Soberano, ó terra, na presença do Deus de Jacó!

8 Ele fez da rocha um açude, do rochedo uma fonte.

Mãe de Deus e nossa Mãe

Que humildade, a de minha Mãe Santa Maria! – Não a vereis entre as palmas de Jerusalém, nem – afora as primícias de Caná – na altura dos grandes milagres. – Mas não foge do desprezo do Gólgota; lá está, "iuxta crucem Iesu" – junto da cruz de Jesus, sua Mãe. (Caminho, 507)

Sempre foi esta a doutrina certa da fé. Contra os que a negaram, o Concílio de Éfeso proclamou que se alguém não confessa que o Emanuel é verdadeiramente Deus e que, por isso, a Santíssima Virgem é Mãe de Deus, visto que gerou segundo a carne o Verbo de Deus encarnado, seja anátema. (...).
A Trindade Santíssima, ao escolher Maria para Mãe de Cristo, homem como nós, pôs cada um de nós sob o seu manto maternal. É Mãe de Deus e nossa Mãe.
A Maternidade divina de Maria é a raiz de todas as perfeições e privilégios que a adornam. Por esse título, foi concebida imaculada e está cheia de graça, é sempre virgem, subiu ao céu em corpo e alma, foi coroada Rainha de toda a criação, acima dos anjos e dos santos. Mais que Ela, só Deus. A Santíssima Virgem, por ser Mãe de Deus, possui uma dignidade, de certo modo infinita, do bem infinito que é Deus. Não há perigo de exageros. Nunca aprofundaremos bastante este mistério inefável; nunca poderemos agradecer suficientemente à Nossa Mãe a Familiaridade que nos deu com a Santíssima Trindade.
Éramos pecadores e inimigos de Deus. A Redenção não só nos livra do pecado e reconcilia com o Senhor; mas converte-nos em filhos, entrega-nos uma Mãe, a mesma que gerou o verbo, segundo a Humanidade. Pode haver maior prodigalidade, maior excesso de amor? (Amigos de Deus, nn. 275–276)


Doutrina - 65

O demónio realmente existe?

Como um Deus que é Amor poderia ter criado um ser tão malvado e permitir que ele agisse?

Para muitos, o diabo é um símbolo inventado para explicar o mal no mundo e para eximir-se do mal cometido.
Por outro lado, como um Deus Amor poderia ter criado um ser tão malvado e permitir que ele agisse?
Reconhecer que o diabo existe suporia reconhecer que existe um deus do mal contra quem o Deus dos cristãos não tem poder algum.

(cont)

(Revisão da versão portuguesa por ama)